Scarloon Rogério - Escolhido
1 DOIDEIRAS MALUCAS
Era mais um dia de sono tranquilo na minha casinha.
Depois de um dia do caralho…
Eu finalmente teria meu merecido momento de descanso.
…
BOOOOOOM!
Acordei na mesma hora.
Levantei da cama de um pulo depois de ouvir uma explosão.
Na minha casa?!
Saí correndo.
Abri a porta com tudo.
E o que vi na minha frente parecia coisa de filme.
Ou eu estava muito doido de drogas…
…
Se bem que eu não uso nada.
Na minha frente havia um portal.
Verde.
Brilhando como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
Fui me aproximando devagar.
— Rapaz… Isso tá muito estranho… Que diabo é isso?
— RRGGGGGGGGGGG!
Um som estrondoso veio de dentro do portal.
E então…
Algo saiu de lá.
Um ser completamente desfigurado e derretido.
A cabeça era circular e havia uma faixa vermelha atravessando sua testa.
Como tenho amor pela minha vida, saí correndo assim que aquela coisa asquerosa gritou na minha direção.
Corri de volta para casa.
Porém…
Quando olhei para trás…
Ele já estava do meu lado.
…
E eu apaguei no mesmo instante.
Caí no chão com tudo.
…
Não sei por quanto tempo fiquei desmaiado.
Mas, quando acordei…
Minha cabeça estava doendo pra caralho.
Levantei devagar.
Olhei ao redor.
O portal ainda estava ali.
…
Que estranho.
Será que eu sou esquizofrênico?
…
Será que alguém simplesmente injetou substâncias alucinógenas nas minhas veias?
Enfim.
— Preciso pegar minhas coisas e ir trabalhar…
Fui até minha casa.
Não havia sinal nenhum daquela criatura.
Ainda bem.
Abri a porta.
— Se não eu me fo-
Parei.
Na mesma hora, me deparei com um cara dentro da minha casa.
Bem na frente da minha porta.
— TÁ FAZENDO O QUE NA MINHA CASA?!
Gritei com tudo que tinha.
Já preparei um soco na cara do invasor.
Ele recuou um pouco.
Mas, logo depois, pareceu lembrar de alguma coisa.
Seus olhos até pareceram brilhar.
— Espera um pouco… Você se chama Rogério?
…
Coincidência.
Esse é meu nome mesmo.
— É cobrador?
— Não, eu não sou!
Ele respondeu imediatamente.
— Beleza, então sou eu sim.
Ele respirou fundo.
Parecia aliviado por algum motivo que só Deus sabia.
— Ótimo! Preciso que você me siga! Temos que ir para Scarloon agora!
Scarloon?
É nova?
— Que balada é essa? Não sou chegado nisso.
Ele travou por alguns segundos.
Como se tivesse acabado de perceber que estava falando com um completo idiota.
— Que balada o quê! Pessoas dependem de você, então vamos logo!
…
Pessoas dependem de mim?
Quem depende de um cara que mal tem dinheiro para pagar o aluguel?
Mas, olhando para o rosto dele…
Ele estava sério demais para estar brincando.
— Ok, mas lá tem internet?
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Como se não tivesse entendido o que eu tinha acabado de perguntar.
— Uh… Sim!
— Beleza então, vamos. Só deixa eu trancar a porta…
Nem consegui terminar.
Ele passou reto por mim, segurou minha mão e começou a me arrastar.
— SEM TEMPO, IRMÃO!
— Ei, calma!
Ele começou a me levar até o portal verde.
Exatamente o mesmo portal de onde aquele monstro que me apagou havia surgido.
— Ei, que doideira é essa?! É um sequestro intergaláctico?!
Mas, antes que ele pudesse responder…
Assim que estávamos prestes a entrar no portal…
Algo saiu de dentro dele.
Um cara com o cabelo parecendo fogo surgiu do outro lado.
POW!
Nós dois batemos nele com tudo.
Empurrando-o de volta para dentro do portal.
E, logo depois…
Entramos com tudo.
VOSH!
Abri meus olhos.
E o que vi era completamente estranho.
O lugar parecia um túnel.
