02 de fevereiro de 1810

Eu já nem fazia ideia de quanto tempo estava caminhando.

Dias.

Semanas.

Talvez meses.

Depois de tanto tempo, perdi completamente a noção.

A maior parte da viagem eu fazia durante o dia.

À noite, procurava algum lugar escondido para descansar.

Foi nesse longo percurso que descobri mais uma possibilidade do meu Impar.

Eu conseguia copiar…

Movimentos.

Não apenas poderes.

Movimentos também.

Sempre que observava alguém fazendo alguma coisa, podia reproduzir aquilo.

No começo, era desajeitado.

Meu corpo parecia não acompanhar perfeitamente.

Mas, quanto mais eu repetia o mesmo movimento, menos precisava usar meu Impar.

Era como se meu próprio corpo aprendesse.

Como se ele decorasse cada ação.

E, depois de um tempo…

Aquilo passasse a fazer parte de mim.

Achei isso incrível.

Uma das primeiras coisas que aprendi foi pular obstáculos apoiando uma das mãos antes do impulso.

Eu via algum Scar fazendo aquilo ao longe…

Esperava ele desaparecer…

E começava a tentar sozinho.

Caí inúmeras vezes.

Rolei morro abaixo.

Bati em troncos.

Escorreguei em pedras.

Às vezes ficava deitado no chão olhando para o céu, pensando que talvez fosse melhor desistir.

Mas sempre levantava de novo.

No fim…

Valeu a pena.

Agora eu me movia muito melhor pela floresta.

Cada técnica nova aumentava um pouco mais minhas chances de sobreviver.

No geral…

Essa jornada não foi tão ruim quanto imaginei.

Encontrei poucos Scars.

Graças à camuflagem, quase sempre conseguia passar despercebido.

Andava devagar.

Observando tudo.

Escutando qualquer barulho diferente.

Só em situações muito raras alguém chegava a me notar.

E quando isso acontecia…

Eu simplesmente fugia.

Não queria lutar.

Queria apenas continuar andando.

Porque…

Eu sentia.

Cada passo me aproximava mais do chamado.

Algo dizia que ele estava perto.

Muito perto.

E então…

Depois de atravessar uma imensa floresta…

Tudo mudou.

As árvores já não eram mais aquelas de troncos escuros.

Agora seus troncos tinham um tom marrom-claro.

As folhas eram cianas, formando um lugar muito mais iluminado.

Mais bonito.

Mais vivo.

Era estranho.

Depois de tantos anos cercado por paisagens sombrias…

Aquele lugar parecia quase acolhedor.

Continuei caminhando.

Passei entre incontáveis árvores.

Até que…

Vi uma construção.

Ela era gigantesca.

Parecia um castelo.

Mas diferente de qualquer castelo que eu imaginaria.

Não havia torres protegendo seus cantos.

No lugar delas, enormes estruturas lembravam braços sustentando toda a construção.

Ao redor…

Diversos buracos espalhados pelo terreno.

Na frente…

Um enorme portão feito de grades de ferro.

Parei.

Meu coração acelerou.

Era ali.

Eu tinha certeza.

O chamado vinha daquele lugar.

Meu artefato…

Estava dentro daquela construção.

Observei melhor.

Havia dois Scars parados diante do portão.

Guardas.

Permaneciam imóveis.

Atentos a tudo ao redor.

Analisei cada possibilidade.

Escalar?

Impossível.

As paredes eram altas demais.

Entrar escondido?

Também não.

O único acesso era aquele enorme portão.

E os dois guardas estavam exatamente na frente dele.

Suspirei.

Não havia escolha.

Se eu quisesse entrar…

Precisaria falar com eles.

Saí lentamente do meu esconderijo.

Os dois perceberam minha aproximação quase no mesmo instante.

Mesmo assim…

Nenhum deles fez qualquer movimento agressivo.

Apenas acompanharam minha caminhada com o olhar.

Quando parei diante deles, perguntei:

— Oi… vocês poderiam me dizer o que é esse lugar?

Apontei para a construção atrás deles.

Um dos guardas virou apenas a cabeça.

