Scars Of Heart
24 cap 24: A Beep From Happiness
Notas iniciais
~ A Beep From Happyness ~
Um beep soou na mesa da secretária chamando-a à sala do chefe. Ela pegou seu bloco de notas e uma caneta.
– Precisa de algo senhor Sesshoumaru — pontas amargas saiam da voz da youkai
— Sim. – a mulher se preparou para anotar as explicações do chefe — Que você passe no setor pessoal e finalize suas coisas
A mulher já havia escrito “setor pessoal” quando ergueu o olhar surpreso ao chefe
— C-como disse?
O chefe já estava digitando algo no computador sem encarar a, agora, ex-secretária
— Seus serviços já não são mais necessários. Pode passar no setor pesso...
— NÃO! Não aceito! Isso não é justo! Eu te ajudei, eu estive a todo momento disponível para você, eu...
— Você não fez mais do que sua obrigação para com esta empresa – disse cortante – entretanto, no momento que decidiu invadir, por livre e espontânea vontade o escritório de certa pessoa, você assinou sua saída.
— “Então, ele sabia”. Você não pode fazer isso. Você me deve isso. Sempre fui sua confidente, te ajudei em tudo que pude. Você ia se separar dela, você nunca quis estar com uma reles humana – falou como se tivesse nojo da palavra – poderia te dar o filho que você tanto queria! – ela ergueu a mão debilmente para alcança-lo do outro lado da mesa, mas o impassivo youkai não mostrou qualquer emoção diante da declaração da mulher — Eu faria qualquer coisa por você
As lágrimas que manchavam seu rosto, mas não poderiam significar menos para ele, apenas repulsa.
— O que você nunca entendeu, é que nunca quis nada do que você estava disposta a dar. É verdade que o que tivemos no passado fez com que nos entendêssemos muito bem nos negócios, e isso lhe foi altamente recompensado, mas se imaginou outra recompensa, não tive nada a ver com isso. Responda Kagura, foi por isso que invadiu o escritório de Miouga? Achou realmente que deixaria você como herdeira de alguma coisa?
— Como pode deixar tudo pra ela? Aquela maldi..
Um forte baque se fez presente quando Sesshoumaru, num ato de fúria, bateu na mesa erguendo-se para calar a mulher.
— Prossiga e perderá a língua
— Você pagará caro – ela disse gravemente
Ignorando as ameaças de Kagura, ele voltou as divagações que tanto o atormentavam. Tanto tempo perdido evitando a esposa, abandonando-a num infeliz casamento por vingança a seu pai... a relação com Kagura havia acabado há muito tempo, mas o que importava revelar isso esposa? Ele a deixou se iludir com cada pequena coisa, pensando o pior. Mas ele recuperaria o tempo perdido
Hoje ele daria sua vida por Kagome, cortaria o próprio braço se isso fizesse o tempo voltar. Faria tudo diferente. Sua fera interior a queria, sempre quis. Todos; seu pai, sua besta... todos sabiam que Kagome pertencia a ele, menos ele podia aceitar. Era certo que ele desejava Kagome, todas as vezes que a possuía, ele tentava se convencer que era sua fera quem havia tomado o controle, uma grande mentira. Pensando em algo especial, ele fez uma viagem de duas horas até a casa do pai para acertar tudo.
~~X~~
O andar já não era gracioso, lembrava um pato, o peso excedente do volumoso abdômen dificultava sua respiração, as roupas antigas, já não mais cabiam, os pés estavam inchados e edemaciados, saltos? Nem que conseguisse usar poderia... O "ditador" a proibira de ficar mais elevada que o nível do solo, fator esse que resultou na mudança de habitação.
Eles agora dormiam num dos quartos do andar de baixo, pois segundo ele "escadas são perigosas". Relembrando fatos passados, ele talvez tem razão... mas ela não incentivaria seu ego contando isso a ele.
Sua atenção para com ela era tocante e amorosa, mas tantos cuidados a deixavam com vontade de atirar seu amado marido pela janela e passar com o carro por cima.
Sua imagem refletida do espelho da loja a fez suspirar de desânimo. Acariciava o proeminente volume, seu filho crescia forte e saudável, apesar de todas as turbulências da gestação, ele estava bem. Ela, no entanto... Insônia, dores nas costas e no corpo, pernas edemaciadas, olheiras intensas, até tamanho de seus pés estavam maiores!
Ela usava uma calça de legging três números acima do habitual, uma rasteirinha com solado de borracha vinda da Alemanha, pois segundo o ditador, evitaria que escorregasse. Uma túnica vermelha com detalhes vinho bem solta no abdômen. Ela estava enorme em TODOS os sentidos.