Um túnel cheio de estrelas por todos os lados.
O espaço ao redor parecia se distorcer.
Era literalmente coisa de filme de viagem no tempo.
Eu não fazia ideia do que estava acontecendo.
Mas estava tudo tão doido que eu nem sabia por onde começar a entender.
Eu estava caindo naquela espiral verde.
Sem saber onde iria parar.
Não sei nem se eu iria parar em algum momento.
Não sei por que aceitei isso.
Não sei por que estava tão tranquilo.
Não sei se desliguei o gás.
Só sei…
Que nada sei.
Depois de alguns minutos…
Talvez horas.
Na realidade, pareciam apenas alguns segundos.
Talvez décadas.
Milênios?
Não faço ideia.
Mas, em algum momento, senti uma luz invadir meus olhos.
E então…
VOWN!
Meus pés tocaram alguma coisa.
Grama.
Só que não era uma grama verde normal.
Era…
Vermelha.
Bem estranho.
Não acho que isso seja algo comum.
Mas eu não tinha muito tempo para pensar nisso.
O cara que havia me arrastado até ali estava na minha frente.
Ele olhava fixamente para algum ponto distante.
Então um grito veio de cima.
— MEU DEUS, EU QUASE ESQUECI!
Ele olhou imediatamente para a direção do grito.
— O desgraçado do Lucas!
— Quem?
Perguntei.
Porque eu não sabia da fofoca.
— Ele é um Scar muito perigoso!
— Scar?
— AHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!
Outro grito.
E, do nada…
Ele apareceu.
Um cara soltando fogo pelas mãos.
Com um sorriso meio estranho no rosto.
Esse devia ser o tal Lucas.
Apontei para ele.
— É esse cara aí?
— MORRE!
Disse o tal do lucas.
Ele levou o braço para trás.
E então…
LANÇOU A PORRA DE UMA BOLA DE FOGO NA NOSSA DIREÇÃO!
— O QUÊ?!
O maluco que havia me trazido até ali ergueu os braços.
Uma energia estranha começou a emanar de seu corpo.
POF!
E foi aí que eu percebi…
Eu tinha acabado de chegar em um lugar onde aparentemente era completamente normal alguém tentar matar você com uma bola de fogo.
…
Eu definitivamente não estava mais em casa.
E, no absoluto nada…
Uma cadeira surgiu na frente dele.
BOOM!
A cadeira foi atingida em cheio pela bola de fogo.
Fiquei olhando para aquilo.
— Que lombra é essa?
Lucas tentou avançar na nossa direção igual a um foguete.
Mas o Cadeira Men reagiu rapidamente.
POF! POF! POF!
Várias cadeiras surgiram na nossa frente, formando uma espécie de barreira.
…
Parece até mentira o que eu tô contando.
Mas eu juro que não é.
FOSH!
Uma explosão atingiu a barreira.
As cadeiras voaram para todos os lados, mas conseguiram segurar o ataque.
Olhei para o cara da caderia, meio desesperado.
— O que a gente faz?!
Ele respondeu com determinação.
— Vamos ter que derrotar ele!
…
Finalmente alguém falando algo lógico.
Lucas não esperou mais.
Avançou envolto em chamas, dando a volta na barreira de cadeiras.
Preparou um soco.
Direto na direção do…
Cara…
Vou chamar ele de Cadeira Men.
Cadeira Men também preparou um contra-ataque.
POF!
Uma cadeira surgiu na frente dele.
Só que Lucas não pareceu se importar.
Ele simplesmente abriu a mão.
FOSHHHHHH!
Um ataque de chamas engoliu Cadeira Men inteiro.
— AAAAH!
Ele foi lançado para trás.
Caindo do meu lado completamente ferido.
Lucas então virou o rosto.
E olhou diretamente para mim.
…
— Fudeu.
Ele avançou.
Como eu não sou exatamente o cara mais poderoso que esse mundo já viu…
Ele facilmente conseguiu agarrar meu pescoço.
Me levantando do chão.
As chamas começaram a se acumular em seu braço.
Ele provavelmente estava planejando me assar vivo.
— Me solta, desgraça!
