Klaus e Caroline


Como alguém pode ser tão cínico? O charme dessa criatura pode muito em seus efeitos. Para qualquer um que não conhece a sua história pesada, invariavelmente é levado pelo seu sotaque, pronunciado deliciosamente por aqueles lábios vermelhos... Caroline, contenha-se! Mas, eu não! Eu não posso me deixar enganar por causa de umas covinhas bonitas na bochecha, por causa de um sorriso sedutor e de uma voz aveludada e sexy e...Sacudi a cabeça de leve. Aparentemente eu não precisava de álcool para ficar embriagada. Suspirei fundo, avaliando sua expressão irônica. Nem sei ao certo se eu deveria estar aqui com ele. Pelo menos aqui comigo eu sei onde ele está e o que está aprontando. E não por aí açoitando ou destruindo a vida de alguém. Ainda acredito que há muito tempo existiu um Klaus com sentimentos humanos. Ou que talvez ainda há chance para um conserto. Mas, por Deus, nunca vi uma pessoa tão fodidamente quebrada. Freud ficaria louco se tentasse entender essa alma, se é que vampiros têm alma. E se esse for o caso, a questão é se Klaus ainda tem uma...Nosso assunto sobre meus planos futuros me deixou pensativa e me fez entrar nesse clima de silêncio introvertido enquanto eu observava atentamente cada expressão, cada movimento com o corpo que Klaus apresentava estando totalmente quieto. Por alguns instantes ficamos ali presos na bolha, com os olhos pregados um no outro, sem conseguirmos dizer mais nada, apenas sentindo a atração fluir pelos nossos corpos...

– Umas das coisas que eu mais lamento sobre o vampirismo é não podermos ler os pensamentos alheios – eu disse a ela, fazendo-a dar um leve sobressalto em surpresa. Caroline estava estranhamente calada. Geralmente ela fala pelos cotovelos. Mas, quase sempre eu não me importo. Quase. Eu não gosto quando ela para de falar na minha frente, por que eu sei exatamente para aonde os seus pensamentos estão indo. Ela é uma pequena julgadora. Aposto minha estaca de Carvalho Branco que ela estava avaliando o quão válido é o nosso pequeno passeio, pois sua expressão anuviada de repente ficou séria.

– Silas pode ler pensamentos. E podemos entrar na mente de outro vampiro se ele estiver muito fraco – Que susto! Fui pega no flagra. E ainda bem que ele mudou de assunto, pois não estava mais disposta a discutir sobre os meus planos. As decisões sobre a minha vida eram apenas minhas, portanto eu faria o que quisesse, sem me deixar envenenar pelo discurso fantasioso dele.

– Silas não se considera um vampiro, love. Ele repudia essa expressão sendo usada para nomeá-lo – Eu disse com um sorriso arrogante. E ela fez uma cara de cinismo e incredulidade ao mesmo tempo.

– Você jura? Não foi o que me pareceu. Ele drenou todo o estoque de sangue do hospital. Beber sangue para sobreviver me parece coisa de vampiro – Respondi com sarcasmo. Eu sabia o que ele estava tentando dizer sobre o desgraçado do Silas, mas não iria ceder. Nunca! – A definição de vampirismo dele é um pouco distorcida, então.

– É verdade, é coisa de vampiro, mesmo que meio incoerente – eu disse a ela com um sorriso torto. Não quero discutir com ela. Ainda mais sabendo quão cabeça dura ela pode ser – Mas, ler a mente de alguém é muito íntimo. Só se a pessoa permitir...Não gosto dessa invasão quando se trata de pessoas com quem me importo. Por exemplo, nunca leria a sua mente sem permissão e muito menos tentaria te hipnotizar. A hipnose também é uma forma de agressão e eu jamais faria nada para te ferir.

Senti um leve arrepio na espinha, seja por ele declarar que se importa comigo desse jeito tão provocador ou porque suas palavras me fizeram lembrar do inferno que Damon me fez passar enquanto estava sob seu domínio mental. Levando em conta que estávamos numa conversa civilizada, não traria isso à tona agora.

– Eu nunca tentei – Mantive a compostura, para me desviar das suas confissões – Nunca quiseram ler a minha, então não sei como é. E sobre Silas, até onde eu sei, você estava conspirando a favor dele. Enganou Elijah e Rebekah para lhe entregar a Cura. Bem típico de você, não é mesmo, trair seus irmãos – Falei meio áspera. Ele me deu um olhar frio e raivoso. Eu sabia que não deveria dizer essas coisas. Estávamos silenciosamente com a bandeira branca da paz erguida e eu não queria irritá-lo. E me parecia ingratidão depois do que ele fez por Tyler. Por mim. Mas, eu não posso esquecer tudo o que ele fez de terrível só por causa de um gesto descente, posso? Era automático acusá-lo, ficar na defensiva. Eu fazia isso sempre quando percebia o perigo da sua presença me dominando com o seu charme. Era uma medida de segurança, instinto de sobrevivência.

