Scarloon Samuel I - Herói

3 CAPÍTULO 03 — SOBREVIVÊNCIA




Um lugar desconhecido.

Foi a primeira coisa que percebi quando abri os olhos.

Uma floresta.

Escura.

As árvores possuíam troncos em tons azulados e arroxeados, enquanto as folhas lembravam pequenas chamas espalhadas pelos galhos.

Mesmo sendo dia, pouca luz conseguia atravessar aquela copa densa.

Tudo parecia silencioso.

Estranho.

Quase sufocante.

Olhei lentamente ao meu redor.

— Onde eu tô…?

Não reconhecia aquele lugar.

Minha cabeça ainda estava confusa.

O que tinha acontecido?

A última coisa de que eu lembrava…

Era de copiar o Impar daquele Scar.

Mas…

Qual era aquele Impar?

Fechei os olhos.

Respirei fundo.

Comecei a procurar entre as informações que agora existiam dentro de mim.

Foi então que encontrei uma habilidade.

[Se Matou-se]

Assim que compreendi o que ela fazia…

Meu coração apertou.

Ela…

Ressuscita o usuário quando ele morre.

Fiquei parado.

Tentando entender.

Então…

Eu realmente morri?

Abri os olhos lentamente.

Olhei novamente para aquela floresta.

Mas…

Ainda havia outra habilidade.

Concentrei-me mais uma vez.

[Save Manual]

Ela criava um ponto de renascimento.

Caso nenhum ponto tivesse sido registrado…

O usuário reapareceria em um lugar completamente aleatório do mundo.

Foi isso.

Eu copiei o Impar dele…

E morri logo em seguida.

As duas coisas aconteceram praticamente ao mesmo tempo.

Quais eram as chances disso acontecer?

Olhei em todas as direções.

A floresta parecia não ter fim.

Meu peito começou a apertar.

— Como eu volto pra casa…?

Minha voz saiu quase como um sussurro.

Então outra lembrança veio.

Ronaldo.

Thauan.

Emerson.

Eles…

Eles vão ficar preocupados!

Eles vão achar que eu desapareci!

— Droga…

Comecei a andar de um lado para o outro sem rumo.

Minha respiração ficou acelerada.

Como isso aconteceu?

Todos diziam que morrer em Scarloon era impossível.

Então…

Por que aconteceu comigo?

Por quê?

Minhas pernas perderam a força.

Caí de joelhos.

As lágrimas começaram a escorrer antes mesmo que eu percebesse.

— Eu não entendo…

Minha voz tremia.

— Eu tô sozinho…

Olhei para o chão.

Meu corpo inteiro tremia.

— Eu preciso voltar…

Preciso voltar pra eles…

Apertei os punhos.

— Eu não quero ficar sozinho!

Respirei fundo.

Mas aquilo não era suficiente.

O medo só aumentava.

Até que…

Gritei.

— EU NÃO QUERO!

Minha voz ecoou por toda a floresta.

Depois disso…

Tudo voltou ao silêncio.

Fiquei alguns segundos parado.

Respirando.

Tentando me acalmar.

Não adiantava chorar.

Se eu ficasse parado…

Nunca encontraria o caminho de volta.

Passei a mão no rosto.

Levantei devagar.

Minhas pernas ainda tremiam.

Mas comecei a andar.

Um passo de cada vez.

Ainda existia esperança.

Eu iria encontrar meus irmãos.

Eu tinha certeza.

Ia dar tudo certo.

Foi então que ouvi um barulho.

Vinha da minha direita.

Instintivamente virei a cabeça.

Entre as árvores…

Vi alguém caminhando.

Um Scar.

Meu coração acelerou imediatamente.

Em outra situação…

Talvez eu tivesse ficado feliz por encontrar alguém.

Mas…

A última pessoa que encontrei…

Sorriu para mim.

E logo depois…

Me matou.

Olhei melhor para aquele Scar.

Seu rosto transmitia irritação.

Isso não me tranquilizou nem um pouco.

Sem pensar duas vezes…

Corri até a árvore mais próxima.

Escondi-me atrás dela.

Prendi a respiração.

Talvez…

Ele não tivesse me visto.

Os passos continuavam se aproximando.

Cada vez mais perto.

Meu coração parecia querer sair do peito.

Será que ele ouviu meu grito?

Ele parou.

Bem perto de onde eu estava.

Não sabia o que fazer.

Se eu ficasse escondido…

Talvez ele fosse embora.

Mas…

E se ele resolvesse procurar?

Respirei fundo.

Tentei dar um passo para sair dali.

Naquele instante…

Um clarão atravessou o espaço ao meu lado.

ZAP!

Um feixe de eletricidade passou tão perto que senti o calor em meu rosto.

