[Leandro]

Depois de correr por mais três minutos, finalmente cheguei ao coliseu.

Meu corpo estava quente. Aquele veneno não só me paralisou — também sugou todo o meu Impar. Usei mais do que podia. Estava sentindo que eu estava…

Sobrecarregado.


[Samara]

Enquanto Leandro me carregava, ele começou a desacelerar.

— Leandro?

Ele simplesmente parou.

Senti seu corpo muito quente.

Queimando de quente.

Saí de suas costas. Ele caiu no chão.

— Leandro!

Segurei seus ombros. Ainda estávamos a uns cem metros do coliseu.

Segurei ele nas minhas costas. Comecei a carregá-lo.

Ele é muito pesado.

Mas não vou desistir agora.

Ainda estou devendo uma para ele.


[Leandro]

Não sei quanto tempo fiquei desacordado.

Senti minha pele quente. Queimando.

— Ugh…

Mal conseguia me mexer.

Abri os olhos.

Um rosto olhava para mim de perto.

Samara.

— Ainda bem que você acordou — ela disse, aliviada. — Como está se sentindo?

— Bem mal.

Olhei ao redor. Estávamos no campo de treinamento. Minha cabeça estava no colo de Samara, que tinha um olhar de preocupação.

— Acho que usar febre no máximo por três minutos direto não fez bem para meu corpo — tentei rir. — Kk.

Tentei me mexer com dificuldade. Cada movimento fazia meus músculos doerem.

— Ei… — ela colocou a mão no meu peito. — Não se esforça tanto. Não precisa bancar o forte agora.

Bancar o forte? Eu?

— Nunca fiz isso.

Ela deu um sorriso.

— Só descansa.

Olhei para ela.

Parecia estar bem cansada também. Ainda tinha vergonha de olhar nos meus olhos — até agora não me encarou uma vez.

Olhei para o céu, que já começava a escurecer.

— O que aconteceu com você quando eu caí no buraco? — ela perguntou.

— Enfrentei alguns animais. Uma tartaruga, um lobo e um pássaro. Claro, dei uma surra nos três. Quando terminei a luta, estava com algumas feridas e mais da metade do meu Impar. Fui procurar uma forma de te tirar daquele buraco, mas aquela mulher apareceu na minha frente e me impediu.

— Aquela que eu cortei o pescoço?

— Sim. Ela podia transformar partes do corpo em gorila. Tinha reflexos absurdos. Desviou do meu soco. Daí me deu uma mordida no pescoço.

— É essa aqui, né?

Ela encostou no local da ferida, ainda inchada.

— Sim. Senti algo entrando nas minhas veias. Minhas forças sendo sugadas rapidamente.

— Ela falou alguma coisa?

— Disse que era a líder de um grupo de antimais. O nome dela é Valentina.

— Um grupo deles?

— Sim. Acho que essa mulher está caçando Scars com esse grupo.

— Ela parecia bem forte para te derrubar em um ataque.

Eu só fui pego desprevenido.

Mas não ia negar: ela desviou de um soco quase sem esforço. Quando percebi, já estava no meu pescoço.

Além da força incrível…

Lembrei de algo importante.

— O que aconteceu com você quando caiu no buraco?

Sua expressão era meio raiva, meio alegria.

— Quando eu caí… desci com cuidado até o fundo. Descobri um labirinto de túneis subterrâneos.

Que maluquice.

— Dentro dos túneis, um desses antimais me achou. Ela disse que era um TatuPeba.

Tatu-Peba? Acho que já ouvi falar antes.

— Tinha garras enormes. Começou a me caçar. Mas, resumindo… eu venci. Despertei meu artefato.

— Sério? Você conseguiu?

Sua expressão era de vergonha misturada com confiança.

— Sim. Com ele, consegui usar umas armas mágicas bem legais. Derrotei o TatuPeba sem ela nem ter chance de revidar.

Olhei melhor.

A barriga de Samara tinha um ferimento grande — provavelmente levou uma garrada.

Mas não perguntei.

Ela parecia feliz com sua conquista.

— Aí depois disso fui andando pelos túneis e achei a saída rapidinho. Foi aí que vi aquela cena. Usei meu Impar, fiquei invisível, enfiei a adaga no pescoço dela e te puxei para longe. O resto você já sabe.

Espera um segundo.

— Aquela mulher parecia forte. Provavelmente tinha um olfato enorme igual aos outros antimais. Como você conseguiu dar um ataque assim nela?

Ela abriu um sorriso.

— Com minha nova habilidade. Furtividade Universal. Melhor dizendo: fiquei totalmente indetectável.

Isso realmente é incrível.

Uma habilidade assustadora.

Meu corpo estava menos quente agora. Sentia que conseguia me mexer.