– Foi para me defender, Caroline. Ele estava me condenando ao inferno. E assim seria até que eu lhe desse a maldita Cura. Você deve se lembrar muito bem do que ele estava fazendo com a minha mente. Foi você quem me resgatou de sucumbir de vez – Por quê fazer esse comentário agora, justamente quando demonstrou que estava disposta a ser minha amiga? Que ela não consegue manter as suas observações venenosas dentro daquela boca grande eu já sabia. Mas, sempre me deixa puto quando ela o faz. Especialmente quando ela conhece muito bem as circunstâncias envolvidas – Vamos mudar de assunto, love. Não vamos chegar a lugar algum com isso – Uma música bonita e lenta, parecida com um jazz dos anos vinte, tocava em segundo plano. Me surpreendeu que uma música dessas estivesse tocando naquele barzinho caído, mas aceitei a melodia de bom grado, me animando um pouco. Era o meu tipo favorito de música, assim como foi um dos meus séculos favoritos. Todo o glamour, toda a inovação tecnológica mudaram o mundo para sempre. Fui envolvido pela nostalgia daquele tempo e não consegui me conter, precisava dividir essa beldade com Caroline. Levantei e lhe estendi uma mão num convite – Vamos dançar? Parece uma coisa nossa, lembra? Do baile.

Eu estava de braços cruzados, olhando emburrada para ele. Nem sei por quê eu estou irritada. Klaus costuma ter esse efeito sobre mim. Ele costuma me tirar do sério por motivo nenhum. Olhei para a mão estendida dele e resolvi aceitar. Afinal, eu aceitei vir até aqui com ele. Agora não dava mais para voltar atrás... E essa seria a desculpa que eu daria para mim mesma para esconder o fato de que eu estava doida para colocar as mãos nele. Ele pegou a minha mão, queimando a minha pele levemente, e me conduziu até perto das caixas de som, num canto do bar, próximo a uma grande mesa de sinuca. Não tinha mais ninguém dançando e eu me senti ridícula por sermos os únicos. Eu quis protestar, mas mudei de ideia ao olhar nos olhos dele. Ele me encarava com um brilho inocente e um sorriso sapeca. Com uma expressão anos-luz de distância do Klaus serial killer. Ao senti-lo tão perto de mim, com as suas mãos sobre meu corpo, não deu para controlar a quentura que percorreu as minhas veias. Meu coração acelerou e senti minhas mãos pegajosas. Envergonhada, torci para ele não perceber nada com seus sentidos apurados.

Caroline me olhava meio na defensiva, mas, aos poucos, foi amolecendo. É sempre assim, é como um ritual entre nós, o de primeiro passarmos da fase da gritaria para depois nos entendermos. Eu a puxei para mais perto e coloquei delicadamente uma mão em sua cintura, esperando sua permissão ou recusa. Ela endureceu por um momento, mas não me afastou. Só tínhamos nós dois acompanhando a música. E por uns instantes entramos na nossa bolha particular. Caroline não sabe que ela existe, mas ela está lá, nos tragando do mundo, nos alienando. Olhei para seu rosto enrijecido e quis me aproximar, pois fui tomado por um impulso irracional de beijar as sardinhas discretas no dorso do seu nariz. Mas, eu não seria doido de fazer isso, pois assustaria a fera para bem longe, provavelmente terminando em tragédia, onde eu acabaria sem os olhos.

– Para alguém que, aparentemente, planejava em ir a minha formatura, você chegou bem atrasado. Pensei que você fosse um exemplo de educação social, um gentleman – Resolvi falar alguma coisa, para cortar esse silêncio constrangedor que pairou que nem uma nuvem negra sobre as nossas cabeças.

– Eu estava ponderando. Não tinha certeza se era uma boa ideia aparecer por lá. Tendo em vista todo o seu desprezo e repulsa por mim – Estalei com sarcasmo.

– Hum. Mas, eu te convidei, não foi? Pelo menos foi no timing perfeito. De certa maneira, foi bom você ter aparecido. Nos salvou de uma morte iminente e certa. Inclusive a do Damon. Embora eu tivesse minhas dúvidas se você o salvaria. Você não é do tipo que salva o dia, como um típico mocinho – Falei com um tom de escárnio. Fiz a melhor cara de cinismo que eu poderia fazer.