Ela deu mais uma sugada no canudo de milk-shake. Era a única coisa que carregava, pois Sesshoumaru não a queria fazendo “esforços desnecessários”.
Jaken andava alguns passos atrás equilibrando sacolas de diferentes lojas, andava com certa dificuldade, o que, na opinião dela, não deveria ser empecilho, já que ela carregava, literalmente, um outro ser e não estava tão atrasada .
— Você vem ou não?
Jaken tomou fôlego antes de responder ao se aproximar dela
— Muito fácil falar, você só escolhe e sai andando pondo coisas e mais coisas em cima de mim!
Ela colocou ambas as mãos em cima do abdômen e bateu os dedos, erguendo a sobrancelha.
— Você já foi mais ágil Jaken, duvido que meu marido o tivesse contratado sabendo que estava tão velho e cansado... Não se preocupe falarei com ele, que você precisa de férias, pois não consegue acompanhar uma grávida em último estado de gestação. Ele, com certeza será compreensível.
Finalizou dando mais um gole do milkshake
Uma gota escorreu da testa do pequeno youkai
— De forma alguma! Estou no auge da forma, isso para mim não é nada. – saiu de peito erguido com as enormes sacolas
— Que ótimo! Pois ainda iremos a mais uma loja!
O youkai segurou a vontade de se jogar no chão.
— Vamos, não chore. Iremos só a essa loja e então poderemos almoçar
Finalizou jogando o copo vazio numa lixeira próxima
— Você já não comeu?! – ele disse recordando do sanduíche, batata e o milkshake recém terminado
— Sim. Era o lanche, depois almoçaremos direito.
O servo ficou observando a gestante se afastar para dentro da loja. E mentalmente se perguntou quantos bebês haviam ali...
— Não se preocupe, dessa vez não precisará carregar nada. Disse com os olhos cintilando para um berço na vitrine.
~~
Quando chegou a casa estava estranhamente silenciosa, no quarto provisório deles o cheiro dela vinha enfraquecido... Ela não estava lá.
Seus olhos foram em direção às escadas, ele precisou segurar o rosnado, ela teimava em desafiá-lo.
Suas orelhas captaram um leve som de passos e direcionou um olhar mordaz ao dono
— Se–senhor S-Sesshoumaru?!
— Explique se
O pobre youkai de verde ficara branco, congelado na mesma posição.
— Perdoe este humilde servo, senhor. Eu não tenho culpa, ela...
— Está pondo a culpa na sua senhora? – Disse espreitando mais o olhar para o servo.
— A... – o servo tragou duro, uma gota de suor escorria por suas têmporas, seria seu fim
— Para que o martelo? – Sesshoumaru disse quando cansou de torturar o pequeno verme
— A senhora Kagome pediu – Sesshoumaru arranca o martelo das mãos do servo – ela está...
Mas sem esperar a conclusão, Sesshoumaru tomou-lhe o objeto e passou com passos decisivos a escada, para alívio de Jaken.
Seguindo seu cheiro, ele adentrou o quarto que ela estava sentada no chão em volta de algumas tábuas de madeira
— Você demorou Jaken, temos que ser rápidos, aquele cabeça oca do Sesshoumaru não pode saber que estive aqui. – disse concentrada sem si virar – Olhe achei onde se encaixava a peça.
Disse animada erguendo duas peças de madeira unidas
Com o avançar da gravidez, os poderes de Kagome não eram mais de ajuda, pareciam bloqueados. Por precaução, ele mantinha Jaken sempre apostos junto com dois seguranças, um como motorista e outro oculto para qualquer emergência, apenas Jaken sabia disso. A situação atual era cômoda a ele, assim podia admirar sua pequena miko.
Havia dois pratos vazios ao lado da mulher, em um deles, restos de pão, em outro algo com molho de tomate, talvez lasanha ou macarronada? Ultimamente ela demonstrava apreço por comidas ocidentais gordurosas
A mulher pegou umas lascas de coco, que ele não havia notado, levando as a boca. Seu apetite sem dúvida estava grande. Pobre daquele que tentasse comer, nem que fosse um pedaço, de seu lanche. Seu filho demandava bastante energia e as curvas da mulher favoreciam cada vez mais. Seu quadril bem demarcado pelos shorts eram uma tentação. Ele observou a marca no pescoço da mulher, sua mulher, passou a língua pelos lábios lembrando o gosto tentador e ansiava por saboreá-la.
— Então é assim que você me chama pelas costas?
