Scars

1 I - Um pouco de paz


Notas iniciais
Essa historia se passa no perido da negociação com o Barão, lá no comecinho da relação Aurieta, mas aqui eles não se conheceram durante aquela conversa, apenas um dia antes, quando tudo que Julieta queria era paz.

Julieta nunca pensou que fosse encontrar, em uma cidade tão pacata quanto aquela, tantos problemas. O Vale do Café estava sendo particularmente difícil e a inabilidade de Susana em tratar de negócios com o Barão obrigou Julieta a sair de São Paulo e voltar para a pequena cidade que tinha planejado passar algum tempo longe.

Seu amiga não havia conseguido concluir as negociações, sequer as tinha iniciado, e mesmo pelas poucas vezes que encontrou-se com o Barão dizia não ter boas impressões a respeito dele, o descreveu durante conversas e por cartas como carrancudo, apresentava personalidade difícil,pouco amigável, sarcástica e às vezes machista e que tratava de negociar ao lado do filho, que poderia facilmente se passar por inofensivo mas era mais semelhante ao pai do que deixava que transparecer, segundo as palavras de Susana ele era aparentemente inofensivo mas que não se enganasse, pois muito parecido com o pai e no fundo machista. Susana sabia o quanto ela desprezava aquele tipo de homem, tão semelhante ao seu falecido marido.

Alguns, ou a maioria, dos homens duvidavam das capacidades dela, atribuíam seu sucesso ao nome de seu falecido marido, mas pobres tolos e cegos, não sabiam que além de um filho pequeno para criar Osório só deixou preocupações, dores e dívidas pendentes, a falência! Algumas vezes ela pensou em dizer a verdade, jogar tudo ao vento e esperar a reação deles, mas lembrava-se da imagem formada que Camilo tinha construído sobre o pai e então ela preferia manter aquelas verdades para si mesma.

— Julieta — chamou novamente Susana e foi finalmente ouvida —, está distraída? Estou lhe chamando a quase cinco minutos.

— Preocupada é a palavra certa Susana, Camilo está me preocupando e não tenho tempo para cuidar dos assuntos dele porque tenho que resolver as questões com a família Cavalcante, que você não foi capaz de resolver.

— O que esperava que eu fizesse? Julieta, eu lhe expliquei as situações.

— Sim, sim, eu sei. — Esfregou com as pontas dos dedos as têmporas.

— Julieta, você me parece tão preocupada, tão tensa. Talvez devesse relaxar um pouco, amanhã tem um grande negócio para tentar fechar com o Barão e precisa estar completamente relaxada.

— Então o que sugere, Susana? — Perguntou em tom sarcástico, sua cabeça doía e ela tinha tudo menos paciência para as ideias da sócia naquele momento.

— O Vale do Café, por mais que eu não goste de admitir, é um belo lugar e tem lugares perfeitos para relaxar, talvez devesse tentar ir em um desses.

— Eu não tenho tempo para relaxar, na verdade o trabalho e os problemas com paixonites do Camilo estão roubando todo meu tempo.

— Mas eu tenho certeza de que se você sair para descansar por alguns minutos a casa não irá desmoronar e Camilo não estará casado nem haverá outra rainha do Café no seu lugar, eu mesma me assegurar disso, quando você voltar estarei aqui,

— Talvez você esteja certa, tenho que pensar eu necessito relaxar um pouco, pode me trazer novas ideias para contornar os problemas que já tenho e que parecem não terem soluções.

— Certamente, pedirei para que Tião prepare o carro.

— Sim.

Susana se retirou. Julieta sempre soube que sua amiga era temperamental e com algumas ideias que ideias que ela discordava mas tinha que concordar com Susana, estava cansada e sobrecarregada nos últimos dias. O trabalho sempre foi uma carga sobre seus ombros e com Camilo crescendo ela esperava que o filho se interessasse pelos negócios da família para cuidar deles nos futuro, mas ele estava mais interessado na jovem Jane do que nos negócios e Julieta preocupava-se com aquilo, contudo não podia culpá-lo completamente, era muito jovem.