Fechei o punho.
Mesmo que ele fosse um cara com poderes de fogo…
Ele ainda deveria saber o que é levar um sono no braço!
Então…
Foi exatamente isso que fiz.
POW!
Meu soco acertou seu braço com toda a força que eu tinha.
CRACK!
Lucas gritou de dor.
E me soltou imediatamente.
Caí no chão.
Fiquei alguns segundos olhando para ele.
…
Uou.
O som de alguma coisa quebrando…
Foram os ossos dele?
Antes que eu pudesse entender o que tinha acabado de acontecer…
Cadeira Men passou correndo por mim.
Indo com tudo na direção de Lucas.
POW!
Um soco direto no peito.
Lucas caiu no chão.
E Cadeira Men não perdeu tempo.
POF!
Uma cadeira surgiu no ar.
POF!
Outra apareceu logo depois.
As duas foram lançadas para baixo.
TUM!
Prenderam Lucas no chão.
Então Cadeira Men tirou alguma coisa de…
Seu bolso?
Não faço ideia.
Era um objeto estranho.
Ele aproximou o negócio de Lucas.
Uma aura ciano começou a sair dele.
E cobriu completamente o corpo de Lucas.
O Scar tentou desesperadamente escapar.
Mas não conseguiu.
Seu corpo começou a ser sugado para dentro daquele objeto.
Primeiro as pernas.
Depois a barriga.
O peito.
Os braços.
Até a cabeça.
E então…
Nada.
Lucas simplesmente desapareceu.
Não sobrou nada dele para contar história.
…
— Bah…
Olhei para o objeto.
— Eu quero esse negócio, Cadeira Men.
Ele me encarou com uma expressão séria.
— Fica quieto. Não sabemos se aqui é seguro.
Ele veio até mim e colocou a mão no meu ombro.
— Então fala baixo. Eu tenho que te explicar algumas coisas.
— Ok.
Uma andadinha depois…
Chegamos ao meio de uma floresta.
Cadeira Men se sentou debaixo de uma árvore.
Eu me sentei ao lado dele.
— Deixa que eu te explico as coisas!
— Diga.
— Preciso te dar um contexto sobre tudo que tá acontecendo…
Ele fez uma pausa dramática.
Olhou para mim.
E então completou:
— Sobre esse lugar…
Mais uma pausa.
— Scarloon.
…
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Mas tudo bem.
Provavelmente ele teria alguma explicação lógica para tudo aquilo.
O portal.
Os poderes.
As cadeiras.
O cara de fogo.
Tudo.
Então ele falou:
— Tamo no inferno.
…
…
Com certeza tem alguma explicação lógica.
— EU SAÍ DE CASA DIRETO PARA O INFERNO?!
Ele apenas respondeu calmamente:
— É foda.
…
Esse cara não ajuda em absolutamente nada.
Ele continuou:
— Todo mundo que morreu de um jeito vem pra cá. E agora eles têm uns poderes meio loucos.
— Como assim?
Ele deu um exemplo.
— Vamos supor…
Ele pensou por alguns segundos.
— Se tu morrer afogado, tu ganha o poder de água.
— Hmmmmmm…
Tá.
Faz sentido dentro da lógica desse lugar.
Mais ou menos.
— Enfim, eu recebi uma missão de te encontrar porque isso seria muito importante para esse mundo!
— …Por que eu?
Ele se levantou e começou a alongar as costas.
— Eu não sei.
…
Sério.
Isso só pode ser zoeira.
— Eu nem tenho poderes! Como eu vou ser importante?
Ele apontou para mim.
— Cara, confia. Tu tá duvidando do PROFETA?
…
Respirei fundo.
— NEM SEI QUEM É! CARALHO!
Ele também respirou fundo algumas vezes.
Como se estivesse tentando manter a paciência.
— Ok…
Ele levantou os braços.
— Eu tenho uns negócios pra tu.
Uma aura ciano começou a sair do corpo dele.
POF!
Do nada, dois objetos apareceram.
Um parecia um canudo.
O outro…
Era uma espada irada.
Cadeira Men estendeu os dois para mim.