Ela se pôs ereta de forma rápida, pega de surpresa por ele. Ela tossiu um pouco para disfarçar que fora pegue no flagra. E olhando docemente tentou desviar o foco
— Como foi o trabalho?
— Bem... Mas acho que nem eu estive tão ocupado quanto você.
Admirando melhor o ambiente, ele observou sacolas de diferentes lojas colocadas num dos cantos do quarto e ao redor de Kagome pedaços de madeira e pregos e manuais de instruções.
— O que a senhora pensa que está fazendo?
— Ah... Eu... Bem...
Ele se divertia com a falta de palavras dela
— Está bem. Fui com Jaken até uma loja e comprei algumas coisinhas para o bebê. Estava aqui arrumando
— E isso é para dar um "jeito" no que não gostou? – Disse erguendo o martelo
— Eles mandariam o montador na próxima quarta, mas eu queria fazer. Saber que deixei em cada pedacinho uma parte de mim
— Acredite, há partes de você em todo o lugar
Sesshoumaru retirou o paletó e removeu a gravata, veio em direção a ela abrindo os botões e arregaçando as mangas da camisa até dobrá-los nos cotovelos
— O que está fazendo?
— Digamos que vou deixar um pedacinho meu também. Você lê o manual de instruções, eu cuido disso aqui.
Disse pegando uma tábua de madeira para encaixar.
E assim eles passaram o tempo montando o berço do bebê. Jaken aparecia a cada hora com um prato diferente, Kagome estava tão absorta nas instruções que não reparou na entrada do youkai, ela erguia a mão e havia algum petisco. Palitinhos de cenoura, bolinhas de almôndegas, rolinho primavera... Sempre que ele regressava o prato estava vazio.
Ao ouvir o bocejo da esposa. Sesshoumaru se ergueu e ofereceu a mão a ela
— Hora de descansar
— Mas eu não tô cansada...
Outro bocejo calou seu argumento
— Aham, com certeza, não está.
Ela se levantou com a ajuda dele. Nas ultimas semanas certas atividades exigiam cada vez mais esforço, ela precisava de ajuda para levantar e até calçar sapatos, por causa disso ela adotara o uso de rasteirinhas que davam mais autonomia para calçar ou tirar. Se algo caia da mão ou ela recebia ajuda ou dava-se por.
Em outro momento, há umas duas semanas mais ou menos, ela estava colocando brincos para um jantar importante com Sesshoumaru, porém um deles caiu no chão, ela se abaixou – o vestido era folgado e dava certa mobilidade – mas ainda não alcançou a joia. Ela se abaixou até ficar sentada no chão. Sorrindo vitoriosamente ao alcançá-lo. Porém não conseguiu levantar, dando-se por vencida decidiu deitar completamente no chão para sua vergonha, acabou adormecendo no chão. O sono vinha muito fácil nessa etapa da gestação, era como se suas energias estivessem sempre precisando ser recarregadas.
— Tenho algo para você – disse ele retirando Kagome de seus devaneios
Ele retirou uma caixinha de veludo do paletó e entregou a ela
— O que é?
— Abra
Ela abriu e lá tinha um colar em forma de lua cravejado com safiras azuis e com um único diamante no topo do colar. Era a coisa mais linda que tinha visto
— É magnifico.
— Era da minha mãe. Fui até meu pai pedir o colar.
Kagome olhou atônica para o marido. Desde o casamento deles, Sesshoumaru cortou laços com o pai. Ela mantinha visitas ocasionais aos sogros, mas Sesshoumaru nunca perguntava do pai ou da madrasta – mãe de Inuyasha
— Está tudo bem? Algo grave aconteceu?
— Maravilhosamente grave – selou os lábios da esposa com um beijo ardente – eu te amo Kagome Taisho, te amo completa e incondicionalmente e não passará um único dia sem que faça desabrochar flores ao seu caminho como prova de meu amor.
Ele foi para as costas de Kagome, tirou o colar da caixa aveludada e o prendeu no pescoço da esposa.
— Fica perfeito em você – disse acariciando o colar no pescoço da mulher
Ele encostou a cabeça no pescoço de Kagome inalando seu perfume, lambendo a marca da união. O ato enviou arrepios pela espinha de Kagome, fazendo seu corpo vibrar de antecipação. Suas mãos viajavam pela barriga protuberante da esposa num ato de carinho e proteção.
Kagome virou para o marido beijando-o de forma casta, ganhando cada vez mais intensidade. Ele passou a mão nas costas da esposa e ergueu suavemente nos braços levando a para o quarto.
Ele a depositou gentilmente na cama, sorrindo para o amado. Não demorou muito para que os olhos se fechassem e a respiração ficasse regular.
