Scarloon Samuel I - Herói
2 CAPÍTULO 02 — COPIA
13 de abril de 1794
Meu primeiro ano em Scarloon passou de forma tranquila.
Aos poucos, fui aprendendo mais sobre aquele mundo.
Thauan me explicou que as três pessoas sentadas naquele enorme templo eram os deuses de Scarloon.
Os Adedonhas.
Segundo ele, eram eles que governavam tudo naquele lugar.
Então eu deveria respeitá-los.
E foi exatamente isso que eu fiz.
…
Scarloon era incrível.
Todos os dias eu descobria alguma coisa nova.
Também fiz alguns amigos quando comecei a brincar no parque.
Eles eram muito legais.
Eu ainda não entendia muito bem o que significava ter amigos.
Mas…
Sempre que estava com eles…
Eu me sentia feliz.
Emerson vivia tirando sarro de mim quando eu pedia um abraço.
— Ah não, lá vem o carente de novo!
Ele reclamava quase toda vez.
Mas, no fim…
Sempre acabava me abraçando.
Resmungando.
Mas abraçando.
Ronaldo também gostava de me contar histórias sobre o Mundo dos Vivos.
Segundo ele…
Lá era muito pior do que Scarloon.
Os humanos sentiam fome.
Sentiam sede.
Podiam adoecer.
Se machucar.
Até morrer.
Já em Scarloon…
Nada disso existia.
Tudo graças aos Adedonhas.
Foi ele quem também me explicou uma palavra curiosa.
"Sangue."
Eu nunca tinha ouvido aquilo.
Perguntei o que era.
Então Ronaldo respondeu:
— É um líquido que todo ser humano tem no corpo. Sem ele, ninguém consegue viver.
Aquilo parecia magia.
Então apenas aceitei a explicação.
Para mim…
Sangue era um líquido mágico que mantinha as pessoas vivas.
Meus irmãos também me mostravam seus projetos.
Thauan pesquisava novas fontes de energia que poderiam existir em Scarloon.
Ele passava horas escrevendo fórmulas e fazendo cálculos que eu não entendia absolutamente nada.
Já Emerson…
Era completamente diferente.
Ele pesquisava minerais.
Condutores de eletricidade.
Máquinas.
Ferramentas.
Sempre havia alguma invenção estranha espalhada pela oficina.
Eu não fazia ideia do que metade daquilo significava.
Mas isso nunca importou.
Porque eram meus irmãos que estavam fazendo.
E eu tinha orgulho deles.
Mesmo que eles demonstrassem carinho de um jeito diferente.
7 de julho de 1798
Foi nesse dia…
Que eu descobri uma coisa sobre mim.
Algo que nem eu sabia que existia.
Ronaldo havia saído para resolver alguns assuntos importantes relacionados ao trabalho.
Segundo ele…
"Coisas complicadas de cientista."
Então fiquei apenas com Thauan e Emerson.
Os dois me chamaram para a oficina.
Assim que sentei na cadeira…
Eles também puxaram duas cadeiras e sentaram na minha frente.
Pareciam sérios.
Thauan começou.
— Samuel…
Você lembra do que é um Impar?
Inclinei a cabeça.
— Impar e par?
Os dois riram.
— Não esse. — Emerson respondeu. — O poderzinho.
— Ah!
Agora fazia sentido.
— Sim! Vocês têm poderes!
Fiquei curioso.
— Mas…
Por que vocês quase nunca usam eles?
Thauan coçou a cabeça.
— Na verdade… eu uso praticamente o tempo todo.
— Ué?
— Meu Impar me deixa mais inteligente. Então ele fica ativo quase sempre quando eu estou estudando.
Olhei para Emerson.
Ele suspirou dramaticamente.
— Não é como se eu tivesse muita utilidade em criar um buraco negro do nada.
— Por quê?
Ele me encarou como se a resposta fosse óbvia.
— Porque destruiria tudo.
Deu de ombros.
— E eu não tô muito afim de acabar com a casa hoje.
Não consegui evitar uma risadinha.
Então Thauan voltou ao assunto.
— Enfim…
A gente queria descobrir qual é o seu Impar.
Meu?
— Meu Impar?
— Isso.
Ele assentiu.
— Normalmente, para despertar um Impar, você precisa entender como morreu.
…
Como eu morri.
Meu sorriso desapareceu.
Baixei um pouco a cabeça.