— Só os artefatos mais brabos pro Escolhido.
Peguei os dois.
Olhei para eles.
Depois olhei para ele.
— Cara…
Parei por alguns segundos.
— EU vou ter que LUTAR?
— Obviamente.
— Hmmm…
Pensei por um momento.
— E se eu me recusar?
Ele respondeu com a maior tranquilidade do mundo:
— Bom…
— Você provavelmente vai morrer.
…
— Então você não tem muita escolha aqui.
Fiz uma cara de choro.
Ele continuou falando como se nada tivesse acontecido.
— Então você vai ter que se esforçar aí.
Apontou para o canudo.
— Quando tu imobilizar ou nocautear seu inimigo, usa isso. Ele vai deixar tu prender o inimigo dentro dele.
Apontou para a espada.
— Daí você pode usar esse aqui para copiar o poder dele. Isso já resolve o problema.
Olhei para os dois objetos na minha mão.
Completamente confuso.
— Putz…
— Testa aí.
PLAU!
Entre nós dois…
Um espinho surgiu do chão.
— Cuidado, Rogério!
PLAU!
Outro espinho apareceu.
Atrás de mim.
— Que por—
Não consegui terminar.
PLAU! PLAU! PLAU!
Vários espinhos começaram a surgir ao meu redor.
E, em poucos segundos…
Fui completamente preso dentro de um enorme muro de espinhos.
…
Ouvi a voz do Cadeira Men do lado de fora.
— Quem é que está nos atacando?!
— EU TÔ PRESO! ME AJUDA A SAIR DAQUI!
Gritei desesperado enquanto chutava os espinhos.
Nada.
Eles não se moviam.
Foi então que tive uma ideia.
Olhei para os dois objetos que ele havia me dado.
O canudo.
E a espada.
Eu não fazia a menor ideia de como usar aquilo.
Mas…
Tinha que funcionar de algum jeito.
Aproximei os dois.
E, no mesmo instante…
VZZZZZZZZ!
Aquela mesma energia ciana surgiu violentamente entre eles.
Como se estivesse procurando alguma coisa.
E então percebi.
Ela estava procurando…
A mim.
A energia veio na minha direção.
VOSH!
E entrou no meu corpo.
Senti aquilo percorrendo minhas veias.
Era quente.
Muito quente.
Uma sensação estranha começou a tomar conta do meu corpo.
Até que…
LÁ ELE!
Eu senti.
Agora eu emanava aquele poder.
CHAMAS!
— AÍ SIM! PORRA!
Levantei os braços.
FOSHHHHHHHH!
Uma enorme quantidade de chamas explodiu para cima.
BOOOOM!
Os espinhos foram completamente destruídos.
Fiquei alguns segundos olhando para minhas próprias mãos.
…
— HAHAHAHAHA!
Eu consegui!
Eu realmente consegui!
Olhei ao redor.
— …
Pera.
— Cadê o cara?
[Cadeira Men]
— Quem é que está nos atacando?!
Assim que gritei…
PLAU! PLAU! PLAU!
Espinhos começaram a surgir nas árvores.
Apontados diretamente para mim.
— Ah, merda…
[Cadeirada] X4
POF! POF! POF! POF!
Quatro cadeiras surgiram na minha frente.
Usei todas como escudo.
Os espinhos avançaram.
CLACK! CLACK! CLACK!
Consegui bloquear.
Mas…
Por algum motivo…
Aquilo gastou uma quantidade absurda do meu Impar.
— Uh?
Olhei para a minha direita.
E então vi.
Um Scar.
Cabeça em formato de triângulo.
Estava completamente machucado.
Sangue.
Feridas abertas.
Mas aquilo não parecia incomodá-lo.
Seu olhar estava fixo em mim.
Um olhar completamente sanguinário.
— Quem é você?
Ele não respondeu.
Apenas se curvou.
E mais espinhos surgiram.
E foram lançados na minha direção.
— Tá bom…
[Cadeirada]
Preparei minha barreira.
Mas…
Algo completamente inesperado aconteceu.
Ele simplesmente avançou.
ZOOM!
Em menos de um segundo, percorreu vários metros.