— Isso aqui é o Coliseu do Adverbio.

Coliseu?

Olhei para a estrutura novamente.

— Coliseu?

Ele soltou um suspiro cansado.

— Quer que eu explique o que é?

Assenti imediatamente.

— Sim… por favor.

Aquilo me surpreendia.

Eles não pareciam hostis.

Muito pelo contrário.

O guarda da esquerda resolveu responder.

— Esse coliseu existe para batalhas entre Scars. Os participantes entram na arena e lutam até restar apenas um sobrevivente.

Meu corpo ficou imóvel.

Até a morte…

Ele continuou:

— Quem vence pode escolher um dos artefatos disponíveis como recompensa.

Artefato.

Meu coração deu um salto.

Artefato.

Era essa palavra.

Olhei fixamente para o interior da construção.

— Eu…

Sinto que tem um artefato meu aí dentro.

O guarda da direita deu uma risada.

— Entendi…

Então você é mais um.

Franzi a testa.

— Mais um?

— Nosso chefe coleciona artefatos. Melhor dizendo… ele rouba artefatos. Depois guarda todos aqui dentro.

Meu estômago afundou.

— Se o verdadeiro dono quiser recuperar um deles…

O guarda cruzou os braços.

— Vai ter que entrar na arena e lutar por ele.

Olhei novamente para o castelo.

Então era por isso…

O chamado me trouxe até aqui.

— Mas…

Isso é errado…

O guarda apenas deu de ombros.

— Garoto… você ainda acha que existe certo e errado nesse mundo?

Ficamos alguns segundos em silêncio.

Depois ele deu uma risada sem humor.

— Scarloon já faz tempo que perdeu qualquer ordem.

O outro guarda concordou apenas com um aceno.

Depois perguntou:

— Então?

Vai participar?

Se entrar…

Não tem volta.

Meu coração pesou.

Lutar até a morte…

Não era isso que eu queria.

Nunca foi.

Mas…

Também não fiz toda essa viagem para desistir na entrada.

Fechei os olhos por um instante.

Lembrei de Ronaldo.

De Emerson.

De Thauan.

Respirei fundo.

Quando abri os olhos novamente…

Já tinha decidido.

— Eu vou participar.

Os dois guardas trocaram um olhar.

Em seguida…

Um deles abriu um pequeno sorriso.

— Ótimo.

Ele bateu duas vezes no enorme portão de ferro.

O som ecoou por toda a estrutura.

Logo depois…

As enormes grades começaram a se mover.

CLANG…

O pesado portão se abriu lentamente.

Levantei a cabeça.

Olhei mais uma vez para o céu.

As lembranças da minha família passaram rapidamente pela minha mente.

Sorri de leve.

Então…

Sem hesitar…

Atravessei os portões do Coliseu do Adverbio.


Entrei pelos corredores do Coliseu acompanhado por um dos guardas.

Nenhuma palavra foi dita durante o caminho.

O silêncio daquele lugar era pesado.

Depois de alguns minutos andando, ele parou diante de um enorme portão de ferro.

— É aqui.

Assenti.

Ele simplesmente deu meia-volta e foi embora.

Assim que seus passos desapareceram pelo corredor…

CLANG!

Um enorme gradeado caiu do teto atrás de mim.

O som metálico ecoou por todo o corredor.

Olhei para trás.

Agora não havia mais saída.

A única direção possível…

Era para frente.

Respirei fundo.

Sentei no chão.

Fechei os olhos.

E esperei.

Meu coração batia cada vez mais rápido.

Meu Impar era complicado.

Para copiar o Impar de alguém…

Eu precisava manter contato por cinco segundos.

Cinco segundos.

Em uma luta até a morte.

Se eu não conseguisse tocar em ninguém…

Ficaria praticamente indefeso.

Eu precisava de outro plano.

E a solução mais óbvia apareceu na minha cabeça.

Uma aliança.

Se eu encontrasse alguém disposto a lutar ao meu lado…

Eu poderia copiar seu Impar.

E ainda teria ajuda durante a batalha.

Isso aumentaria muito minhas chances de sobreviver.