Uma careta de dor cruzou rapidamente o rosto da mulher, seu filho se agitava cada vez mais em seu ventre. Estranhas enervações negras recobriam seu abdômen. Ele colocou a mão ali e deixou que sua energia fluísse. O veneno ainda corria por suas veias, contaminando-a pouco a pouco, drenava a energia, em resposta a isso o bebê sugava as forças de Kagome. Sesshoumaru tentava equilibrar dando seu próprio youki todas as noites para a criança, isso aliviava o sofrimento de Kagome sem que ela percebesse.
Yamasaki Toshiro, o médico de Kagome, já havia o alertado que aquilo envenenava a mulher, drenando seus poderes, enquanto seu filho sugava o remanescente. Ele ainda não entendia onde Naraku pretendia chegar com aquilo, mas a morte de Kagome era um possível desfecho, um desfecho que ainda o assombrava.
~~
O beep do telefone soou pela quinta vez tirando Kagome de seu sono. Ela ergueu a mão alcançando o aparelho no criado mudo ao lado do sofá. Ela havia se sentado para ler um livro e logo adormecera.
— Alô? Como...? Um momento...
Afastando o aparelho do rosto, um longo bocejo escapou, ela piscou algumas vezes para afastar a névoa de sono.
— Boa tarde, aqui é a Sra. Taisho, poderia repetir? — Kagome ficou atenta ao que dizia a voz ao telefone – Hoje? Mas não fui notificada de nada
— O Dr Yamasaki pediu que a senhora viesse a uma consulta extra hoje, se possível
— Hoje? Agora?
— Se possível... surgiram algumas dúvidas referentes ao último exame
— Algo errado? – agora Kagome estava completamente desperta e tensa
— O doutor prefere falar pessoalmente, para esclarecer todas as possíveis dúvidas. Ele disse que falaria com o senhor Taisho pessoalmente
— Obrigada, estarei aí em alguns momentos. JAKEN! – Jaken veio correndo ao seu chamado – me ajude a levantar, precisamos ir à clínica do Dr Yamasaki
O pequeno youkai entrou em desespero e começou a correr em volta como se houvesse um incêndio
— oh, céus, está na hora, o pequeno mestre vai nascer! Precisamos de..
— Não seja alarmado. Ligaram da clínica pedindo para comparecer lá. Sesshoumaru irá nos encontrar
Ela finalizou enquanto Jaken ajudava a levantar do sofá.
~~
Kagome foi até a recepção com um Jaken apressado em seu encalço
— Me espere, mulher! – tentava tomar fôlego o pequeno youkai
— Por que demorou tanto? – disse acariciando o proeminente ventre quando ele chegou ao seu lado
Céus, a gravidez a deixava ansiosa e esse pequeno dito youkai não conseguia acompanhá-la em simples passeios?
— Me atrasei, pois dava instruções ao motorista.
— Acho que não precisaremos dele, devemos voltar com Sesshoumaru – ela então se dirigiu a recepcionista – Sra Taisho Kagome, recebi uma ligação pedindo que viesse falar com o doutor Yamasaki
A recepcionista a frente checou o computador
— Boa tarde Sra Taisho. Eu não fui informada, mas temos um pequeno problema com o sistema, estou esperando o pessoal do TI para consertar. O doutor...
— Isso é absurdo! Como ousam fazer a Sra Taisho esperar, quando o grande Sr Sesshoumaru chegar, cabeças vão rolar!
Disse com todo o porte do pequeno youkai, fazendo uma gota de suor escorrer pela cabeça da recepcionista
— ah... e-eu lamento muito... er... se a senhora desejar, pode aguardar o doutor no consultório, ele estará aqui em alguns minutos
— Obrigada! – ela agradeceu a recepcionista e encarando Jaken continuou — Acalme-se! Eu vou para o consultório, você pode liberar o motorista
Resmungando ele ignorou o dito pela mulher e continuou a segui-la pelos corredores.
Eles foram em direção do escritório do médico, os corredores estavam tranquilos aquele horário. Os sons de passos ecoavam pelo corredor trazendo uma atmosfera estranha
De repente Jaken ficou ereto em alerta, atraindo a atenção de Kagome
— O que houve Jaken?
— Essa presença? Não pode...
Antes que conseguisse terminar ele foi jogado contra parede caindo inconsciente. Por instinto Kagome virou buscando o agressor e deu de cara com Kagura sorrindo perversamente
— Já assistiu Rains of Castamere*?