— O QUÊ?!
Por puro reflexo…
[Cadeirada] X8
Oito cadeiras surgiram.
Ele fechou o punho.
E acertou um soco nelas.
POW!
As cadeiras simplesmente evaporaram no impacto.
E a força do golpe me lançou para trás.
— GHH!
Tossi sangue.
PEC!
Antes que eu pudesse recuperar o equilíbrio…
Algo agarrou minha cabeça.
Olhei para cima.
Era ele.
O Scar dos espinhos.
Sem fazer praticamente nenhum esforço…
Ele me lançou para longe.
VOSH!
Meu corpo voou pelo ar.
— CARALHO!
A força daquele cara era descomunal!
E, enquanto eu ainda estava no ar…
Mais espinhos vieram na minha direção.
— [Cadeirada]!
POF! POF! POF!
Mais cadeiras.
Mais escudos.
Mais ataques.
Mais cadeiras.
Até que finalmente comecei a me aproximar do chão.
Consegui girar meu corpo.
E, com uma jogada de corpo perfeita…
TUM!
Aterrissei.
— Ufa…
Não tive nem tempo de respirar.
PLAU!
Mais espinhos vieram na minha direção.
[Cadeirada]!
Bloqueei novamente.
Mas então…
ZOOM!
Algo veio pela minha esquerda.
Ele.
Avançando com tudo.
No lugar de sua mão…
Havia um espinho.
Um enorme espinho apontado diretamente para minha cabeça.
Não dava tempo.
Eu não conseguiria desviar.
Não conseguiria criar uma cadeira.
Não conseguiria fazer absolutamente nada.
…
— Ferrou.
FOSHHHHHHHHHHHH!
Uma enorme onda de chamas atingiu o Scar em cheio.
BOOM!
Sua investida foi interrompida.
Olhei para cima.
E vi alguém descendo.
Rogério.
Ele pousou com tudo.
Punho preparado.
— ROGÉRIO!
POW!
Seu soco atingiu o chão.
…
Mas não o Scar.
O inimigo havia desaparecido.
Rogério ficou olhando para o local vazio.
— Cadê ele?
Ele olhou para mim.
— Quem é ele?
— Toma muito cuidado! Ele invoca espinh—
VRAU!
Um espinho surgiu do chão.
E acertou meu braço em cheio.
— AH!
Meu corpo travou.
Senti a dor imediatamente.
Rogério apenas me olhou.
E então pareceu perceber alguma coisa.
Ele pulou para trás.
VRAU!
Uma parede inteira de espinhos surgiu exatamente onde ele estava.
— Boa!
Enquanto dava a volta, Rogério viu algo.
Atrás de mim…
O cabeça de espinhos estava parado.
Com a mão levantada.
— Rogério…
VRAU! VRAU!
Dois espinhos surgiram.
E perfuraram minhas pernas.
— AHHH!
Meu corpo perdeu completamente o equilíbrio.
O Scar então apareceu na minha frente.
Sua mão começou a se transformar.
Um espinho enorme cresceu.
Ele estava prestes a atacar novamente.
Mas Rogério não deixou.
— [Chamas]!
FOSHHHHHHHHHHHHHH!
Uma enorme rajada de fogo foi disparada.
Atingindo a parte superior do corpo do Scar em cheio.
As chamas cobriram tudo.
— Boa, Roge—
Não consegui terminar.
O Scar simplesmente atravessou as chamas.
Sem parar.
Sem sequer demonstrar medo.
Sua mão se estendeu na minha direção.
— Não…
VRAU!
Um espinho surgiu.
E perfurou meu peito.
SPLASH!
Sangue começou a escorrer.
E, naquele instante…
Rogério aumentou a intensidade das chamas.
FOSHHHHHHHHHH!
Mais fogo.
Mais calor.
Mais chamas.
Mas nada.
Ele não parava.
O Scar sequer parecia se importar.
Apenas moveu o braço para o lado.
RASG!
Meu ombro foi atingido.
E meu braço esquerdo foi arrancado de uma vez.
…
Meu corpo caiu.
Os espinhos desapareceram.
E eu desabei no chão.