Mas decidi não me levantar ainda.

Sem nenhum motivo em particular.

O "sol" começou a se pôr.

Não sei quanto tempo ficamos assim, olhando para o céu rosado se tornando lentamente mais roxo conforme o tempo passava.

Depois daquela sensação horrível, isso era bem aliviante.

Meu corpo já tinha voltado ao estado natural. Não estava mais com febre.

Mas não dava para ficar assim para sempre.

Infelizmente.

Me levantei do colo dela e me encostei na árvore onde Samara estava apoiada.

Ela parecia cansada.

Nós dois realmente usamos muito Impar.

Mas eu precisava descobrir mais sobre essa tal de Valentina.

Ela parecia ser um problema no futuro.

Já lidei com demônios.

Agora ter que lidar com animais era complicado.

Senti algo encostar no meu ombro.

Samara.

Sua cabeça apoiada em mim.

Isso aqui é bem romântico.

Até me sinto vendo aqueles livros de romance.

Só que aqui o problema não são os pais, rivais amorosos ou a pessoa amada tendo que se mudar para outra cidade.

É questão de sobrevivência.

A qualquer momento, a pessoa que você ama pode morrer.

...

Pessoa que você ama?

Parei por um instante.

De onde veio esse pensamento?

Talvez fosse justamente por isso que eu não quis criar laços com ninguém depois do que aconteceu na floresta.

Quando conhecia alguém, não davam dois dias — a pessoa já morria, ou virava demônio.

Meu mecanismo de defesa é realmente eficiente.

Eu me afasto.

Não crio vínculos.

Não dou espaço para perder ninguém.

Era mais fácil assim.

Matei demônios porque achava que isso salvaria pessoas inocentes.

Matei antimais pelo mesmo motivo.

Durante anos, eu consegui convencer a mim mesmo de que isso era tudo.

Proteger pessoas.

Ficar mais forte.

Sobreviver.

E nunca me apegar.

Mas fazer isso por tantos anos é muito cansativo.

Essa solidão.

Essa frieza que criei para me proteger deste mundo cruel.

Olhei de canto para Samara.

Ela estava ali.

Viva.

Cansada.

E, de alguma forma, tinha se tornado alguém que eu não queria perder.

...

Não.

Não podia pensar assim.

Se eu criasse um laço com ela, estaria fazendo exatamente aquilo que passei anos tentando evitar.

Talvez fosse melhor afastá-la.

Ela já conseguia se defender sozinha com essa nova habilidade.

Poderia viver tranquilamente.

Acho que já cumpri o que prometi.

"— Eu vou ficar mais forte e dar o troco nesses animais de MERDA!"

Ela conseguiu.

Não precisava mais de mim.

Talvez esse fosse o momento certo para ir embora.

Eu me afastaria.

Ela seguiria o caminho dela.

E eu seguiria o meu.

Sim.

Era melhor assim.

Coloquei a mão no ombro de Samara.

Quando ia empurrá-la…

Ela segurou minha mão.

Gelei na hora.

Ela entrelaçou os dedos nos meus.

Droga.

Meu primeiro impulso foi puxar a mão.

Não puxei.

Eu não vou cair nessa tentação.

Eu sou um homem forte.

Não é isso que vai me fazer mudar de ideia.

Ela me encarou com os olhos brilhando pela luz do luar.

Um sorriso tímido, mas verdadeiro.

NÃO.

Eu não vou.

Se controla.

Ela é só uma garota aleatória.

Sim, isso mesmo.

É só fingir que não a conheço.

Depois disso tudo volta ao normal.

...

Mas se era tão simples assim…

Por que eu ainda estava segurando a mão dela?

— Leandro…

Não fala meu nome assim…

— Oi…?

— Muito obrigada por tudo que você fez por mim.

— Ah, de nada. Não foi nada.

— Você me ajudou quando eu estava precisando. Você me salvou daquele Scar na floresta. E depois ainda me ajudou a controlar meu Impar.

Não fala mais nada, por favor…

— Relaxa. Eu faço isso mesmo. Eu odeio esses antimais que caçam Scars inocentes.

Falei claramente nervoso, a voz falhando.

— Não só isso. Graças a você, eu pude evoluir ainda mais e finalmente fazer algo além de pedir socorro. Quando eu estava caída no chão, lembrei da sua voz falando comigo.

Eu sinto como se fosse explodir agora.

A vontade de usar meu Impar até sobrecarregar é enorme.

SÉRIO.

Ela, com as duas mãos, agarrou a minha.

— Eu consegui te salvar quando você precisou. Mas você ainda assim me ajudou, dando tudo de si para fugir comigo. Então ainda estou te devendo um favor.

