1 dia depois

Depois de conversar com Rafael, ele nos deu permissão. Afinal, ele me devia um favor após eu matar a Rainha do Sangue.

Escolhi um local do coliseu a céu aberto. Ainda estava de dia. Árvores por toda parte. Um lago tranquilo, refletindo o céu. Bem bonito, por sinal.

E neste momento, eu ensinava o básico para Samara sobre o Impar.

— O Impar é a nossa energia — expliquei. — Com ela, podemos usar nossos poderes…

Ela parecia bem atenta.

— …Nosso Impar é definido assim que morremos. Dependendo de como você morreu, seu Impar muda. Sua morte está ligada ao seu poder.

Usei a mim mesmo de exemplo.

— Meu Impar é Doença. Consigo manifestar doenças no meu corpo e usá-las como habilidades.

Criei o muco. Estiquei com as mãos, formando uma corda.

— Assim!

Samara parecia intrigada com meu Impar. Seus olhos acompanhavam o movimento do muco.

Não vi uma expressão de nojo — como eu estava acostumado.

— Que… maneiro… — ela disse baixinho.

— Mas não é só isso. Eu também consigo manifestar doenças em outros Scars. Ou seja, posso te deixar com dor de cabeça, por exemplo…

Ela continuava intrigada. Seu rosto parecia expressar admiração.

— …E por fim, eu consigo intensificar essas doenças, deixando-as mais fortes ou mais fracas, dependendo da utilidade.

Fiz uma pausa.

— Mas em resumo… sabe o que tudo isso que eu disse significa?

— O quê?

— Que o seu Impar não é só de ficar invisível. Ainda existem duas habilidades que você não desenvolveu.

Ela olhou para as próprias mãos.

— Mas eu… não sei quais são. Eu só fiquei invisível por causa do medo e por puro instinto. Não sei como fiz isso.

— Tá tudo bem. Pode acreditar, não é tão difícil. É só pensar um pouco sobre o seu Impar. Se você souber mais sobre ele, consegue pensar em como usá-lo de outras formas além dessa.

Ela olhou para o céu.

E lentamente, vi sua forma ficando translúcida.

Ela sumiu na minha frente.

Uma coisa estranha: eu sentia que ela estava ali, mesmo sem ver. Quase instintivo. Eu sentia a presença dela.

— Vou tentar algo que me parece óbvio — sua voz veio do vazio. — Se eu posso ficar invisível, então… Ela pegou uma pedra do chão.

— …talvez eu consiga.

Senti seu Impar se concentrando na pedra. A energia azulada a revestiu como uma película de vidro.

E lentamente, a pedra foi ficando transparente.

Fiquei surpreso. Mas fazia sentido. Se ela consegue ficar invisível, também consegue deixar coisas invisíveis.

Depois de uns vinte segundos, a pedra ficou totalmente invisível.

— Leandro! — sua voz saiu eufórica, mas ofegante. — Eu consegui!

— Sim. Parabéns. Essa habilidade é bem útil em questão tática. Tal—

Antes que eu pudesse terminar, Samara ficou visível novamente. A pedra também.

Seu rosto estava suado. Ela parecia ter esgotado toda a energia.

— Eu consegui… — repetiu, ofegante.

Antes que ela pudesse cair, eu a segurei.

Ela parecia realmente mal agora.

— Você gastou toda a sua energia, né?

Ela abriu os olhos. Sua voz saiu cansada:

— Sim… Percebi que não consigo ficar invisível por muito tempo. No máximo uns quatro minutos. Usei mais energia do que uso para deixar a pedra invisível. Isso sugou todo o meu Impar.

Não podia julgar. Eu tive muito mais tempo para aprimorar meu Impar. Tinha bastante energia comparado a vários Scars.

Ajeitei Samara e a escorei em uma árvore.

— Descansa. Confia em mim. Você não quer ficar sobrecarregada usando seu Impar demais.

Ela me olhou com curiosidade.

— O que acontece quando sobrecarregamos?

Suspirei.

— Dependendo do seu Impar, acontecem coisas diferentes. Já vi Scars que pegaram fogo, ficaram sem ar… até ficaram com os membros amarrados por cordas.

— Que maluquice.

— A sobrecarga é quando você usa mais Impar do que pode. E a consequência é você ser afetado pelo seu próprio poder.

Ela me olhou com espanto.

— Você… já ficou sobrecarregado?

— Algumas vezes. Depois da batalha contra alguns Scars, senti as doenças que usei me afetarem. Febre alta. Gripe. Catarata… Ela me olhou com preocupação.

— Isso parece horrível. Espero que…

Engasgou nas próprias palavras.

— …que você não passe por isso de novo.

Meu coração apertou.

— Ah, relaxa, Samara. Eu não fico sobrecarregado com frequência. Só quando eu realmente tenho que enfrentar, sei lá… dez Scars fortes ao mesmo tempo.

Seu olhar pareceu mais aliviado.

— Que bom. Deve ser horrível sentir isso. — Ela olhou para as próprias mãos. — O que será que acontece quando eu fico sobrecarregada?

— Não faço ideia. Invisibilidade não é algo que eu manjo muito.

Ela se levantou com dificuldade. Disse timidamente:

— Eu quero treinar mais. Vou poder usar meu Impar de forma mais eficiente e cuidar de mim mesma. Prometo que não vou tomar mais seu tempo.

Essa garota realmente se importa em não depender dos outros.

Gosto disso. Apesar de ser tímida, ela tem força de vontade. E parece ser uma boa pessoa.

Não me importo de treiná-la e achar seu Artefato.

Se ela conseguir se proteger, fico feliz.

Que coisa brega, hein? Kkkkk.