Rogério ficou completamente parado.
Sem saber o que fazer.
O cara que havia trazido ele até aquele mundo…
O cara que tinha acabado de explicar tudo…
O cara que, até poucos minutos atrás, parecia saber exatamente o que estava fazendo…
Estava completamente destruído.
Por um Scar aleatório.
Rogério olhou para mim.
Depois olhou para o inimigo.
E algo dentro dele pareceu mudar.
Ele entendeu.
Não precisava agir apenas por mim.
Se não fizesse alguma coisa…
Ele seria o próximo.
Rogério ergueu os braços.
As chamas começaram a se acumular atrás de seu corpo.
Uma enorme esfera de fogo começou a se formar entre suas mãos.
Seus olhos ficaram fixos no inimigo.
— …
Ele respirou fundo.
— Tá.
A bola de fogo cresceu.
FOSHHHHHHHHHHHH!
[Rogério]
Lancei nas costas dele.
FOSH!
Só que ele nem olhou.
Apenas se abaixou, deixando a bola de fogo passar por cima de sua cabeça.
Mas eu já estava correndo na direção dele.
E, quando cheguei perto…
FOSH!
Uma bola de fogo explodiu contra sua cabeça.
E logo em seguida, um soco acompanhado por mais chamas!
FOSHHHHHHHHHHHHHHHHH!
Queimei suas costas inteiras.
…
PEC!
Uh?
Quando olhei melhor…
Na realidade, não havia quase nenhum sinal de que aquele ataque tivesse funcionado.
Ele simplesmente virou o corpo e segurou meu pescoço.
Me levantando do chão.
De novo isso.
Mais um cara fazendo isso comigo.
Tá ficando chato!
Ele começou a levantar o braço.
E, olhando melhor para ele, percebi uma coisa.
O cara estava completamente fudido.
Quase em estado terminal de tantos ferimentos.
Mas, mesmo assim…
Ele ainda conseguia me segurar como se eu não fosse nada.
Então pensei.
Queimar ele não está adiantando.
Então…
Eu me fudi.
Desisti completamente.
Não havia salvação.
No final das contas, eu não era escolhido porra nenhuma.
Eu só fui arrastado para esse mundo sem nenhum propósito definido.
Não sou o protagonista de um anime que vai conseguir derrotar todos os inimigos e superar todas as barreiras que o universo joga contra ele.
Eu sou só o Rogério.
O cara que ia ser despejado porque os caras iam destruir minha casa para construir a porra de um shopping.
Devendo até para o meu sobrinho!
Então que se foda.
Eu ia morar embaixo da ponte de qualquer forma.
Talvez fosse melhor simplesmente desistir.
…
— [SOCA]!
Uma voz gritou dentro da minha cabeça.
E, no mesmo instante…
Meu corpo se moveu.
Meus músculos se contraíram.
Meu braço se levantou.
Eu senti aquela mesma energia ciana percorrendo todo o meu corpo.
Mas, dessa vez…
Era diferente.
Ela estava indo para o meu braço.
Se concentrando.
Acumulando.
Carregando.
Cada vez mais.
Eu normalmente desisto fácil.
Mas…
Se o universo queria tanto assim que eu tentasse…
Então eu ia tentar.
Disparei meu punho direto na cara daquele vacilão!
POOOOOOOOOOOOW!
O soco foi tão forte que fez o cara recuar quase dois metros.
Ele me soltou na mesma hora.
TUM!
Caí no chão.
Ele nem pareceu reagir ao golpe.
Apenas levantou a mão.
Invocando vários espinhos no céu.
Todos vindo diretamente na minha direção.
— [SOCA]!
Novamente, aquela voz invadiu minha cabeça.
E eu obedeci.
Os espinhos começaram a descer.
E eu dei um soco no ar.
Mesmo estando longe.
…
Só que algo completamente absurdo aconteceu.
TUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUM!
Uma enorme onda de choque explodiu da minha mão.
Atravessando o espaço entre nós.
Indo diretamente na direção do cabeça de espinhos.
E acertando ele com tudo!
BOOOOM!
Seu rosto foi esmagado pelo impacto.