Ela seguiu o olhar da youkai em direção o próprio ventre, para seu horror, na mão de Kagura havia um bisturi pressionando sua barriga. Kagura pegou a bolsa de Kagome e jogou numa lata de lixo, puxando a gestante para porta de saída longe da vista de qualquer curioso enquanto Jaken jazia inconsciente.
~~
Algo estava errado, uma sensação comprimia seu peito. Ele andava de um lado para o outro tentando afastar esse sentimento. Sua besta tentava a todo custo se libertar, ficava cada vez mais complicado manter o controle.
Para piorar, fazia 20min que tentava falar com Kagome sem sucesso, até mesmo Jaken parecia incomunicável
Um número desconhecido apareceu no visor e por um momento, seu coração falhou uma batida... algo estava muito errado!
~~
Kagura dirigia descontrolada fazendo curvas estreitas pela cidade, Kagome sentia cada vez mais nervosa, ela segurava a barra de segurança do carro fortemente.
— “oh, Sesshoumaru, cadê você?!” pedia silenciosamente.
— Você não vai ficar com ele, ele é MEU!
— Você está louca Kagura, precisa de ajuda – a cada curva brusca Kagome temia cada vez mais pela vida de seu filho.
— Louca? Você vai ver a louca. Estávamos bem, estava TUDO ÓTIMO! Até o pai dele vir com essa bobagem de casá-lo com você— ela falava delirante em meio a uma nevoa no olhar – ele me largou depois disso, eu tentava me aproximar, mas...
As palavras chamaram atenção de Kagome.
— Ele te largou?
— Você não sabia? – ela disse aereamente – ele disse que ter um caso estava além dele, mas se assim os outros pensassem, não era “significante contradize-los”
“Maldito bastardo, ele não estava envolvido com Kagura, ah Taisho. Você ia pagar”
~~
Horas se passaram após a notícia do desaparecimento de Kagome, ele havia posto muitas pessoas na busca, mas a mesma se mostrou infrutífera. Seu youkai clamava por sua companheira, clamava por trazê-la em segurança, clamava por... sangue daquele que ousou afastá-la dele.
Era muito perigoso deixar sua fera assumir, ele não teria mais consciência de suas ações e seria movido por puro instinto, ele torcia para que o instinto o levasse até ela... não haviam garantias, mas ele precisava para recuperar Kagome, então que assim seja...
O rugido do youkai ecoou nos céus, em sua forma deslumbrante ele corria incontrolável no encalço de sua companheira, clamando por ela.
~~
A chuva começou a cair, o carro corria a alta velocidade. A instável youkai acelerava cada vez mais, buzinando para ganhar passagem em meio aos outros carros. Ela precisava fugir, chegar o mais longe e estaria livre
Beep, beep, beep...
— VAMOS! – esbravejava a mulher
— Pare Kagura, isso é loucura! – Kagome se agarrava a barra de ferro com uma mão enquanto a outra tentava proteger inutilmente a barriga numa prece silenciosa por Sesshoumaru – Vamos conversar, posso dar dinheiro, joias... O que você quiser, apenas não nos machuque.
— EU QUERO O SESSHOUMARU! Quero aquele miserável destroçado e, péssimas noticias querida, você é onde dói mais – Kagura trocava de humor constantemente
— Por favor... – Kagome sentia um singelo tilintar por sua espinha, de algum modo, ela sentia que ele estava perto.
Kagura se virou para encarar a mulher com raiva nos olhos
— ‘Por favor’, você nunca deveria ter se metido em meu caminho, ele seria meu. ELE DEVIA SER MEU!
Ela mal pôde terminar a frase, pois ao desviar o olhar da estrada não percebeu a curva a frente e bateu na mureta derrapando em alta velocidade.
De repente tudo ficou escuro. Uma fisgada irradiando do quadril de Kagome até a coluna a despertou arquejando. Piscou algumas vezes para ajustar a visão. Presa ao cinto ela bateu a cabeça na janela, sentiu dor quando passou a mão na cabeça e viu sangue. Ela então lembrou da youkai ao virar para o assento do motorista. Ela não estava lá. Mas havia um buraco grande no para-brisa.
Kagura não usava cinto de segurança, foi arremessada com tudo para fora do veículo. Kagome viu o corpo da mulher jogado a alguns metros a frente do carro
O cinto estava preso, ela de repente o tentou forçar para se soltar, mas congelou ao sentir outra fisgada intensa atravessando a, ela olhou para seu colo e para seu horror deu-se conta do sangue que escorria de suas pernas.
A chuva caia sem piedade. Foi então quando um uivo alto foi ouvido...
— “Sesshoumaru” – de algum modo, ela sabia que era ele.