— Não, Samara. Tá tudo bem. Não precisa me devolver favor nenhum. Eu fiz isso esperando nem um obrigado…

— Mas eu vou devolver, Leandro.

Alguém me ajuda…

— Leandro…

O que vem agora?

— O quê?

Olhei nos olhos dela, que me encaravam.

Meu coração já estava pedindo arrego.

Fala que foi bom ter me conhecido e que agora você está indo embora.

Por favor.

É só isso.

Depois você vai embora.

Vai ser melhor para mim.

E para ela.

Ela respirou fundo.

Então disse, como um sussurro:

— Eu… eu te amo.

...

Fodeu.

Ferrou.

Acabou.

É papo de caixão fechado. Chama o coveiro que já pode enterrar.

Fui de Adam.

Isso foi rápido demais.

Como pode? O roteirista da minha vida estava com pressa para colocar romance na minha história?

Eu te vejo! Escreve qualquer coisa que não me coloque nessa situação.

Achei que esse dia nunca ia chegar.

Mas, se fosse sincero comigo mesmo…

Eu sabia que alguma coisa estava mudando há algum tempo.

Talvez desde a primeira vez que percebi que ela não era apenas alguém que precisava ser protegida.

Talvez desde quando comecei a me importar demais com o que acontecia com ela.

Talvez desde antes disso.

Eu só não queria admitir.

Não sabia o que dizer.

O tempo não passava.

Respira.

Só respira.

Vamos respirar e pensar.

O que você vai dizer é NÃO.

Sim.

NÃO.

Era o que eu tinha decidido.

Eu deveria dizer não.

Seria mais seguro.

Para mim.

Para ela.

Se eu me afastasse agora, talvez ainda desse tempo de impedir que isso virasse algo maior.

...

Mas então por que a ideia de ir embora estava começando a doer?

Última respirada antes da fala.

— Samara… — minha voz saiu antes que eu pudesse controlar. — …eu também gosto de você.

Olhei seu rosto vibrando de alegria.

Eu queria terminar a frase com "mas não posso".

Aquelas palavras estavam na minha cabeça.

Eu sabia exatamente o que deveria dizer.

Mas não posso.

Isso vai acabar mal.

Você pode morrer.

Eu não quero passar por isso de novo.

Mas minha boca travou.

Senti ela me abraçando.

Isso é jogo sujo.

Fechei os olhos por um instante.

Eu poderia afastá-la.

Ainda podia.

Bastava empurrá-la.

Bastava dizer que era melhor assim.

Mas eu não fiz nada.

Porque, naquele momento, finalmente entendi uma coisa.

Eu estava tentando me proteger de uma dor que ainda nem tinha acontecido.

Estava tentando destruir algo bom só porque existia a possibilidade de um dia perder aquilo.

Passei anos fazendo isso.

E talvez…

Talvez eu estivesse cansado.

Não acredito que o roteirista escreveu que minha mente não vence do meu coração.

Isso é clichê para um senhor caralho.

E o pior é que ele está certo.

Eu realmente gosto dela.

Que ódio da molesta!

Mas esse abraço que ela está me dando está tirando minha concentração.

...

Quer saber?

Foda-se.

Cansei de lutar contra.

Se minha boca não fala o que minha mente quer…

Se meu corpo não rejeita…

Então talvez eu não precise rejeitar isso.

Talvez eu só precise aceitar.

Não significa que o mundo ficou menos perigoso.

Não significa que ela nunca vai se machucar.

Não significa que eu nunca vou sentir medo de perdê-la.

Mas talvez…

Eu não precise passar o resto da minha vida fugindo desse medo.

É melhor assim.

— Samara… — segurei seu rosto.

Ela me encarou com olhos lacrimejados.

— …eu te amo.

— Você é meu ponto seguro — ela sussurrou. — Eu sempre me sinto bem perto de você.

Está decretado.

Eu não vou deixar esse sentimento me transformar em outra pessoa.

Não vou esquecer quem eu sou.

Não vou abandonar tudo que acredito.

Mas, se eu puder evitar…

Ela não vai morrer.

Ela se afundou no abraço, a cabeça no meu peito.

Respirei fundo.

Este é o dia em que eu sinto, depois de tantos anos… completo.

Realmente completo.

Poder não é tão importante quanto eu imaginei.

Meu futuro agora parece iluminado por ela.

Encontrei algo que vale a pena continuar lutando.

Algo que faz este mundo desprezível ter valor.

Algo mais importante do que tudo.

Mas isso não significa que eu deixei de me importar comigo.

Diria que ainda me amo mais.

E isso faz parte.

Não descarta este amor que sinto por ela — algo que ainda estou descobrindo.

Algo que ainda me assusta.

Algo que provavelmente vai me dar muita dor de cabeça.

Mas que, com certeza…

…vale a pena.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.