— Eu…
Não lembro.
Nenhum dos dois pareceu surpreso.
Thauan sorriu de forma tranquila.
— Tá tudo bem.
Apontou para si mesmo.
— Eu também não lembro como morri.
Levantei a cabeça.
— Sério?
— Sim.
Mesmo assim consegui despertar meu Impar.
Isso me animou um pouco.
— Como?
— Primeiro eu fechei os olhos.
Depois comecei a sentir meu próprio corpo.
E, aos poucos, fui entendendo o que era necessário para despertar meu poder.
Meus olhos brilharam.
— Então basta fechar os olhos?
Thauan deu uma risada.
— Não.
Não é tão fácil assim.
Você precisa se esforçar um pouquinho também.
— Ah…
Assenti rapidamente.
— Então eu posso tentar?
— Claro.
Ele sorriu.
— Primeiro…
Fecha os olhos.
Obedeci.
A escuridão tomou conta da minha visão.
— Agora tenta sentir cada parte do seu corpo.
Respira.
Percebe suas mãos.
Seus braços.
Seu coração.
Tudo.
Respirei fundo.
Concentrei toda minha atenção em mim mesmo.
Meus dedos.
Minha respiração.
O ar entrando e saindo.
Meu peito.
Meu coração.
Depois de alguns segundos…
Sorri.
— Acho que consegui essa parte.
— Ótimo.
Agora vem a mais difícil.
Respirei novamente.
— Quero que você imagine um conceito.
Qualquer conceito.
Algo que possa representar seu Impar.
Por exemplo…
"Elementar."
Essa palavra pode representar poderes ligados aos elementos da natureza.
Pensei por alguns segundos.
— Então…
Tenho que pensar em palavras aleatórias?
— Nem tanto.
Tenta imaginar palavras relacionadas a poderes.
Mas de forma mais ambígua.
…
Pisquei.
— O que é ambígua?
Antes que Thauan respondesse…
Emerson levantou a mão.
Todo orgulhoso.
— Eu sei!
Respirou fundo.
— É quando uma palavra ou frase pode ter mais de um significado!
— Ah…
Agora fazia sentido.
Fechei novamente os olhos.
Comecei a pensar.
Elementar…
Criação…
Destruição…
Inovação…
Corpo…
Melhoria…
Transformação…
…
Nada.
Nenhuma sensação.
Nenhuma mudança.
Abri os olhos lentamente.
— Eu…
Não senti nada.
Os dois trocaram um olhar.
Era visível que estavam um pouco decepcionados.
Mas não comigo.
Com a situação.
Emerson foi o primeiro a falar.
— É complicado mesmo.
Ainda mais quando você não lembra como veio parar aqui.
Thauan concordou.
— Relaxa.
Eu também demorei bastante para descobrir meu Impar.
Então pode levar o tempo que precisar.
Sem pressa.
Sorri de leve.
— Tá bom.
E foi naquele dia…
Que eu decidi treinar.
Todos os dias.
Até descobrir qual era meu poder.
7 de julho de 1799
Um ano.
Mais de um ano inteiro.
Durante todos aqueles dias, eu repetia exatamente o mesmo ritual.
Fechava os olhos.
Respirava fundo.
Sentia meu próprio corpo.
E começava a pensar.
Todos os dias.
Pelo menos vinte palavras diferentes.
Às vezes mais.
Muito mais.
Mas…
Nada acontecia.
Thauan, Emerson e Ronaldo tentavam me ajudar sempre que podiam.
Cada um dava ideias de palavras diferentes para eu testar.
Conceitos.
Sentimentos.
Elementos.
Objetos.
Qualquer coisa que pudesse despertar alguma reação.
Mesmo assim…
Nada.
Nem o Ronaldo conseguia ajudar muito nessa parte.
Ele mesmo dizia:
— Na minha época nem existia Impar. Esse negócio apareceu muito depois.
Então ele só conseguia incentivar.
Mesmo sem entender completamente como funcionava.
Mas eu nunca pensei em desistir.
Toda vez que eu ficava desanimado…
Lembrava das palavras do Thauan.
"Você vai conseguir."
Se ele acreditava em mim…
Então eu também precisava acreditar.
Talvez…
Meu Impar fosse apenas muito difícil de encontrar.
E estava tudo bem.
Eu só precisava continuar tentando.
Naquele dia…
Sentei na cadeira da oficina como fazia de costume.
