Scarloon Leandro I - Doença
1 Dúvida
10 de agosto de 1780
O golpe veio como uma montanha (literalmente) desabando sobre mim.
Crash!
Meu corpo voou pelo ar antes de cair no chão. A desgraça do sabor da derrota.
— Porra…
A voz saiu rouca, misturada com o gosto de terra e frustração. Eu nem precisei olhar para o lado. Sabia que ele estava lá. Aquele Scar maldito. Com aquele poder de pedra… impenetrável. Implacável.
Trinta segundos. Talvez um minuto. Muito menos que o necessário para vencer.
Ele tem defesa. Ataque curto, médio e longo. Habilidades afiadas. Mas não é isso que o torna forte.
É o Impar.
O dele é infinitamente melhor que o meu.
Eu me arrastei até o canto da arena, encostei a cabeça na parede fria e deixei o peso da derrota me afogar. Pela décima vez? Pela décima vez!
Será que eu nasci pra ficar perdendo assim?
Foi então que ouvi os passos.
Secos. Firmes. Sem hesitação.
Uma sombra cobriu a luz do dia.
— Ei!
Levantei os olhos. Ela estava ali, de braços cruzados, um sorriso de canto de boca e um olhar que misturava deboche e… orgulho?
— O que foi, Leandro? — ela disse, como se estivesse comentando o tempo. — Você durou mais de um minuto dessa vez. Avanço considerável, considerando os cinquenta segundos de antes.
Eu a encarei.
Sem emoção. Sem reação.
— Você veio aqui pra me humilhar? — minha voz saiu mais fria do que eu pretendia.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Ah? Não, seu mal perdedor. Eu vim aqui pra te avisar que teve melhora.
Essa mulher…
Sem noção. Sem filtro. Sem piedade.
Minha mestra.
Eu sou um Scar. Moro em Scarloon. Tenho poderes — eles chamam de impar — e há meses treino para vencer o torneio de Umberto.
Mas sempre perco no final.
Sempre.
Enquanto ela falava, minha mente vagou. Eu pensava no meu poder. Na maldição de ter nascido com ele.
Se eu tivesse fogo. Manipulação mental. Super velocidade. Ai eu nem reclamava.
Mas não.
Meu Impar é Doença.
Isso mesmo. Doença. Eu fico doente. Eu manipulo doenças. E o máximo que consegui até agora foi…
— Ei! — a voz dela estourou como um trovão. — Não fique em silêncio quando eu estou falando com você!
— Mas, Mestra… — suspirei. — Eu não acho que posso vencer com esse poder mixuruca.
Ela me olhou como se eu tivesse dito a maior bobagem do mundo.
— Que bobagem você está falando, garoto? — A voz dela subiu um tom. — Você acha mesmo que só consegue criar chicotes de meleca?
— É o que pare—
Ela não me deixou terminar.
Sua mão agarrou meu braço com força. Seus olhos eram cheios de determinação.
— Pode demorar — disse ela, firme. — Mas vamos fazer um treino intenso. Eu não vou deixar você desistir assim. Cadê sua determinação? Eu vou treinar você até aprender a usar seu Impar de forma eficiente!
Fiquei pensativo e meio pasmo.
Aquelas palavras… eu realmente queria desistir assim?
— Acho que não tenho escolha — murmurei. Tendo uma fé bem baixa. — Beleza. Vou me esforçar ao máximo pra conseguir controlar meu Impar.
Ela sorriu. Largo. Verdadeiro.
E fomos para o local de treino.
O campo de treino era agradável. Grama macia. Céu aberto. Silêncio.
E vazio.
Sempre vazio.
Eu era o único discípulo. Os outros? Desistiram. Perceberam que nunca teriam chance de vencer o torneio só com dedicação.
Enquanto eu divagava sobre isso, a voz da Mestra chegou calma, quase serena:
— Leandro. Me responda. O que você sabe sobre seu próprio poder?
Que pergunta pesada.
Respirei fundo.
— Eu descobri que posso criar doenças no meu corpo. Não exatamente doenças… mas alguns efeitos que elas causam.
Ela inclinou a cabeça, interessada.
— Curioso. Você conseguiu usar seu Impar para criar um chicote com sua meleca. Será que cada doença que você transmite no seu corpo tem algum tipo de utilidade?
— Pensei nisso — admiti. — Mas, por enquanto, só sei me dar dor de cabeça e febre.
Hmmmm.
Ela levou a mão ao queixo.
