Scarlet Romance
4 Capítulo 4
\"Konya mo chi ga hoshii.\"
Esta noite eu também quero sangue.BUCK-TICK — ROMANCEImai piscou, como se tivesse percebido o que havia falado muitos segundos depois do nome do estranho ter deixado sua boca. A simples idéia de ele conhecer algo sobre o ser que ainda ocupava o divã vermelho elegantemente era surreal, tão incrível a ponto do caixa de supermercado começar a duvidar das suas memórias e começar a acreditar que nenhum nome havia sido pronunciado ali, a não ser o seu próprio logo depois de ter entrado naquela sala. Congelado no lugar próximo à porta em que se encontrava, Imai se surpreendeu ao ver que o outro não se movera, nem mesmo na sua posição sobre o móvel. Imóvel como uma estátua, uma constatação que antes teria acalmado o caixa de supermercado agora deixava-o em uma espécie de tensão e ansiedade que ele nunca havia experimentado antes. Esse sentimento desconhecido só ficava mais forte quando ele cometia o erro, ou pelo menos o que Imai supunha ser um, de olhar nos olhos negros, profundos e intensos do outro homem, que ao contrário do seu corpo, pareciam conter dois focos de luz distintos que dançavam na atmosfera pesada do cômodo. Era quase como se existisse alguma coisa ali dentro do esguio moreno, pronta para despertar em um segundo e envolvê-lo a ponto de não haver mais saída. Os dois homens ficaram parados, Imai ainda tentando provar para si mesmo que não conhecia o nome do outro ou qualquer coisa que provasse uma inacreditável ligação entre eles, mas sem sucesso. Respirando fundo para tentar diminuir o ritmo alucinante das batidas do seu coração, o caixa sentiu o cômodo ficar ligeiramente mais escuro. Erguendo o rosto assustado, ele se acalmou um pouco quando percebeu que a criatura provavelmente nomeada Atsushi não havia se mexido, mas não gostou de observar que um dos castiçais havia se apagado, todas as suas velas perdendo as chamas vivas que exibiam no mesmo momento. Um leve arrepio desceu a coluna de Imai, quase como se seu corpo tivesse sido acariciado suavemente pela lâmina de alguma coisa. De repente, uma cena rápida, fugaz o bastante para ter sido considerada uma ilusão de óptica em outros tempos passou na frente dos olhos do caixa, mostrando a ele o corpo despido de alguém sobre uma cama espaçosa, decorada ricamente com lençóis e cobertas trabalhadas. Assustado com uma visão desconhecida e tão cheia de detalhes, o confuso caixa de supermercado deu dois passos para trás, aproximando-se da porta que ele agora sabia estar fechada, mas muito longe de incomodá-lo como a imobilidade de Atsushi naquele lugar. Erguendo a mão esquerda para afastar uma curta mecha de cabelo escuro da sua testa, cheia de suor, ele mais uma vez deixou seus olhos dançaram sobre a figura atraente do outro, novamente percebendo a claridade do cômodo diminuir quando um segundo castiçal se apagou, bem à sua direita. Como da outra vez que a chama das velas havia desaparecido sem motivo aparente, Imai foi presenteado com mais uma visão, ligeiramente mais demorada que a primeira: era o mesmo corpo despido sobre a mesma cama, porém o ângulo da cena era maior agora: haviam janelas grandes com cortinas brancas que iam até o chão, balançando suavemente conforme o vento as empurrava. Do lado de fora, iluminando com magnificência um céu negro-azulado, estava a lua, cheia, banhando o corpo sobre a cama, cuja respiração suave indicava que estava dormindo. Mais um passo levou o caixa de encontro à porta de madeira antiga do cômodo, suas costas acertando a maçaneta de uma forma dolorosa antes que Imai se deslocasse para a direita, colando-se rente à única saída daquela sala. Sua mão esquerda buscou a maçaneta e testou a mesma, estranhamente não se surpreendendo ao verificar que ela estava trancada; aquilo era simplesmente mundano se comparado às estranhas cenas que estavam sendo exibidas na frente do seus olhos. Convencido a ficar com os olhos pregados no chão decorado com losangos empoeirados, Imai descobriu que era impossível; toda vez que ele desviava os olhos daquele que ele mais temia na saleta, era quase como estivesse sendo controlado por fios invisíveis, que erguiam sua cabeça suavemente até que o contato visual entre os dois homens pudesse ser restabelecido. Depois disso acontecia sempre a mesma coisa de antes: um castiçal deixava de iluminar o cômodo e o caixa sentia como se fosse sugado para dentro dos olhos de Atsushi, onde assistia passivamente o desenrolar de mais uma cena, sempre uma seqüência que detalhava a inicial. Vários castiçais foram apagando sozinhos, as visões se juntando e formando uma cena terrivelmente coerente. O lugar era possivelmente um quarto amplo e ricamente mobiliado de um palácio ou castelo, em um andar superior ao térreo. Não parecia haver qualquer coisa fazendo barulho por perto, a não ser a respiração do homem que dormia com a parte de cima do seu corpo nua. Virado de costas para o ângulo de visão que Imai possuía, ele inconscientemente notou o tom pálido do corpo do homem adormecido, que iluminado ocasionalmente pela lua adquiria um ar sobrenatural e atraente ao mesmo tempo. Seu cabelo negro e comprido estava amarrado folgadamente com uma fita preta, e ele se espalhava pelo travesseiro da linda cama antes de descer do móvel, os longos fios quase tocando um tapete caro e de jeito estranhamente oriental. Quando as últimas velas se apagaram, um novo som foi adquirido à cena: batidas de um coração, estáveis e tranqüilas. Foi nesse mesmo momento que Imai mais sentiu do que viu uma segunda pessoa entrar naquele quarto, toda vestida de preto e caminhando com passos inaudíveis pelo cômodo até chegar próximo a cama, seu rosto coberto pelas sombras enquanto o vento não soprava novamente para afastar as cortinas e deixar o luar invadir o quarto.
