21 de agosto de 1793

Eu apareci.

No meio de uma praça.

— Onde eu tô?

Olhei lentamente ao meu redor.

Não me lembrava de ter vindo para aquele lugar.

Na verdade…

Eu não me lembrava de quase nada.

Havia uma grande fonte bem à minha frente, com a água caindo tranquilamente em vários níveis de pedra. As ruas eram feitas de blocos irregulares, e pessoas caminhavam de um lado para o outro, conversando e sorrindo como se aquele fosse apenas mais um dia comum.

Algumas delas diminuíram o passo ao me ver.

Outras me encararam por alguns segundos antes de seguirem seu caminho.

Minha cabeça parecia pesada.

Minha mente…

Estava vazia.

Era uma sensação estranha.

Como se alguém tivesse arrancado todas as minhas lembranças e deixado apenas um pequeno detalhe.

Meu nome.

Samuel.

E o que eu mais sentia era uma coceira no meu pescoço, que incomodava.

Só isso.

— Garoto, você tá perdido?

Levantei a cabeça.

Na minha frente havia um homem de rosto redondo, com dois cones saindo do queixo. Apesar da aparência incomum, sua expressão era gentil.

— Sim… muito.

Ele me analisou por um instante.

— Poderia me acompanhar?

Olhei em volta mais uma vez.

Eu não conhecia aquele lugar.

Não conhecia ninguém.

Então apenas assenti.

— Tá bom.

Comecei a andar ao lado dele.

Enquanto caminhávamos, meus olhos percorriam cada detalhe daquele lugar desconhecido.

As casas eram coloridas.

As pessoas sorriam umas para as outras.

Crianças corriam pelas ruas.

Tudo parecia… vivo.

Mas eu sentia apenas angústia.

Era como acordar no meio de um sonho sem saber quem eu era.

Depois de alguns minutos, ele quebrou o silêncio.

— Tá bem aí, pequeno?

— Sim… eu só não faço ideia do que está acontecendo.

Ele fez uma expressão compreensiva.

— Ah… você não lembra de como chegou aqui?

Balancei a cabeça.

— Não lembro nem de onde eu vim… não lembro de nada.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Nada?

— Nada.

O homem ficou pensativo por alguns segundos.

— Isso… é preocupante.

Depois abriu um pequeno sorriso.

— Mas pode ficar tranquilo. Ninguém aqui é capaz de te machucar… mesmo que queira.

A frase era estranha.

Mas, por algum motivo…

Também era reconfortante.

— Ok…

Continuamos andando.

Pouco tempo depois chegamos diante de uma construção gigantesca.

Eu parei automaticamente.

Ela era enorme.

Colossal.

Um templo completamente branco, com mais de trinta metros de altura.

As enormes portas de entrada pareciam pequenas diante da grandiosidade daquele lugar.

Dois guardas abriram lentamente os portões.

As portas produziram um grave rangido enquanto revelavam o interior.

Uma enorme sala.

Luxuosa.

Branca.

No fim dela…

Três tronos.

Sentada à esquerda havia uma mulher com a cabeça em formato de coração.

Uma aura rosa envolvia seu corpo.

À direita, um homem com a cabeça perfeitamente circular, dividida por uma cruz em quatro partes.

Sua aura era roxa.

E no centro…

Um homem de cabeça em formato de domo, coberta por espinhos que começavam na base e quase alcançavam o topo.

Sua aura era verde.

O homem que me acompanhava imediatamente se ajoelhou.

Sem entender o motivo…

Eu apenas copiei o movimento.

Ele falou em voz firme.

— Esse menino acabou de chegar em Scarloon. Então a influência sobre ele deve ser realizada.

Levantei discretamente os olhos para observar os três.

O homem envolto pela aura roxa suspirou.

Parecia cansado.

Muito cansado.

— Ok… mas esse é o último do dia. Mande os próximos esperarem até amanhã para virarem meus servos.

— Entendido!

O homem de roxo levantou uma das mãos.

Apontando diretamente para mim.

[Amor é peba.]

Uma gosma surgiu em sua palma.

Ela cresceu rapidamente.

Então foi disparada na minha direção.

— QUE—

SPLASH!

A gosma atingiu meu rosto em cheio.

Instintivamente tentei tirar aquilo.

Mas ela começou a se espalhar.

Desceu pelo meu pescoço.

Passou pelos braços.

Cobriu meu corpo inteiro como se estivesse viva.

Senti aquela substância deslizando sobre minha pele…

Até que…

Ela desapareceu.

Pisquei algumas vezes.

Olhei para minhas mãos.

Nada.

— O que… aconteceu?