Mais a frente, ela viu Kagura se levantar do chão e olhou para trás, algo devia tê-la assustado, pois mesmo com o braço em uma estranha posição, ela correu.
Um cachorro grande pousou logo a frente do carro
— SESSHOUMARU!
Mas a chuva torrencial abafou seu clamor, e o grande youkai branco só pareceu ver Kagura e sua ira se instalou. Ele acabaria com ela, ninguém colocaria em risco sua companheira e seu filhote, ninguém o afastaria de Kagome. A marcação os unia, mas a chuva afetava os sentidos do youkai, tudo que ele via era a youkai e sabia que ela lhe levaria a sua companheira, ele a sentia perto, mas sua visão estava nublada pela fúria fazendo ver vermelho
Kagome viu Sesshoumaru avançar cada vez mais pra longe, em sua forma youkai ele iria atrás de Kagura e não viria em seu socorro. Os trovões ecoavam alto mascarando seus gritos e a chuva levava seu cheiro...
Eles morreriam ali... sua besta tomou controle e ele não a ouviria... era seu fim. Matar era o único instinto que ele conhecia... As palavras do Dr Yamasaki faziam todo o sentido agora; “único instinto que pode controlar Sesshoumaru é o de matar...” ele mataria Kagura antes de fazer qualquer coisa, sua besta quer matar e Kagome não era nada comparado a esta sede de sangue.
Ele destruiria tudo pela frente antes de vir ajudá-la. Ela sangraria até morte, seu filho não teria chance de nascer. Eles pereceriam ali nos escombros daquele carro!
Enquanto a alguns metros a frente, o pai de seu filho torturava a youkai dos ventos. Ele escorria veneno pelos lábios, enquanto esperava ela correr. Ela estava zonza do acidente, mas ainda era uma oponente com golpes sujos.
Cada pontada a enfraquecia cada vez mais, ela sentia como se estivesse sendo rasgado ao meio, o sangue esvazia cada deixando sua visão turva. Uma marca negra crescia em seu braço... os vestígios de yiaku – o veneno das mikos – ainda corria em seu sangue, ela nunca se livrou dele e pelo que constava correria até o fim. A chuva torrencial não parecia ter fim...
A visão ficava turva, ela já não conseguia lutar...
Então seria esse seu fim?
Outra dor lancinante fez seu corpo resetar e num último impulso gritou por ele
— SESSHOUMARU!
Por um momento ela fechou os olhos e no momento seguinte a porta do carro foi arrancada de brusquidão, uma sombra alta recobria sua visão, quando um raio iluminou o céu tudo que foi capaz de captar foi um par de olhos vermelhos em fúria, ela não tinha mais nada a temer. Não com ele ali.
O beep irritante de alarme do carro se fez presente, ajudando Kagome a se manter consciente.
— Você veio – o sorriso débil da esposa aumentou a preocupação do youkai, sua fera rugia em seu interior. Eles quase a perderam por causa da youkai dos ventos
Ela pagaria... quando a ouviu gritar seu coração parou e sua fera cedeu a sede por sangue, cedeu para que Sesshoumaru tomasse o controle e os salvasse, não podia acabar com Kagura, tinha um companheiro para proteger.
Com cuidado ele a retirou do carro e notou o quão fria sua pele estava. Ele não sentia os movimentos de seu filho
A toda velocidade ele a carregou para longe do carro e daquele irritante beep até o mesmo desaparecer.
Ele tentava ser delicado, a cada gemido de dor de Kagome ele se desesperava mais. O sangramento não parava, apesar da chuva o cheiro de ferrugem impregnava seu redor.
— “Resista! Ela tem que resistir” – era a prece silenciosa do youkai
As luzes vinham e iam a toda velocidade, uma cena já familiar cruzava sua mente, a chuva grudava seu cabelo no rosto, as contrações diminuíram assim como a consciência.
~~
O tempo parecia não passar, ela já estava em cirurgia há horas e ele não foi permitido ficar, ele poderia brigar, poderia lutar contra eles e destruir aquele hospital, mas isso só atrapalharia e ele não faria nada que pudesse prejudicar Kagome, ela e o bebê eram sua prioridade e se ele tinha que esperar... esperaria.
Pela primeira vez em muitos anos, os três homens da família Taisho estavam reunidos. Inuno, um youkai muito parecido com Sesshoumaru tentava consolar a esposa Izayoi. Inuyasha andava de um lado para o outro para desagrado de Sesshoumaru. Aquela reunião só servia para deixar seus nervos à flor da pele. Ele não queria falar com ninguém, não queria ver olhares apreensivos, ele já estava apreensivo o suficiente.