Nem olhei para trás.

Disparei entre as árvores.

Os passos começaram a acelerar atrás de mim.

Ele estava me perseguindo.

Outro estalo.

A eletricidade voltou a se acumular.

Antes que eu pudesse reagir…

ZAP!

A descarga me atingiu.

Meu corpo inteiro perdeu as forças.

Caí no chão sem conseguir controlar os próprios movimentos.

Tudo doía.

Tentei levantar.

Não consegui.

Logo em seguida…

Senti um peso sobre minha cabeça.

O Scar havia parado ao meu lado.

— O que temos aqui…?

Sua voz carregava um tom de deboche.

— Um pirralho?

Forcei os braços.

— Sai…

…de cima de mim.

Ele soltou uma pequena risada.

— Olha só…

Ainda quer dar ordem.

A pressão aumentou.

— Aprende o seu lugar, moleque.

Você não tá em posição de mandar em ninguém.

Respirei com dificuldade.

Mesmo assim…

Olhei para ele.

— Você…

Tá fazendo maldades…

Por um instante…

Ele ficou em silêncio.

Depois começou a rir.

— Que fofinho.

Nem comecei a me divertir direito.

Depois que aqueles ditadores morreram…

Fiquei muito mais livre.

Aquilo não fazia sentido.

Ditadores?

Do que ele estava falando?

— Sai de cima!

Ele sorriu.

— Quer mesmo?

Então tá.

Foi você quem pediu.

Assim que ele afastou o pé…

Não pensei.

Apenas corri.

Com toda a força que ainda restava.

Eu precisava voltar.

Precisava encontrar minha família.

Precisava…

Voltar para casa.

Continuei correndo sem olhar para trás.

Eu conseguia.

Eu ia conseguir.

Mas…

De repente…

Meu corpo perdeu o equilíbrio.

Caí novamente no chão.

O Scar já estava ao meu lado outra vez.

Era rápido demais.

Ele segurou meu rosto.

Sorriu.

— Mais um.

Meu corpo voltou a ser tomado pela mesma sensação de antes.

Minha consciência começou a desaparecer.

A última coisa que pensei…

Foi…

"De novo…"

E tudo escureceu.


Quando voltei a abrir os olhos…

A primeira coisa que vi foi a mesma floresta.

As mesmas árvores.

As mesmas folhas em forma de chamas.

Mas…

Parecia um lugar diferente.

Ou talvez fosse apenas outra parte daquela floresta enorme.

Demorei alguns segundos para entender.

Então suspirei.

— Morri… de novo.

A lembrança ainda estava fresca.

A perseguição.

O choque.

O medo.

Eu não tinha conseguido escapar.

Mesmo sabendo que havia voltado à vida…

A sensação da morte continuava gravada na minha mente.

Das duas vezes.

Fechei os olhos por alguns instantes.

Morrer…

Era horrível.

Mas aquela segunda morte tinha me ensinado algumas coisas.

A primeira…

Era que eu não podia confiar em ninguém.

A segunda…

Era que eu precisava aprender a me defender.

Porque, se continuasse daquele jeito…

Eu morreria de novo.

E não teria mais como eu reviver…

Até porque o Impar do cara que me matou primeiro já está acabando…

Olhei para o chão.

Tudo aquilo parecia completamente diferente do mundo em que eu vivia com Ronaldo.

O que aconteceu com Scarloon?

Como tudo chegou a esse ponto?

Será que…

Era justamente isso que eles estavam pesquisando antes de me esconderem naquele abrigo?

Meu peito apertou.

E então outro pensamento apareceu.

Tudo isso…

Era culpa minha.

Fui eu quem abriu o alçapão.

Fui eu quem saiu escondido.

Se eu tivesse esperado só mais um dia…

Talvez nada disso tivesse acontecido.

Respirei fundo.

— Eles devem estar preocupados…

Baixei a cabeça.

Muito preocupados.

Eu era um péssimo filho.

Aquela sensação voltou.

A mesma que eu tinha sentido quando ainda não lembrava de nada sobre minha vida.

A sensação de que…

Talvez ninguém tivesse me amado.

Porque…

Quem iria gostar de uma criança que só causava problemas?

As lágrimas voltaram aos poucos.

Mas dessa vez…

Eu não chorei.

Apenas permaneci em silêncio.

Talvez…

Fosse melhor que eles simplesmente me esquecessem.

Seria menos doloroso.

Então outra lembrança veio.

O alçapão.

Eu tinha destruído a entrada do esconderijo.

Aquilo significava…

Que talvez alguém pudesse entrar lá.

Meu corpo gelou.

— Não…

E se algum daqueles Scars encontrasse meus irmãos?