O homem da aura verde voltou seu olhar para mim.

Depois olhou para quem havia me trazido.

— Explica pra ele, Ronaldo.

— Com certeza.

O homem chamado Ronaldo se levantou.

Eu o copiei.

Ele fez um gesto para que eu o acompanhasse.

Sem dizer mais nada…

Saímos daquele enorme templo.

Voltamos para a praça onde tudo havia começado.

Minha cabeça continuava uma bagunça.

Quanto mais eu descobria…

Mais perguntas apareciam.

Ronaldo sentou em um banco.

Depois apontou para o lugar ao lado dele.

— Pode sentar. Eu explico tudo.

Sentei.

Esperei alguns segundos.

Então ele começou.

— Esse lugar onde estamos se chama Scarloon.

Scarloon…

Gravei o nome.

— E todas essas pessoas que você tá vendo são chamadas de Scars.

Olhei em volta novamente.

— Scars…

Ele assentiu.

— E sabe o que são os Scars?

Pensei por alguns segundos.

— Pessoas?

Ele fez um gesto com a mão.

— Mais ou menos.

Deu uma pequena pausa.

— Eu diria que são fantasmas.

Franzi a testa.

— Ué… fantasmas? Mas eles não parecem fantasmas.

Ele sorriu.

— Os Scars são pessoas que morreram no mundo dos vivos.

Meu corpo congelou.

— Eles…

Já morreram?

— Sim.

Ele respondeu aquilo com tanta naturalidade que parecia estar falando sobre respirar.

— E, se você está aqui…

Você também é um Scar.

Assim como eu.

Eu pisquei.

Uma vez.

Depois outra.

Meu cérebro demorou alguns segundos para processar aquilo.

Então arregalei os olhos.

— Você é um Scar?

Minha voz aumentou.

— ESPERA…

EU SOU UM?!

EU MORRI?!

— Sim.

Resposta direta.

Sem rodeios.

— Todos que vêm para Scarloon morreram antes.

Baixei a cabeça.

Então…

Eu morri.

Mas…

O pior não era isso.

— O problema…

Minha voz saiu baixa.

— É que eu nem lembro da minha vida quando eu… era vivo.

Ronaldo me olhou com preocupação.

— Nada mesmo?

— Nada.

Balancei lentamente a cabeça.

— Eu sei falar.

Escrever algumas palavras.

Desenhar.

Essas coisas.

Mas eu não consigo lembrar de mim fazendo nenhuma delas.

É como se eu soubesse…

Mas nunca tivesse vivido.

— Que bizarro…

Ele apoiou o queixo nas duas mãos.

Pensativo.

— E sua mãe? Seu pai? Sua família?

— Como eu disse…

Nada.

Silêncio.

Alguns segundos passaram.

Até que ele perguntou:

— Você tem nome?

— Sim.

— Qual?

— Samuel.

— Samuel de quê?

Inclinei a cabeça.

— De que o quê?

— Seu sobrenome.

Meu peito apertou.

Eu procurei.

Forcei minha memória.

Qualquer coisa.

Qualquer lembrança.

Mas…

Não havia nada.

— Eu…

Não lembro.

Ronaldo respirou fundo.

— Aí é fo—

Ele parou no meio da frase.

Coçou a cabeça.

— Aí já foge completamente dos meus conhecimentos.

Ele soltou um pequeno suspiro.

— Sem seu nome completo, encontrar sua família seria quase impossível. Poderia levar anos.

Continuei olhando para o chão.

Depois de alguns segundos…

Respondi.

— Eu…

Não sei se quero encontrar minha família.

Ele me encarou.

— Ué? Por quê?

Pensei um pouco antes de responder.

— Eu não lembro deles.

Então… encontrar ou não encontrar…

Não muda muita coisa.

Fiz uma pequena pausa.

Sem saber por que aquelas palavras estavam saindo.

— E…

Eu sinto que…

Eles nem tentariam me procurar aqui.

Ronaldo permaneceu em silêncio.

O olhar dele mudou.

Não era pena.

Era preocupação.

Ele ficou alguns segundos pensando.

Então abriu um sorriso.

Um sorriso sincero.

— Bem…

Se esse é o caso…

Eu queria te oferecer uma coisa.

Levantei a cabeça.

— O quê?

— Eu tenho espaço lá em casa.

Ele deu de ombros.

— E sinceramente…

Eu não quero deixar uma criança sozinha nesse mundo.

Então…

Queria saber se você aceita morar comigo.

Meus olhos se arregalaram.

— Com…

Você?

— Isso mesmo.

Ele sorriu outra vez.

— Já moram dois caras comigo.

