Scarlet Dynasty - Klaroline
21 Chaos Is A Ladder
Notas iniciais
Caroline
Ele me encarava friamente, de sobrancelhas erguidas e maxilar travado. Quando ele fez menção em se aproximar de mim outra vez, mostrei minhas presas, sentindo minha pele do rosto formigar. Fiquei em posição de ataque, esperando sua reação. Mas, ela não veio. Talvez me achasse uma imbecil por querer enfrentá-lo. Sabia que eu não tinha muitas chances contra ele, mas também não sairíamos dali sem uma boa briga se ele ousasse me tocar. Nos encaramos por uns segundos sem dizermos nada, até que desviei os olhos dele e foquei na fumaceira preta que anuviava o horizonte.
Tentando recobrar as forças e a consciência, lembrei da cena terrível que foi ver a violência contra minha mãe. Andando desnorteada e cambaleante, Mikael reagiu e me acompanhou de perto, com as mãos estendidas na minha direção caso precisasse me segurar. Que ele tentasse. Era estranho demais a sua atitude. Como se não fosse o maníaco que conheci semanas atrás, um que me mataria sem pestanejar.
Tentei chegar na minha mãe o mais rápido possível ignorando totalmente o infeliz. Ela estava deitada no meio fio, se contorcendo. Me abaixei perto dela e alisei seus cabelos. Até que me dei conta do pior:
Olhei para os carros em chamas e não vi corpo familiar algum desfalecido em volta. Nem mesmo as palavras alegres e de consolo da loira. Nem gritaria ou ajuda. Era só o barulho das chamas se erguendo imponentes. Lexi não estava em nenhum lugar à vista. Ela estava dentro do carro quando ele explodiu e agora queimava com ele. O peso da verdade caiu sobre mim e me puxava para baixo como uma âncora. Queria sentar ao lado da minha mãe e chorar eternamente, mas seus sons de dor não me permitiram ter tempo para a luto, somente para resignação.
Segurei-a nos braços e corri na velocidade vampírica, mas parei alguns segundos depois. Não consegui ir longe e nem tinha forças para correr por muito tempo. Engasguei compulsivamente tentando me livrar da fuligem na garganta. Meus olhos ardiam e o calor era insuportável. Depois de algumas tentativas miseravelmente falhas de movimento, escutei aquela voz odiosa atrás de mim.
— Eu posso levá-la, Caroline. Você claramente não está em condições — Mikael se aproximava lentamente com cautela, como um caçador antes de dar um bote.
— Você não chegue perto de mim — falei mostrando as minhas presas.
— Não seja ingrata, criança. Você estaria condenada se não fosse a minha intervenção. Eu te salvei, Caroline.
— Não quero nada que venha de você. Preferia ter morrido — Cuspi com ódio.
— Que tolice. Então boa sorte nessa sua tentativa estúpida de sair daqui. O que uma vampira comum que nem você pode fazer? Está sem forças e totalmente exposta no meio da rua.
— Você já matou todas as outras bruxas. Não tem mais ninguém pra me atacar — Tomara mesmo. Corri com os olhos à procura de mais ameaças, me esforçando para enxergar através da cortina cinza. Mas, somente via os corpos estirados, com membros espalhados por toda parte no meio das chamas, dos carros e das ruas antes impecáveis, mas agora uma total bagunça pelo "acidente". Seria uma desgraça e uma exposição extrema se aquilo não fosse exumado dali — Seja útil e tire essas mulheres daqui. A última coisa que queremos é chamar atenção para o nosso mundo.
— O que você quer que eu faça, garota? Não sou um lacaio para você me dar ordens e ficar limpando a sujeira dos outros.
— Sua sujeira. Não são ordens, seu maluco. É apenas o sensato. Vai realmente deixar essa chacina bem à vista de todo mundo? — Olhei em volta. Estávamos em um bairro familiar, perto de casinhas normais. Algumas portas e janelas se abriam, revelando alguns moradores curiosos e aterrorizados nos espiando. Geralmente as tretas sobrenaturais aconteciam bem disfarçadas aos olhos comuns. Suas expressões de choque ao perceberem o caos instaurado bem na soleira das suas portas eram visíveis mesmo a uma certa distância.
— São só humanos descartáveis. O que poderiam fazer contra nós, sua tola? — Mikael respondeu ignorando a plateia.
— Prefiro não arriscar. Você precisa hipnotiza-los. Diga que foi uma batida, sei lá — Dei às costas a ele e me arrastei para longe. O que ele faria com elas agora não era mais problema meu. O único pesar eram os métodos nada ortodoxos que ele usaria para silenciar os humanos. Quase dei meia volta e fui resolver esse problema, mas o estado catatônico da minha mãe me distraiu completamente de ser a mocinha do dia.
Não acompanhei nenhum dos seus movimentos, que desapareceram do meu campo de visão na densa fumaça depois de alguns poucos metros de distância.
Precisava ir embora, levar minha mãe ao hospital o mais rápido possível. Eu me curaria com o tempo, graças ao meu sangue com super-poderes. Mas, é claro, sua burra...Daria sangue de vampiro para ela. O desespero era tão grande que estava atrasando meu raciocínio. Mas, como consertar o seu braço? O sangue seria capaz de colocar um osso no lugar?
Precisava lavá-la mesmo assim para algum médico.
Olhei as chamas altas e vigorosas graças ao combustível inflamado e senti vontade de chorar.
Era horrível pensar em deixar Lexi ali sozinha, virando pó sem ninguém para tomar conta dela. E se Mikael fizesse alguma coisa com seu corpo? Ou com o que sobrou dele. Precisava contar a Stefan urgentemente.
Mas, a cura da minha mãe era mais urgente. Me aproximei dela e mexi no seu rosto. Ela me olhou desnorteada, gemendo baixinho.. Mordi meu próprio pulso e ofereci sangue a ela.
— Você sabe... que eu não gosto de beber sangue de vampiro. Não quero me transformar em uma... — Ela falava pesarosamente, com a voz baixa e fraca, enquanto virava a cara para longe do meu pulso.
— Você não tem muita escolha agora — Insisti colocando meu braço na direção dos seus lábios.
— Não quero, Caroline. Apenas...
E sem que ela pudesse acompanhar a minha agilidade, na velocidade vampírica segurei sua nuca com força e a obriguei a tomar o sangue. Ela se debateu para longe de mim, mas era impossível me vencer. Depois de uns segundos tentando se livrar do meu braço ao máximo, ela finalmente engoliu as primeiras gotas do meu sangue fresco. Para a minha surpresa e horror, a reação do seu corpo seguiu um padrão desconhecido. Sua pele empalideceu e seus olhos desfocaram. Ela desfaleceu no meu colo e ficou imóvel. Meu coração acelerou e senti um medo absurdo, me fazendo tremer involuntariamente. Sacudi seus ombros violentamente tentando fazê-la acordar, mas ela não reagiu. Ouvi seu coração, ainda batia, mas sua respiração estava fraca. Eu demorei muito para fazê-la beber o sangue, foi isso, não dando tempo de curá-la? Intrigada com essa novidade do vampirismo, me apressei pegando ela no colo. Precisava levá-la para aquela médica que trapaceava com seus pacientes injetando neles sangue de vampiro.
