\"Konya mo chi ga hoshii.\"
Esta noite eu também quero sangue.
BUCK-TICK — ROMANCE


Passos. Gritos. Luzes apagando. Sussurros. Coisas se arrastando. Um sorriso que começava como o do gato Cheshire para logo depois ser tingido de vermelho, sangue escorrendo daqueles lábios perfeitos e hipnotizantes que agora moviam-se na completa escuridão e murmuravam um nome:
Imai... Imai... Imai...
— NÃO!
Foi gritando que Imai acordou naquele dia, sentando na sua cama e sentindo seu peito subir e descer na maior velocidade que já experimentara na sua vida. Como que por reflexo, ele olhou ao redor, suspirando com alívio incontido ao notar que não havia ninguém por perto.
O cabelo escuro de Imai estava colado à sua testa, suor encharcando sua camisa branca do pijama e os shorts do mesmo também. Apoiando a cabeça na mão direita, o caixa de supermercado respirou profundamente, tentando colocar seus pensamentos em ordem.
A noite havia sido horrível. Se no começo ele não conseguia dormir por causa das imagens do trem indo e voltando na sua mente e assustando-o continuamente, depois seus sonhos vieram atormentá-lo com a figura daquele homem pálido e de lábios sedutores...
Bagunçando o próprio cabelo de um modo ligeiramente desesperado, Imai jogou suas pernas para o lado de fora da cama, suspirando mais uma vez antes de olhar para um espelho na parede do quarto: ele parecia ainda mais cansado que na noite anterior, se é que aquilo era possível. Esfregando o olho esquerdo, ele observou o antigo despertador que ficava sobre seu criado-mudo, logo em seguida gritando um palavrão e correndo para o banheiro.
Ele havia perdido a hora.
Nunca, em toda a sua carreira como funcionário de qualquer lugar, Imai Hisashi havia chegado atrasado. Seu turno começava às duas horas da tarde, mas por causa do treinamento, ele precisava chegar por volta de meio dia ao supermercado, na parte central de Tokyo.
O relógio lia onze e trinta e nove quando o caixa saiu do chuveiro, abotoando a camisa que tinha seu nome bordado em um dos bolsos o mais rápido que conseguiu, tropeçando nos seus próprios sapatos enquanto isso. Não havia tempo para comer ou fazer qualquer outra coisa, e Imai decidiu agarrar somente sua carteira e chaves antes de sair correndo pela porta.
Do lado de fora do seu apartamento, tudo estava escuro. Piscando os olhos, ele tentou acender a luz do corredor, mas o sensor do interruptor deveria estar quebrado, já que nada aconteceu.
Ele começou a sentir o frio da noite anterior de volta, circulando seu corpo. Nervoso, Imai encarou o visor do elevador, notando que ainda faltavam muitos andares até o décimo terceiro. Os números vermelhos daquele pequeno quadradinho que simbolizavam os pisos pelo qual o seu primeiro meio de transporte daquele dia passava subiam dolorosamente devagar.
A sensação de frio que o caixa de supermercado sentia aumentou, talvez porque a água do banho não tivesse sido primorosamente enxugada ou talvez porque o que quer que estivesse causando aquele frio esquisito estava mais próximo. Olhando ao redor sem conseguir ver nada, Imai instintivamente deu dois passos para trás, indo de encontro ao local onde ele sabia ficar a parede do pequeno hall.
Mas não foi a parede que suas costas encontraram quando ele se deixou cair para trás, e sim algo mais macio. Nos poucos segundos em ficou congelado no seu lugar, Imai sentiu fios de cabelo tocando as laterais do seu rosto.
Ele gritou, andando para frente como se sua vida dependesse daquilo; e talvez fosse verdade. Aterrorizado, ele colidiu com a porta do elevador, tamanha a força de vontade usada na hora de se distanciar da parede. Nesse momento, o próprio elevador chegou ao décimo terceiro andar, e Imai rapidamente abriu a porta do mesmo.