Mesmo sendo ágil…

Eu sabia que fugir para sempre não resolveria.

Em algum momento…

Seria obrigado a lutar.

Então precisava usar tudo o que estivesse ao meu alcance.

Porque, se errasse…

Era morte na certa.

Click.

O som da trava fez meus olhos se abrirem.

O portão começou a subir lentamente.

Levantei imediatamente.

Respirei fundo.

E entrei.

A arena era enorme.

Espalhadas pelo terreno havia árvores, pedras de vários tamanhos, moitas e espinhos surgindo em diversos pontos do chão.

Um lugar perfeito para emboscadas.

Ao longe…

Já conseguia ver vários Scars.

Antes que eu pudesse analisar melhor…

Um som estridente ecoou acima da arena.

O sinal.

A batalha havia começado.

Sem perder tempo, corri até um conjunto de pedras.

Depois de tantos anos treinando arremessos…

Pedras tinham se tornado minhas melhores amigas.

Peguei várias delas.

Uma em cada mão.

Outras próximas aos meus pés.

Enquanto observava o campo…

Comecei a ouvir os primeiros sons da luta.

Golpes.

Cortes

Gritos.

Então…

Passos.

Alguém estava vindo.

Me escondi rapidamente dentro de uma moita.

Meu plano era simples.

Esperar alguém quase morrer.

Salvar essa pessoa.

E então oferecer uma aliança.

Depois de dever a própria vida para mim…

Talvez ela aceitasse.

Mesmo sabendo que…

No final…

Um de nós teria que morrer.

Vi um Scar passando bem perto.

Ele não me percebeu.

Continuou andando até encontrar outro participante alguns metros adiante.

Enquanto isso…

Mais ao fundo da arena…

Outros dois já lutavam.

Um usava gelo.

O outro…

Eu ainda não conseguia identificar.

A troca de golpes durou pouco.

Depois de uma sequência de socos violentos…

O Scar do gelo caiu.

O vencedor também não estava inteiro.

Respirava com dificuldade.

Possuía vários cortes espalhados pelo corpo.

Foi nesse instante…

Que o Scar que caminhava próximo de mim entrou em ação.

Ele saltou.

Duas asas surgiram em suas costas.

Não lembravam asas de pássaro.

Eram muito mais parecidas com as de um mosquito.

Ao mesmo tempo…

Um enorme ferrão apareceu apontado para o adversário ferido.

O outro Scar percebeu.

Mas tarde demais.

THUNK!

O ferrão atravessou seu ombro.

Ele caiu imediatamente.

Essa era minha chance.

Saí correndo do esconderijo.

O Mosquito puxou o ferrão para fora.

Por um instante ficou mais lento.

Mas logo recuperou velocidade.

Outro ferrão começou a surgir.

Ele ia terminar o serviço.

Arremessei a pedra.

Anos de treino fizeram diferença.

POW!

A pedra acertou exatamente atrás da cabeça dele.

Seu corpo cambaleou.

Ele virou para mim.

Mas eu já estava perto.

Saltei.

E chutei suas costas com toda a força.

Ele soltou um grunhido.

Nesse momento…

O Scar ferido aproveitou.

Mesmo caído, deu uma rasteira.

O Mosquito perdeu o equilíbrio.

Durante a queda tentou levantar voo novamente.

Não deixei.

Segurei suas asas e puxei com toda minha força.

Ao mesmo tempo…

O outro Scar levantou.

Acertou um soco em cheio no rosto do Mosquito.

Depois segurou seus braços.

Sem dizer uma palavra…

Nós dois puxamos em direções opostas.

Eu pelas asas.

Ele pelos braços.

Então…

RAAASG!

As asas se soltaram completamente.

Caí sentado no chão segurando uma em cada mão.

O Mosquito começou a agonizar.

O outro Scar caminhou até ele.

E começou a chutá-lo.

Uma.

Outra.

Mais outra.

Seu rosto batia repetidamente contra o chão.

Os gritos foram desaparecendo…

Até restar apenas silêncio.

Aquilo foi…

Grotesco.

Quando terminou…

Ele olhou para mim.

Parecia confuso.