Quando Yamasaki surgiu com aparência cansada seu coração falhou uma batida. Os membros da família se levantaram a espera de noticias.
— Seu filho está bem, nasceu forte. É um hanyou, mas estranhamente possui a energia de um youkai completo, presumo que, por isso tenha resistido a todo o dano. O yiaku dominou o sangue de Kagome e de certa forma, protegeu o bebê, mas...
O alivio que sentiu ao ouvir que o filho estava bem, foi logo substituído por genuína preocupação
— Como ela está? – não poderia ter nenhum “mas”
— Ela está intoxicada pelo veneno, depois que tiramos o bebê seu corpo colapsou. – seu coração falhou uma batida – as próximas 72 horas serão decisivas, se sobreviver...
— Não diga “se”, ela TEM que sobreviver! – ele disse puxando o médico pelo colarinho
— Acalme-se Sesshoumaru – a voz controlada de Inuno se fez presente, outra razão para eles estivessem ali, era controlar a fúria do youkai no pior dos cenários.
Yamasaki olhou profundamente para o amigo, ele nunca o viu tão transtornado como naquele momento.
— Você sabe que eu farei tudo o que estiver ao meu alcance para salvá-la, mas entenda. A partir de agora, temos que aguardar a resposta do corpo dela.
A voz abafada de choro de Izayou atacou os nervos de Sesshoumaru
— O meu sangue...
— Marcá-la funcionou uma vez, mas... O yiaku tomou conta do corpo dela, um veneno mortal numa miko comum já é delicado, mas eu não sei o que foi misturado a ele, nem nada... Sesshoumaru – deu um longo suspiro antes de continuar, eles eram amigos de séculos e lá estava ele, tentando explicar ao amigo que poderia não salvar sua companheira – eu não sei o que vai acontecer. Estamos tateando no escuro aqui. Mesmo que sobreviva a este período, levará meses até ela se recuperar totalmente. Ninguém sabe lidar com isso.
Mas talvez uma pessoa saiba... Um pensamento obscuro cruzou a mente de Sesshoumaru... havia uma pessoa...
Ele se afastou dos familiares tirando o celular do bolso, encarando-o, sua orbes ganhavam tons de vermelho. Ele fechou os olhos um momento inalando profundamente o ar, antes de exalar na busca para recuperar o controle e discar os números.
— Traga Naraku – ele disse sucintamente quando atenderam a linha
O homem chegou acompanhado por um youkai tigre, quem o visse não estranharia a necessidade de segurança. Naraku tinha uma cicatriz no rosto, resultado de uma queimadura feia, a mão direita também apresentava as lesões proeminentes... o ácido de Sesshoumaru sempre fez um bom trabalho, um lembrete eterno do que acontecia com quem o desafiava.
— Deixe-nos
Sesshoumaru disse fazendo o homem arregalar os olhos
—Tem certeza, meu senhor?
Respondendo com um balançar de cabeça o homem se afastou deixando-os.
— Eu me perguntei o porquê do senhor ter me chamado aqui. Kago- recebendo um rosnado em resposta, ele mudou o tom – sua esposa deu à luz?
— Sabe o porquê de estarmos aqui, você causou isso. E tudo começou quando me procurou há alguns anos pedindo patrocínio numa pesquisa genética com hanyous, fui contra, o expulsei de meu escritório. O que o levou a achar que fazer tal coisa com a minha esposa traria algum bem a você?
Os olhos de Sesshoumaru começavam a rasgar em vermelho, ele lutava para manter a sanidade, quando a única vontade que tinha era acabar de vez com a vida à sua frente.
— Nunca ouve premeditação no que aconteceu. Kago – outro rosnado se fez presente, se ele queria permanecer vivo, deveria escolher com cuidado as próximas palavras – O caso da sua esposa é único, uma miko grávida de um youkai? As possibilidades seriam... o médico que a atendeu sabia de meu trabalho e não sabendo lidar com essa gravidez tão incomum, me recomendou, a surpresa por ver a mulher de Sesshoumaru Taisho foi... Ela não era marcada, você não a aceitou, então ela recorreu a mim, precisava da minha ajuda e eu a ajudei. Me diga, como é o seu filho?
Um rosnado partiu da garganta do youkai
— Você queria matá-la! – disse Naraku pelo colarinho
— Ela queria o filho, eu garanti que a gestação ocorresse bem, em contrapartida beneficiaria meus estudos, lhe daria um filho youkai e o livraria da humana, todos sairíamos ganhando – disse sem remorso
O controle de Sesshoumaru estalou e Naraku viu seu fim
— O único motivo para você estar aqui, vivo, ainda em minha presença, é que talvez, possa salvar Kagome, caso contrário. O corpo dela colapsou por aquele maldito veneno e você vai dar um jeito nisso!