Mesmo aos tropeços, consegui correr até a casa mais próxima com um carro à vista na calçada. Pegaria esse emprestado. Depois ele estaria de volta e inteiro. Eu era uma boa vampira, não saía roubando e nem matando pessoas de graça. Só tomava medidas extremas quando muito necessário.
Encostei minha mãe, com a aparência horrível e cadavérica, na cerquinha branca. Me esgueirei até o carro deles, que estava estacionado bem na frente da casa. Quebrei o vidro do lado do motorista e o alarme disparou. Enquanto o som irritante soava, agarrei minha mãe pela cintura e a deitei no banco de trás. Um adolescente magricela e de cabelos escuros que estava debruçado na janela, provavelmente querendo saber qual a origem de todo o alvoroço na rua, pulou o parapeito e veio correndo na minha direção.
— Sua piranha criminosa! Saia daí agora ou eu chamo a polícia — Em instantes, corri até ele.
— Esqueça o que viu — suas pupilas dilataram — O carro estará de volta depois que for consertado na oficina pela batida que você deu ao sair com ele sem permissão. Agora, desligue o alarme pra mim — Ele acenou. Digitou o código de segurança e o barulho ensurdecedor cessou. Eu fui embora, dando partida cantando os pneus.
Era isso. Eu era uma ladra, agora. Situações críticas exigem medidas extremas pelo bem maior, lembrei das palavras de Esther. Estacionei bem rápido na encosta de uma rua domiciliar tipicamente vazia. Ajeitando minha mãe de maneira mais confortável no banco de trás, observei sua aparência piorando. Mas, que merda estava acontecendo?
Dirigindo que nem uma doida, avançando sinais vazios e derrapando uma vez ou outra, cheguei finalmente naquele maldito hospital.
Cheguei na recepção procurando automaticamente por Meredith Sulez. Enquanto esperava por ela, alguns enfermeiros já atendiam minha mãe e a transportaram numa maca para o interior.
Fiz menção de acompanhá-los, mas o médico não permitiu.
— Só pode entrar depois de examinarmos ela — Ele disse não me deixando passar. Eu ia hipnotiza-lo quando me perguntou — E você? Está suja e com sangue nas roupas. Preciso ver se está ferida. Pode estar com hematomas internos. Esses são perigosos, pois não estão à vista. Podem se desenvolver para coisas piores, como coágulos. Lorelai, dê uma olhada nessa menina aqui, por favor — Ele fez sinal para que uma enfermeira se aproximasse.
— Estou bem. Esse sangue é da minha mãe — Menti. Não deixei a mulher me tocar. Impedi seus movimentos ao olhar bem fundo em seus olhos — A médica dela vai atendê-la. Minha mãe prefere ela, confia nela. Já mandei chamá-la — Dessa vez, olhei nos olhos do médico e cumpri meu dever — Meredith Sulez atenderá minha mãe e você não vai me impedir de entrar quando eu quiser — Lógico que eu não poderia contar que já estava bem curadinha por ser uma vampira e que o sangue fresco era das minhas queridas inimigas bruxas que perderam o coração pra mim e para o psicopata Original.
— Ah, sim — Depois do típico olhar anuviado, ele fez uma cara estranha — Ela tem um alto e estranho índice de sucessos medicinais, não é mesmo? Pessoas com traumas e acidentes horríveis terminam saindo andando pela porta de entrada após passarem pela consulta milagrosa de Meridith. Com exceções de algumas doenças, que nunca vi ela curar, o resto parece bem menos complicado pra ela — Usou um tom sugestivo. Olhei para ele intrigada. Será que ele desconfiava dela e sabia da trapaça? — Deve ser por isso que é a favorita da sua mãe. É a favorita de muitos. Seja como for, a enfermeira deve te analisar. É protocolo.
— Já falei que não preciso — Tive que controlar muito bem meu mal súbito, pois já estava no limite. Mas, ele me obedeceu direitinho.
— Tudo bem — Ele levantou as mãos em gesto de rendição — Um paciente que morre por recusar tratamento não é minha responsabilidade — Babaca. Resolvi ignorar essa falácia inútil.
Fui até o quarto dela e me sentei ao seu lado. Sua expressão estava mais desgastada e doente do que há alguns minutos, o que não estava fazendo o menor sentido. No mínimo era para ela ter recobrado a saúde no rosto, pois estaria se curando internamente. Enquanto os enfermeiros trabalhavam nela, medicando e a colocando no soro, senti medo. Um braço quebrado não pode matar alguém, pode? Seria ridículo. Porque o meu sangue ainda não tinha surtido efeito positivo nela?
Observei um médico alto, ruivo e de olhos verdes se aproximar do braço injuriado.
— Vamos esperar os resultados dos exames que faremos agora nela. Talvez precisaremos de procedimentos cirúrgicos para colocar o braço no lugar. Como você já é maior de idade e ela não está consciente, você deve assinar a permissão do tratamento.
— Onde está Meridith Sulez? Pedi especificamente por ela — Falei trincando os dentes.
— Ela está finalizando uma cirurgia rápida. Em breve estará aqui. Mas, não se preocupe com isso, pois Elizabeth estará em excelentes mãos conosco. E a xerife da cidade deve receber um tratamento adequado — Eles a conheciam — Como ela se feriu? Você é a filha dela? — O ruivo alto perguntou o óbvio.
— Sim. Caroline — Falei emburrada.
— Prazer. Então, Caroline, enquanto estivermos na intervenção no braço, faremos exames para termos certeza de que sua mãe está livre de hemorragias internas. Tudo bem para você?
— Faça o que for preciso — Ele sorriu gentilmente pra mim. Era até um homem bonito, com um largo e brilhante sorriso. Uma Caroline menos aflita e mais no cotidiano teria com certeza flertado com ele. Sacudi a cabeça. Eu já estava metida até o pescoço em dramas amorosos. Não precisava de mais um. Resolvi espantar essas ideias e fiquei mais próxima da minha mae.
— Acho que já podemos levá-la. Já podemos começar — Ele falou olhando para as enfermeiras — Caroline, você pode esperar aqui no quarto se preferir.
— Mãe, vai ficar tudo bem, te prometo. Vou esperar você aqui o tempo todo, ok? — Beijei a testa dela. Ela ainda permanecia desacordada. Segurei sua mão até que puxassem a cama dela em direção à saída. E eu fiquei ali, olhando para a porta, para o vazio que ela deixou. E isso me causou angústia. Eu podia sentir, algo ruim iria acontecer. Corri até eles novamente no corredor quando dei de cara com Meredith se aproximando de nós.
— Não posso acompanhar os exames? Nem ficar mais perto do local?