Eu considero os dois meus filhos.

Eles são gente boa.

Tenho certeza de que não vão se importar de ganhar mais um irmão.

Fiquei olhando para ele.

Sem reação.

— Sério?

Minha voz saiu quase como um sussurro.

— Você vai deixar eu morar com você…

Sem querer nada em troca?

Ronaldo deu uma risada.

— Que "sem querer nada"?

Eu só quero ajudar você, moleque.

Acha mesmo que eu ia deixar uma criança sozinha por aí?

Ele cruzou os braços.

— Então chega de enrolação.

Sim ou não?

Meu coração começou a bater mais forte.

Era estranho.

Muito estranho.

Mesmo sem minhas lembranças…

A sensação de alguém realmente se importar comigo…

Era quente.

Confortável.

Como se eu tivesse sentido falta daquilo durante muito…

Muito tempo.

Mesmo sem saber o motivo.

Sorri.

Pela primeira vez desde que apareci naquele mundo.

— Eu…

Eu quero.

Ele levantou uma sobrancelha.

— Eu disse "sim ou não".

Não consegui segurar uma risada.

— SIM!

Ronaldo sorriu satisfeito.

— Assim que se responde.

Ele se levantou do banco.

— Então vem.

Vamos pra casa.


Saímos da praça e seguimos por algumas ruas mais tranquilas.

Conforme nos afastávamos do centro, o movimento diminuía. As casas coloridas davam lugar a construções mais simples, cercadas por pequenas cercas e jardins bem cuidados.

Depois de alguns minutos de caminhada, Ronaldo apontou para uma casinha um pouco mais isolada das outras.

Ela era simples.

As paredes tinham um tom azulado já um pouco desgastado pelo tempo.

Não era uma casa grande.

Mas…

Transmitia uma sensação aconchegante.

Ronaldo colocou a mão na maçaneta.

— Chegamos.

A porta se abriu.

Entrei logo atrás dele.

O interior era tão simples quanto o lado de fora.

Uma sala organizada, móveis de madeira, uma mesa ao canto e algumas estantes espalhadas pelas paredes.

Nada chamava muita atenção.

Até que Ronaldo caminhou até uma porta mais ao fundo da casa.

Toc. Toc.

— Ô! Abre aí! Preciso falar uma coisa importante.

Do outro lado, ouvi o barulho da tranca sendo destravada.

Click.

A porta se abriu lentamente.

Por curiosidade, estiquei um pouco o pescoço para enxergar lá dentro.

E…

Meus olhos brilharam.

Aquilo não era um quarto.

Era uma oficina.

Ferramentas espalhadas por todos os lados.

Engrenagens de diversos tamanhos.

Livros empilhados.

Cadernos repletos de anotações.

Tubos de ensaio.

Peças metálicas.

Objetos cuja utilidade eu sequer conseguia imaginar.

Parecia um verdadeiro laboratório de invenções.

Mas antes que eu pudesse observar tudo…

Duas pessoas apareceram na porta.

Ou melhor…

Dois Scars.

Os dois eram maiores do que eu.

O primeiro tinha um rosto redondo cercado por várias linhas que saíam para fora, como se sua cabeça tivesse sido rabiscada.

O segundo possuía metade do rosto completamente preta, com um olho branco.

A outra metade era branca, com um olho preto.

Eles olharam primeiro para mim.

Depois para o Ronaldo.

O de cabeça rabiscada abriu um sorriso.

— Quem é o pivete? Veio conhecer algum projeto escolar? Kkk.

O outro respondeu na mesma hora.

— Acho que ele veio brincar com aquela massinha que você fez ontem! Kkkkk!

O primeiro cruzou os braços, indignado.

— Nada a ver, mano! Aquilo é uma nova forma de vida!

Ronaldo Limpou a garganta.

Os dois imediatamente olharam para ele.

— Parem com as brincadeiras.

Sua voz ficou séria.

— Esse garoto vai morar com a gente.

Os dois congelaram.

Depois falaram exatamente ao mesmo tempo.

— Quê?!

Ronaldo fez um gesto em minha direção.

— O nome dele é Samuel.

Depois cruzou os braços.

— E, por favor, sejam legais com ele.

Fez uma pequena pausa.

— Ah… e, de preferência, saiam da frente da porta.

Eu também queria entrar.

Os dois se entreolharam.

— Ah.

— Foi mal.

Rapidamente abriram espaço.

Entrei na oficina devagar, olhando tudo ao meu redor.

Quanto mais eu observava…

Mais coisas diferentes apareciam.

Aquilo parecia um mundo inteiro escondido dentro de um único cômodo.