A luz que vinha de dentro da cabine suspensa por cabos de aço foi suficiente para iluminar todo o corredor onde ele estivera esperando até então, e não havia absolutamente ninguém ali; nada que pudesse ter ficado entre ele e a parede como ele havia sentido. O frio havia ido embora também, mas a iluminação do pequeno hall havia retornado.
Respirando rápido e massageando a testa, Imai lutava para se convencer de que tudo ainda era reflexo da noite mais estranha da sua vida, que havia sido exatamente a última. Lembrando que ele estava atrasado e muito para o seu trabalho, ele apertou várias vezes o botão do térreo, como se aquilo fizesse o elevador se deslocar mais rápido para longe do temido corredor.

Imai estava respirando com dificuldade quando entrou pela porta do supermercado naquela manhã de sábado, franzindo os olhos quando viu seu gerente de longe. Ele iria levar uma bronca, inevitavelmente. Atrás dele, na parede, um grande relógio com o logotipo do supermercado marcava meio dia e cinqüenta e três minutos com seus ponteiros.
Ajeitando sua camisa e torcendo para que nenhuma mancha de suor da correria da manhã e do susto do corredor tivessem marcado sua roupa, ele se dirigiu o mais dignamente que pôde até seu superior, que de fato não parecia muito contente.
— Ohayou, Yagami-san.
— Imai-san, bom dia. O quê aconteceu?
Imai abriu a boca para explicar, mas ele se descobriu sem palavras. Seu chefe não iria acreditar nunca em tudo que havia acontecido no dia anterior no trem e em como isso justificara sua falta de sono e conseqüente atraso. E depois... Ele nem tinha certeza se tudo aquilo era real mesmo. Provavelmente era o stress que estava mexendo com a sua cabeça.
— Meu despertador não tocou, Yagami-san. Mas isso não vai mais acontecer de novo.
O seu chefe mordeu o lábio inferior, parecendo pensar em algo. Por fim, ele sacudiu a cabeça afirmativamente, arrumando o aro dos óculos que usava.
— Muito bem, Imai-san. Por favor, vá imediatamente à sala dos fundos para retomar o treinamento. Todos estão esperando o senhor.
— Sim, senhor. Isso não acontecerá novamente.
— Espero que assim seja.
Mais uma vez encolhendo os ombros ligeiramente ante a reprimenda, Imai andou o mais rápido possível pelas estantes do supermercado e caminhou até os fundos do mesmo, passando pela porta onde um aviso proibia a entrada de estranhos e seguindo reto, parando numa sala ao final do corredor.
— Bom dia a todos, e desculpem o atraso.
Todos os funcionários que estavam em fase de treinamento imediatamente pararam de conversar entre si e sentaram-se nos seus lugares de costume, olhando para Imai. Ele suspirou profundamente, arrumando sua camisa e esfregando os olhos mais uma vez antes de começar. Ele estava se sentindo sonolento, de repente.
Apoiando as mãos na mesa pequena que ficava dentro da sala, ele ergueu a cabeça para fitar os seus alunos, como ele gostava de chamá-los. Só que assim que ele fez o movimento de erguer a cabeça, os rostos das pessoas para quem ele estava dando aquele treinamento foram ignorados em detrimento da parede branca do fundo do cômodo, que nunca havia chamado a atenção de Imai até aquela manhã.
Também, até aquela manhã, a parede nunca havia possuído dois grandes olhos, iluminados com uma luz estranha e que parecia encará-lo de volta com intensidade, passando pela sua carne e vendo tudo que ele sentia, temia e acreditava. Sentindo a respiração ficar presa na sua garganta, Imai piscou e foi para trás, parando antes que seu corpo fosse de encontro à pequena lousa que ele usava.
Os olhos haviam desaparecido exatamente no tempo de uma piscada. Ainda atordoado, o caixa sentiu uma corrente de vento gelada passar por ele, fazendo com que ele olhasse para os lados em busca de onde havia vindo aquela massa de ar, já que a sala...
Não possuía janelas.