— Não, Caroline — Então, ela abaixou a voz — Você teria que hipnotizar o hospital inteiro para isso — Não era uma má ideia, pensei — Mas, não se preocupe. Lá estará bem amparada, eu vou estar lá — Dei um olhar sugestivo pra ela e sussurrei em seu ouvido.
— Coisas diferentes, mas que você conhece bem, estão acontecendo na nossa cidade agora. Está uma caos. Você precisa ter cuidado.
— Vou ficar de olho — Ele retribuiu meu olhar, mostrando que havia captado o recado perfeitamente. Então, saiu apressada.
Me sentei num banco qualquer à vista, sem realmente prestar atenção nos meus movimentos. Alguns segundos martelando na minha cabeça as últimas cenas macabras vivenciadas ainda pouco me fizeram lembrar que precisava falar com meus amigos logo. Peguei meu celular, que apesar de tudo, sobreviveu dentro do meu bolso. Ele estava com a tela rachada, mas ainda assim funcionava. Pensei em ligar para Stefan. Mas, contar por telefone sobre Lexi seria cruel demais. Eu iria até ele e falaria pessoalmente. Tudo aconteceu por minha causa. O mínimo que eu poderia fazer era engolir a covardia e enfrentar meu melhor amigo. Além disso, quanto mais tempo eles permaneciam sem saber o caos bem diante da sua porta, mais vulneráveis ficavam, sem chance de se defenderem das surpresas mortais. Ao desbloquear a tela, vi várias chamadas perdidas. A Original tinha me ligado no meio de todo o episódio de quase morte, mas obviamente que eu estava ocupada demais para perceber.
— Rebekah — Disse quase sem fôlego. Ela atendeu no primeiro toque.
— Mas, onde em que diabos você se meteu? Já era para estar aqui. Estou parada que nem uma besta no meio da estrada te esperando.
— Um contratempo — Falei esfregando as têmporas. E que contratempo — Matt está com você ?
— Está.
— Consciente pelo menos?
— Não. Tive que dar um empurrãozinho.
— Não é assim que se faz as coisas corretamente, Rebekah. Que falta de tato. Quando ele acordar, vai te desprezar — Falei espumando
— Mas, foi um mal necessário. E se você demorar, vou precisar fazer de novo.
— Eu não vou agora. E Provavelmente nem irei hoje.
— O que está acontecendo?
— Minha mãe e doze bruxas raivosas e vingativas no mesmo lugar.
— Sua mãe morreu?! — Ela falou num sussurro exaltado.
— Não! — Quase gritei. Só a ideia me assombrava — Mas, se feriu. Estou no hospital com ela — A historinha com Mikael ficaria para depois.
— Sangue de vampiro deve acabar com o problema. Você não sabe disso? — Sua falta de paciência era tangível.
— Eu tentei — Não iria explicar tudo agora — Mas, ela está com um braço quebrado.
— Que merda. O que eu faço agora com o Matt? Não quero deixá-lo em Mystic Falls.
— Não precisa. Você pode levá-lo. Eu te encontro lá amanhã ou depois.
— Vai ficar sozinha no fogo cruzado? Vai se lascar mais do que já está. Eu vou ficar.
— Você precisa ir. Pelo menos deixá-lo lá. Vou tentar convencer Elena para deixar Jeremy também. Depois você volta e me ajuda a caçar uns inimigos. Admito que vou precisar de você para isso.
— Vou mandar Kol para aí enquanto não volto.
— Não preciso de escolta. Esta exagerando — Ela estava afável demais para a costumeira geniosa Rebekah.
— Você disse algo parecido horas atrás e olha só aonde você foi parar. Talvez seja a hora de reconsiderar — Exalei o ar cansada.
— Então, você achou ele?
— Sim. Também mandei que ele fosse para a casa do lago, mas ainda está na cidade. Ele pode te encontrar em minutos.
— Ok. Mas, seu irmão deve se comportar — Pensei em Elena e em Jeremy.
— Não posso prometer nada.
— Acho que ele ficaria melhor bem escondido com você, bem longe de Mystic Falls.
— Engraçadinha. Sabe que não poderei fazer nada se ele decidir cortar seus amigos no meio, não importa onde estejamos. Pelo menos servindo de seu guarda-costas ele ficará com a mente ocupada. Você pode enrolar ele por um tempo.
— Então, diga a ele o quão imprescindível é ele estar comigo o tempo todo.
— Farei o meu melhor. E você saia logo dessa cidade antes que seja tarde — E assim, ela desligou. E eu fiquei ali, parada, olhando a parede na minha frente.
Quando Kol chegasse, eu iria até Stefan e contaria tudo. Não somente sobre Lexi, mas sobre todo o evento da destruição do Outro Lado. Meus amigos mereciam saber. Eu seria excruciada, talvez até desertada por um tempo, mas eles mereciam saber.
Comecei a andar pelo corredor, agitada demais para ficar parada em um só lugar. Dava voltas e mais voltas agitadamente, quase fazendo um buraco naquele chão.
O que Klaus estaria fazendo naquele momento? A presença dele nunca foi tão vital. Será que estava pintando de frente para o Mississipi ou estava arrancando o coração de algumas bruxas? Fiquei seriamente tentada em ligar para ele. Ir para New Orleans não me parecia mais uma má ideia tanto assim. Pelo menos lá minha mãe estaria mais segura. Klaus não deixaria ninguém chegar perto de nós.
Pensando melhor, em qualquer lugar onde houvesse o sobrenatural, humanos nunca estariam seguros.
Meu telefone tocou me assustando. Olhei o número desconhecido na tela e hesitei antes de atender.
— Loirinha — Ouvi aquela voz debochada e revirei os olhos — Finalmente estamos de volta. Poderíamos fundar O Clube dos Mortos e Desafortunados. Um grupo de apoio para dividirmos as nossas experiências traumatizantes.
— Kol. Não estamos mais mortos — Sentei no banco — Até que enfim deu às caras.
— Rebekah me ligou desesperadamente precisando da minha vital ajuda. Eu não pude fugir do dever de ajudar meus...
— Corta o papo furado. Aposto que ela te deu algo em troca. Mas, isso nem é da minha conta. Só preciso de um Original aqui agora. E sua irmã me ofereceu a sua incrível força.
— Como se eu fosse o empregado da família. O lacaio servindo aos desejos de todos. Meus irmãos nunca me dão o devido valor.
— Eu não tenho tempo para o seu drama agora. Estou no meio de uma crise. Em outro dia você pode deitar num divã e conversaremos. Eu vou te ouvir, sou muito condescendente. Mas, não hoje. Você vem ou não? — Eu sabia que poderia perder a cabeça por tamanha ousadia, mas a essa altura estava pouco me fudendo.
— E que escolha eu tenho? Rebekah me disse sobre o hospital, mas não disse o nome. E nem precisava. Essa cidadezinha só tem um, mesmo.
— Eu preciso sair para resolver umas...coisas — Falei alisando a testa e olhando para o chão.