Fechei os olhos.
Respirei fundo.
Meu corpo relaxou.
Comecei outra vez.
Transformação…
…
Nada.
Modificação…
…
Nada.
Efeitos…
…
Nada.
Respirei mais fundo.
Pensei em outra palavra.
Duplicação…
…
Meu corpo inteiro estremeceu.
Foi só um instante.
Um pequeno pulso.
Como se alguma coisa escondida dentro de mim tivesse acabado de despertar.
Meus olhos se abriram imediatamente.
— Eu senti alguma coisa!
Emerson praticamente saltou da cadeira.
— Sério?!
Thauan também se levantou.
— Você descobriu?
Meu coração acelerou.
— Acho que sim!
Sorri sem conseguir esconder a animação.
— Foi quando pensei em…
Duplicação!
Os dois se olharam.
Depois voltaram para mim ao mesmo tempo.
— Caramba…
Thauan abriu um sorriso.
— Então seu Impar deve estar relacionado a duplicar coisas.
Cocei a cabeça.
— Eu…
Acho que sim.
Ainda não tinha certeza.
Mas era a primeira vez que alguma palavra realmente fazia meu corpo reagir.
Só isso já era uma enorme vitória.
Thauan pegou um lápis que estava sobre a bancada.
Colocou-o cuidadosamente na minha frente.
— Segura isso.
Peguei o lápis.
Emerson cruzou os braços.
Sua expressão mostrava uma empolgação difícil de esconder.
— Agora começa a parte prática.
Olhei para ele.
— Parte prática?
Ele assentiu várias vezes.
— Agora que você encontrou a direção do seu Impar…
Você precisa transformar essa energia em uma habilidade de verdade.
Manifestar ela no mundo.
Olhei novamente para o lápis.
Depois para ele.
— Tá…
Mas…
Como eu faço isso?
Tô meio perdido.
— Deixa comigo!
Ele colocou as mãos na cintura.
Era evidente que estava adorando explicar aquilo.
— Primeiro…
Pensa de novo na palavra.
Duplicação.
Mantém ela firme na sua cabeça.
Assenti.
— Depois…
Foca toda a sua atenção nesse lápis.
Esquece todo o resto.
Tenta sentir aquela energia de novo.
E faz ela agir sobre ele.
Respirei fundo.
Olhei para o lápis.
A oficina inteira pareceu desaparecer.
As vozes.
As ferramentas.
Os livros.
Tudo.
Só existia…
Eu.
E aquele lápis.
…
Duplicação.
…
Pouco a pouco…
Comecei a sentir de novo.
A mesma sensação.
Uma energia extremamente leve.
Como se algo dentro do meu peito estivesse despertando.
Ela se movia devagar.
Muito devagar.
Era fraca.
Mas existia.
Meu coração acelerou.
Eu consegui…
Ela estava ali.
Eu podia sentir.
Mais um pouco…
Só mais um pouco…
Foi então que…
Lá do outro lado da oficina…
O rádio fez um pequeno chiado.
Sem pensar…
Olhei na direção do som.
"Será que começou alguma música?"
No mesmo instante…
A sensação desapareceu.
Como fumaça sendo levada pelo vento.
…
Abri os olhos.
Suspirei.
Minha mão afrouxou sobre o lápis.
Nada havia acontecido.
Olhei para os dois.
— Eu…
Falhei de novo.
Antes que eu pudesse abaixar a cabeça…
Senti duas mãos segurando meu rosto.
Era Emerson.
Ele olhava diretamente para mim.
— Ei, pivete.
Sua voz era muito mais gentil do que o normal.
— Calma.
Não precisa ficar se colocando para baixo por causa disso.
Ele sorriu.
— Tá tudo bem.
Logo em seguida, Thauan também falou.
— Você tá evoluindo muito mais do que imagina.
Cruzou os braços.
— Tem Scar que desistiu antes mesmo da primeira tentativa.
Depois apontou para mim.
— Você já conseguiu encontrar a palavra.
Já conseguiu sentir a energia.
Isso já é um avanço enorme.
Fiquei em silêncio.
Pensando naquelas palavras.
Era verdade.
Um ano atrás…
Eu não sentia absolutamente nada.
Agora…
Pelo menos eu sabia por onde começar.
Sorri.
Bem de leve.
Naquele momento…
Eu entendi uma coisa.
Isso não seria fácil.