Enquanto os três conversavam, encontrei uma cadeira de rodinhas.

Sentei nela.

Empurrei o chão de leve com os pés.

A cadeira começou a girar lentamente.

Legal.

O Scar de cabeça rabiscada caminhou até mim.

Parou bem na minha frente.

Abriu um enorme sorriso.

— Oi! Eu me chamo Emerson!

Levantou os braços dramaticamente.

— Um renomado cientista que um dia vai descobrir a essência de como esse mundo inteiro funciona!

Eu pisquei algumas vezes.

— Emerson…

Ele apontou para si mesmo.

— E, para complementar…

Meu Impar!

Ronaldo interrompeu antes que ele continuasse.

— Primeiro explica para o Samuel o que é um Impar.

— Ah, verdade!

Emerson coçou a cabeça.

— Impar é o poderzinho que cada Scar pode ter!

Depois sorriu.

— Já leu HQ de herói?

Pensei um pouco.

— Eu… não lembro.

Mas sei o que é.

— Perfeito!

Ele bateu palmas.

— Meu Impar é criar um buraco negro!

Inclinei a cabeça.

— Buraco negro?

Ele ficou alguns segundos me olhando.

Parecia ter acabado de perceber que eu era uma criança.

— Certo… deixa eu explicar.

Respirou fundo.

E começou.

— Um buraco negro não é exatamente um "buraco". Trata-se de uma região do espaço-tempo em que a concentração de massa-energia provoca uma deformação gravitacional extrema, fazendo com que as geodésicas espaço-temporais…

Antes que ele pudesse continuar…

PÁ!

Ronaldo deu um tapa na parte de trás da cabeça dele.

— Ai!

Emerson colocou a mão onde havia levado o tapa.

— Não inventa moda.

Eu fiquei em silêncio.

Depois de tudo aquilo…

A única coisa que consegui entender…

Era que o buraco negro não era um buraco.

Emerson saiu resmungando.

Então o Scar metade preto e metade branco tomou seu lugar.

Ele parecia bem mais calmo.

— Oi.

Estendeu a mão.

— Sou Thauan.

Também sou cientista.

Meu Impar é me deixar mais inteligente.

Sorri.

Apertei sua mão.

— Oi, Thauan!

Meu nome é Samuel!

Ele me encarou por alguns segundos.

Depois respondeu normalmente.

— Sim…

Eu sei.

Já falaram seu nome.

Olhou para Emerson.

— Enfim, eu trabalho com aquele idiota ali.

Não leva muito a sério tudo o que ele fala.

Ele é bem abestado para alguém que se diz cientista.

— O QUÊ?!

Emerson apareceu do nada.

Num único salto.

Pulou nas costas do Thauan.

— REPETE!

— Sai de cima de mim, seu maluco!

Os dois começaram a se empurrar.

Depois a se enforcar.

Depois a tentar derrubar um ao outro.

Fiquei olhando aquela cena completamente sem entender.

Ronaldo simplesmente caminhou até minha frente.

Bloqueando minha visão da "luta científica".

— Bem…

Estendeu a mão.

— Meu nome é Ronaldo.

Sou o cientista-chefe daqui.

Apontou com o polegar para os dois brigando atrás dele.

— E esses dois aí…

São meus colegas.

E meus filhos adotivos.

— Não fala desse jeito! — Emerson reclamou enquanto tentava prender o Thauan numa chave de braço.

— Tá parecendo que a gente foi encontrado no lixo! — completou Thauan.

Ronaldo fingiu que nem ouviu.

Continuou sorrindo para mim.

— Relaxa.

Não vou obrigar você a estudar igual esses dois.

Eles são nerds que nem eu.

Você pode fazer o que tiver vontade.

Segurei sua mão para me levantar.

Pensei por alguns segundos.

Depois respondi sem pensar muito.

— Eu quero brincar de pega-pega.

Ronaldo ficou me olhando.

Por um segundo inteiro.

Então…

Começou a rir.

Uma risada sincera.

— Claro!

Passou a mão na minha cabeça.

— Às vezes a gente também precisa descansar a cabeça.

Ele olhou para os dois que agora estavam caídos no chão, completamente cansados depois da "batalha".

— Bora, vocês dois!

Depois vocês voltam para os experimentos.

Agora a gente vai brincar com o Samuel.

Os dois fizeram cara de sofrimento.

E começaram a resmungar deitados no chão.

Ronaldo apenas levantou um pé.

Como se fosse chutar.

Os dois levantaram na mesma hora.

— Claro, podemos sim! — respondeu Thauan imediatamente.