— Pode ir, já estou chegando. Estou dirigindo até aí — Ele bocejou despretensiosamente.
— Só vou sair quando você chegar — Me levantei agitada.
— Loirinha, vamos adiantar o trabalho. Você faz o que precisa para sair logo daí. Rebekah me disse que sua mãe se ferrou bastante, então ela deve estar bem ocupada com os médicos. Ou o contrário — Realmente, em sala de cirurgia eu não poderia fazer nada.
— Ok. Mas, não demore.
— Já disse, estou a caminho.
— Obrigada — Proferi sinceramente. Era quase um milagre essa ajuda toda. Fico pensando em que chantagem ou ameaça Rebekah usou para conseguir isso. Deve ter sido uma das boas.
Olhei em volta no corredor e todos os funcionários pareciam ocupados demais para perceberem minha aflição. Na dúvida se esperava ele chegar ou não, voltei a caminhar em círculos. Até que meu celular tocou de novo. Dessa vez, o número era conhecido. Fechei os olhos e rezei mentalmente para que ele desistisse de me ligar. Então, essa era a minha deixa. Precisava enfrentá-lo antes que fosse tarde demais. O telefone tocou mais algumas vezes, mas ignorei o nome de Stefan no visor, enquanto saía do hospital na velocidade vampírica. Falar sobre Lexi por telefone serial cruel demais. Stefan e ela mereciam mais que isso.
Entrei no carro roubado e saí apressada dali. Eu deveria estar velando cada segundo da minha mãe naquele hospital. Era uma imprudência deixá-la a mercê de desconhecidos humanos. Pior, a mercê de Kol. Mas, eu precisava cumprir meus deveres e minha mãe certamente ficaria presa por horas. Estacionei o carro alheio bem na calçada da minha porta, olhando em volta rapidamente. Com os músculos tensos e o coração à mil, cruzei o hall da minha casa.
Entrei no meu quarto. O cenário da briga com Damon ficou totalmente obsoleto depois de tudo o que me aconteceu. O jogo virava muito rápido. As roupas jogadas e o móvel destruído pareceram sem importância, até brincadeira infantil, perto da repetida experiência de escapada da morte por um triz. Sem mais malas de viagem para me ajudar, peguei minha mochila escolar. Era ridículo, mas eu só disponha dessa bolsa para coletar objetos.
Ao catar roupas do me interesse no chão, encontrei no emaranhado de panos a caixinha sofisticada revestida de veludo escuro em que continha a pulseira de brilhantes e o desenho que ganhei de presente de Klaus. Sentei ali mesmo e abri a caixa. Alisei nostalgicamente as pedras ofuscantes enquanto imaginava o dia que a recebi. Bem ali naquele quarto, em cima da minha cama, ele deixou primeiro a pulseira. Tinha acabado de causar um transtorno na minha vida, como sempre. O cretino fez meu até então namorado lobisomem me morder. E logo em seguida apareceu manso e arrependido me dando a sua cura. E aí tudo começou...
Eu tentei, de verdade, não deixar me levar pela atração que ele exercia em mim, pois ela estava lá desde o início. Suprimi isso ao máximo, ainda mais porque estava apaixonada por outro. Mas, foi tão fácil gostar da atenção que ele me dava, tão magnético gostar dele, apesar dos pesares...
Fui até a cozinha pegar um copo de água. Minha garganta estava seca. Nem sangue fresco adiantaria agora. Enquanto observava distraidamente os desenhos na geladeira e engolia a água, me lembrava de todas às vezes que tivemos bons momentos. Tenho que admitir, tinha um dia favorito. A festa de cerimônia de entrega do prêmio de Miss Mystic Falls, onde eu fui a anfitriã. Ele estava tão leve e solto naquele dia. Brincando e rindo livremente. Naquele momento, ele não tinha nada a ver com o Klaus assassino. Ele era apenas um cara inteligente, charmoso e sexy tendo um encontro com a garota que ele queria há muito tempo. E eu me deixei levar completamente pela sua conversa encantadora e terna, me esquecendo completamente da imposição que fiz a mim mesma de odiá-lo. Talvez, quem sabe, um dia eu poderia visitar os Alpes com ele e ver a sua reação novamente. Sorrindo com isso, me engasguei de surpresa quando a campanhia tocou. Me assustei derrubando o copo. Ele se partiu em mil caquinhos presumindo o mau agouro. A essa altura do campeonato, uma visita assim não era nada normal. E, para o meu espanto, foi pior que apenas um intruso indesejado.
Parada no corredor, fiquei olhando através do vidro comprido para a figura macabra do outro lado da porta. Resolvi conversar dali mesmo.-
— O que faz aqui? Seu pai mandou vir tripudiar? Jogar na minha cara que só estou viva porque ele permitiu?
— Claro que não, ao contrário. Vim oferecer minhas condolências. Sinto muito por ele ter chegado tarde demais.
— Seriously? Você nem sabia quem era ela. Que diferença faz pra você?
— Não desperdiçamos vidas. Se não há propósito em suas mortes, não há um porquê permitirmos que aconteçam — Olhei incrédula pra ele. Sua arrogância era equivalente à de Klaus — Só queria que você visse quem são seus verdadeiros aliados. Quem está presente quando você precisa, não ignorando a desgraça que causou em busca do poder em outra cidade. Você pode ter escolhido o lado errado.
— Klaus não é um covarde que nem você. Não se esconde na sombra do papai. Se ele não está aqui é porque houve um motivo de força maior.
— Maior que o apocalipse que ele mesmo causou?
— Ao menos ele não está tentando matar os irmãos como você.
— Mas, já tentou algumas vezes antes de você nascer. Não faz ideia das besteiras que está dizendo. Eu passei nove séculos num caixão, mas sei o bastante para te horrorizar. Sabe, até hoje me pergunto por quê ele se acovardou e não terminou o trabalho. Pra que me manter dormindo?
— É claro para mim que ele queria te controlar. Vocês sabem que ele não gosta de ser contrariado. Bem psicopata, admito. Ele merece uns tapas por isso, até mais. Mas, o fato de ele não ter enterrado a estaca no seu peito demonstra certos sentimentos por você, mesmo que de forma distorcida.
— Sua lealdade me intriga. Demonstra ter aversão às atitudes dele, mas mesmo assim confia nele sem pestanejar. É um tanto incoerente, garota.
— Você e a sua análise podem ir a merda. E como sabe da minha aversão? Está me perseguindo?
— Estou te ouvindo agora. Não precisa ser um gênio para tirar certas conclusões.
— Pode me explicar o que faz aqui na soleira da minha porta? — Falei cruzando os braços, já perdendo a paciência com essa conversa sem sentido.
— Mikael acha que a sua ajuda seria fundamental para a nossa causa. Mas, ele tem certeza de que não adiantaria te abordar, pois está claramente do lado dos meus irmãos. Então, estou aqui sem que ele saiba, na esperança de que ele esteja errado.