Provavelmente levaria muito tempo.
Talvez anos.
Mas…
Eu não ia desistir.
De jeito nenhum.
Eu queria descobrir o que meu Impar fazia.
Eu também queria ter um poderzinho.
Assim como meus irmãos.
Eu conseguiria.
Talvez não hoje.
Talvez nem amanhã.
Mas um dia…
Com o mesmo esforço que Thauan colocava em suas pesquisas.
Com a mesma dedicação que Emerson colocava em suas invenções.
Eu despertaria completamente meu Impar.
Era apenas…
Uma questão de tempo.
1º de janeiro de 1800
Eu estava em casa quando a porta se abriu de repente.
Olhei para a entrada.
Era o Ronaldo.
Assim que nossos olhares se cruzaram, percebi que havia algo errado.
Ele parecia… tenso.
Muito mais do que o normal.
Nem chegou a falar comigo.
Passou direto e caminhou rapidamente até a sala de pesquisas, onde Thauan e Emerson trabalhavam.
A porta se fechou logo em seguida.
…
O que está acontecendo?
Foi a única coisa em que consegui pensar.
Fiquei olhando para a porta fechada por vários minutos, esperando alguém sair.
Até que, algum tempo depois, Ronaldo voltou.
Ele respirou fundo antes de falar.
— Samuel…
Sua voz estava calma, mas eu sentia que ele escondia alguma coisa.
— Não sai de casa, tá bom? Espera só mais um pouco. A gente vai pegar algumas coisas e depois vamos passar alguns dias na casa de um amigo meu.
Assenti.
— Ah, tá.
Pensei por um instante.
— Como ele é?
Ronaldo sorriu de leve.
— Você vai gostar dele.
Ele é uma pessoa muito legal.
Sorri também.
— Então tá bom!
Voltei a esperar.
Poucos minutos depois, a porta da sala de pesquisas se abriu.
Thauan e Emerson começaram a sair carregando tudo o que conseguiam.
Bolsas.
Cadernos.
Cabos.
Ferramentas.
Peças metálicas.
Objetos que eu nem sabia para que serviam.
Parecia que estavam desmontando o laboratório inteiro.
Ronaldo olhou para mim.
— Tudo pronto.
Vamos.
Achei aquilo estranho.
Os três pareciam assustados.
Ou talvez…
Estivessem apenas fazendo muita força para carregar tanta coisa.
Eu não tinha nada para levar.
Então saí de mãos vazias.
Assim que deixamos a casa, eles começaram a andar num ritmo muito mais rápido do que o normal.
Mesmo assim…
Corri para acompanhar.
3 de janeiro de 1800
Já faz dois dias que estamos aqui.
E eu continuo sem entender por quê.
Depois de sair da nossa casa…
Viemos para um lugar subterrâneo.
A casa do amigo do Ronaldo.
Ele tinha a cabeça em formato de um trapézio invertido.
Seu nome era Cleber.
Ele era legal.
Mas…
Eu não entendia por que precisávamos ficar escondidos ali.
O pior de tudo…
Era que eu não podia sair.
Nem brincar com meus irmãos.
Nem com o Ronaldo.
Eles passavam praticamente o dia inteiro dentro de uma sala.
Sempre diziam a mesma coisa.
— Estamos ocupados.
Ou então…
— É um assunto importante.
Quando eu perguntava sobre o que estavam trabalhando…
Mudavam de assunto.
Sempre.
Até tentei entrar naquela sala.
Mas eles me impediram.
— Espera só mais um pouco.
— Isso não é assunto para criança.
…
Eu odiava ouvir aquilo.
Eu queria saber.
Queria entender.
Queria sair daquele lugar.
Queria brincar.
Queria voltar para casa.
…
Foi então…
Que senti algo estranho.
Uma energia percorreu meu corpo.
Ela parecia nascer na palma da minha mão.
Levantei lentamente do sofá.
A sensação era diferente de qualquer coisa que eu já havia sentido.
Quase como se estivesse viva.
Naquele mesmo instante…
A porta da sala proibida se abriu.
Cleber saiu de lá.
Assim que me viu, caminhou até mim.
— E aí, pequeno?
Sorriu.
— Tá tudo bem?
Precisa de alguma coisa?
Olhei para minha própria mão.
Aquela sensação continuava.
Era quase um impulso.
Eu precisava tocar nele.
Levantei a mão.
— Pode apertar minha mão?