— Dor de cabeça… e febre… — seus olhos brilharam. — Poderia me mostrar? E se possível, tente manifestá-las em algo realmente útil.
— Ok…
Eu não gostava de usar o muco. Mas ele virava uma corda grudenta, elástica. Útil, sim. Mas um lutador não vence só com uma corda.
Faltava poder ofensivo.
Faltava tudo na real.
Comecei a concentrar meu Impar na cabeça.
A dor veio.
Lenta no começo. Depois rápida. Depois insuportável.
Minha mente parecia prestes a explodir.
— Continua, Leandro! — a voz da Mestra veio como um fio de lucidez. — Eu estou vendo alguma coisa!
— Ugh! É fácil falar, né?
Apertei os olhos. Concentrei mais. A dor virou uma agulha incandescente atrás dos meus olhos. Meu corpo reagiu sozinho — minhas mãos subiram, agarraram minha cabeça.
Formigamento.
— Isso! Parece que essa coisa na sua cabeça está indo…
De repente…
Silêncio.
A dor sumiu.
Meus olhos se abriram. O rosto da Mestra estava ali, próximo, com uma expressão que eu nunca tinha visto: confusão misturada com admiração.
— Leandro — ela disse, a voz trêmula de alegria. — Seus dedos!
Olhei para minhas mãos.
Elas ainda estavam lá. Graças aos deuses.
Mas algo flutuava entre elas.
Pequenas esferas de energia laranja. Cintilantes. Vivas.
— Espera… o que são essas coisas? — minha voz saiu em um fio.
— Eu não sei — a Mestra deu um passo para trás e abriu um sorriso de orelha a orelha. — Mas com certeza são esferas de energia que fazem algo. Relaxa. Pode testar em mim.
O quê?
— Em você?
— Vamos lá, Leandro. Eu estou pronta. Pode mandar ver.
Engoli em seco.
As esferas tremiam entre meus dedos. Eu não sabia o que aconteceria se eu as tocasse. Talvez explodissem. Talvez me queimem.
Só havia um jeito de descobrir.
Com um movimento rápido, lancei-as em direção à minha mestra.
Ela se colocou em posição de defesa.
As esferas atingiram seu antebraço.
BOOM!
Pequenas explosões. Fogo. Impacto.
A Mestra voou para trás como uma boneca de pano, raspou o chão e parou alguns metros à frente, sentada, com os braços levemente queimados.
Silêncio.
Meu coração disparou.
— Mestra! Você está—
Ela pulou.
Pulou como uma criança que acabou de ganhar o brinquedo mais incrível do mundo.
— EU SABIA!
Ela girava, ria, apontava pra mim com os olhos marejados de entusiasmo.
— EU SABIA QUE VOCÊ NÃO TINHA SÓ O CHICOTE PRA LUTAR!
Meu peito apertou.
— Que orgulho do meu discípulo! — ela continuou, sem fôlego. — Leandro, você conseguiu me ferir com essa explosão de fogo e ainda me lançou pra trás com uma força considerável!
Eu olhava para minhas mãos. As esferas haviam sumido. Mas a sensação… ainda estava ali.
Isso… isso saiu de mim?
— Eu acho que esse era o caminho — a Mestra se aproximou, ainda ofegante, mas com os olhos brilhando de determinação. — Temos que aprender a desenvolver essas habilidades que você ganha com cada doença. Você disse que podia controlar sua febre também, né? Vamos descobrir o que ela faz!
Ela não parecia uma mestra naquele momento.
Parecia uma parceira. Uma amiga. Alguém que acreditava em mim mais do que eu mesmo.
E pela primeira vez em meses…
Eu também comecei a acreditar.
— Mestra.
Minha voz saiu diferente. Mais firme.
Ela parou, me olhou.
— Me ajude a evoluir bastante. Você disse que o treino ia ser intenso — eu cerrei os punhos, sentindo algo quente subir pelo peito. — Então quero pelo menos aprender a controlar quatro habilidades. E dominá-las de forma eficiente.
O sorriso que ela abriu iluminou o campo inteiro.
— Pode contar com sua mestra — ela bateu no meu ombro com força. — Vou ter o orgulho de transformar você em uma máquina de combate. Não vamos vadiar. Vamos dar o nosso melhor.
Eu sorri.
E ali, naquele campo vazio, com a luz de Scarloon pintando o céu em um tom rosado, eu vi.
A chama da esperança.
Aquela que minha mestra sempre falava.
Ela existia.
E agora… ela queimava em mim.
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