Seu corpo inteiro foi lançado para longe.
E, junto com ele, todos os espinhos que havia criado foram destruídos.
Só que o mesmo aconteceu comigo.
A força do golpe também me lançou para o lado oposto.
No meio do ar, ainda consegui falar:
— Isso foi ira—
TUM!
Minhas costas bateram contra uma árvore.
— AAAAAI!
Senti minhas costas arderem.
— Cara… Isso doeu muito…
Me levantei com dificuldade.
E olhei para o Cadeira Men.
Ele estava caído.
Completamente ferido.
Uma poça de sangue se espalhava ao redor dele.
Meu coração apertou.
— Cadeira Men…
Fui andando até ele.
Cada passo parecia mais pesado que o anterior.
Quando cheguei perto, me agachei e segurei seu rosto.
— Pela mor de Deus…
Minha voz tremia.
— FICA VIVO!
Ele apenas deu uma risada fraca.
— Heh…
Sua voz mal conseguia sair.
— Nem adianta tentar me salvar… Eu já tô fadado a morrer…
— Não!
Balancei a cabeça.
— Não se vá, Cadeira Men!
As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
Ele franziu a testa.
Mesmo naquela situação.
— Meu nome é Flavio, porra…
Soltei uma pequena risada entre as lágrimas.
— Flavio… Aguenta aí!
Ele fez uma expressão irritada.
— É fácil pra você dizer quando não é você que tá com cinco buracos no corpo!
Ele tossiu.
Depois respirou fundo.
— Mas…
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
— Fez um bom trabalho arrebentando aquele cara…
Olhei para ele.
— Eu já cumpri meu propósito…
— Não.
Minha voz saiu baixa.
— Você não vai morrer.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Então levantou os olhos.
— Olha pra cima…
Olhei.
E meu coração congelou.
VRAU!
Oito espinhos desceram do céu.
Diretamente na direção dele.
— Nã-
Eu tentei me mover.
Tentei fazer alguma coisa.
Qualquer coisa.
Mas não consegui.
E a última coisa que ouvi da boca dele foi:
— Adeus, Escolhido…
RASG!
Os espinhos desceram.
…
Fiquei parado.
Sem conseguir dizer nada.
O cara que tinha me trazido para aquele mundo…
O cara que tinha me chamado de Escolhido…
O cara que tinha acabado de me ensinar tudo aquilo…
Não estava mais ali para falar comigo.
E então eu olhei para frente.
O cabeça de espinhos estava vindo.
Andando devagar.
Arrastando uma das pernas.
Ele ainda estava vivo.
Ainda estava tentando lutar.
Enquanto caminhava na minha direção, criou mais um espinho em sua mão.
Mas eu não senti medo.
Não dessa vez.
Apenas caminhei até ele.
Um passo.
Depois outro.
Nós nos aproximamos.
Ele levantou o braço.
O espinho estava apontado diretamente para mim.
Mas, assim que cheguei perto…
POW!
Dei um soco de cima para baixo em sua cabeça.
Seu corpo despencou contra o chão.
TUM!
O impacto quebrou a terra ao redor.
Ele soltou alguns grunhidos de dor.
E, mesmo caído, ainda conseguiu perguntar:
— Como você tem tanta força?
Peguei o canudo.
— Saiba que você só me derrotou porque eu saí de uma das minhas piores lutas!
SWIT!
PLEC!
Seu corpo foi absorvido pelo canudo.
Fiquei olhando para o objeto por alguns segundos.
— Uai…
Suspirei.
— Foda-se.
Peguei a espada.
— Tu perdeu, otário.
Juntei os dois.
Novamente, aquela energia ciana surgiu.
Ela percorreu meu corpo.
Entrou em mim.
E mais um poder foi adquirido.
…
Só que não aconteceu do jeito que eu imaginava.
Fiquei parado por alguns segundos.
Olhando para minhas mãos.
Depois olhei para o lugar onde Flávio estava.
…
Nada.
Nenhuma voz.
Nenhuma piada.
Nenhuma explicação absurda.
Só o silêncio.
Dei uma longa respirada.
E olhei para a floresta ao meu redor.