Respirando novamente porém ainda de forma acelerada, ele perdeu os olhares de incredibilidade, medo ou até mesmo de diversão nos rostos daqueles que deveriam estar sendo treinados. Aturdido, Imai fez um gesto fraco com a mão na direção da porta, sentando na cadeira que havia sido colocada ali para eles antes de dizer:
— Todos para fora... Vamos fazer alguma coisa prática hoje.
A estranheza do instrutor foi de pronto ignorada em favor de algo mais interessante ao invés das aulas tediosas que haviam sido obrigados a assistir até então, as dez pessoas em treinamento ruidosamente saindo da sala. Embora se sentisse cansado, Imai achou que era melhor segui-los rapidamente.
Saindo por completo do corredor que levava de volta ao mundo cheio de sons, luzes e cheiros de um supermercado, o caixa perdeu o eco de uma risada, grave, curta porém cheia de satisfação.

Agrupados perto da seção das carnes, Imai correu para junto dos seus alunos e decidiu ensiná-los a como remarcar preços nas estantes e como fazer os cartazes que ficavam espalhados por todo o supermercado; era uma caligrafia padrão que devia ser utilizada sempre, como se apenas uma pessoa tivesse escrito tudo.
Começando pela parte da remarcação, Imai mostrou aos funcionários em treinamento a máquina e como ele funcionava, pensando consigo mesmo enquanto isso que aquela parte era inútil. No entanto, ele não iria voltar para aquela sala naquele dia, nem que seu superior o ameaçasse com uma eventual demissão.
Entregando a pequena máquina preta na mão de um dos garotos que estava treinando, ele mandou todos se juntarem em uma estante cheia de pacotes de macarrão instantâneo, pedindo para que metade do grupo se ocupasse com a remarcação e a outra com a remoção dos produtos já vencidos, enquanto ele observava o trabalho.
Ainda pensando nos acontecimentos da última noite e daquela manhã, ele quase pulou de susto quando um dos seus alunos tocou o seu ombro, fazendo com que ele se assustasse e desse alguns passos para trás. O pobre funcionário em treinamento piscou, sem saber se deveria se desculpar pelo susto involuntário ou não, mas Imai fez um gesto com a mão que colocou o assunto por terra, sanando a dúvida que o garoto tinha.
Suspirando, o caixa deixou seu olhar vagar pelo corredor, ainda meio deserto àquela hora da manhã. Foi quando notou com irritação, provavelmente causada pela falta de sono, que havia uma figura de costas naquele mesmo setor do supermercado, circundado por uma linha de fumaça que só poderia estar sendo produzida por um cigarro. Esfregando os olhos na tentativa de livrar-se do sono nada conveniente, ele decidiu que iria advertir a pessoa que provavelmente havia ignorado os cartazes sobre a proibição de cigarros dentro do estabelecimento.
Porém, ao chegar perto do homem alto que estava fumando, este se virou antes que Imai pudesse lhe chamar a atenção, e sorriu-lhe de um modo inconfundível.
Era a boca com a qual ele havia sonhado, eram os olhos que ele havia visto na parede, era o cabelo que ele havia sentido contra seu rosto. Era o homem que o havia perseguido na noite anterior, fumando languidamente dentro do seu local de trabalho.
Parado novamente onde se encontrava, a força do supermercado caiu por alguns segundos, tempo suficiente para que aquela voz sedutora murmurasse seu nome junto ao seu ouvido e enterrasse as pontas dos dedos nos seus ombros, colocando os dois corpos juntos. Por fim, momentos antes da luz ser restaurada automaticamente, Imai ainda sentiu lábios gelados contra os seus, firme porém brevemente.
Quando a iluminação voltou, o caixa virou-se na direção do grupo, que obedientemente parecia cumprir as ordens que ele havia dado. Não havia nenhuma figura de preto por perto, e as únicas pessoas que ele enxergava naquela corredor não pareciam ter sequer notado a falta de luz.
A mente de Imai encontrou resistência para adotar a hipótese de que tudo havia sido uma ilusão porque ao passar a língua pelos próprios lábios, o caixa sentiu o indefectível gosto de cigarro.

Continua...