— Não estou do lado de ninguém. Só não vou ser conivente com assassinato em massa.
— Está se ouvindo? Deixando meus irmãos vivos que te fará conivente com milhares de homicídios, mas de sangue inocente.
— Se têm certeza de que não vou ajudar, por que veio mesmo assim?
— Você enxerga Mikael como um mostro, porque ele realmente é. Automaticamente você enxerga meus irmãos como vítimas. Talvez se você soubesse a história por outra perspectiva, de pessoas que foram feridas no processo e não através do próprio monstro, você reconsiderasse. Não se trata de uma rivalidade específica, Niklaus contra Mikael. Não. Isso vai muito além de questões pessoais. Estamos falando de expurgar da Terra a praga que se formou há um milênio.
— Eu não entendo. Seu pai te feriu também, quando era humano. Você deveria odiá-lo como os outros, mesmo que odeie seus irmãos em mesmo grau.
— Eu odeio Mikael. Mas, odeio mais aquilo no que ele nos transformou. Pelo visto, você sabe alguma coisa sobre mim.
— Eu vi. Elijah me mostrou.
— Ele provavelmente te mostrou só o que era conviniente para ele e para Niklaus, fazendo parecer que são coitadinhos dignos de compaixão. Ele é um babaca manipulador. O nobre Elijah, sempre calculista — Ele cuspiu indignado — Não confie tanto assim nele. Aquele terno bem passado é só faixada para o psicopata sanguinário que ele é. E ele é emocionalmente dependente de Niklaus, assim como Rebekah. É doentio.
— Enquanto eles vão aos extremos por seus amores tóxicos, você permanece apático. Talvez seja pior que amar demais.
— Não sou tão frio, eu amo meus irmãos, do meu jeito, mesmo que eu não os suporte mais e eles não mereçam. Só que eles já passaram do ponto. Ninguém deveria viver um milênio, Caroline, ainda mais se isso significa milhares de mortes e sofrimento. E eles nunca me deram espaço no seu grupinho fechado. Eles não me davam muitas oportunidades de mostrar meu afeto fraternal, aí alegam que sou indiferente.
— Ah, então tem um pouco de vingança nisso, despeito. Não é só por uma missão em prol do bem maior — Lembrei das palavras de Esther.
— Eu confesso, tem um pouco de ressentimento no meio. Só que, embora minha repulsa pelo vampirismo sempre esteve presente de forma clara, não foi por isso que Niklaus me colocou no caixão — Enruguei a testa e me aproximei da porta — Aposto que Elijah não te mostrou nada disso.
— Do que está falando? — Minha curiosidade acendeu a minha mente.
— Eu passei 100 anos com meus irmãos demonstrando claramente meu desprezo pela nossa forma de viver. Todas às vezes que eu bebia sangue humano, eu queria me matar. Cheguei a tentar algumas vezes, mas nada nunca foi forte e eficiente o bastante. Não havia mais árvores de Carvalho Branco, até onde sabíamos, pois Niklaus mandou queimar todas que existiam. O veneno de lobisomem não era fatal o suficiente, era mais como uma doença para nós. Vivíamos como nômades, nunca nos estabelecíamos em um lugar, pois o nosso comportamento agressivo sempre chamava atenção. Nunca criamos relações verdadeiras com outras pessoas, pois não éramos capazes de fazermos isso nem conosco. Depois de um século, eu não aguentava mais — Seus olhos estavam distantes e seu semblante, vazio e triste — Então, em um dos meus inúmeros isolamentos, me castigando pela fome devassadora, conheci Sage. Era humana — Ele sorriu fantasiando, perdido em suas memórias — E eu não quis feri-la. Ela era atenciosa e compreensiva. Entendia meu sofrimento e não me julgava. O tempo que passei com ela foi um alívio para a minha agonia e comecei a ter esperanças de que talvez existisse algo além de mortes e de dor. Não parei de odiar a minha natureza, mas aprendi a tolerá-la. Consegui controlar meus instintos, parei de matar. Eu estava em uma fase de paz e de felicidade. Eu passava mais tempo com Sage em sua cabana do que no castelo da minha família. Toda aquela encenação de família feliz e unida para os nobres estava me corroendo mortalmente. Eu não queria viver daquele forma, ainda carregava comigo a simplicidade do garoto do vilarejo, coisa que meus irmãos esqueceram rapidamente. Viraram outras pessoas, com personalidades que eu não reconhecia mais, banhados de luxo e de sangue. Então, Sage e eu decidimos nos casar e ir embora daquele ambiente grotesco. E ela pediu para ser transformada, para que vivêssemos juntos para sempre e não fôssemos separados pela morte ou pelo seu envelhecimento. Transformá-la em vampira, contrariando os meus valores, seria inimaginável se ela não tivesse me colocado em fase com esse meu lado. Pensei, eu posso ter uma vida eterna ou perto disso vivendo de forma mais saudável, com alguém que inspira o bem em mim. Não imagina o caos que foi dar essa notícia aos meus irmãos. Eu disse que queria viver longe de tudo aquilo, ter a minha vida privada, era meu direito. Elijah pirou completamente. Esbravejou o quanto eu estava sendo egoísta e desonrando a família. Sempre com aquele papo furado de Sempre e para Sempre, que nos castiga e nos consome ao limite do absurdo.Niklaus gritou dizendo o ultraje que seria eu me casar com uma plebeia camponesa. Nós éramos nobres donos de terras feudais e era inadmissível a interação entre grupos sociais diferentes. Sage era uma das trabalhadoras que moravam dentro das nossas terras e meus irmãos acharam que ela era uma golpista. Especialmente Niklaus achava isso. Ele nunca tinha sido amado por nenhuma mulher e só enxergava o pior nelas. Talvez fosse algum trauma fruto da história com Tatia. Mas, eu não iria carregar os traumas deles comigo pela eternidade. Sage não era somente alguém que eu amava, era também meu ticket de saída daquela insanidade. Meus irmãos e eu discutimos a mesma questão por semanas, era uma guerra frio sem fim, enquanto eu me preparava secretamente para fugir com Sage, pois sabia que Elijah e Niklaus não iriam ceder. Naquele período, o chefe da família ainda era Elijah. Ele era visto como o senhor feudal. Niklaus estava se formando às claras como o desgraçado que era, pois ainda era muito sonso, ele ainda era visto como o sofredor delicado, digno de cuidados especiais por ter sido o mais injuriado nas mãos de Mikael e ele sabia muito bem como usar isso para nos manipular — Finn fazia uma cara retorcida de repulsa ao vagar por suas memórias dolorosas — Acho que o que aconteceu comigo foi um divisor de águas na sua faixada, pois ali ele explanou toda a sua crueldade e parou de fingir ser melhor do que era. Mas, Kol e Rebekah me apoiaram, mesmo na surdina. Me ajudaram em tudo para ir embora com a Sage. Até foram nossas testemunhas no casamento escondido — Eu ouvia tudo um pouco aturdida. Essa família Original não parava de me surpreender mesmo eu sabendo que havia muito a ser contado — Quando nos casamos, ela já era vampira, claro. Eu não deixaria uma humana virar comida fácil no meio dos Mikaelson. Pensei que com as novas habilidades dela talvez pudesse se proteger um pouco, mas nunca estive tão errado.