Ele riu.
— Ué.
Só isso?
Claro.
Assim que nossas mãos se encontraram…
Minha mente foi tomada por uma voz.
[Nada se cria, tudo se copia]
Então…
Uma contagem começou.
Cinco…
Quatro…
Cleber me olhou.
— Tá tudo bem?
Já pode soltar.
Três…
— Não…
Espera.
Dois…
Um…
Zero.
Naquele instante…
Uma onda de energia percorreu todo o meu corpo.
Era como se alguma coisa tivesse despertado dentro de mim.
E, ao mesmo tempo…
Eu simplesmente soube.
Visão.
Sem ninguém me explicar.
Sem precisar pensar.
Eu sabia exatamente qual era aquele Impar.
Era o mesmo do Cleber.
Soltei sua mão imediatamente.
Ele pareceu preocupado.
— Samuel?
O que foi?
Tá passando mal?
Balancei a cabeça.
— Não…
Eu…
Visão.
Ele inclinou a cabeça, confuso.
— Visão?
Quer saber mais sobre meu Impar?
Assenti rapidamente.
— Sim.
Por favor.
Cleber apoiou uma das mãos no queixo.
— Bom…
Eu consigo enxergar a longas distâncias.
Mais ou menos como uma águia.
Também consigo perceber tudo ao meu redor ao mesmo tempo.
Basicamente é isso.
Tudo ao meu redor…
Fechei os olhos por um instante.
Concentrei aquela energia nos meus olhos.
[Olhar Além do Alcance]
Quando tornei a abrir os olhos…
Minha percepção mudou completamente.
Eu conseguia enxergar tudo.
Não apenas o que estava na minha frente.
Mas também o que acontecia ao meu redor.
Era uma sensação impossível de explicar.
Cleber sorriu.
— Tá vendo?
Respondi imediatamente.
— Eu tô vendo igual você.
O sorriso dele desapareceu.
— …Como assim?
Olhei para ele.
— Quando eu toquei em você…
Apareceu uma contagem de cinco segundos.
Depois…
Eu consegui usar seu Impar.
Cleber permaneceu em silêncio.
Pensando.
Então seus olhos se arregalaram.
— Espera…
Você…
Copiou o meu Impar?
Olhei para minhas mãos.
Então…
Era isso.
Meu poder.
Copiar.
Copiar o Impar de outros Scars.
Cleber abriu um enorme sorriso.
— Samuel…
Isso é extremamente poderoso.
Respirei fundo.
Ainda tentando entender tudo aquilo.
— Foi a primeira vez que consegui usar meu Impar.
Ele parecia ainda mais empolgado.
— Eu preciso contar isso pro Ronaldo!
Essa informação é incrível!
Pensei por alguns segundos.
Depois sorri.
— Pode guardar segredo?
Ele piscou.
— Ué?
Por quê?
— Eu queria fazer uma surpresa.
Talvez…
Copiar o Impar de um dos meus irmãos bem na frente deles.
Acho que seria divertido.
Cleber começou a rir.
— Gostei da ideia.
Pode deixar.
Seu segredo tá seguro comigo.
Se precisar de ajuda…
É só falar.
Sorri.
— Obrigado.
Mas acho que consigo sozinho.
Pelo menos tenho alguma coisa para fazer enquanto não posso sair daqui.
O sorriso dele diminuiu.
— Eu sei que tá sendo difícil.
Ainda mais pra alguém da sua idade.
Mas aguenta só mais um pouco.
Logo tudo volta ao normal.
Assenti.
— Espero que sim.
Cleber voltou para a sala de pesquisas.
E eu fiquei sozinho outra vez.
Mas agora…
Pela primeira vez…
Eu finalmente sabia qual era meu Impar.
Copiar.
E mal podia esperar para descobrir até onde aquele poder poderia chegar.
4 de janeiro de 1800
Mais um dia naquele lugar.
Mas, finalmente…
A porta da sala de pesquisas se abriu.
Thauan e Emerson saíram conversando sobre alguma coisa que eu não consegui entender.
Assim que vi os dois, corri na direção deles.
Principalmente do Thauan.
Ele percebeu que eu vinha correndo e levantou a mão para me cumprimentar.
Mas, antes que pudesse falar qualquer coisa…
Saltei nele.
Abraçando-o com toda a força.
Ele deu um pequeno passo para trás com o impacto, mas conseguiu se equilibrar.