Antes que dissesse qualquer coisa, perguntei:

— Você tá bem?

Ele abaixou a cabeça.

— Não…

Depois levantou os olhos.

— Por que você me ajudou?

Sorri sem jeito.

— Porque eu precisava de ajuda.

Ele franziu a testa.

— Isso… não faz muito sentido.

— Eu queria fazer uma dupla com você.

Ele piscou algumas vezes.

— Uma dupla?

Assenti.

— Se eu não tivesse aparecido, você provavelmente morreria. Então pensei… se eu te ajudasse, talvez você aceitasse lutar comigo.

Ele permaneceu calado por alguns segundos.

Depois sorriu de leve.

— Entendi.

Respirou fundo.

— É… faz sentido. Quanto maiores forem minhas chances de sobreviver…

— Então?

Ele assentiu.

— Eu topo.

Sorri.

— Vamos nos esconder e pensar numa estratégia.

Corremos até uma enorme pedra.

Assim que nos escondemos atrás dela, falei rapidamente:

— Vou ser sincero. Minha ideia inicial era esperar todo mundo se matar.

Ele deu uma risadinha.

— Normal.

Continuei.

— Só que eu tenho um problema.

— Pode falar.

Respirei fundo.

— Meu Impar cópia o Impar dos outros… mas eu preciso tocar na pessoa por cinco segundos.

Ele arregalou os olhos.

— Copiar?

— Isso. Então eu queria copiar o seu também. Assim posso lutar ao seu lado.

Ele nem pensou muito.

Estendeu o braço.

— Beleza.

Segurei sua mão.

Ativei meu Impar.

[Nada se cria, tudo se copia]

Cinco segundos.

Pof.

Consegui.

Meu corpo imediatamente compreendeu o funcionamento daquele Impar.

Tempo.

As habilidades eram:

[O Tempo Voa]

Desacelera o tempo ao meu redor.

[Zona Relativa]

Cria um projétil que desacelera aquilo que atingir.

[Sem Tempo, Irmão]

Desacelera um Scar através do toque.

Muito útil.

Antes que eu pudesse testar qualquer coisa…

Ele puxou meu braço.

— Não podemos ficar escondidos muito tempo.

Olhei confuso.

— Por quê?

— Os guardas colocam fogo nas moitas quando alguém fica parado demais.

Arregalei os olhos.

— QUÊ?!

Ele me encarou.

— Você não leu as regras?

— Eu nem sabia que tinha regras!

— Imaginei…

Ele começou a andar.

— Vamos logo.

Saímos do esconderijo.

Enquanto caminhávamos, resolvi perguntar:

— Qual é o seu nome?

Ele olhou para mim.

— Arthur.

Sorri.

— Eu sou Samuel.

Ele soltou uma pequena risada.

— Acho que esse não é exatamente o melhor momento para apresentações.

— Se precisar de ajuda, é só chamar meu nome.

Ele apenas assentiu.

Foi quando avistamos os últimos sobreviventes.

Três Scars.

Ao lado deles…

Mais um corpo.

Um enorme osso atravessava seu crânio.

Olhei rapidamente ao redor.

Todos os outros já estavam mortos.

Restávamos apenas cinco.

Eu.

Arthur.

E aqueles três.

Assim que perceberam nossa presença…

Vieram correndo.

Um deles ergueu a mão.

Vinhas repletas de espinhos dispararam na nossa direção.

Arthur respondeu imediatamente.

Lançou um projétil circular marcado por duas linhas verticais.

Quando acertou as vinhas…

Elas ficaram lentas.

Muito lentas.

Era nossa chance.

Corri direto para o Scar com um enorme rabo de escorpião.

Ele ergueu o ferrão para me atacar.

Ativei imediatamente:

[O Tempo Voa]

O mundo desacelerou.

O ferrão avançava lentamente.

Desviei com facilidade.

Encostei minha mão em seu peito.

Ele tentou outro golpe.

Desviei outra vez.

Usei:

[Sem Tempo, Irmão]

Seu corpo desacelerou completamente.

Quase imóvel.

Voltei à velocidade normal.

Segurei seu corpo.

Precisava copiar.