– Ah, isso é mentira sua, Caroline. Se você não acreditasse que eu salvaria aquele babaca, você não teria me ligado um bilhão de vezes – Taquei na cara dela, com triunfo, sentindo a vitória por causa da cara emburrada que ela fez. Sua expressão de incredibilidade era tão fofinha e sexy ao mesmo tempo. Que difícil era ficar tão perto dela assim sem poder me aproximar mais...sem poder tocar em seu belo rosto ou em seus cabelos macios, sem poder beijá-la...

– Eu queria que você viesse – Ergui as sobrancelhas esperando ela continuar, pois ela parou de falar e desviou os olhos dos meus. Aguardava ansioso por suas próximas confissões, pois Caroline sempre se escondia de mim. Era um milagre e um deleite ouvir dela que queria a minha companhia – Estranhamente senti vontade de repetir aquele dia da premiação Miss Mystic Falls, apenas por curiosidade. Até que você é divertido quando quer ser. Até aquele dia nunca tinha pensado que fosse capaz de se desligar dos seus objetivos macabros e ter um dia livre de diversão.

– Eu posso muitas coisas que você nem imagina – Meu coração acelerou bruscamente, enquanto as pontas dos meus dedos formigaram. Mirei seus lábios grossos e vermelhos – Desde que realmente valha a pena. Um dia eu vou mostrar para você todo o meu potencial para a diversão.

Eu estava pronta para dar uma resposta à altura, escorregando na lama sem perceber. Mas, alguém, cuja voz eu conhecia muito bem, chamou pelo nome de Klaus. Os seus olhos quase saltaram das órbitas de surpresa. Eu me virei temerosa e confusa. Ele não deveria estar aqui agora. E Bonnie?!

– Niklaus! Ora, se não é o meu irmão mais velho favorito – Vindo em nossa direção, Kol sorria abertamente para mim, com todos os seus dentes brancos a amostra.

A minha surpresa foi tamanha ao ponto de eu ficar uns segundos de boca aberta sem dizer uma palavra, sendo que poucas coisas nessa vida eram capazes de me surpreender. Meu irmão mais novo levantava os braços numa indicação de um abraço. Quando ele viu que eu não me manifestei na sua direção como ele esperava, a sua decepção foi disfarçada com um sorriso cínico. Eu não sabia se eu ficava feliz ou puto em vê-lo. Embora tenha sido terrível perdê-lo, de uma dor imensurável, sua presença indicava que algo muito de errado estava acontecendo. Sem saber o que fazer ou dizer, se abraçava meu irmão ou se ameaçava ele, fiquei parado boquiaberto. O que ele fazia aqui, agora? A essa altura a bruxinha já deveria ter fechado os portões do inferno, levantado aquele maldito véu. A verdade é que, mesmo Kol infernizando a minha vida e me gerando milhares de problemas para resolver, a morte nunca foi meu plano para ele. Quando me estressava demais, passava uns dias ou décadas com a adaga no peito, mas era sempre uma questão de tempo até eu sentir falta dele e liberta-lo do caixão.

– Você não deveria estar morto, infernizando os outros fantasmas? – Eu disse com um ar zombeteiro, mal disfarçando meu sorriso feliz e agradecido por meu caçula estar de volta.

– Ora, que jeito nada caloroso de receber o seu irmão de volta, Niklaus. Você deveria estar pulando de alegria e não com cara de enterro. O velório já passou, pelo menos o meu. Agora virão outros velórios, lamento dizer. Ou não – Ele falou ampliando o seu sorriso, mas com uma leve sombra de mágoa – Ao que parece eu voltei para ficar. Não vou a lugar algum por um bom tempo. Seria bom você avisar aos seus amiguinhos – Ele falou, dessa vez olhando para Caroline e mais sombrio. Ela se manifestou ao meu lado, com a voz vacilante:

– Como assim? Bonnie disse na hora da formatura que estava tudo certo, que era só levantar o véu – Eu estava com uma sensação ruim. Nada disso estava correto, nada se encaixava. E se Kol estava aqui, todos os outros sobrenaturais também estavam. Ou talvez ele foi o único a ficar, deu um jeito de escapar – Eu vou ligar para ela.

– Ora, ela mentiu. Eu me lembro de você, loirinha. Do baile da minha mãe e naquele dia no bar, não é Nik? – Ele sorria maldosamente para mim e para Caroline. Eu já estava perdendo a paciência – Não se dê o trabalho de ligar para ela, anjinho, eu já posso te adiantar o que houve. Sua amiguinha está morta. Bem, tecnicamente, ela morreu. Mas, como todos os sobrenaturais estão vagando por aí em carne e osso enquanto a barreira não é posta de volta no lugar, ela está "viva" – Ele terminou, com uma diversão negra na voz. Caroline tremia ao meu lado, com os olhos arregalados. A bruxinha também só faz merda. Agora, por culpa dela teríamos muita bagunça para arrumar.