— Eita! — disse, rindo. — Tá animado hoje, hein?
Sorri.
— Muito!
Ele apoiou uma das mãos nas minhas costas.
— Aconteceu alguma coisa?
Assenti rapidamente.
— Eu quero mostrar uma coisa que eu aprendi!
Emerson virou a cabeça na nossa direção.
— Ah é?
E o que seria?
Olhei para os dois com um sorriso convencido.
— Eu sei o que vocês estão fazendo naquela sala.
Os dois trocaram um olhar.
Depois Emerson cruzou os braços.
— Duvido.
Se sabe, então fala.
Pensei por alguns segundos.
— Vocês estão fazendo…
Pesquisa.
Os dois riram.
— Certo. — Emerson respondeu. — Mas pesquisa sobre o quê?
— Sobre…
Algo importante.
— Tá.
E esse "algo importante" é o quê?
Sorri novamente.
— Uma coisa que vai ajudar as pessoas.
Os dois começaram a rir ainda mais.
Thauan balançou a cabeça.
— O cara é bom mesmo.
Depois me colocou novamente no chão.
— Tá afim de brincar hoje?
A gente conseguiu tirar alguns minutos de descanso.
Meu coração queria dizer "sim" imediatamente.
Mas…
Eu ainda tinha outro plano.
Então respondi do mesmo jeito que eles sempre respondiam para mim.
— Vocês podem adiar a brincadeira por uns dez minutos?
Os dois me olharam surpresos.
— Sério?
Logo você pedindo pra esperar?
Assenti.
— Tô treinando.
Quero pensar em algumas coisas.
Emerson sorriu.
— Tá ficando paciente, hein?
— Tô tentando.
Thauan deu de ombros.
— Então beleza.
Vai pensando no que a gente brinca depois.
— Pode deixar!
Os dois voltaram para dentro da sala.
Assim que a porta fechou…
Sorri.
Eu tinha conseguido.
Enquanto abraçava o Thauan…
Copiei seu Impar.
E, de alguma forma…
Eu sabia exatamente o que ele fazia.
Talvez fosse uma habilidade do meu próprio Impar.
Ou talvez fosse apenas uma sensação.
Mas eu entendia tudo naturalmente.
As habilidades eram:
[Pensa Rápido]
Permitia pensar durante vários minutos em apenas um segundo do mundo real.
[Chama os Universitários]
Ao observar alguma coisa…
Era possível receber uma espécie de dica sobre ela.
[Calculadora Fria]
Sempre que via algo…
Lembrava automaticamente de tudo o que sabia sobre aquilo.
Além disso…
Eu realmente me sentia diferente.
Como se minha mente estivesse funcionando mais rápido.
Mais clara.
Mais organizada.
Sorri.
— Vamos testar.
Concentrei minha energia.
[Pensa Rápido]
…
De repente…
Tudo parou.
O mundo inteiro parecia congelado.
Nenhum som.
Nenhum movimento.
Era como se apenas meus pensamentos continuassem existindo.
E eu tinha muito tempo para pensar.
Incrível…
Então lembrei da outra habilidade.
"Chama os Universitários."
Se ela realmente dava dicas…
Eu precisava fazer uma pergunta.
Mas qual?
…
Pensa…
Pensa…
Já sei.
"Como eu faço para brincar lá fora?"
Assim que terminei a pergunta…
A resposta surgiu imediatamente na minha mente.
"Alçapão. Plano de fuga."
Alçapão?
Olhei discretamente para o teto.
Era por ali que havíamos entrado.
Então…
Era possível sair.
Meu coração acelerou.
Mas ainda faltava entender como.
Então fiz outra pergunta.
"Qual é o plano?"
Dessa vez…
A resposta foi ainda mais curta.
"Buraco Negro."
"Alçapão."
Só isso.
Franzi a testa.
Buraco negro?
…
Espera.
O Impar do Emerson.
Então…
Eu precisava copiar o poder dele.
Talvez…
Só assim eu conseguisse escapar.
Olhei para a porta da sala.
Sorri.
— Então esse é o plano…
Eu queria sair.
Queria ver o céu de novo.
Queria correr.
Brincar.
Respirar o ar de fora.
Já fazia dias que eu estava preso naquele lugar.
E, por mais que todos estivessem tentando me proteger…
Aquilo parecia uma prisão.
Eu precisava descobrir o que estava acontecendo.