Um…

Dois…

Três…

Foi então…

Um enorme osso surgiu do chão.

Instintivamente coloquei o braço na frente.

CRACK!

O osso atravessou meu braço.

— AAAAAH!!

A dor quase me fez soltar o Escorpião.

Ao mesmo tempo…

A Scar das vinhas avançou.

Mas Arthur apareceu.

Acertou um soco nela.

Ganhei os segundos que precisava.

Cinco.

Copiado.

Sorri.

Nem precisei pensar.

Já sabia exatamente o que fazer.

Saltei para trás dele.

Ativei:

[Rabão]

Um enorme rabo de escorpião surgiu atrás de mim.

Copiei exatamente o movimento que ele havia usado antes.

[Copia, mas faz melhor]

Copia movimentos.

Meu golpe foi ainda mais preciso.

O Scar dos Ossos ficou completamente imóvel.

Os olhos arregalados acompanharam o próprio companheiro desabar diante dele.

O rabo do escorpião atravessava o pescoço do aliado enquanto o veneno fazia efeito quase instantaneamente.

Ele nem conseguiu reagir.

Apenas caiu.

Sem vida.

O Scar dos Ossos deu um passo para trás.

Por um instante, o medo tomou conta do seu rosto.

Eu não sabia exatamente por quê…

Mas ver aquela expressão me dava uma estranha sensação de satisfação.

Como se alguma parte de mim dissesse que aquilo era o certo.

Não.

Agora não.

Ainda tinha mais uma luta.

Sem desperdiçar um segundo, avancei.

O Scar dos Ossos bateu as duas mãos no chão.

CRACK!

Várias estacas ósseas romperam a terra bem à minha frente.

Uma.

Duas.

Cinco.

Dez.

Uma muralha inteira de ossos cresceu entre nós.

Mas eu já esperava por isso.

Ativei imediatamente o Impar copiado do Arthur.

[O Tempo Voa]

O mundo voltou a desacelerar.

As partículas de poeira pareciam flutuar.

Os pedaços de pedra que caíam dos ossos desciam lentamente.

Até mesmo minha própria respiração parecia silenciosa.

Corri.

Passei entre os espaços daquela muralha antes que ela terminasse de crescer.

Quando o Scar percebeu, eu já estava do outro lado.

— O QUÊ?!

Desesperado, ele ergueu novamente as mãos.

Mais ossos começaram a surgir.

Costelas.

Espinhos.

Lanças.

Tudo tentando me prender.

Mas, naquele estado…

Pareciam árvores crescendo em câmera lenta.

Desviei de cada uma.

Um passo.

Outro.

Mais um.

Cheguei perto o bastante.

Sem pensar.

Copiei exatamente o movimento que havia visto o Escorpião fazer poucos segundos antes.

Meu corpo parecia agir sozinho.

[Copia, mas faz melhor]

O enorme rabo girou por cima do meu ombro.

A ponta atravessou o ar.

E…

CRACK!

Perfurou completamente as costas do Scar dos Ossos.

A ponta saiu pelo seu peito.

Ele arregalou os olhos.

Tentou falar alguma coisa.

Mas nenhuma palavra saiu.

O veneno percorreu seu corpo inteiro.

Seus braços perderam a força.

Os ossos que ainda cresciam começaram a rachar.

Logo depois…

Voltaram lentamente para dentro da terra.

Seu corpo caiu para frente.

Sem vida.

Respirei fundo.

O rabo atrás de mim ainda permanecia ativo.

Mas eu conseguia sentir.

O Impar estava acabando.

Cada segundo consumia aquela energia copiada.

Foi então que ouvi um grito.

— AAH!

Arthur.

Olhei imediatamente.

Ele estava completamente preso.

As vinhas cheias de espinhos envolviam seus braços, pernas e cintura.

Quanto mais ele tentava escapar…

Mais elas apertavam.

Os espinhos atravessavam sua pele.

Marcas vermelhas apareciam por todo seu corpo.

A Scar das Plantas permanecia alguns metros atrás.

Sentada no chão.

Os dois braços estendidos.

Controlando cada uma das vinhas.