Ela conseguiu sair de casa meia hora depois de Susana pediu para Tião preparasse o carro. O empregado, que já havia passado um tempo no Vale do Café antes de se mudar junto com a patroa, informou-lhe que havia um lugar perfeito no meio do Vale que aparentemente não tinha muitos atrativos. Julieta não estava muito interessada nas informações sobre o lugar, apenas que fosse bom o suficiente para que pudesse passar o tempo sem as preocupações diárias.

O carro parou após quase uma hora, Julieta olhou para o lado de fora da janela, aparentemente não existia nada no meio daquela estrada além de uma pequena floresta, Tião realmente esperava que ela fosse do tipo de pessoa que passava tempo dentro do mato? A porta foi aberta e o empregado estendeu a mão para ajudá-la a sair, com olhar interrogativo ela aceitou o apoio. O sol forte de uma hora da tarde estava ficando mais intenso e ela se questionou porque ainda estava ali e simplesmente não mandava que ele a levasse de volta para casa.

— Tião, pode me explicar o que está acontecendo? Eu pedi um lugar para relaxar não uma floresta com possíveis animais perigosos.

— Dona Julieta, não precisa se preocupar que por aqui não tem esse tipo de animais que a senhora teme, as maravilhas do Vale do Café ficam escondidos por trás de paisagens aparentemente horrendas, para espantar as pessoas. Logo atrás de todo esse mato tem uma cachoeira. Não é possível entrar com carro, mas logo adiante a senhora verá, é só seguirmos reto, ninguém aparece por aqui nunca.

— Eu irei sozinha, pretendo ficar só, fique aqui no carro e me espere, talvez eu demore um pouco mas não precisa desesperar-se, certo?

— Claro, mas não quer mesmo que eu a acompanhe?

— Não, eu tenho proteção suficiente.

Julieta segurou um pouco as pontas do vestido negro longo para poder entrar dentro da pequena floresta. Não havia sinais de animais perigosos mas ela temeu por alguns segundos deparar-se com alguma cobra, quando pequena por distração foi picada por uma e não pretendia encontrar com outra em seu caminho. A trilha não era longa e ela só precisaria andar reto, como havia dito Tião. O número de árvores foi diminuindo assim como a grama alta que nunca foi cortada.

A cachoeira era tão maravilhosa quanto Tião havia descrito. Um breve sorriso pairou sobre os lábios dela ao ver que finalmente conseguiu chegar. As águas eram cristalinas como ela nunca tinha visto antes. O ar tornou-se um pouco mais fresco e a intensidade do calor acabou diminuindo um pouco. Julieta deixou de lado sua bolsa, colocando-a sobre a rocha consideravelmente grande e com isso deixou de lado sua única segurança. Seus olhos ergueram-se fascinada pela visão, a última vez que esteve em um lugar tão semelhante a aquele tinha quatorze ou quinze anos e logo em seguida chegou encharcada em casa e foi recebida por reclamações por sua mãe, as lembranças daquele passado era tudo que restava da Julieta Sampaio que um dia foi.

Sentou-se em uma pequena pedra, ao lado de onde tinha posto sua bolsa e logo abaixo de uma enorme árvore para proteger-se do sol. O vestido parecia sufocá-la mas jamais o removeria, não quando estava correndo o risco que Tião decidisse aparecer. O motorista às vezes era extremamente zeloso e mesmo que ela apreciasse esse tipo de tratamento podia tornar-se inconveniente em certas horas.

Julieta cerrou os olhos recostando-se ainda mais na árvore, ela tinha que pôr pensamentos em ordem e solucioná-los mas não consegui pensar sem perder o foco dos próprios pensamentos. Seus olhos imploravam para que ela os fechasse completamente e que pudesse dormir por algumas horas em paz, ouvindo apenas o som da natureza.

Julieta quase cedeu ao cansaço mas algo foi mais rápido. Galhos estavam sendo quebrados no meio da mata e aproximava-se, alguém estava vindo em sua direção e ela torceu para que fosse apenas Tião intrometendo-se em seu momento de paz.