— Eles mataram ela? — Falei assombrada quase num sussurro.
— Não, mas pretendiam, claramente. Niklaus mandou prendê-la por traição contra o Rei. Era só uma desculpa esfarrapada para matá-la sem ser questionado por Elijah — Ele revirou os olhos, cuspindo a raiva — Duvido que ele fosse mantê-la nos calabouços do castelo. Mas, a essa altura ela já estava longe. Rebekah e Kol me avisaram dias antes dos planos de Elijah e de Niklaus serem decretados oficialmente, me disseram que os dois estavam muito perto de descobrirem do casamento. Então, eu mandei que ela fosse embora. O plano era encontrá-la meses depois em Flandres. Imaginamos que poderíamos nos esconder com mais eficiência em cidades em ascensão do que em feudos pequenos. Pensei que se Niklaus achasse que ela me traiu e me deixou, ele largaria o osso e me deixaria em paz. Mas, o maldito continuou investigando. Ele percebeu que algo tinha acontecido, diferente de Elijah, que deixou pra lá e estava me apresentando à mulheres nobres. Nojento hipócrita, logo ele, que iria se casar com a meretriz do vilarejo um século atrás.
— Talvez por isso ele queria te forçar a ficar com alguém da aprovação dele, já que essa história com Tatia trouxe muitos problemas para a sua família. Mas, ele não deveria ter feito isso e...
— Mikael estava certo — Ele me interrompeu — Você sempre arruma uma desculpa para os crimes dos meus irmãos. Sentimentos podem anuviar o nosso julgamento e só isso o que eu vejo quando você se refere a eles.
— Seriously? Eu não concordo com nenhuma das transgressões deles — Se ele estivesse presente nos últimos meses, saberia a dificuldade que foi lidar com seus irmãos, principalmente com Klaus — Só acho que tudo o que aconteceu com vocês teve causa e consequência. Tudo gira em torno de circunstâncias e de escolhas ruins. E de pedaços em pedaços o melhor de vocês foi ficando suprimido ou inexistente, criando os monstros. E hoje vocês são apenas fantasmas distantes dos verdadeiros. Todos os séculos de crimes dos seus irmãos vão assombra-los ainda por muito tempo e talvez essa seja a justiça que você procura, não apenas matá-los. Pagarem por tudo com uma vida miserável de sofrimento é muito mais gratificante e eficiente que a morte — Isso era novidade, pois a divisão clara entre o bem e o mal sempre foi uma verdade absoluta pra mim. Mas, no fundo, mesmo sabendo que eles mereciam uma retaliação bem grande, eu não queria que eles morressem. E por isso eu tentava arrumar uma desculpa esfarrapada para tentar mediocremente convencer Finn. Ele inspirou fundo antes de continuar. Se encostou ao lado da porta e voltou a falar enquanto olhava para o nada.
— Chame do que você quiser. Mas, não vou arriscar. Não vou dar-lhes mais chances de causar estragos por onde passam. Já basta. No fim das contas nem eu e nenhum deles foi feliz. Quando eu pensei que alcançaria Sage, Niklaus me pegou no flagra. Ele me interceptou em um dos corredores secretos do castelo, enquanto eu fugia no meio da madrugada com meus pertences. Ele me contou, antes de me apunhalar com a adaga, que foi pessoalmente até a cidadela averiguar a veracidade dos rumores que recebeu. Foi constatar se meu nome e de Sage constavam nos registros de casamentos legalizados. Disse que nunca sentiu um desapontamento e ao mesmo tempo uma alegria tão grande, pois finalmente teria a desculpa perfeita contra mim. Um substancial e concreto motivo para justificar seu desejo e crime de me deter. Ele teve coragem de me olhar nos olhos e dizer que esperou muito ansiosamente por aquele momento, que me silenciaria para sempre.
— Onde estavam Kol e Rebekah? Eles teriam te ajudado — Ele me contando a pior versão de Klaus me feria. Mas, ele ia ver só. Mais cedo ou mais tarde ele iria enfrentar a justiça, divina ou mortal.
— Provavelmente Niklaus os silenciou do seu jeito, por precaução e por represália. Acredito que até hoje ele pune os dois. Com Niklaus é assim, ele nunca esquece. Uma vez que você comete alguma falta contra ele, você pagará por isso por toda a eternidade.
— Ele libertou Katherine Pierce. Prometeu não persegui-la mais. É uma quebra de paradigma. É uma esperança.
— Eu não estou certo se acredito nisso, mas confesso que me surpreendeu. Quando chegou aos meus ouvidos que ele destruiu o Outro Lado para trazer você de volta, eu pensei que era uma fantasia das grandes. Mas, em se tratando de loucuras, Niklaus é mestre. Ele só não é muito bom quando tem a ver com altruísmo. Por isso até hoje espero encontrar o verdadeiro motivo dessa façanha dele, que não tenha nada a ver com você, sem ofensa.
— Se você nem ao menos duvidasse dos seus motivos reais e egoístas, não estaria na minha porta averiguando os fatos e me contando as suas desventuras para me convencer a traí-lo — Ele ficou calado, então continuei — Eu sinto muito por tudo ter dado errado para você, para a sua esposa. O que Klaus e Elijah fizeram foi tenebroso e merecem tudo o que você planeja contra eles. Mas, já pensou que essa pode ser a sua segunda chance? Você está de volta e sua esposa, provavelmente, também está. Aproveite agora que Klaus está preso em outra cidade e fuja para bem longe com a sua esposa. Esqueça a vingança que te consome e vá ser feliz como você queria. Faça as malas velhas e vá! Dê uma voltinha pelo mundo e faça seja lá o que um vampiro mofado em um caixão de mil anos faria.
— Niklaus nunca vai permitir. Onde eu estiver, ele irá atrás de mim e de Sage.
— Você já falou com ela e com seus outros irmãos? Ultimamente eles estão um pouquinho menos suscetíveis a Klaus. Acho que dessa vez eles conseguem impedi-lo. Às vezes, a conversa pacífica é a melhor solução — Eu falei forçando um sorriso, pois nem eu acreditava no que dizia.
— Você é tão ingênua. Pensando assim, vai morrer em breve no meio dos meus irmãos. Ou no mínimo eles vão te enlouquecer. Elijah está no meio de uma confusão sobrenatural em outra cidade só para seguir Niklaus. Rebekah e Kol, aparentemente, estão seguindo instruções diretas dos irmãos mesmo aqui em Mystic Falls. Você acha mesmo que estão fora do radar e da influência dos dois mais velhos e manipuladores? Essa irmandade e co-dependência pode até ser abalada, mas nunca quebrada.