Se isso acontecesse…

A culpa seria minha também.

Fechei os olhos.

Respirei fundo.

Não adiantava pensar nisso agora.

Eu não podia voltar.

Não sabia onde estava.

Não sabia para onde ir.

E também não conseguiria sobreviver andando por aí.

Olhei ao redor da floresta.

Talvez…

O melhor fosse fazer exatamente o que os animais faziam.

Sobreviver.

Esconder-se.

Esperar.

Se alguém aparecesse…

Eu tentaria atacar primeiro.

Não porque queria machucar alguém.

Mas porque…

Eu tinha medo.

Muito medo.

Passei a observar melhor a floresta.

Árvores grandes.

Muitas folhas.

Galhos caídos.

Ali havia bastante material para montar um esconderijo.

Respirei fundo.

— Tá bom…

Vamos tentar.


4 de maio de 1800

Já fazia muito tempo que eu estava naquela floresta.

Nem sabia exatamente quanto.

Mas…

Consegui construir um pequeno abrigo.

Era simples.

Feito com galhos.

Folhas.

E tudo o que eu encontrava pelo caminho.

Também descobri um jeito de ficar mais escondido.

Esfregava folhas azuladas sobre a pele.

Elas deixavam meu corpo com uma coloração parecida com a vegetação ao redor.

Era desconfortável.

Coçava bastante.

Mas funcionava.

Alguns Scars passaram perto dali.

Nenhum deles me encontrou.

Pela primeira vez…

Senti que talvez conseguisse sobreviver.

Até que…

Ouvi passos.

Imediatamente me escondi dentro do abrigo.

Atrás de um monte de folhas.

Prendi a respiração.

Os passos continuavam se aproximando.

Lentos.

Cautelosos.

Depois…

Pararam.

Afastei cuidadosamente algumas folhas.

Só o suficiente para enxergar.

Um Scar havia entrado.

Ele observava tudo com curiosidade.

Olhava para um lado.

Depois para o outro.

Seu olhar acabou parando sobre minha cama improvisada.

Em cima dela…

Havia um embrulho feito de folhas.

Ele caminhou até lá.

Abaixou-se.

Pegou o embrulho.

No instante em que começou a abri-lo…

Eu saí do esconderijo.

Corri com toda a força.

Antes que ele pudesse reagir…

Atingi suas pernas por trás.

Ele perdeu o equilíbrio.

Caiu de joelhos.

Sem desperdiçar a oportunidade…

Acertei seu rosto com a pedra que carregava comigo.

O impacto o fez cair completamente.

Na mesma hora…

Segurei um de seus braços.

[Nada se cria, tudo se copia]

Meu Impar foi ativado.

O Scar recuperou parte dos sentidos.

Tentou reagir.

Antes que conseguisse…

Atingi-o novamente com a pedra.

Ele segurou meu braço com força.

— Maldito…

Eu vou te—

A contagem terminou.

Copiado.

Naquele instante…

As informações surgiram na minha mente.

Era um Impar voltado para disparos.

Entre as habilidades…

Uma chamou minha atenção imediatamente.

[Douze]

Sem pensar muito…

Estendi a outra mão.

Apontei na direção dele.

E usei todo o seu Impar.

O disparo aconteceu.

Vários projeteis laranjas dispararam em seu rosto.

O desfigurando…

Quando tudo terminou…

O Scar já não se movia mais.

Fiquei parado.

Respirando com dificuldade.

Minhas mãos tremiam.

Olhei para elas.

Depois olhei ao redor do abrigo.

Tudo parecia silencioso novamente.

Era a primeira vez…

Que eu matava alguém.

Não sabia quem ele era.

Não sabia por que tinha entrado ali.

Talvez fosse me atacar.

Talvez não.

Levei alguns minutos até conseguir me mover novamente.

Meu corpo ainda tremia.

Não por cansaço.

Nem pelo esforço da luta.

Era outra coisa.

Eu ainda tentava entender o que tinha acabado de acontecer.

Olhei mais uma vez para o Scar caído.

Permaneci em silêncio.

Foi…

A primeira vez que tirei a vida de alguém.

Eu não sabia quem ele era.

Não sabia de onde tinha vindo.

Nem o que realmente pretendia fazer quando entrou na minha cabana.

E eu nunca vou saber.

Mas, depois das duas vezes em que morri…

Eu não conseguia mais acreditar na melhor possibilidade.

Passei a mão no rosto.

Respirei fundo.

— Eu só…

Quero sobreviver…

Aquela frase saiu quase como um sussurro.

Olhei ao redor da cabana.

Havia marcas da luta por todos os lados.

Suspirei.

