3 dias depois

Em meio ao campo de treinamento, Samara encostou na minha mão.

A dela era mais fria que o normal.

Senti seu Impar me cobrindo — uma brisa deslizou sobre minha pele.

E de repente…

— Uh?

Nada aconteceu. Não fiquei nem um pouco transparente.

Samara olhou para baixo e murmurou:

— Droga… não consigo deixar outros Scars invisíveis. Só consigo coisas pequenas…

Ela estava de cabeça baixa.

— Não precisa se preocupar com isso — disse. — Você ainda não tem muita experiência com seu Impar. É normal que tenha dificuldade…

— Entendi. Valeu…

Ela não soltou minha mão. Falou isso olhando para o chão.

Acho que vou me arrepender de fazer isso.

Com minha mão livre, segurei seu rosto e o levantei.

Ela estava com os olhos um pouco marejados, mas deu um pequeno sorriso.

— Não precisa chorar, Samara. Você ainda está começando.

Falei enquanto limpava suas lágrimas.

Essa cena está realmente indo para um rumo meio diferente do que eu estou acostumado.

— Sim. É que eu sou muito sentimental — ela disse, o sorriso se abrindo. — Mas não se preocupa assim comigo. Eu sou só meio chorona, kkk.

Um sorriso meigo.

— Entendi. Na próxima vez não vou fazer grande caso, então.

Falei enquanto afastava a mão de seu rosto.

Mas, inesperadamente, ela agarrou minha mão e a colocou de volta.

— O q— — Leandro… Sua expressão mudou completamente. De um olhar tímido para um olhar de surpresa.

— Eu estou sentindo algo. Algo poderoso! — Ela soltou minha mão.

Do nada?

Mas eu não sentia nada. O que seria isso?

— O que você está sentindo especificamente?

— Algo que parece me pertencer. Algo com um poder grande.

Algo que a pertence…

Ah. Já sei.

— Vamos lá. Você sabe para que direção está isso, né?

Ela acenou com a cabeça.

— Eu sei o que é. Vamos lá.

Se fosse o que eu estava pensando, seria um ponto crucial para a evolução de Samara.

Deixei ela ir na frente, protegendo sua retaguarda.

Se ela estivesse em perigo, ficaria invisível — e eu cuidaria do resto.

Nesta caminhada, não falamos nada.

Apenas caminhamos em silêncio.

Duas horas depois.

Analisei o ambiente.

Estávamos em outra floresta. Árvores maiores, mais robustas. Folhas azul-escuros. Uma neblina densa começava a nos envolver. O ar era frio e úmido.

Entrando mais fundo, vi algo brilhando.

Samara, que estava na frente, viu e acelerou o passo.

Analisei o lugar. Era uma área aberta. O tal brilho estava no centro.

Estranho.

Mas aí eu percebi.

Era tarde demais. — Samara, é uma ARMADI—

PUF!

O chão onde Samara estava cedeu assim que ela segurou o artefato. Uma cratera se abriu.

— AAAAhhhh!

Por reflexo, usei meu muco e lancei nela — grudou em suas costas.

Mas o chão se fechou rapidamente.

Cortou o muco.

— Droga!

Analisei melhor.

Isso só pode ser obra de algum Scar.

Nesse momento…

Três Scars emergiram da neblina.

Tinham formatos quadráticos.

— Quem são vocês? — disse, irritado.

O do meio riu.

— Ele não conhece a gente? Kkkkkk.

O da esquerda completou:

— Acho que ele era amigo daquela que caiu na nossa armadilha, kkkkk.

O da direita:

— Vamos matá-lo. Ele não parece ser tão forte assim.

Eles só podem estar de palhaçada.

Mas o do meio disse:

— Avisa o Chefe. Esse cara é problema.

Chefe?

O da esquerda disse:

— Pode deixar. Agora que você falou, sei bem quem é esse sujeito.

Ele começou a uivar.

Parecia um lobo.

Eles deviam achar que eu não estava fazendo nada. Mas eu tinha que tirar Samara daquele buraco.

Com intensidade, ativei meu Artefato.

Meu Impar atingiu seu ápice.

Os três olharam para mim.

— Galera — o do meio falou, a voz mais tensa —, temos que ganhar tempo. Então deem o máximo para se defender. E, se possível, ataquem quando virem oportunidade.

— Vocês falam demais.

Usei o dedo indicador. Coloquei na testa.

Apontei para os três.

Dor de Cabeça.

A energia laranja disparou em alta velocidade na direção deles.

Inesperadamente, eles nem tentaram desviar.

O do meio se pôs na frente. Os dois se esconderam atrás dele.

Ele se virou de costas.

BOOM!

A explosão ecoou pela floresta.

Quando a fumaça baixou, percebi.

— Acho que isso não vai ser tão fácil assim.

O cara do meio tinha, nas suas costas, um casco de tartaruga.

Entendi.

É claro.

Tinha que ser os antimais.

O da esquerda e o da direita já tinham se transformado também.

O da esquerda: garras, rabo e orelhas de lobo.

O da direita: asas de pássaro.

Ou seja: a tartaruga, o lobinho e o passarinho.

A tartaruga falou:

— Agora você vai virar nossa presa.

O lobo:

— Quero muito saber qual é o sabor da sua carne!

O pássaro:

— Te caçar vai ser interessante.

Eu só respirei fundo.

— Sabe, eu odeio Scars como vocês. Sempre brincando de animais. Esse negócio de predador e presa é muita vergonha alheia. Vocês são adultos brincando de bichinho.

Fechei os punhos.

Tá na hora de bater em antimais.

Ainda bem que aqui não existe uma organização que os protege.