– Eu não acredito nisso – Eu disse quase num sussurro. Minha melhor amiga não poderia estar morta. Esse desgraçado só poderia estar possuído por um gênio ruim! Eu sentia calafrio e espasmos pelo corpo. Eu precisava encontrar Bonnie – Eu vou até ela. Preciso ver o que houve. O plano não era esse – Me adiantei freneticamente em direção à porta, mas fui parada no caminho. Klaus me segurou pelo braço, mas controlava a sua força.

– Você só pode ter perdido o juízo, Caroline. Estamos no meio de um caos agora, ao que parece. Todos os nossos inimigos estão por aí esperando para nos matar. Inclusive as doze bruxas que você assassinou com muita proeza e que estavam prestes a estourar seus miolos horas atrás – Eu cuspi asperamente para ela. Caroline poderia ser bem imprudente e sem noção do perigo às vezes. Me irrita que ela seja tão altruísta e inconsequente com o próprio bem estar justamente quando era necessário o oposto. Então, sem muito tato, quis impedi-la, sem muito sucesso, pois eu sei que às vezes não sou muito delicado e isso sempre a afasta de mim. Mas, a verdade é que me doeria na alma se algo de ruim acontecesse com ela, especialmente depois de ter sido salva por um triz.

– Nem em sonho que você vai me prender aqui. Estamos falando da minha melhor amiga – Devolvi com raiva, prestes a atacá-lo se fosse necessário. Eu sabia que nada eu poderia fazer se ele decidisse me manter aqui. Mas, eu não cairia sem brigar. Não deixaria minha amiga lá fora, em perigo, em hipótese alguma. E Klaus jamais faria algo contra a minha vontade, ele não passaria desse limite comigo. Não mais. Nos encaramos por uns segundos, os dois soltando fogo pelas ventas. Então, de repente, ele me soltou. Se afastando sem desviar os olhos dos meus. Klaus raramente me tocava, e quando o fazia, era porque tinha perdido o controle de alguma forma. Ele deveria saber que se cruzasse alguma linha perigosa comigo, qualquer amizade estava acabada.

– Eu não vou correr para te salvar de novo já que você insiste em se colocar em perigo – Falei tentando mostrar o máximo de frieza possível para ela. Mentindo, é claro, mas disfarçando bem. Pelo menos eu achava — Você não deveria ir, Caroline. Se for verdade o que esse pateta fala da bruxinha, no que você poderia ajudar no feitiço?

– Não se trata disso – Falei entredentes – Às vezes só do que as pessoas precisam é de um ombro amigo e acolhedor. Ela deve estar sozinha, com medo. Mas, você não consegue entender isso, não é? Quando que deu suporte a alguém nessa sua vida? – devolvi com um ódio mortal para ele. Klaus me olhou com mistura de sentimentos, uma fusão de mágoa e rancor. Eu sabia, lá no fundo, que eu estava jogando pesado, e senti um pouco de culpa, não gostei de ser eu a responsável por ferir seus sentimentos. Não é verdade que ele não tem afeto por ninguém. Mas não quis me importar com isso agora. Eu apenas queria ver Bonnie. Dei às costas e saí na minha velocidade vampírica, sentindo o olhar magoado dele queimando nas minhas costas.

– Você sempre dá bola fora com essa loira, não é Niklaus? Parece que nunca em séculos tentou ficar com uma mulher. Qual o seu problema?

– Mas que merda você está fazendo aqui no Mystic Grill, Kol ? – Desviei os olhos das costas de Caroline, tentando conter a minha raiva e decepção. Sei que não sou nada ortodoxo, mas toda vez que ela decidia jogar isso na minha cara, me atingia como nunca antes nos meus séculos de existência. Tentando suprimir meus vergonhosos sentimentos humanos, me virei de cara feia para meu irmão mais novo.

– Tenho uns assuntos pendentes com Elena Gilbert e achei que umas brincadeirinhas com Matt Donovan seriam incentivos o suficiente para ela – O filho da puta falou sorrindo, puxando uma cadeira para sentar e pondo os pés em cima de uma das mesas – Mas, não acho o garçom em lugar algum. Talvez devêssemos procurar por Rebekah, quem sabe assim encontramos ele – Ele falou maldosamente.

– Temos muitos problemas para nos preocuparmos agora, Kol. Acho que você pode deixar a sua vingança para depois – Acrescentei puto da vida. Será que ele não percebia o que tudo isso significava para nós? Onde estaria Elijah ou Rebekah nesse momento delicado? Fui em direção à saída do bar, tentando chegar até o meu carro o mais depressa possível e Kol me seguiu.