— E só o que você queria era ser incluído. Se eles tivessem te considerado mais como amigo e não inimigo, talvez estivesse agora seguindo Klaus em outra cidade ou cumprindo instruções também? — Ele se virou para me olhar, claramente ofendido.
— Não seja ridícula, senhorita. Não ouviu nada do que eu disse? Só queria minha liberdade e independência. E sempre me negaram isso. Agora é tarde demais. E sobre o vampirismo, não há retorno. Estou preso nessa maldição até morrer — E a Cura? pensei. Estava agora no sistema de Silas.
— Você sente como se nunca tivesse feito parte dessa família de verdade. Por isso queria fugir deles. Não era só repulsa aos métodos do vampirismo.
— Não. Mas, eu repugnava isso verdadeiramente. Eu realmente nunca me encaixei no seu estilo de vida e me orgulho disso. Mas, meus sentimentos são muito pequenos perto do que é necessário ser feito, do que é certo. Eles precisam morrer, Caroline. Isso já foi longe de mais.
— Eu não posso te ajudar nisso. Se eu compactuar com a morte deles, eu e meus amigos vamos morrer com certeza. Ainda somos ligados pela linhagem de sangue.
— Eu e meu pai estamos trabalhando nisso. Temos uma bruxa ao nosso favor que está disposta a quebrar a linhagem. Mas, precisamos de empenho e de todos os meus irmãos juntos num lugar só. Nesse momento, essa parte é tão difícil quanto pegar a estaca.
— Esther? — Perguntei alarmada. Se ela estava me enrolando e enganando Klaus, ele precisava saber.
— Não. Aquela lá corre para o lado onde tem mais vantagens e parece que ela decidiu que, por enquanto, esse é o lado dos filhos.
— Quem é a bruxa? — Cheguei perto do vidro da porta.
— Não posso dizer — Bufei revirando os olhos.
— Está mentindo — Por que ele estava me contando detalhes das suas estratégias com Mikael?
— Em breve você vai descobrir que não.
— Depois de tudo o que aconteceu, por que insiste em matá-los e se matar? Deu errado em todas às vezes. Já está claro que você vai perder de novo.
— Por que acha isso? Nunca estivemos tão perto como agora.
— Você parou de desejar uma vida pacífica com a sua esposa? — Resolvi apelar — Porque claramente ela não é mais uma prioridade para você.
— Nunca, embora tenham se passado novecentos anos e ela tenha seguido em frente se casando outras vezes. Mas, entendi que não passou de uma fantasia, de uma ilusão minha ao pensar que eu poderia viver longe da vida de crimes dos meus irmãos. Agora sei o que devo fazer, independente dos meus sentimentos. Diferente de Elijah e de Rebekah, eu não vou ser consumido pelas falsas esperanças.
— Se Klaus te pedisse perdão e te libertasse dessa perseguição sem sentido, você desistiria do suicídio e tentaria viver bem com a sua esposa? — Insisti. Ele era mais outra alma quebrada e perdida nessa família. No fim, todos eles tinham as mesmas necessidades.
— Semente se eu visse que meus irmãos estão verdadeiramente buscando uma vida diferente da violência psicótica. Não apenas me libertando e vivendo da mesma forma sanguinária. Não é por mim que acredito que devem morrer. Mas, eu acho que eles não tem mais solução, já cruzaram uma linha sem retorno e estão levando para o buraco todo mundo que cruza seu caminho. Não há mais espaço para redenção, Caroline. E quem se apegar a isso, vai sucumbir à desgraça eterna junto deles.
— Eu realmente entendo seus motivos, seu sofrimento. Acredite em mim, quando chegar a hora, Klaus vai pagar por isso, porque o universo revida. Ele merece não passar impune e eu farei isso acontecer do meu jeito. Mas, é hora de seguir em frente. Vá embora sem olhar para trás. Se você entrar no caminho do Klaus de novo, ele vai te matar com certeza e dessa vez é sem retorno. Vai ficar difícil te defender se você ficar gritando para todos os cantos que tem a intenção de matar seus irmãos.
— Você se importa com Niklaus, até com os outros, posso ver em seus olhos e nas suas palavras — Ele concluiu me analisando. Pestanejei incomodada — Não é pela ligação de sangue que você não quer traí-lo. É porque você simplesmente não quer. Quando Mikael sugeriu isso, eu não acreditei. Uma coisa é Niklaus ficar obcecado por alguém. Outra é ser retribuído. Quem amaria aquele monstro? Pensei, ela é uma garota estúpida ou apenas perversa como ele? E agora vejo que você não é nenhum dos dois. Então, quem é você, Caroline? Por que seu coração aparentemente puro foi atraído pelas trevas? Por que mesmo tendo vários motivos para adia-lo você não odeia? — Fiquei divagando um tempo pelas suas perguntas até que a resposta saiu sem que eu percebesse.
— Não é um crime amar o que você não pode explicar — Então, finalmente entendi o que Klaus quis dizer.
— Então é tarde demais para você também. Eu vim aqui na esperança de que você visse a verdade. Mais cedo ou mais tarde espero que você note que Niklaus não se interessa pelo bem estar dos integrantes de Mystic Falls. Nem pelo seu. Ele só se importa com poder. Permaneceu aqui enquanto teve um pouco disso, mas largou assim que encontrou uma fonte de poder mais potente, mais tentadora. Enquanto ele pôde, usufruiu bem do que essa cidadezinha tinha a oferecer. Quando ela deixou de ser útil, ele abandou o barco e deixou vocês à deriva, à beira do precipício. Por que é isso o que ele faz, deixa rastros de destruição, de desgraça por onde passa. Se você embarcou nessa com ele, esteja disposta a enfrentar as consequências. Você mesma disse que não se trata do bem ou do mal, mas sim de circunstâncias e de escolhas ruins. Vamos ver se isso se aplica a você também. Se você aguenta o que a destruição do Outro Lado vai trazer para a sua vida.
— E que diferença vai fazer se eu te der a estaca se vão quebrar a linhagem? Os Originais morrem, mas os outros vampiros ficam. A maioria não é inocente. Então, seu argumento de salvação da pátria cai por terra.
— Só quebraríamos a sua linhagem se esse fosse o preço a pagar pela queda dos Mikaelson. Você está com um poder muito grande nas mãos, mas parece fraca demais para abraçá-lo. Bem, vejo que foi em vão a minha presença. Mikael estava certo sobre você.
— O potencial destrutivo que Mystic Falls tem está acima da existência do Klaus — Tentei desviar do rumo da conversa que ele conduzia, tentando me fazer confessar — Com ou sem Klaus e sua linhagem, o sobrenatural sempre é atraído para essas terras. Agora foi a questão do Outro Lado. Mas, e depois? Aposto que sempre haverá uma brecha para o caos nesse lugar.