Sem ação como antes quando as visões começaram, o caixa apenas assistiu à recém-chegada figura de um homem se abaixar lentamente, ficando próximo daquele que dormia pacificamente, seu corpo iluminado pela outra janela de maneira esplendorosa. Imai não conseguia ver com clareza o que o invasor fazia devido às sombras, mas alguma coisa deveria ter acontecido: o moreno que dormia parecia ter acordado, suas mãos rapidamente indo de encontro ao desconhecido e fazendo força para afastá-lo, lutando contra a outra pessoa por longos momentos até desistir de empurrá-lo para longe. O moreno agora tinha enlaçado o outro pelo pescoço, e nessa hora, o vento decidiu movimentar o suave tecido das cortinas uma outra vez. O luar prateado alcançou por fim os dois corpos, exibindo um rosto enterrado na curva do pescoço do jovem de cabelos longos. Ainda preso por elegantes e pálidos braços, o invasor então afastou-se tanto quanto podia do corpo do outro, erguendo o rosto e olhando firmemente para Imai, como se ele tivesse se tornado visível naquele quarto medieval que ele não conhecia. No entanto, assim que aquele segundo homem o encarou, o caixa de supermercado sentiu seu queixo cair para que um grito de puro horror deixasse o seu corpo, embora nenhum som tenha sido ouvido por ninguém. Lábios finos, cheios de sangue escarlate e contraídos em um sorriso maligno faziam parte do rosto que encarava Imai Hisashi, que não era outro senão o dele próprio. No momento seguinte, o corpo elegante do jovem moreno tombou na cama, rolando para o lado e permitindo que Imai identificasse o rosto daquele que o perseguia desde uma viagem noturna de trem: Atsushi. A visão terminou por fim, deixando um horrorizado caixa de supermercado contra a porta da saleta imersa na escuridão. Tentando girar mais uma vez a maçaneta para sair correndo daquele lugar puramente demoníaco, ele parou com qualquer movimento quando sentiu uma alteração na atmosfera do cômodo, traduzida na pressão de um corpo contra o seu. — Agora você se lembra de tudo... Mestre? A voz. Aquela voz grave, elegante e sedutora novamente próxima ao seu ouvido, fazendo seu corpo inteiro estremecer; mas não pelo frio que ela geralmente trazia consigo e sim por uma chama intensa, muito mais forte do que a de todas as velas que estiveram acesas mais cedo naquela sala. Ele sentia fogo, fogo líquido correndo pelas suas veias quando de repente, uma buzina de carro chegou aos seus ouvidos. Piscando por várias vezes, Imai girou no seu próprio eixo, encontrando-se na chuva novamente, na mesma rua em que estivera caminhando mais cedo antes de ser surpreendido por um muro de tijolos e o estranho antiquário no meio da rua. Olhando em volta, o caixa de supermercado percebeu a ausência total do antiquário, a rua novamente aberta e seguindo em frente como ela sempre fora. Ele nem se importava com os grossos pingos de água que caíam sobre a sua cabeça e corpo, embora fossem eles e o senso de normalidade que voltava os responsáveis por apagar o fogo que ainda queimava nas suas veias. Rapidamente buscando o lugar que antes havia sido obstruído por um perfeito muro de tijolos alaranjados, Imai encontrou a rua que ele desejara seguir mais cedo, totalmente desimpedida e dando novamente em uma avenida, de onde mais ruídos de buzinas chegavam ao seu ouvido. O caixa tentou caminhar, sentindo-se tonto como se tivesse ingerido garrafas inteiras de bebida alcoólica. Com passos hesitantes e lentos, Imai apoiou-se na parede de uma grande construção que tomava todo o quarteirão que ele precisava atravessar para chegar até a avenida, deixando que aquela superfície servisse de amparo para seu corpo até que o mesmo tivesse alcançado a esquina, observando finalmente a confusão de veículos, sons e luzes de semáforos, além dos borrões que eram as pessoas apressadas com seus guarda-chuvas que passavam por ele. O vento soprou repentinamente, com força inesperada e fazendo com que o caixa tremesse de frio, sua roupa encharcada colando ao seu corpo magro. O semáforo fechou e todos os carros pararam, deixando que as pessoas cruzassem apressadamente a rua. Naquele momentâneo silêncio das buzinas dos carros, Imai viu um raio de luar descer solitário das nuvens pesadas da chuva e incidir bem no meio do cruzamento, iluminando a figura de Atsushi, nas mesmas roupas de antes porém tão molhado quanto o caixa se encontrava. Ninguém que atravessava a rua ou que dirigisse um dos carros ali pareceu notar o homem solitário que havia surgido literalmente de lugar nenhum, com lábios tão vermelhos e contrastantes com o cinza urbano que era impossível de não se olhar. Lábios esses que foram partidos para murmurar apenas um nome: — Imai... A voz chegou aos ouvidos do caixa, de um jeito assustadoramente etéreo, logo depois sumindo. Assim que a figura de Atsushi se foi do cruzamento, a consciência de Imai tomou o mesmo caminho e ele caiu no duro pavimento da calçada, inconsciente.Continua...
Fale com o autor