E amanhã…
Eu colocaria meu plano em prática.
5 de janeiro de 1800
Era hoje.
Passei boa parte da manhã esperando.
Quando finalmente meus irmãos terminaram mais um período de trabalho…
Eles começaram a voltar para a sala.
Antes que entrassem, chamei os dois.
— Espera!
Eles olharam para trás.
— O que foi?
Sorri.
— Vocês podem me dar um abraço?
Os dois sorriram imediatamente.
— Claro!
Emerson abriu os braços.
— Vem cá.
Enquanto caminhavam até mim, ele ainda comentou:
— Mas não demora muito, porque o Ronaldo vai reclamar se a gente atrasar.
Abracei os dois ao mesmo tempo.
Fechando bem os braços.
E comecei a contar mentalmente.
Um…
Dois…
Três…
Quando senti que eles iam se afastar…
Apertei um pouco mais.
— Só mais um pouquinho!
Os dois riram.
— Você tá muito carente esses dias.
Thauan respondeu com um sorriso tranquilo.
— Relaxa.
A partir de amanhã a gente resolveu isso.
Inclinei a cabeça.
— Como assim?
— A gente conversou.
Vamos separar um tempo só pra você.
Pelo menos meia hora por dia com cada um de nós.
Meu rosto iluminou.
— Sério?!
— Claro.
Você merece.
Meu coração ficou quentinho.
Mesmo sabendo que eu ainda faria meu plano…
Fiquei muito feliz.
Eles realmente estavam pensando em mim.
Depois de alguns segundos…
Soltei os dois.
— Tá bom.
Agora podem ir.
Já tô satisfeito.
Os dois deram uma risada.
— Até depois, Samuel.
— Se comporta!
Entraram novamente na sala.
Observei a porta se fechar.
E sorri sozinho.
Agora eu também tinha o Impar do Emerson.
Era hora de descobrir como ele funcionava.
Fechei os olhos.
Concentrei-me no novo Impar que havia acabado de copiar.
Quase imediatamente, as informações surgiram na minha mente.
Buraco Negro.
As habilidades eram:
[Super Massivo]
Cria pequenos buracos negros através das mãos. Eles não possuem a força de um buraco negro verdadeiro, mas ainda consomem uma quantidade enorme de Impar.
[Singularidade]
O corpo absorve parcialmente tudo o que entra em contato com ele.
[Horizonte de Eventos]
Permite escolher o que será atraído pelos buracos negros criados.
…
Fiquei alguns segundos parado.
Não tinha entendido praticamente nada.
Franzi a testa.
— Hã…
Ainda bem que eu também copiei o Impar do Thauan.
Ativei novamente uma das habilidades dele.
[Chama os Universitários]
Na mesma hora, fiz uma pergunta.
"O que um buraco negro faz?"
A resposta veio quase instantaneamente.
"Destrói."
Só isso.
"…"
Pisquei algumas vezes.
— Então…
É tipo um poder que explode?
A resposta veio logo depois.
"Não."
Continuei pensando.
Então fiz outra pergunta.
"Como eu uso isso para sair daqui?"
A resposta foi exatamente a mesma de antes.
"Alçapão."
Olhei para o teto.
Então era isso.
Eu precisava usar o buraco negro no alçapão.
Cocei a cabeça.
Aquilo parecia…
Perigoso.
Se realmente destruísse alguma coisa…
O Ronaldo ia ficar bravo?
Talvez muito bravo.
…
Mas…
Eu já tinha decidido.
Eu queria sair.
Queria descobrir por que todos estavam escondendo as coisas de mim.
Queria voltar a brincar do lado de fora.
Respirei fundo.
Não tinha mais volta.
Sorri para mim mesmo.
— Eu vou conseguir.
Levantei do sofá.
Caminhei até a escada presa na parede.
Era ela que levava até o alçapão.
Segurei firme nos degraus e comecei a subir.
Cada passo fazia meu coração bater mais rápido.
Quando cheguei ao topo…
Fiquei de frente para o alçapão fechado.
Ele estava preso por um cadeado.
Respirei fundo.
Estendi a mão.
Concentrei todo o Impar que havia copiado.
[Super Massivo]
Nos primeiros segundos…
Nada aconteceu.
Fiquei olhando para minha mão.
Será que eu tinha feito errado?
Foi então…
Uma pequena esfera escura apareceu diante da minha palma.
