\"Konya mo chi ga hoshii.\"

Esta noite eu também quero sangue.

BUCK-TICK — ROMANCE

O trem sacolejava como sempre, mas não impedia que os olhos cansados de Imai Hisashi acompanhassem a paisagem noturna enquanto isso, os pequenos quadradinhos de luz que eram as janelas de diversos prédios passando rápido na sua frente. Como sempre, a velocidade do vagão foi diminuindo até parar completamente, abrindo as portas em mais uma estação.

Já eram mais de onze horas da noite, muito mais tarde que seu horário costumeiro para estar em um meio de transporte público. Em dias normais da semana, ele estaria debaixo dos lençóis há pelo menos uma hora, depois de uma boa xícara de chá quente. Malditas fossem todas as trocas imprevistas de turnos no seu serviço.

O homem cansado suspirou junto com o reinício do movimento do trem, que sacudia na direção da próxima estação. O vagão estava quase vazio, somente ele sentado no canto esquerdo enquanto um senhor viajava de costas para ele mais a frente, lendo um jornal calmamente. Na outra extremidade do vagão, havia ainda uma mulher mais jovem com uniforme escolar, segurando-se a uma das barras de metal do trem e preparada para descer na próxima parada.

A luz de dentro do veículo iluminava as marcas negras sob os olhos de Hisashi Imai, já por volta dos seus trinta e cinco anos, todos eles vividos na capital japonesa. Faziam mais de cinco que ele tinha sua rotina de sempre no supermercado onde trabalhava como caixa, lidando com todos os tipos de pessoas. Nos últimos meses, ele havia sido designado para o treinamento de novos funcionários, e o cansaço estava ganhando dele.

Mais uma vez o trem perdeu velocidade e parou, as portas se abrindo automaticamente para a escuridão da estação em que se encontrava; ainda faltavam seis para que ele pudesse descer. A garota saiu do vagão com passos rápidos, logo atrás dela o senhor que lia o jornal, agora dobrado sob seu braço.

Apoiando seu rosto na mão esquerda fechada e colando a testa no vidro ligeiramente empoeirado da janela, Imai se pôs a observar o lado de fora mais uma vez, os contornos dos prédios unicamente visíveis por causa da luz da lua. No entanto, exatamente quando soou o sinal agudo que indicava o fechamento das portas do trem, a luz pálida que até então estivera iluminando o mundo do outro lado do vidro sumiu, assim como a claridade artificial que banhava o vagão por meio das lâmpadas piscou, apagando por alguns momentos.

Aquilo fez Imai arrastar seu olhar do lado de fora, trazendo-o primeiro para o teto do vagão, onde as lâmpadas pareciam faiscar, como se quisessem acender mas não conseguissem por algum motivo. Tão repentinamente como haviam apagado, a luz voltou a brilhar nas mesmas, e o trem também retomou seu caminho, silenciosamente cruzando a noite de Tokyo. Do lado de fora, a lua havia surgido mais uma vez por entre as nuvens.

Mas o que também havia aparecido era a forma alta e imponente de uma outra pessoa, cujas costas estavam sendo amparadas pelas portas do próprio vagão. Com a cabeça caída para a frente e balançando suavemente junto com o movimento do trem, a figura parecia não ter qualquer tipo de vida. Imai ficou observando o estranho de preto atentamente, e quando fechou seus olhos durante um milésimo de segundo para piscar, encontrou o homem encarando-o de volta, cabeça ereta e com uma postura corporal que apesar de relaxada, irradiava controle, vigilância e mistério.

Imai primeiro cogitou ser tudo uma visão causada pelo seu sono e cansaço crescentes, ou então pelo estranho piscar de luzes que havia ocorrido ainda pouco; talvez seus olhos tivessem sido temporariamente danificados? Piscando de novo, ele se surpreendeu ao notar que o homem não estava mais à porta, e sim sentado em um banco à sua frente.

Ele havia cruzado uma distância de aproximadamente doze passos no tempo de uma piscada de olhos.

O trem continuava em silêncio, balançando para os lados e fazendo com que as argolas suspensas e presas no teto que serviam de apoio para as pessoas em horários mais conturbados inclinassem-se para a direita e depois para a esquerda, sempre juntas como numa coreografia. O silêncio era reinante ali, e o único ruído que chegava aos ouvidos de Imai era o do próprio meio de transporte que utilizava se arrastando pelos trilhos, além da sua respiração e batimentos cardíacos. E só.

O jeito que o outro homem olhava para ele era inquietante, quase como se estivesse invadindo sua alma. Vestido totalmente em preto, o estranho era um contraste ambulante com a sua pele pálida, visível somente por causa das suas mãos, pescoço e rosto. Os olhos eram tão negros quanto a escuridão que acompanhava o trem do lado de fora, porém ao mesmo tempo, pareciam brilhar com uma energia esquisita, que Imai não conseguia identificar.

A única coisa que destoava do conjunto monocromático que era o outro homem eram seus lábios, vermelhos como sangue, parecendo brilhar sob a luz artificial das lâmpadas no vagão. O caixa de supermercado estava observando os mesmos quando notou que eles haviam se curvado rapidamente, um sorriso instalando-se naquele semblante que parecia morto e ao mesmo tempo cheio de vida.

A cabeça do outro homem de repente caiu para a frente, aproximando-se ainda mais de Imai, que instintivamente recuou para trás, ficando ligeiramente contra o assento que ocupava. Vendo isso, o estranho de preto se levantou, inclinando seu corpo para frente sem jamais perder o equilíbrio, apesar da curva que o veículo fazia enquanto acompanhava os trilhos que corriam sob suas rodas.

O movimento do trem fazia as franjas pretas de tecido que pendiam das mangas compridas do outro homem balançarem, assim como seu cabelo, liso, negro e cortado na altura dos ombros, parecia fazer o mesmo trajeto em uma escala menos acentuada. Arregalando os olhos, Imai engoliu em seco e abriu a boca para falar, pronto para pedir que o outro se afastasse quando viu o estranho mover aqueles lábios vermelhos hipnotizantes:

— Imai Hisashi.

O caixa de supermercado sentiu o sangue que corria nas suas veias congelar, embora seu coração batesse muito mais rápido e alto, quase como se estivesse próximo dos seus ouvidos. A voz daquela criatura era diferente de tudo que ele havia escutado até então; era grave mas não em excesso, aveludada e muito, muito sedutora, sendo ainda mais atraente pelo fato de ter escapado de lábios tão mesmerizantes.

A estranha figura de preto, no entanto, continuou se inclinando para a frente, magicamente sem perder o equilíbrio, conseguindo prensar o cansado trabalhador contra o banco efetivamente e sem oferecer qualquer chance de fuga.

Respirando rapidamente e sentindo gotículas de suor descerem pelo seu rosto, Imai ficou parado, olhando para o outro homem e tentando decifrar quem ele era, como sabia seu nome ou por que estava tão próximo dele. Com mais uma sacudida do trem, a mão direita do estranho foi parar rente à sua bochecha esquerda, tocando-o com suavidade.

Mas o contato foi gelado.

Arregalando ainda mais os olhos, Imai percebeu que o rosto daquele homem estava próximo demais do seu para ele não ter notado nenhum tipo de respiração do outro. Com horror, ele percebeu que aquela pessoa, ou qualquer tipo de criatura que fosse, não respirava.

Paralisado e completamente tomado pelo medo, ele não ofereceu qualquer resistência quando o homem decidiu levar sua mão esquerda ao seu rosto também, segurando-o no lugar. O sorriso sinistro que marcava a expressão pálida do ser à sua frente se alargou, os olhos negros daquele desconhecido parecendo queimar com aquela luz estranha observada antes.

O sorriso começou a chegar mais perto, a língua do outro homem deixando a sua posição original dentro da boca e umedecendo os lábios já brilhantes. Antes que Imai pudesse fazer qualquer coisa, a mesma língua que ele havia visto momentos antes foi de encontro ao seu pescoço, traçando um caminho curto, arrepiante e gelado.

— Imai...

A voz daquela figura encheu o vagão novamente em um sussurro que parecia ter sido pronunciado a quilômetros de distância, uma tonalidade que fazia com que cada pêlo no seu corpo ficasse em pé. Seu nome se arrastou na escuridão, parecendo ecoar até quando foi substituído pelo longo apito do trem que caracterizava a abertura das portas em mais uma estação.

O frio, juntamente com a presença daquele homem, havia desaparecido.

Respirando rápido e ainda suando frio principalmente nas suas mãos, Imai olhou para fora, vendo o letreiro eletrônico na estação mostrar o nome da sua parada. Forçando seu corpo a se mover, ele saiu correndo do vagão justamente na hora em que um segundo silvo soava, fechando as portas do veículo e continuando viagem pela noite densa de Tokyo.

Foi com alívio que Imai se viu na plataforma, apoiando suas mãos nos seus joelhos enquanto se curvava para a frente e recuperava a respiração há muito perdida. Olhando para cima, ele encarou o relógio digital que sempre ficava ao lado do nome da estação na parede, lendo onze horas e cinqüenta e nove minutos.

Quando o relógio mudou para meia-noite, Imai ouviu o barulho de alguma coisa caindo no chão, parecido com o ruído de algo metálico que atingia o solo. Virando-se abruptamente para trás, ele encontrou apenas o trilho do trem, vazio, e a escuridão imensa que era Tokyo logo atrás.

— Quem está aí?

Sua voz saiu mais trêmula do que ele gostaria, mas ele realmente não se preocupava com isso agora. Esfregando os olhos com os dedos indicadores, a resposta que ele obteve do local deserto àquela hora foi o leve ruído de uma lâmpada que estava prestes a queimar, sem conseguir acender por completo e fazendo a claridade da plataforma oscilar.

Uma rajada de vento frio fez com que ele apertasse em torno de si a jaqueta que usava, respirando profundamente antes de tentar se acalmar e se direcionar para a saída, sabendo que ainda restavam quinze minutos de caminhada até seu apartamento.

Esfregando as mãos, tudo que Imai desejava era que tudo que havia se passado no trem tivesse sido uma ilusão.

O problema era que sua ilusão o acompanhava vários metros atrás, andando devagar e misteriosamente sem fazer barulho algum conforme suas botas militares encontravam o pavimento das ruas. No seu rosto, os lábios estavam mais uma vez contraídos em um sorriso, que só poderia ser descrito como belo...

...Belamente insano.

Continua...