Ela nem percebeu que seus dois aliados haviam morrido.

Toda sua atenção estava voltada para Arthur.

Corri.

Assim que ela me viu…

Seu rosto perdeu completamente a cor.

Ela arregalou os olhos.

— Não…

Ela imediatamente mudou o alvo das vinhas.

Todas vieram na minha direção.

Como serpentes.

Silvando pelo ar.

Ativei outra habilidade do Escorpião.

[Beliscar]

As enormes pinças negras surgiram em minhas mãos.

Assim que a primeira vinha chegou…

Eu a agarrei.

Depois outra.

E outra.

As garras seguravam aquelas plantas espinhosas com facilidade.

Mesmo assim…

Os espinhos atravessavam partes das minhas mãos.

Doía.

Muito.

Mas eu não podia soltar.

A Scar aproveitou.

Várias raízes brotaram do chão.

Enrolaram-se nas minhas pernas.

Os espinhos rasgaram minha pele.

Senti uma dor intensa.

Caí de um joelho no chão.

Ela sorriu.

Achando que havia vencido.

Mas não estava olhando para trás.

Arthur já havia conseguido se libertar.

Mesmo coberto de cortes…

Ele correu.

Com toda a força que ainda tinha.

POW!

Seu chute acertou em cheio o rosto da Scar.

Ela foi lançada para trás.

Antes mesmo que pudesse levantar…

Arthur puxou uma das próprias vinhas que a mulher havia criado.

Ela se enrolou ao redor do pescoço dela.

A Scar arregalou os olhos.

Tentou cortar a planta.

Tentou respirar.

Tentou gritar.

Arthur puxou com ainda mais força.

Os espinhos afundaram lentamente.

Rasgando.

Perfurando.

Cada tentativa de escapar fazia o próprio pescoço ser dilacerado.

Os movimentos dela começaram a ficar mais fracos.

Até desaparecerem completamente.

As vinhas perderam toda a força.

Caíram no chão como cordas mortas.

Olhei ao redor.

Silêncio.

A arena inteira estava em silêncio.

Nenhum outro Scar permanecia de pé.

Apenas…

Eu.

E Arthur.

O rabo do Escorpião desapareceu atrás de mim.

As garras também.

O Impar finalmente havia acabado.

Respirei fundo.

Meu corpo inteiro doía.

Meu braço ainda tinha o enorme buraco feito pelo osso.

Os cortes nas pernas e nas mãos queimavam.

Mas…

Nós tínhamos conseguido.

Arthur caminhou lentamente até uma pedra.

Sentou-se pesadamente.

Respirava com dificuldade.

O corpo inteiro estava coberto por cortes.

Alguns profundos.

Outros ainda escorriam aquele líquido vermelho.

Olhei para ele.

Depois para todos os corpos espalhados pela arena.

E percebi.

Só restávamos nós dois.

O silêncio tomou conta da arena.

Pela primeira vez desde o início da batalha, não havia explosões, gritos ou o som de pedras se quebrando.

Apenas nós dois.

Arthur ergueu o olhar para mim.

Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

— Eu acho que… chegou a hora de decidir quem vai viver.

Meu peito apertou.

Era verdade.

Durante toda a luta eu simplesmente… esqueci.

Esqueci que apenas um poderia sair dali.

Abaixei a cabeça por alguns segundos.

— Sim… infelizmente.

Arthur deu uma pequena risada pelo nariz.

— Você… usou meu Impar melhor do que eu.

Olhei para ele.

— É meio estranho ouvir isso.

— Não é estranho… é impressionante.

Ele olhou para as próprias mãos.

— Eu passei anos treinando esse poder…

Depois levantou os olhos novamente.

— E você aprendeu em cinco segundos.

Fiquei sem graça.

— Eu só… copiei o que você fazia.

— Não.

Ele balançou a cabeça.

— Você fez melhor.

Fiquei em silêncio.

Não sabia o que responder.

Arthur apoiou as mãos nos joelhos e tentou se levantar.

As pernas tremeram.

Mesmo assim ele conseguiu ficar de pé.

Respirava pesado.

Muito pesado.

— Samuel…

Olhei para ele.