Era minúscula.
Mas, no instante em que surgiu…
O cadeado…
As partes metálicas do alçapão…
Tudo foi comprimido violentamente em direção àquela pequena esfera.
CLANCK!
Como se estivessem sendo puxados por uma força impossível de resistir.
Um segundo depois…
A esfera desapareceu.
E junto com ela…
Todo o Impar que eu havia copiado.
Eu conseguia sentir.
Tinha acabado completamente.
Lá embaixo…
Uma pequena bolinha de metal caiu no chão com um som seco.
Olhei novamente para cima.
O caminho estava livre.
…
Meu coração disparou.
Subi os últimos degraus.
E, pela primeira vez em vários dias…
Saí daquele lugar subterrâneo.
A luz iluminou meu rosto.
Uma brisa suave me envolveu.
Sorri sem perceber.
— Finalmente!
Corri alguns metros sem direção.
Depois comecei a dar voltas, rindo sozinho.
Era bom.
Muito bom.
No impulso, me joguei sobre a grama.
Fiquei deitado por alguns instantes.
Sentindo o vento passar.
Observando aquele lugar outra vez.
Era como se eu tivesse recuperado uma parte de mim.
Respirei fundo.
…
Foi então que percebi.
Havia um cheiro estranho no ar.
Diferente de qualquer outro que eu conhecia.
Levantei lentamente.
Olhei ao redor.
O cheiro vinha da direção da cidade.
Da cidade onde eu morava com minha família antes de virmos para aquele esconderijo.
A curiosidade falou mais alto.
Comecei a caminhar naquela direção.
Atravessei algumas ruas.
Mas…
Poucos minutos depois…
Algo começou a parecer errado.
Tudo estava vermelho.
As ruas.
As paredes.
Até as árvores.
Parei por um instante.
Inclinei um pouco a cabeça.
— Ué…
Será que estão reformando a cidade?
Continuei andando.
O mais estranho…
Era o silêncio.
Não havia ninguém.
Nem uma única pessoa.
Enquanto seguia pelas ruas…
Comecei a notar outras coisas.
Casas destruídas.
Árvores quebradas.
Trechos inteiros da estrada afundados.
Olhava de um lado para o outro sem entender.
— Nossa…
A reforma é grande mesmo…
Devem estar trocando tudo.
Sorri sozinho.
— Espero que fique mais bonito que antes.
Continuei caminhando em direção ao centro da cidade.
Na esperança de finalmente encontrar alguém.
E foi então…
Que avistei uma figura parada diante da fonte da praça.
Um Scar.
Meu rosto se iluminou imediatamente.
Finalmente!
Corri até ele o mais rápido que consegui.
Assim que parei ao seu lado, sorri.
— Oi, moço!
Você tá sozinho?
Onde tá todo mundo?
Tá tendo alguma festa em outro lugar?
Ele permaneceu parado por um instante.
Depois…
Virou lentamente a cabeça na minha direção.
Seu rosto carregava um sorriso.
Mas…
Havia algo nele que eu não conseguia explicar.
Mesmo assim, continuei sorrindo de volta.
— Oi!
Ele não respondeu.
Apenas estendeu a mão na minha direção.
Sorri ainda mais.
Achei que ele queria me cumprimentar.
Levantei minha mão também.
Mas, no instante em que nossas mãos quase se tocaram…
Tudo aconteceu rápido demais.
Em um único movimento…
Senti meu corpo sair do chão.
Minha respiração falhou.
Levei alguns instantes para entender.
Ele estava segurando meu pescoço.
Tentei falar.
A voz mal saía.
— O… o que…
…você tá fazendo?
Segurei seu braço com as duas mãos, tentando me soltar.
Mas era como tentar mover uma parede.
O aperto aumentava cada vez mais.
O ar desaparecia.
Meu corpo começava a perder as forças.
Desesperado…
Tive uma ideia.
Se eu tocasse nele…
Poderia copiar seu Impar.
Agarrei seu braço com mais força.
Ativei meu poder.
Um…
A contagem começou.
O aperto aumentou.
Dois…
Minha visão começou a ficar turva.
Três…
Eu precisava aguentar só mais um pouco.
Quatro…
Ele ergueu a outra mão.
Cinco.
Consegui.
O Impar foi copiado.
Mas…
Antes que eu pudesse sequer descobrir qual habilidade havia recebido…
Tudo escureceu de repente.
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