Alguém saiu de dentro das enormes árvores e Julieta segurou a respiração. Era um homem mas nitidamente não era seu motorista. As palavras de Tião mencionando que ninguém nunca aparecia por ali ressoavam como um aviso em seu subconsciente. Ele deixou que alguém passasse e não fez questão de ir avisa-lá? Ou algo de ruim aconteceu com seu motorista? O homem pareceu analisar o lugar e antes que Julieta desse por si mesma estava de pé, agarrando a bolsa e puxando a pequena pistola que carregava para casos extremos e aquele era definitivamente um caso extremo.

— Quem é o senhor? — Perguntou em um tom duro, sua mão firme apontando a pequena arma na direção do homem. Ela estava buscando-a? Alguém poderia tê-la seguido? Julieta sabia que tinha muitos inimigos e temeu o pior.

O homem virou-se, os olhos azuis dele não encararam os dela mas sim a pistola que ela lhe apontava, na direção reta de seu peitoral, coberto de forma desleixada pela blusa branca de linho fino. Rapidamente ele soltou algo que tinha nas mãos e abriu a boca, os olhos expressivos pareciam buscar uma explicação. O som dos animais pareceram parar por alguns instantes para dar a chance de um conflito ser iniciado.

— O-oque está acontecendo? O que eu fiz?

— Eu lhe fiz uma pergunta primeiro, quem é o senhor e o que quer aqui?

— Me chamo Aurélio, eu sou do Vale do Café, vim aqui para me refrescar eu juro que não tenho intenção de lhe fazer mal.

— O que fez com meu motorista? — A preocupação por Tião a fez continuar apontando a arma para o homem em busca de mais informações.

— Seu motorista? Eu não vi ninguém, eu juro. Não machuquei ninguém e nem pretendo machucar. Na verdade, você deve estar falando do homem dormindo dentro do carro que está parado, mas eu juro por Deus que sequer o toquei.

— Dormindo? Eu não estou aqui nem a uma hora e Tião já dormiu? Céus, estou cercada por inúteis — murmurou para si mesma, ainda apontando a arma para o homem que mal podia respirar.

— A senhora pode por favor parar de apontar a arma para mim agora que lhe dei as explicações que pediu? — Usou seu melhor tom controlado e só respirou aliviado quando a viu guardando a pistola dentro da bolsa. — Não vai nem pedir desculpar por ter apontado uma arma para mim e ter me assustado? — Perguntou exasperado pela calma que ela estava agindo.

— Não, o senhor quem assustou-me primeiro e eu apenas me precavi, poderia ser realmente alguém perigoso.

— Eu posso saber quem é a senhora? Porque definitivamente não é do Vale do Café e se for provavelmente é recém chegada porque nunca a vi por aqui.

— Acho que isso não vem ao caso agora ou nunca, o senhor assustou-me e interrompeu meu único momento de descanso que eu teria durante esse dia inteiro. Agora aproveite a paz que me tirou.

Julieta deu a ele um meio sorriso sarcástico antes de sair sem olhar para trás. Quando finalmente conseguiu sair da pequena floresta, já irritada, caminhou até o carro onde Tião dormia desleixadamente. Ela bateu com força na buzina do carro o fazendo despertar desesperado e ao constatar que era a patroa guardou os insultos para si mesmo.

— Dona Julieta, não esperava que fosse voltar tão rápido.

— Se tivesse feito seu trabalho eu não teria voltado, custava demorar um pouco antes de cair no sono, Tião. Agora temos que ir!

Ela ignorou a tentativa dele de sair do carro para tentar ajudá-la a abrir a porta do carro e ignorou as tentativas de explicar-se dele. Teria que voltar para casa e novamente voltar a trabalhar. O nome “Aurélio” surgiu por alguns minutos na sua memória mas suas preocupações trataram de apagar o nome do homem amedrontado.