– Nossa, Niklaus sendo contra a vingança, isso é novidade! Foi preciso o inferno se estabelecer na Terra para ele esquecer a vingança! – O desgraçado falou agitando os braços para o ar e depois batendo palmas. Me imputeci de vez e me atirei contra ele, o jogando contra a parede de trás do bar.

– Me dê um bom motivo para eu não te mandar para o inferno novamente! – Falei com o rosto bem próximo do dele.

– Eu já estou morto, irmãozinho. Você pode me matar cem vezes e eu estarei de volta – Ele disse rindo ironicamente.

– Mas, pelo menos, eu vou silenciar você por algumas horas – devolvi com um sorriso sádico.

– Ah, é. Tinha esquecido que você adora silenciar os seus irmãos. Mas, geralmente, você usa outros métodos — Ele respondeu com sarcasmo e eu não poderia mais conter o meu temperamento se continuássemos nesse embate. Eu o soltei e, o ignorando completamente, peguei meu celular e disquei para Elijah. Ele atendeu no segundo toque.

– Elijah, onde você se meteu? – Falei rosnando para o meu irmão mais velho, depois de Finn.

- Qual o problema dessa vez, Niklaus ? — Elijah perguntou serenamente do outro lado da linha, como se falássemos sobre o tempo. Nem sempre ele tinha paciência para as minhas picuinhas.

– Vá para casa. Temos assuntos sérios para tratarmos.

E você poderia adiantá-los para mim, por favor? Já que são tão importantes assim – Acrescentou o meu irmão chato do caralho.

– O véu não foi levantado! Kol está bem aqui do meu lado – Um silêncio estarrecedor se fez do outro lado da linha – Vamos discutir isso em particular. E tente localizar Rebekah – Sem esperar por alguma resposta, desliguei o telefone na cara dele. Então, segui para o meu carro novamente.

– Finalmente teremos mais uma reunião de família, hein, Niklaus – Disse a besta do Kol – Já te falei que esses sempre foram os meus momentos favoritos? Será que nossa mãe vai dar outro baile? O Baile dos Fantasmas – Ele bateu as palmas gargalhando. O ignorei e entrei no meu carro. E sem nenhum convite, ele entrou pelo lado do carona. Continuei a ignorá-lo e dirigi em direção a minha mansão. Não havia tempo para sentir felicidade com o retorno do meu irmão mais novo. Só havia espaço para o medo do que o futuro reservava.

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Caroline

Dirigia a toda velocidade em direção ao local onde Bonnie disse que estaria. Enquanto isso, tentava ligar para todos, mas ninguém me atendia. O celular de Stefan e de Matt davam caixa postal, e de Elena e de Damon chamavam e ninguém atendia. Puta merda! Eles resolveram sumir do mapa justo agora. Mas, eu não podia esperar por eles. Se Bonnie realmente estivesse morta (e era insuportável a ideia), ainda poderia existir a chance de salvá-la e eu não poderia perder tempo. Estacionei num ponto da floresta perto da estrada, caso precisássemos fugir. Estava com os nervos á flor da pele. Com medo de minha melhor amiga estar realmente morta e alerta, à espera de qualquer sinal ou barulho suspeito. Adentrei àquela caverna estranha e segui à procura da minha amiga. Caminhei silenciosamente por um tempo até que ouvi algumas vozes. Ativei a minha super audição até que pudesse reconhecê-las. Bonnie conversava com a voz chorosa com mais alguém, com Jeremy...

Eu corri até eles e vi que os dois choravam. Os dois se assustaram ao me ver e Bonnie ficou horrorizada em me encontrar ali.

– Caroline ! O que você faz aqui ? – Ela me perguntou com a voz alterada e os olhos arregalados. E eu não pude me conter; corri até ela e a abracei forte. Mas que merda...?!.Então, num baque de realidade terrível, eu tive a confirmação dos meus piores medos.

– Não, não, não... não pode ser verdade! Bonnie, me diz que você não está realmente morta! Por favor, Bonnie ...! – Eu suplicava com soluços em seus braços, num abraço que eu não podia sentir da mesma forma. Ela estava ali, mas era estranho. Era como se eu estivesse abraçando algo diferente.

– Caroline, eu sinto muito – Ela me respondeu, chorando também. Eu podia ouvir Jeremy soluçando baixinho perto de nós – Eu não estarei sozinha. Minha família vai estar lá. Vai ficar tudo bem.

– Como você pode dizer uma coisa dessas?! Como que vai ficar bem? Você está morta – Eu disse quase gritando, num estado meio histérico. Jeremy veio até a mim e me abraçou, mas o abraço dele foi mais vistoso. Ai, está tudo errado. Não entendo mais nada – Você está vivo? – Olhei para ele meio confusa, ainda muito atordoada.