— Vou ter que limpar tudo de novo…

Depois de algum tempo…

Arrastei o corpo para longe dali.

Já havia percebido que, quando ficavam muito tempo próximos da cabana, começavam a exalar um cheiro desagradável.

Então sempre levava os corpos para bem longe.

Era pesado.

Difícil.

Mas precisava fazer aquilo.

Quando terminei…

Voltei para casa.

Troquei boa parte das folhas que escondiam a entrada.

Apaguei os rastros que consegui encontrar.

E fiquei mais uma vez…

Em silêncio.

Esperando.


5 de agosto de 1801

Mais três Scars apareceram durante esse tempo.

Todos encontraram minha cabana.

E todos tentaram entrar.

Continuei usando a mesma estratégia.

Esperava.

Observava.

E atacava primeiro.

Depois…

Levava os corpos para longe.

Aquela rotina começou a se repetir tantas vezes…

Que eu parei de pensar nela.

Passei apenas a sobreviver.

Sempre escondido.

Sempre atento.

Sempre ouvindo qualquer som diferente.

O Impar que me fazia voltar à vida…

Já havia desaparecido há muito tempo.

Eu sabia disso.

Se morresse outra vez…

Seria o fim.

Então…

Eu não podia errar.

Nunca.


11 de abril de 1802

Matei mais alguns.

Ao todo…

Já eram dez.

Minha cabana também mudou bastante.

Aprendi a escondê-la melhor.

Galhos.

Folhas.

Musgo.

Tudo era colocado de forma que parecesse apenas mais um pedaço da floresta.

Agora…

Quase ninguém conseguia encontrá-la.

E eu torcia para que continuasse assim.

Não queria mais lutar.

Muito menos matar.

Só queria…

Que ninguém aparecesse.


25 de junho de 1803

Desde a última vez…

Foram mais cinco.

Comecei a marcar os dias na parede da cabana.

Não sabia exatamente se a contagem estava certa.

Talvez não estivesse.

Mas…

Era melhor do que perder completamente a noção do tempo.

Acho…

Que estava por volta do dia trezentos e quarenta.

Passava praticamente o dia inteiro deitado.

Escutando.

Observando.

Esperando.

Se alguém se aproximasse…

Meu coração disparava.

Medo.

Era isso que definia minha vida.

Sobreviver.

Era tudo o que eu fazia.


01 de dezembro de 1804

Mais de quinhentos dias haviam passado desde o último confronto.

Acho que…

Quinhentos e vinte e quatro.

Sorri.

Fazia muito tempo que ninguém aparecia.

Isso significava menos medo.

Menos noites em claro.

Menos silêncio quebrado por passos desconhecidos.

Passei a fechar os olhos por mais tempo.

Gostava de lembrar.

Das pessoas que eu amava.

Ronaldo.

Thauan.

Emerson.

As lembranças voltavam uma por uma.

Ronaldo me ensinando coisas sobre o Mundo dos Vivos.

Thauan tentando explicar assuntos complicados de um jeito simples.

Emerson fazendo piadas sem graça…

E depois rindo delas sozinho.

Sorri sem perceber.

— Eu amo vocês…

Minha voz quase não saiu.

Fechei os olhos novamente.

Eles me amavam também.

Mesmo estando tão longe…

Eu sentia isso.

Era como se continuassem ao meu lado.

Me dando forças para continuar.

Respirei fundo.

Olhei para o teto da cabana.

Sorri.

— Vamos brincar…

Me deitei no chão.

Como fazia quando ainda morava com eles.

Esperei.

Por alguns minutos.

Talvez…

Eles aparecessem para me buscar.

Eles vão.

Um dia…

Eles vão.


01 de janeiro de 1805

Naquele dia…

Senti algo diferente.

Era uma sensação estranha.

Um chamado.

Algo…

Que parecia me pertencer.

Levantei imediatamente.

Saí da cabana.

Olhei para o horizonte.

Não conseguia enxergar o que era.

Mas sabia exatamente a direção.

Meu coração acelerou.

Por algum motivo…

Eu tinha certeza.

Se chegasse até lá…

Algo importante aconteceria.

Algo que mudaria tudo.

Fechei os olhos por um instante.

Eu já não tinha quase nada.

Só aquela cabana.

E minhas lembranças.

Mesmo assim…

Senti nascer dentro de mim uma coisa que fazia muito tempo que havia desaparecido.

Um objetivo.

Um rumo.

Um motivo para caminhar.

Sorri de leve.

Sem pensar mais.

Dei o primeiro passo.

Depois outro.

E continuei andando.

Na direção daquele chamado misterioso.

Sem saber o que encontraria.

Mas com a certeza de que…

Minha jornada estava apenas começando.


Notas finais
Esse é do crl