Seu regresso antecipado a fazenda surpreendeu Susana, que esperava que a amiga passeasse um pouco mais de tempo tranquilizando-se. Camilo não estava em casa, assim como Darcy, provavelmente ambos foram ver as irmãs Beneditos. Susana havia comentado por alto sobre um possível interesse de Darcy na irmã de Jane Benedito. Todas as pessoas da vida dela pareciam estar apaixonadas, exceto por ela que sempre desconheceu o sentimento da paixão. Alguns poetas faziam questão de descrevê-lo mas se fosse realmente daquela forma seria um motivo para amedrontar-se e não para ficar feliz, a ideia de ser novamente dependente de alguém a aterrorizava, entretanto não tanto quanto a ideia de alguém a conhecendo por completo, da forma que ela era por dentro e por fora, alguns poderiam assustar-se facilmente se a vissem como era por debaixo das vestes negras. Suas chances de viver algo bonito foi roubada há muitos anos, quando era apenas uma menina, mais jovem que Camilo ou as irmãs Benedito.

O trabalho tratou de ocupá-la, como sempre fazia, e a deixou trancada dentro do escritório a maior parte do dia.

A manhã seguinte, que ela tanto ansiava, saiu de seus sonhos e finalmente chegou. Ela precisava ouvir da boca do Barão e do filho dele tudo que disseram a Susana. Quando os compromissos eram interessantes ela mal conseguia dormir e acabou despertando antes mesmo dos empregados levantarem. Gostava de bons desafios e principalmente quando vinham de homens como o Barão.

Susana já estava na sala quando ela desceu, recostada no piano que há anos Julieta não tocava.

— Tem certeza de que não quer chamar Camilo para esta negociação? — Susana quis confirmar uma última vez.

— Não, eu tenho certeza, forçar Camilo a pensar em negócios quando o coração dele está a quilômetros de distância é inútil. Além do mais eu quero ver como o Barão e o filho dele irão tratar de negociar com duas mulheres.

— Você está certa, você está sempre certa.

As duas partiram para a fazenda Ouro Verde. Era realmente uma bela propriedade como Susana havia lhe descrito. Um lugar enorme e com terras férteis, deter aquela fazenda de alguma forma representaria uma facilidade para expandir seus negócios por todo o Vale do Café e talvez fosse mais fácil conseguir as demais fazenda quando soubessem que ela detinha a propriedade lendária do mítico Barão de Ouro Verde.

A empregada de idade avançada quem abriu as portas para Julieta e sua acompanhante. Susana caminhava ao lado da Rainha do Café com um pequeno sorriso de canto, tinha interesse em saber o que acontece quando duas personalidades fortes, semelhantes e ao mesmo tempo distintas, como a do Barão e a de Julieta se cruzam. Eram poucas as probabilidades que aquele encontro terminasse de forma passiva e Susana viu isso quando olhou para a expressão da amiga, o olhar frio e distante que Julieta carregava consigo quando estava preparada para atacar seus concorrentes, mas estranhamente aquele olhar, mesmo que por alguns segundos, pareceu desfazer-se.

Os olhos de Julieta recaíram primeiramente sobre o velho Barão, sentado em uma cadeira de rodas, manteve seu olhar distante, tão frívolo quanto o que recebia do homem mais velho, e logo em seguida fitou o homem ao lado dele. Ela hesitou por alguns segundos antes de concluir seus pensamentos que só se confirmaram definitivamente quando os olhos azuis de ergueram para encará-la. Ela segurou a respiração novamente, como havia feito no dia anterior e por um segundo sentiu as feições se desmanchando contra sua vontade, foi, mais uma vez, involuntário.

— Barão, esta é minha chefe, Julieta Bittencourt, a Rainha do Café. Julieta — virou-se para a mulher de preto que não parecia nenhum pouco interessada nas apresentações naquele momento — Este é o Barão de Ouro Verde e seu filho, Aurélio Cavalcante.

Agora ela lembrava-se de onde tinha ouvido aquele nome antes de ir a cachoeira, dos comentários de Susana. Ele era o aparente dócil que no fundo poderia revelar-se tão machista e carrancudo quanto o pai. Ele era o homem que ela encontrou na cachoeira e apontou a arma.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.