– Sim, Caroline, Bonnie me trouxe de volta. Foi uma troca. Por isso ela morreu. Os espíritos se irritaram com ele por tentar driblar a morte. Só uma vida paga outra – Ele me respondeu meio triste, obviamente nada animado com a troca.

– O que vamos fazer sem você, Bonnie?! – Eu disse abraçando ela de novo, choramingando .

– Car, não fique assim. Já disse que vai ficar tudo bem. Eu sempre encontrei um jeito, não? Vou conseguir de novo. Sou uma Bennet. Nada é para sempre no mundo sobrenatural – Ela me disse afagando os meus cabelos, tentando me consolar. Mas, isso seria impossível. A dor da sua perda era insuportável. Não sabia até quando o véu ficaria "caído", até quando eu a teria comigo aqui.

– Precisamos contar aos outros. Você não vai simplesmente ficar aqui escondida nessa caverna, Bon – Eu disse enquanto me afastava de seus braços e tentava limpar as minhas lágrimas com as costas da minha mão, fungando fortemente – Vamos, agora – Segurei na sua mão e tentei puxar Bonnie na direção da saída da caverna.

– Você ficou maluca, Caroline? Eu não posso fazer isso. Meus amigos estão finalmente felizes. Há quanto tempo eles não tem um momento assim? – Ela disse com uma expressão de incredulidade para mim. Felizes? A maluca era ela.

– Estamos no meio de um inferno sobrenatural, com a nossa amiga morta e você acha que estamos felizes? – Atirei contra ela , apontando meu dedo indicador para mim mesma e para Jeremy – Bonnie Bennet, você vai voltar comigo e contar a todos o que houve! – Falei com ela no meu tom autoritário mais do que conhecido. Ela olhou para mim com indignação, mas derrotada.

– Ainda acho que não é uma boa ideia, Caroline. Todos vão surtar. Podemos poupa-los de sofrimentos desnecessários. Eu já disse que vou encontrar uma brecha. Vamos manter em segredo, pelo menos por enquanto.

– E até quando você esperava esconder isso de todos se não encontrar nenhuma solução? – retruquei com a voz cheia de emoção contida – Não acha que quando começassem a ser atacados não iríamos notar nada de estranho? Não somos estúpidos. Logo iríamos sacar que algo estava errado com você – Continuei exasperada – Não adianta nada tentar esconder, pois muito em breve será descoberta. Vamos sair logo daqui, antes que nos achem e recomecem os ataques.

– Por favor, Caroline. Não quero adicionar mais essa morte às costas dos meus amigos. Vamos manter isso em segredo por enquanto, ao menos até eu saber o que fazer – Bonnie falava quase que em súplica.

– Não, não! – Eu gritei para ela – Bonnie, juntos podemos pensar em algo, juntar as peças que estão te faltando. Eles precisam saber, todos eles precisam saber! Não seria justo! Se fosse ao contrário, o que você escolheria? Não ficaria irritada por escondermos de você a verdade, por te negar a chance de se despedir? – Eu não iria ceder – Você ficou chateada com a Elena, e com razão, quando ela mandou hipnotizarem o Jeremy para ele deixar a cidade. Agora, é a sua vez de não passar por cima das escolhas dos outros – Lágrimas voltavam a ameaçar escorrer dos meus olhos e eu me contive ao máximo para não explodir. Ela me olhava cansada, sem mais energia para brigar comigo. Jeremy entendeu a deixa.

– Vou ligar para Elena – Falou Jeremy

– Eu já tentei, mas ela não me atende de jeito nenhum – Disse meio amarga – Tentei ligar para todos, mas não consegui falar com ninguém.

– Como você soube que tinha algo errado comigo, Care? – Perguntou Bonnie com a testa enrugada e eu respondi apenas.

– Kol.

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Klaus

Eu entrei na minha sala que nem um furacão. Cadê aquele puto do Elijah que não chegava? Kol se jogou no sofá da sala, cruzando os braços atrás da cabeça, me olhando cinicamente, mas não fez nenhum comentário. Bom para ele. Ainda bem que às vezes ele tinha bom senso. Eu não estava com humor ou paciência para ouvir as suas gracinhas. E se ele me irritasse iria acabar sem o coração por algumas horas. Fui até ao bar da sala e me servi de duas doses de Bourbon, meu whisky favorito. Bebi em silêncio, rodando pela sala, inquieto, andando em círculos que nem um tigre enjaulado. Fui em direção à lareira e fiquei olhando para ela, totalmente envolvido com os meus pensamentos, tentando encontrar alguma forma de nos livrarmos dessa situação. Ouvi um barulho vindo do corredor e me virei para olhar. Finalmente! Eu sorri com sinceridade para o meu irmão mais velho e senti uma alegria verdadeira ao vê-lo.