Não havia necessidade de concluir a frase, todos sabiam bem que Sesshoumaru não era um youkai de ameaças vazias. Ele tragou duro, pensando cautelosamente as próximas palavras.
— Eu lamento, mas não há nada a ser feito, no momento que a solução foi administrada, seu destino foi selado.
Os olhos de Sesshoumaru se arregalaram de espanto e logo dando lugar a uma raiva descomunal. Ele ergueu as garras, uma gota de suor escorreu pela testa de Naraku.
—Sesshoumaru!
Yamasaki o interrompeu com as garras em punho, pronto para arrancar o coração da cavidade.
— Vá ver Kagome, ela precisa de você.
Sesshoumaru estava pronto para recusar, mas observar o olhar profundo do amigo o fez perceber que havia muito mais ali.
— Eu cuido desse lixo – ninguém sabia quanto tempo eles ficaram se encarando – Quanto a você – ele disse encarando o hanyou que rebatia com fingida altivez – eu o denunciei ao conselho, você nunca mais entrará numa clínica novamente. Aproveite o resto da sua vida miserável
Finalizou olhando a mão atrofiada. Talvez ele devesse ter deixado Sesshoumaru dar fim dele, mas às vezes, a pior tortura é deixar viver...
x-xx-x-x-
O coração de Sesshoumaru batia acelerado em antecipação, ele não poderia fazer nada. Quando entrou, a viu indefesa. Sua pele pálida destacavam os raios negros de yiaku que lhe tomavam corpo. Como um veneno tão insignificante poderia arrematar sua companheira, logo ele que era imune a todos os venenos?
Ele tocou em seu dedo anelar acariciando até a mão pálida, o formigamento que percorreu foi instantâneo, ela sentia também? Ela ouvia o coração do youkai bater acelerado? Ela seria capaz de ver seu ser miserável diante dela?
Ela voltaria para ele?
Ele se sentou na cadeira frente a ela, o monitor batia um beep regular, ele não sabia o que dizer, desde o momento que ela foi arrancada dele, ele funcionava num modo completamente novo: instinto. Ele sempre foi um youkai calculista, todos deviam se dobrar a ele e atender suas expectativas como ele queria, todos eram peças de xadrez que objetivava poder. Todos menos ela...
— Me perdoe Kagome, eu falhei com você, falhei novamente... – ele disse segurando as mãos pálidas da mulher, o acesso do soro no pulso fino, era outra facada no coração – parece que independente do que eu faça, só consigo te machucar. Falho com você desde o momento que nos vimos pela primeira vez – ele fez uma pausa buscando palavras há muito não ditas – você sempre foi como um imã para mim, me atraindo, me puxando, tomou minha mente, meus pensamentos, tentei lutar, me afastando, te negligenciando... te culpei me transformar num ser tão patético...
Ele deitou a cabeça sob a mão dela, como se implorasse.
— Você, cujo único pecado foi acreditar que havia algo que valesse a pena. Você me deu tanto... nosso filho é perfeito e devo tudo a você – emoções que ele se recusava a sentir agora o afogavam em agonia, ele cerrou o punho com força perfurando a própria palma da mão fazendo o sangue jorrar – sei que não mereço estar aqui, sei que não sou digno de perdão, mas clamo por você, clamo por mais uma chance.
— Sei que fui um péssimo marido e não sou digno de você, te feri tantas vezes menosprezo-a, eu não posso mudar o passado nem reparar todo mal causado, pois essa cicatriz sempre existir e perdurar em minha alma... e em meu coração.
Ninguém viu o poderoso youkai lamentar sua própria miséria, a dor do youkai rastejando por um fio de esperança, nem ela veriam...
— Eu prometo, farei com que-
Um alarme estridente soou no quarto quando o beep do monitor ficou irregular, gelou seu sangue e o separou das promessas não ditas, o grito ficou entalado na garganta do youkai enquanto a equipe de enfermeiros e médicos invadia o quarto, alguém o afastou da esposa, enquanto ele se debatia. Ele queria lutar, seu animal se debatia tentando se libertar da sua jaula, tentando alcançá-la mesmo sendo impossível. Olhos vermelhos sangraram em impotência
Ordens ecoavam ditas pelo médico, mas Sesshoumaru não foi capaz de distingui-las.
Ele aguçou a audição, precisava de respostas, precisava dela e para seu horror o beep parou afastando-o da felicidade...
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