— Estou confuso. Está me dizendo que no fim das contas não tem importância se você e seus amigos corram perigo pois é o destino natural ao se viver nessas terras? Ou que não se importa que Niklaus viva no meio de vocês causando mais terremoto? Não foi toda a historinha suja dele de ativar a maldição que trouxe Katerina Petrova e companhia para infernizar vocês? Isso começou desde antes de você nascer, Caroline. Seus amiguinhos Salvatore pararam aqui por causa das Doppelgangers. E elas, ao longo dos séculos, só serviram de bolsa de sangue para o meu irmão. Negue o quanto quiser, mas tudo se volta para ele no fim das contas. Me deixa até perplexo que vocês não façam nada para acabar com ele de vez. Ele já dominou tudo e todos. Mas, sempre há uma brecha nos feitiços. Vocês poderiam ter encontrado uma bruxa para quebrar a ligação da linhagem. Mas, lhes faltou empenho. Se conformaram. Ou talvez — Ele ficou bem de frente pra mim, me observando através do vidro — A presença dele começou a ser apreciada por algumas pessoas? — Sem responder, apenas o encarei — Sabe, sem querer desmerecer as suas capacidades, é apenas uma vampira recém criada, comum e fraca demais. As confusões em que os Originais se metem são bem menos simplórias, mais enérgicas do que está acostumada a lidar. Você vai morrer se permanecer envolvida, Caroline. Posso te assegurar. Ou mais pessoas a sua volta vão morrer. Então, se salve enquanto há tempo — Era uma ameaça ou apenas um aviso? Eu estava perigosamente perto dele. Se não fosse a falta de convite o impedindo de entrar, poderia simplesmente quebrar o vidro e agarrar meu pescoço, mas eu fiquei ali, parada, o desafiando com o olhar. Bastava ele tocar num fio de cabelo meu para Klaus parti-lo no meio e eu acabei deixando escapar um sorrisinho de lado ao pensar nisso — Ou talvez fique tão tóxica e desestruturada quanto eles. Caroline Forbes, a boa vampira, pelo o que ouvi, sucumbindo à escuridão dos Mikaelson.
— Você nem me conhece e está fazendo suposições. Mas, te garanto, não precisa gastar seu precioso tempo. Eu pude lidar com eles até hoje, então não vai ser nenhum problema para mim. Mas, agradeço a preocupação. Tenha um bom dia — Não pude decifrar seu semblante, pois abaixei a veneziana imediatamente. Fiquei uns segundos travada no chão, só observando a sua sombra se afastar da porta. Só então, soltei o ar que nem percebi estar prendendo. Minha garganta estava seca e meu coração saltava freneticamente. Mas, não de medo. De euforia. Acabava de descobrir mais uma página — obscura, diga-se de passagem — da vida passada de Klaus e isso me deixava mais elétrica do que deveria. Isso poderia me fazer entendê-lo mais e talvez até mesmo ajudá-lo a melhorar suas relações familiares. Será que ele estaria disposto a parar de infernizar o irmão se eu pedisse? Ao menos eu esperava que ele reconsiderasse sem uma negativa imediata. Mas, o que mais guardei dessa conversa e me incomodava ao extremo foi o jeito leviano como Finn me tratou, como se eu fosse uma fracote inútil demais para o cargo. Passei minha vida toda sendo subestimada por pessoas que se achavam superiores e esse sempre foi meu calcanhar de Aquiles. Eu não era uma super Original, mas era forte o bastante para saber me virar. Me lembrei da conversa nada pacífica com Klaus logo após ele descobrir a traição de Tyler — meu ex e sumido namorado. Klaus foi o único que viu através de mim, enquanto os outros estavam ocupados demais com suas lutas pessoais, sempre me colocando para escanteio, ignorando meus desejos e necessidades. Klaus reclamava de Tyler, enquanto eu tentava intervir por sua vida. Eu lembrava de tudo naquela conversa, pois ali percebi que Klaus me observava muito de perto e que a nossa ligação era real demais para ignorar. A minha luta interna só piorou a partir daquele dia e ficou cada vez mais difícil afastar Klaus da minha cabeça.
— Você não pode matar o Tyler — Entrei na sala de Elena, quase implorando num sussurro.
— Não é sobre eu poder, mas eu preciso — Ele disse friamente, enquanto estava sentado na poltrona — Tenho uma reputação a manter — Então, ele sorriu maliciosamente — Além do mais, eu quero.
— Não estou pedidinho para perdoá-lo. Só o que estou te pedindo é para deixá-lo viver. Em algum lugar bem longe daqui — Tinha medo da resposta, mas ao mesmo tempo estava segura demais. Àquela altura, todos, inclusive eu mesma, ja reconhecíamos a suscetibilidade que Klaus possuía comigo. Eu demorei a acreditar e até a entender, mas usava quando era conviniente na esperança de dar certo. Ele se levantou da poltrona de repente, tentando controlar seu mau temperamento. Podia ver o esforço claro que ele fazia para se manter equilibrado na conversa.
— Para que ele possa viver uma vida feliz depois de ter feito todos os meus híbridos virarem contra mim — Falava enquanto andava na minha direção — Depois de ter tentando me matar. Depois de ter feito a missão da vida dele encontrar a cura e usá-la contra mim.
— Todos nós queremos a cura — Eu disse um pouco alterada, quase gritando.
— É mesmo? Você quer? — Ele disse bem incrédulo.
— Não importa. Só existe uma. Não terei nem a chance de consegui-la de qualquer forma.
— Mas, se você pudesse, você não tomaria, não é? — Não respondi, mas a confirmação deveria estar estampada na minha cara, pois ele sorriu vitorioso — Você prefere quem você é agora à garota que um dia você foi. Você gosta de ser forte, sempre jovem, sem medo de nada — Ele se aproximou de mim, deixando seu rosto a centímetros do meu. Pude sentir seu hálito cheirando a Bourbon e seus olhos verdes brilhavam de empolgação. Assim tão de perto, ele não era mais tão assustador — Nós somos iguais, Caroline.
— Então, me mostre. Você sabe o quanto eu amo Tyler. Você pode ver o quão assustada estou por perdê-lo — Eu estava quase chorando, me humilhando para aquele híbrido filha da puta — Se você e eu somos tão similares, então mostre a sua compaixão. Mostre a ele a misericórdia que eu mostraria a você — Então, naquele momento não senti mais vontade de chorar, nem medo, nem dúvida. Meus instintos perceberam a nossa ligação antes mesmo de eu aceitá-la. Klaus faria o que eu pedi. Vi em seus olhos a sombra de um Klaus mais humano e instantaneamente gostei mais dele.
— Misericórdia para o Tylah — Ele sorriu sem humor — Bem, então. Diga a ele para deixar a cidade imediatamente — Me deu às costas, mas voltou a me encarar — Diga a ele para correr e se esconder num lugar onde eu nunca possa encontrá-lo.
— Claro — Sorri afogada nas emoções. Aproveitei a deixa e peguei meu casaco para sair da sala. Mas, Klaus continuou a destilar seu veneno.
— