\"Konya mo chi ga hoshii.\"

Esta noite eu também quero sangue.

BUCK-TICK — ROMANCE

Depois de dois dias em observação, Imai foi finalmente liberado para a sua própria casa. As ligações do seu chefe que ele encontrou na sua secretária eletrônica não eram as mais agradáveis do mundo, de forma que o caixa sabia que teria de retornar ao serviço na manhã seguinte ou então ele simplesmente não precisava mais voltar ao supermercado.

Suspirando e deixando-se cair em uma cadeira na sala, o cansado homem apoiou a cabeça nas duas mãos, tentando a todo custo entender como sua vida havia tomado rumos tão estranhos em um espaço tão curto de tempo. Inspirando e exalando o ar depois bem devagar, Imai buscou acalmar seus nervos e atingir uma paz de espírito que ele sabia não possuir mais desde o dia em que Atsushi cruzara seu caminho pela primeira vez.

Atsushi.

Ele odiava perceber que já tratava o quê antes era uma mera aparição por um nome próprio. No entanto, por mais que tentasse pensar no outro homem como uma mera criação da sua cabeça, ele sabia que as emoções, contatos e visões que ele havia experienciado eram reais demais para serem classificadas como delírios.

A sensação que preenchia o seu corpo era de derrota; um sentimento de desânimo profundo, como se houvesse perdido uma luta contra um oponente imaginário. Forçando-se a levantar do assento que ocupava a fim de tomar banho e dormir, Imai caminhou lentamente até o banheiro, onde se permitiu apoiar contra a pia por alguns momentos, encarando as gotas d\'água que pingavam da torneira e desciam lentamente pela louça branca, até sumir dentro do ralo.

— Imai.

O caixa ergueu o rosto, assustado. Ele sabia que não havia imaginado o chamado; alguém havia falado seu nome. Sentindo a respiração acelerar e o coração a bater mais rápido, os olhos castanhos de Imai imediatamente procuraram qualquer fresta ou janela de onde aquela voz pudesse ter vindo, tentando localizar a fonte do chamado.

— Imai!

A voz continuava insistindo, fazendo os dedos do pobre homem se agarrem com tal força à pia que as juntas dos seus dedos já começavam a ficar esbranquiçadas. Com os olhos arregalados, o caixa olhou para a porta com um misto de apreensão e medo, temendo a presença de alguém atravessando a mesma a qualquer segundo como um fantasma, ignorando as leis da física e ameaçando a sua sanidade.

— Imai. Na sua frente.

Foi naquele momento que o homem de trinta e cinco anos percebeu que a voz que o chamava não era aquela sedosa, perigosamente envolvente e que parecia atingir sua alma; não, dessa vez era outra pessoa. Era alguém conhecido, uma pessoa que estava sempre ao seu lado e que ele conhecia desde que havia nascido:

Era a sua própria voz.

Finalmente olhando para frente e encontrando o espelho do banheiro, a primeira coisa que o caixa fez foi franzir a testa, observando o seu reflexo fazer o mesmo. Não era possível que ele mesmo estivesse se chamando, era?

No momento em que o seu rosto espelhado abriu um sorriso que ele não havia esboçado, Imai sentiu que sim.

— Boa noite, Imai.

A voz animada que vinha do espelho assustou o caixa de tal maneira que ele foi contra a parede oposta do cômodo, encarando o espelho com um terror inexplicável. Aceitar que ele estava sendo perseguido por um estranho de aparência sensualmente perigosa era uma coisa; acreditar que ele estava conversando com o próprio reflexo era bem diferente.

Ele podia tentar fugir de Atsushi... Mas como fugiria de si mesmo?

— Não vai me cumprimentar, não é? — o reflexo fez uma expressão desapontada, mas mantinha um incômodo olhar humorado, como se toda aquela situação fosse uma grande experiência prazerosa para ele.

— Quem é você?

— Eu sou você. Somos a mesma pessoa, meu caro. — o reflexo replicou, piscando um olho e em seguida ajeitando uma mecha do cabelo enquanto o Imai do mundo real permanecia rente à parede de azulejos, o suor do nervoso que sentia empapando sua camisa e aumentando a sensação de frio.

— Não é... Possível.

— Ah, você ainda acha que alguma coisa não é possível neste mundo? Achei que Atsushi havia lhe demonstrado o suficiente para convencê-lo do contrário.

— Você conhece Atsushi? — o caixa replicou, percebendo que sua voz havia saído quase como um sussurro dos seus lábios.

A risada que veio do espelho em seguida congelou o sangue do homem de trinta e cinco anos. Quando o seu reflexo finalmente se controlou, ele tinha uma expressão no rosto que lembrava Atsushi de uma forma perturbadora, sorrindo enviesado e encarando o Imai real com um ar de divertimento insano.

— Claro que conheço Atsushi. Somos a mesma pessoa, lembra? — o reflexo explicou em um tom paciente, em seguida inclinando a cabeça para o lado — Meu caro, por acaso você ainda não entendeu quem é? Ou quem somos, na verdade.

Não confiando na própria voz para se expressar, o caixa apenas negou com a cabeça em silêncio.

— Imai, você é um vampiro.

— Impossível!

A negação enfática que veio do Imai real causou um certo espanto na sua versão espelhada, que piscou e pareceu considerar o efeito da declaração por poucos segundos. O caixa de supermercado havia se descolado da parede, chegando mais próximo da pia com um prudente receio:

— Eu não sou nenhum vampiro.

— Tem certeza, Imai?

Um sorriso esquisito por parte do reflexo se seguiu à pergunta, mandando o homem de carne e osso de volta à parede, aterrorizado. No espelho, dois caninos extremamente pontiagudos e nada naturais se sobressaíam do resto da dentição normal do Imai refletido, servindo de evidência mais do que suficiente para atestar sua condição de criatura sobrenatural.

No mundo real, o caixa levou uma das mãos à sua boca, procurando pelos mesmos dentes afiados e não encontrando nada. O suspiro de alívio que ele deixou escapar foi tão alto que causou uma segunda gargalhada no seu reflexo.

— Você ainda tenta negar? Você não pode sentir suas presas ainda, Imai... Mas o momento vai chegar. Eu garanto. Assim como a sua primeira sede de sangue já ocorreu.

O homem de trinta e cinco anos engoliu em seco, ficando pálido. Era bem verdade que ele havia sentido um desejo estranho por mais daquele gosto sublime que havia dado vida aos últimos beijos de Atsushi, mas... Havia passado. Ele havia atribuído tudo a uma fraqueza momentânea da sua mente e tudo havia ficado bem desde então.

E não havia motivo para isso mudar.

Havia?

— Ah, vejo que você se lembra! Muito bem! — o reflexo bateu palmas e o som delas ecoou de uma maneira fantasmagórica pelo pequeno banheiro, que apesar do tamanho possuía uma boa acústica — Agora tudo que você precisa fazer... É deixar que Atsushi termine o processo.

— Processo? — o caixa repetiu, atônito — Do quê você está falando?

— Ora, meu caro. Atsushi precisa terminar de me trazer de volta. Como você pode perceber por esta humilde conversa, é a primeira vez que falamos cara a cara. — o reflexo abriu um sorriso perturbador naquele momento, achando alguma coisa engraçada no que havia acabado de falar mas prosseguindo — Graças à primeira mordida que ele deu em você, sugando um pouco do seu sangue. Agora, tudo que ele precisa é mordê-lo no pescoço e depois fazer você beber um pouco do sangue dele. E pronto, estarei livre.

A simplicidade mórbida com a qual o Imai do espelho havia relatado o procedimento deixou o homem de carne e osso sem reação. Ele não sabia se acreditava no que ouvia ou considerava tudo aquilo como mais uma das suas freqüentes ilusões.

— O quê você quer dizer com \"estarei\"? Não somos... A mesma pessoa? — o caixa indagou, sentindo seu corpo tremer junto com a sua voz. Era estúpida a idéia de fazer a si mesmo uma pergunta, mas... Talvez fosse o único jeito de entender o quê tudo aquilo significava.

— Boa pergunta. — o reflexo concedeu, balançando a cabeça afirmativamente — Compreenda o seguinte, meu caro: nós somos a mesma pessoa até agora. Eu tenho vivido dentro de você, como um hóspede, digamos. Mas você nada mais é do que uma simples casca, criada para me proteger até o momento certo. E esse momento... Chegou. Então você deixará de ser real e eu o reflexo. Trocaremos de lugar, assim por dizer.

Depois da última palavra do reflexo, Imai abriu a porta do banheiro e saiu correndo, fugindo de qualquer superfície espelhada que ele pudesse encontrar pelo meio do caminho. Descendo apressadamente as escadas do seu prédio, Imai ainda ouvia o eco da sua própria risada, divertida e cheia de confiança por todo o seu percurso até a portaria.

— Dê lembranças minhas a Atsushi quando encontrá-lo novamente, Imai. Sinto tanta falta dele quanto ele sente a minha.

Gritando de pavor ao receber uma última mensagem do seu reflexo do espelho pendurado no hall de entrada do prédio, o caixa de supermercado saiu em uma corrida frenética para a rua, desviando de todas as vitrines, poças d\'água e quaisquer superfícies onde por ventura ele pudesse voltar a se ver e ouvir.

Sentado no alto do prédio que Imai havia acabado de deixar, Atsushi tinha os lábios vermelhos curvados em um elegante sorriso, observando sua presa realizar uma tentativa inútil de fuga. Erguendo a cabeça e sentindo o vento noturno acariciando seus cabelos de leve, ele levou a mão direita à altura de duas marcas pequenas e idênticas que quebravam a pureza e aparência imaculada da pele do seu pescoço, sentindo um arrepio descer a sua espinha ao tocar aquele sinal.

— Mestre...

O mais puro gemido de prazer deixou os lábios sensuais de Atsushi, sendo carregado pelo vento até onde Imai se encontrava; a súbita sensação que ele teve de cravar os dentes na bela criatura que vinha lhe atormentando há dias serviu apenas para aumentar a velocidade da sua corrida desesperada...

Continua...