– Elijah! – Disse Kol, e num pulo ele saltou do sofá e foi abraçar nosso irmão mais velho. Senti uma pontada de inveja e de ciúme da situação. Kol parecia genuinamente feliz em ver Elijah. Essa era a mágica do meu irmão mais velho. Ele conseguia o respeito e admiração de qualquer pessoa que cruzasse o seu caminho. O santo Elijah! Minha família é totalmente quebrada e desorientada. E eu tenho a nítida sensação de quem ainda nos mantém juntos é meu irmao mais velho com todo aquele ideal fantasioso de sempre e para sempre.

–Meu querido irmão, não acredito que esteja realmente conosco outra vez – Elijah segurou o rosto de Kol com as duas mãos, contendo as lágrimas que brilhavam discretamente em seus olhos. E assim, abraçou fortemente Kol, que retribuiu na mesma intensidade. Então, por um instante me senti envergonhado por ter tratado com tanta frieza o retorno do meu irmão caçula. É verdade que sofri com sua morte e com sua ausência, mas fiquei tão desnorteado com sua aparição repentina e temeroso com o futuro da situação que bloqueei todo sentimento bom ao revê-lo e só foquei nos problemas por resolver.

Brother – Eu disse indo em direção a Elijah, jogando para baixo qualquer sentimentalismo desnecessário – Nós temos sérios problemas. Não achou Rebeka?

– Não – Ele disse com a cara intrigada e alarmada – Isso é verdade, Kol, o véu não foi levantado? Estou abismado. O que deu errado? – Ele disse se virando para o nosso irmão.

– Pensei que você tivesse ficado feliz em me ver, irmão – Kol retrucou em tom ácido.

– Não me interprete mal, irmão. Só estou tentando entender a situação – Elijah respondeu gentilmente.

– A bruxinha Bennet foi mal sucedida no processo ao fechar os portões do inferno e agora ela está morta. Ao que parece, pelo o que Kol me contou, eles tiveram uma breve conversa e ela lhe explicou que não pode mais usar magia, porque os espíritos estão com raiva dela por alguma coisa que ela andou aprontando. E a sua morte só acrescenta na sua impotência – Eu disse com desprezo. Ela morreu por ser estúpida. Nem me importo com a morte dela. Apenas quero que essa bagunça seja arrumada. Só no que sua morte me pinicava era o efeito que isso teria em Caroline.

– Até onde me lembro, Niklaus, você estava bem ansioso para entregar a Cura a Silas e ver o véu derrubado – Elijah me alfinetou com toda a sua calma e elegância. Não poderia ser mais irritante e patético.

– Os interesses mudam de acordo com as circunstâncias, brother – Falei com um sorriso irônico – Naquela época Silas me atormentava para lhe entregar a Cura. Me condenando ao sofrimento e à agonia. Agora que ele parece ter me esquecido, não preciso mais ver o inferno na Terra. Pense em todos os nossos inimigos se unindo para nos destruir. E por mais inconvenientes que esses outros possam ser, existem dois inimigos que eu sei que nenhum de vocês gostaria de ver novamente.

– Mama e papa – Disse Kol com tom satírico. E eu sorri para ele sem humor algum e olhei de volta para Elijah.

– E o que você espera que façamos, Niklaus? – Disse Elijah – Todos esses sobrenaturais já estão mortos. Não podemos matá-los, não de maneira permanente, pelo menos. E não somos bruxos ou conhecemos algum outro que possa realizar o feitiço. E, devido a minha experiência, eu acredito que só quem canalizou a energia dos massacres do triângulo que pode realizar esse feitiço.

– Ora, brother, é por isso que estamos reunidos aqui – Disse sério – Eu acredito que três originais, e espero que em breve quatro, possam encontrar alguma solução. Somando serão quatro mil anos de acúmulo de informações em que eu acredito que iremos encontrar algo.

– Ora, irmãozinho. Que falta de consideração esquecer de mim ou deixar de me incluir na conta. Estou magoado – Eu não acredito no que meus olhos estavam vendo. Até esperava por isso, mas não agora – Acredito eu que você fez os cálculos erradamente. Serão cinco mil anos de acúmulo de informações. Embora eu deva admitir que ainda estou em dúvida se ajudo vocês ou se ajudo os nossos pais a acabarem de vez com vocês – Finn falava da entrada da sala, ao lado da saída para os corredores. Ele nos olhava com desprezo e com um certo tédio. Eu suspirei profundamente e fechei os olhos buscando alguma paciência do além. Essa noite iria ser bem longa.

