Scarloon Leandro III - Pneumonia

5 CAPÍTULO 20 — INDEPENDÊNCIA


Eu cheguei naquele objeto que me chamava.

Mas assim que o segurei…

Não senti o chão. Rapidamente, afundei.

O chão tinha se aberto de repente.

Sem tempo para fazer nada, só pude gritar:

— AAAAAAAhhh!

Plec!

Algo grudou nas minhas costas.

O muco do Leandro.

Mas, de repente… TUM!

O teto do buraco se fechou. A conexão do muco foi cortada.

Eu não via o fundo. As paredes eram roxas escuras. Mas conseguia enxergar uma luz lá embaixo.

Nervosamente, tentei gritar:

— Leandro!!!

Esperei alguns segundos. Nenhuma resposta.

Acho que não tem como ele me ouvir.

Droga.

Eu ainda estava com aquele objeto em minhas mãos. Ele parecia me chamar.

O que será que ele faz?

Assim que pensei isso, vi o objeto emanar uma luz e mudar de forma. Lentamente, ele se espalhou pelos meus braços.

Senti cócegas pelo meu corpo.

Mas sentia que aquilo havia despertado ainda mais meu Impar. Meu poder fluía por todo o corpo como se fosse água.

Acho que isso me deixou mais forte.

Mas eu ainda estava presa ali.

Tentei alcançar a parede, mas era meio longe.

Então me lembrei do muco que estava preso nas minhas costas.

Segurei-o. Era uma meleca flexível. Não sabia se era resistente.

Com minhas mãos, comecei a me balançar.

Poc.

Agarrei na parede. Ela tinha algumas pedras além da terra. Ainda era difícil de segurar.

Comecei a cavar um pouco para criar um apoio. Depois de alguns segundos, consegui um lugar para colocar o pé.

Acho que não tem outro jeito.

Vou ter que descer.

Comecei a puxar o muco. Ele se desprendeu do teto.

Agora eu tinha uma corda.

Será que eu morro se cair ali?

Talvez.

Mas eu posso fazer algo.

Com a corda de muco, grudei-a onde eu estava. Coloquei algumas pedras por cima e tampei o mais forte que consegui.

Agora eu descia calmamente, amarrada na corda.

Após descer o máximo que a corda permitia, eu repetia o processo. Cavava, grudava a corda, descia mais.

Depois de repetir isso umas cinco vezes, finalmente cheguei ao fundo do buraco.

A luz que eu via era de algumas tochas presas nas paredes.

Analisando o local subterrâneo, ele tinha vários corredores e passagens. O ar era pesado.

Com muito medo, comecei a andar.

Espero que esta parte debaixo do buraco tenha sido feita apenas para quem cavou poder sair.

Mas comecei a escutar um som peculiar.

Traf-traf-traf!

Alguma coisa estava mexendo na terra.

Droga!

Ruumble... craaack... TRUMPF!

Uma criatura saiu da terra na minha frente.

Instantaneamente, caí no chão de susto.

Analisando-a, ela tinha garras longas e uma carapaça nas costas.

Ela disse, rindo:

— Como você… sobreviveu à minha armadilha?

Ela coçava o nariz enquanto perguntava.

Eu fiquei em silêncio. Em completo choque.

— Ei! — ela ergueu a voz. — Eu estou falando com você. Eu sei que você está aí. Eu sinto seu cheiro.

Droga. Esses Scars são muito bons em detectar outros. Não tem como me esconder. Não adianta nem ficar invisível…

— De qualquer forma… — ela continuou, esticando as garras —, eu não gosto de comer Scars vivos. Então vou te matar primeiro. Pode ser?

Respirei fundo.

Não é hora de ficar travada de medo.

Me levantei.

— Você quer me matar?

Ela sorriu. Apontou as garras na minha direção.

— Isso nem era para ser uma pergunta. Você é minha presa.

Avancei com tudo para a direita. Corri o máximo que pude.

Não existe possibilidade de eu vencê-la. O máximo que posso fazer é fugir.

Meti o rabo entre as pernas e comecei a correr pelos corredores.

Continuava ouvindo por todas as direções:

Traf-traf-traf!

Ela estava chegando perto.

TRUMPF!

Mais uma vez, saltou da parede. Desviei da garra no último segundo.

Ela claramente está brincando comigo. Quer brincar com a presa.