— Será um enorme prazer! — completou Emerson, como se nunca tivesse reclamado.

Ronaldo sorriu.

— Ótimo.

Então simbora.

Nem esperei mais.

Levantei correndo da cadeira.

— Vamos!

Quem sair por último da casa é quem pega!

Disparei pela porta.

Atrás de mim ouvi Ronaldo rir.

Logo depois vieram os passos apressados dele.

Em seguida…

Thauan e Emerson saíram correndo também.

Os dois disputavam quem alcançaria a porta primeiro.

Até que…

Emerson colocou discretamente o pé na frente de Thauan.

— EI—

PÁ!

Thauan caiu de cara no chão.

Emerson saltou por cima dele.

— Valeu, otário!

Saiu correndo para fora da casa.

Thauan levantou esfregando o rosto.

Olhou para Emerson ao longe.

Sorriu.

— Isso vai ter volta…

E disparou atrás dele como um raio.

Eu nunca imaginei que alguém pudesse correr tão rápido.

Em poucos segundos, ele já estava quase alcançando Ronaldo.

Sorri.

Se ele encostasse no Ronaldo…

Quem iria pegar seria ele.

Mas, quando estava a poucos passos de conseguir…

Thauan mudou completamente de direção.

— Hã?

Ele ignorou Ronaldo.

Seu alvo era outro.

Emerson.

Que estava bem mais à frente, correndo enquanto ria da própria armadilha.

— HA! Nunca vai me alcanç—

Emerson finalmente percebeu.

Olhou para trás.

— …Ah.

Foi tarde demais.

Ele tentou acelerar, mas perdeu aqueles preciosos segundos de reação.

Thauan mergulhou para frente.

Em vez de apenas tocar nele…

Segurou seu braço.

— Peguei você!

Com um puxão, Emerson perdeu completamente o equilíbrio.

— EI, EI, EI—

PÁ!

Os dois foram ao chão.

Mas Thauan ainda não tinha terminado.

Usando as pernas, deu alguns chutes leves atrás dos joelhos de Emerson, só para garantir que ele não levantaria tão cedo.

Emerson ficou esticado no chão.

Completamente rendido.

Thauan cruzou os braços, satisfeito.

— Peguei.

Depois abriu um sorriso debochado.

— Agora tá com você, otário.

E saiu correndo antes que Emerson pudesse responder.

Por alguns segundos…

Houve silêncio.

Então…

— SEU DESGRAÇADO!

Emerson levantou num pulo.

A expressão de cientista renomado havia desaparecido.

Agora existia apenas um homem movido por um único sentimento.

Vingança.

— VOLTA AQUI!

E saiu correndo atrás do Thauan.

Os dois começaram a atravessar a rua em ziguezague, tentando um derrubar o outro enquanto corriam.

Em determinado momento, Emerson quase alcançou Thauan.

Thauan deu uma gargalhada e acelerou ainda mais.

— Nunca mais você me passa rasteira!

— Mas eu nem passei rasteira dessa vez!

— PIOR AINDA!

Os dois foram se afastando cada vez mais.

As vozes deles diminuíam conforme corriam pela rua, discutindo enquanto brincavam.

Eu fiquei parado observando aquela cena.

Depois olhei para Ronaldo.

Ele apenas assistia aos dois com um sorriso tranquilo no rosto.

Como se aquilo acontecesse todos os dias.

Talvez realmente acontecesse.

Sem perceber…

Eu sorri também.

Meu peito parecia diferente.

Leve.

Quente.

Era uma sensação estranha.

Muito estranha.

Mas…

Boa.

Mesmo sem saber onde eu estava.

Mesmo sem lembrar quem eu fui.

Mesmo sem entender por que eu havia morrido…

Naquele momento…

Eu estava feliz.

Pela segunda vez desde que apareci naquele mundo.

Porque, no fim das contas…

Eu tinha conseguido uma coisa.

Uma coisa que eu nem sabia que podia sentir falta.

Uma família.

Pessoas que sorriam.

Que brigavam por besteira.

Que faziam piadas.

Que me acolheram sem fazer perguntas.

Meu corpo parecia muito mais leve.

Como se um peso que eu nem lembrava de carregar tivesse desaparecido.

Fechei os olhos por um instante.

Respirei fundo.

E fiz um pedido silencioso.

Espero…

Que esses momentos nunca acabem.

Quero viver assim para sempre.

Ao lado dessas pessoas.

Brincando.

Rindo.

Criando novas lembranças.

Porque…

Mesmo sem passado…

Eu acho que encontrei um lugar onde posso construir um futuro.

E, naquele instante…

Isso era tudo o que eu mais queria.