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Caroline

Eu dirigia em silêncio em direção à mansão Salvatore. Bonnie estava sentada ao meu lado no banco do carona e Jeremy atrás. Eu já tinha conseguido parar de chorar. Mas, eu estava muito calada. E todos sabem que isso nunca é um bom sinal. Eu me sentia abatida e doente. O que era estranho, vampiros não ficam doentes. Mas, eu sabia, não era aquele tipo de doença que dá na carne, era na alma, no coração. Estacionei em frente à casa e tentei mais uma vez ligar para Elena. Ela não atendeu. Então, fui direto para a porta e, ao abri-la, me deparei logo com Damon, que estava jogado no sofá com um copo de whisky na mão. E pela cara dele, já sabia que tinha algo errado.

– Damon! – Eu disse meio frenética. Bonnie e Jeremy estavam ao meu lado, preocupados demais para passar despercebidos – Elena e Stefan estão ? – Eu perguntei e ele sacudiu a cabeça. Nós entramos apressados e, dando uma olhada desconfiada no perímetro da casa, ele entrou também.

– Alaric – Eu disse exasperada — Você também ainda está aqui. Que bom, pelo menos isso. Sempre há um lado bom – Eu tentando ver o copo meio cheio no apocalipse era patético. Ele me deu um aceno com a cabeça e depois se sentou no sofá, também com um copo de whisky na mão. A essa altura, até eu queria whisky. Não gostava muito, mas poderia me anestesiar um pouco.

– O que está havendo, Bonnie? – Damon falou com o tom da voz algumas oitavas acima – Vaugh veio aqui berrar na nossa porta – Ele apontou para o corpo estirado no chão. E seu coração ao seu lado – Já o matei dezenas de vezes e gostaria de saber por que ele ainda não sumiu do meu radar – Damon falou com o seu típico sarcasmo. Bonnie estava abrindo a boca para falar quando Elena entrou na sala a passos largos e completamente desnorteada.

– Connor está me perseguindo – Ela disse sem fôlego – Ele quer que eu entregue a maldita da Cura para Silas – Ela olhava para nós com indagação – Por que Connor está atrás de mim, Bonnie? Ele já não deveria ter sumido? E Silas não virou pedra? Por que ele iria precisar da Cura? – Ela olha surpresa para Jeremy e Alaric, e se dirige a eles emocionada, com os olhos inundado de lágrimas – Por que vocês ainda estão aqui ? É real, estão de volta? Não posso me despedir de vocês de novo — Ela falava agitada, passando as mãos desesperadamente pelos braços de Jeremy, sem conter a felicidade, como se para atestar se ele realmente estava ali – Mas, e o feitiço, Bonnie?

Minha cabeça já estava doendo pelo tamanho da confusão. Mais uma vez Bonnie fica paralisada, pois sempre tudo caía sobre as suas costas. Quando ela abre a boca para falar, Stefan e Lexi entram na sala. O mistério já era demais pra mim. Se ela não contasse logo, eu explodiria abrindo a matraca. Me joguei no sofá e comecei a chorar, mas ninguém pareceu notar. Stefan entrou com uma cara de assustado e Lexi parecia preocupada.

– Silas se "desempedrou" – Stefan disse com uma cara chocada. Lexi sentou ao meu lado e me abraçou. Finalmente alguém me notou – Não sei o que está acontecendo. Ele deveria permanecer petrificado. Bonnie, por que está todo mundo aqui? – A pergunta do século. Ele falou intrigado, passando os olhos nos integrantes fantasmas da casa. Depois acrescentou com sarcasmo – Vocês não vão acreditar qual é a verdadeira face de Silas – Isso despertou o meu interesse e me fez parar de chorar um pouco.

– Ele me disse que eu sou a doppelganger dele – Stefan acrescentou com tom sátiro. Hein?! Alaric cuspiu a bebida, enquanto Damon levantou de repente e se aproximou do irmão com a cara mais tosca que um dia já fez, mas chocado demais para falar – Ele é igual a mim, ou melhor, eu sou igual a ele. Se acham que eu enlouqueci – Ele disse isso ao ver nossas expressões – Perguntem a Lexi, ela também viu. Ela foi comigo jogar o caixão no rio. Eu esperava que a qualquer momento ela fosse desaparecer, mas isso não aconteceu – Stefan continuou – Então, Silas se revelou do nada. Mas, a princípio, com a cara da Elena. Ele veio para cima de mim, tentou me nocautear. Mas, Lexi foi mais rápida e me salvou, só não sei como.

– Ah, você só pode estar brincando comigo. O universo sempre fudendo com a nossa vida – Damon cuspiu totalmente revoltado, enquanto todos olhavam embasbacados para Stefan – E por que pelos sete infernos ele está vivo novamente e a barreira não foi lacrada?

– Porque eu morri e não pude concluir o feitiço – Bonnie finalmente falou.