Eu não fazia ideia de onde estava.
Não sabia para onde ir.
Não sabia por que tinha sido trazido para aquele lugar.
Não sabia nem o que significava ser o tal “Escolhido”.
Mas, pela primeira vez desde que cheguei em Scarloon…
Eu sabia de uma coisa.
Eu to fodido.
Olhei para a espada em minhas mãos.
Depois para o canudo.
— Tá…
Engoli em seco.
— E agora?
Silêncio.
Olhei novamente para a floresta.
— Onde eu vou?
Essa era a pergunta que reinava na minha cabeça.
…
Ah, e se estiver se perguntando por que eu superei a morte do Flávio tão rápido…
É porque eu sou assim mesmo.
Não me deixo abalar por essas coisas.
Sou mais forte que isso…
Ou talvez eu simplesmente não consiga me importar de verdade com um cara aleatório que eu conheci há menos de uma hora.
Ele me defendeu.
E eu sou grato por isso.
Mas não vou ficar me lamentando e choramingando por ele a todo momento.
Isso não é comigo.
Então é melhor eu só sair andando mesmo.
Vai que eu encontro alguma coisa legal…
Hm…
Eu realmente não sei o que fazer…
— [Não?]
— Não sei, cara…
Espera.
Que?
— Quem disse isso?
— [Eu, pô.]
— EU QUEM?!
Olhei ao redor.
Nada.
Ninguém.
Era a mesma voz dentro da minha cabeça.
…
Eu tô ficando doido?
— [Eu tô na sua mente!]
…
— E como é que tu entrou aí?
— [Cara, eu acho que eu te possuí…]
— COMO ASSIM?!
Desde quando?!
Ele começou a se explicar.
— [Olha, eu tava descontrolado, meu corpo estava se mexendo contra a minha vontade, aí eu meio que te possuí sem querer…]
— Mas…
Parei por alguns segundos.
— Como é que isso funciona?
Fiquei olhando para minhas próprias mãos.
— Tu consegue ler meus pensamentos?
— Controlar meu corpo?
— [Eu consigo dar alguns sinais no seu corpo. Tipo mover um braço ou usar meu Impar em alguma parte do seu corpo.]
— [Também consigo enxergar tudo ao seu redor em 360 graus.]
…
— Então tu tá literalmente dentro da minha cabeça?
— [É.]
— Isso é muito bizarro.
— [Eu ainda não sei como “mexer” na sua mente, mas calma. Eu não vou fazer nada que te cause mal.]
— Tá, mas…
Parei novamente.
— Você consegue me despossuir?
— [Não que eu saiba!]
…
Silêncio.
— COMO ASSIM “NÃO QUE EU SAIBA”?!
— [Calma! Eu ainda tô tentando entender o que aconteceu.]
Ele pareceu dar uma respirada dentro da minha própria mente.
Não sei como isso é possível.
E sinceramente…
Nem quero saber.
— [O que eu posso fazer agora é falar na sua mente.]
— Tá…
Me sentei no chão.
— Mas e aí, qual é o seu nome?
— [Meu nome?]
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— [Meu nome é Jorge.]
— Jorge?
— [Sim.]
— E o que você fazia antes de me possuir?
— [Bom… É uma longa história.]
Ele fez uma pausa dramática.
— [Mas tudo começou…]
E então ele começou a contar sua história de vida.
Sendo bem doida.
Tipo…
Muito doida.
Talvez isso renda algum tipo de One Shot para ele no futuro.
Só que, por enquanto, não era muito útil para a minha história.
Que estava prestes a começar.
Porque agora eu tinha um mundo inteiro para explorar.
Um mundo completamente desconhecido.
Cheio de poderes.
Scars.
Impares.
Artefatos.
E aparentemente…
Uma pessoa dentro da minha cabeça.
…
É.
Minha vida ficou complicada pra caralho.
Mas quer saber?
Foda-se.
Depois dessa introdução longa e cheia de maluquices doidas…
Eu finalmente poderia explorar esse mundo.
O Mundo de Scarloon!
E, quem sabe…
Finalmente fugir da Receita Federal!
VAMO!
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