Seu olhar estava completamente diferente do começo da luta.

Não havia medo.

Nem raiva.

Nem desconfiança.

Só cansaço.

— Se não fosse por você…

Ele deu uma pequena pausa.

— Eu teria morrido umas duas vezes hoje.

Sorri de leve.

— Ah… mas seu Impar também me salvou.

Olhei ao redor da arena destruída.

— Acho que nenhum de nós teria chegado até aqui sozinho.

Arthur acompanhou meu olhar.

Depois fechou os olhos por um instante.

Quando voltou a falar, sua voz estava mais baixa.

— Que bom ouvir isso.

O vento atravessou a arena.

Movendo lentamente as folhas espalhadas pelo chão.

Arthur respirou fundo.

— Mas… acabou.

Meu coração acelerou.

— Um de nós precisa morrer.

As palavras ecoaram na minha cabeça.

Mesmo sabendo disso desde o início…

Ouvir alguém dizer em voz alta era diferente.

Muito diferente.

Arthur deu um pequeno sorriso triste.

— Eu conheço meu estado.

Olhou para os próprios ferimentos.

— Estou todo destruído.

Ergueu o braço.

Ele tremia sozinho.

— Meu Impar acabou.

Depois olhou diretamente para mim.

— Mesmo que eu saísse vivo daqui…

Eu morreria lá fora.

Não tenho mais forças.

Dei um passo à frente.

— Talvez…

As palavras simplesmente não saíam.

Talvez o quê?

Eu não tinha nenhuma solução.

Arthur sorriu de novo.

Um sorriso calmo.

Quase aliviado.

— Então…

Ele respirou profundamente.

— Eu aceito minha morte.

Uma lágrima escorreu pelo seu rosto.

Mas ele continuava sorrindo.

— Só quero te pedir uma coisa.

Fiquei parado.

Esperando.

— Me tira desse mundo… de forma rápida.

Senti um nó na garganta.

Aquele pedido pesava muito mais do que qualquer luta que eu tivesse enfrentado até agora.

Baixei lentamente a cabeça.

— Tudo bem…

Minha voz quase não saiu.

Caminhei até ele.

Arthur não tentou fugir.

Nem levantar a guarda.

Apenas estendeu o braço.

Segurei sua mão.

Ativei meu Impar.

[Nada se cria, tudo se copia.]

Cinco segundos.

O tempo pareceu muito mais longo dessa vez.

Quando terminou…

Eu já podia sentir novamente o poder do Arthur dentro de mim.

Ele soltou minha mão.

Depois caminhou até um espaço vazio da arena.

Deitou lentamente no chão.

Colocou as duas mãos sobre o peito.

Olhou para o céu.

Como alguém esperando alguma coisa.

Fui até uma pedra.

Ela cabia perfeitamente nas minhas mãos.

Quando voltei…

Evitei olhar para o rosto dele.

Eu não conseguiria.

Arthur falou pela última vez.

— Eu não tinha muitos motivos pra continuar vivendo.

Respirei fundo.

Ele continuou.

— Todo mundo que eu amava morreu.

Sua voz falhava.

— Então…

Deu uma pequena risada.

— Espero encontrar eles… no pós-pós-vida.

Fechei os olhos.

Ativei o Impar.

[O Tempo Voa.]

Tudo ao meu redor desacelerou.

Segurei a pedra com força.

E comecei.

Uma vez.

Duas.

Cinco.

Dez.

Não contei depois disso.

Continuei de olhos fechados.

Sem olhar.

Sem pensar.

Até sentir a última fração do Impar do Arthur desaparecer dentro de mim.

Silêncio.

Soltei lentamente a pedra.

Desativei o Impar.

O mundo voltou ao normal.

Respirei fundo.

Mas não tive coragem de abrir os olhos imediatamente.

Quando finalmente abri…

Olhei para o lado oposto.

Não para ele.

Eu queria lembrar do Arthur sorrindo.

Não daquele jeito.

À minha frente…

Os enormes portões do Coliseu começaram a se abrir lentamente.

A batalha havia terminado.

E eu…

Era o único sobrevivente.