Enquanto corria, pensava.

Eu peguei aquilo. Era…

"Seu artefato."

Algo disse isso na minha cabeça.

Eu sinto que posso fazer mais coisas além de ficar invisível.

Mas o quê?

Tenho que pensar rápido, senão vou acabar morta.

Eu só tenho que esperar o suficiente até o Leandro vir me salvar.

É isso—

Traf-traf-traf…

TRUMPF!

Na minha frente.

Fui atingida com tudo na barriga. O golpe da criatura me jogou para trás.

Com dor, segurei ela.

Sangue. Ela arrancou parte dela.

Isso doía demais.

— Você estava achando mesmo que ia fugir de mim? — ela se aproximou, rindo. — Eu quem domino estas cavernas. Pode me chamar de Tatu-Peba.

Tatu-Peba?

Droga.

Eu não consigo.

Eu não consigo.

Leandro, por favor, me salva…

…

…

…

Ele não vem.

Droga…

Eu vou mesmo morrer.

Sou uma inútil.

Nunca mereci viver neste mundo.

Sou uma fraca que só depende dos outros.

Não sou ninguém.

"— Sim. Parabéns. Essa habilidade é bem útil em questão tática."

Por que eu ainda tento?

"— Não precisa se preocupar com isso. Você ainda não tem muita experiência com seu Impar. É normal que tenha dificuldade…"

Eu sou um lixo…

Senti meus olhos escorrerem lagrimas.

"— Não precisa chorar, Samara. Você ainda está começando."

Respirei fundo.

...

Entendi.

...

Agora entendi.

...

Eu não vou morrer aqui.

...

É só pensar um pouco fora da caixa.

"— Que o seu Impar não é só de ficar invisível. Ainda existem duas habilidades que você não desenvolveu."

Sim. Ficar invisível.

O que eu posso fazer além disso?

Ser completamente invisível.

Não apenas no visual.

Em tudo.

Invisibilidade sonora. Olfativa. Visual. Paladar. Tátil.

E de Impar.

É isso aí.

Senti meu Impar fluir por todo o meu corpo. Minha existência ficou mais que invisível.

Indetectável.

O olhar do Tatu-Peba se encheu de confusão.

— Onde você foi? — ela rosnou, virando a cabeça para todos os lados. — Minha presa aprendeu a ocultar o cheiro?

Eu apenas me levantei.

Senti algo. Meu artefato não era apenas um poder bruto. Era a manifestação mais pura do meu Impar.

Com essa manifestação, eu podia invocar algo. Algo que me tornaria uma ameaça para essas criaturas ilógicas.

Invoquei.

Sem som. Sem impacto.

Duas adagas. Afiadas. Prontas para o banquete.

O Tatu-Peba virou as costas, pronta para começar a cavar.

Então ouviu um sussurro ecoando em seus ouvidos.

"Atrás de você."

— Uh?

Ela girou. Deu uma garrada nas próprias costas.

Atingiu o ar.

— Droga! — ela gritou. — Cadê você, sua vagabunda? Eu sei que você é uma covarde que não consegue se defender! Eu ainda vou te achar quando seu Impar acabar e vou te devorar até sobrar apenas seus os—

Uma adaga.

Um pescoço.

Um corte.

Liso. Rápido.

Outro corte na barriga.

O Tatu-Peba se contorceu de dor. Tentou revidar — mas nem chegou perto de acertar algo.

— Sua covarde… apareça…

Meu Impar não é só de ficar invisível. Tudo o que eu faço entra em modo de furtividade.

Ou seja: se eu ataco alguém, o ataque só machuca depois de um tempo. A vítima nem sente que foi atingida.

Eu posso recuar. E apenas esperar o final.

RASG!

— AAAAAAAAAHhhhhh!

A barriga dela se abriu no meio.

Tripas escorreram. O Tatu-Peba caiu de joelhos.

Desativei minha furtividade universal.

Ela olhou para mim. Meu rosto estava sem expressão.

— Sua filha da… cof… você é uma assassina bem cruel…

Caiu no chão. Imóvel.

O sangue formou uma poça aos meus pés.

Sem remorso.

Meu primeiro assassinato.

Deixei o corpo sem alma para trás e segui o caminho pelos corredores sombrios.

Não vou mais ser presa desses merdas.

Nunca mais.

Eu quem caço agora.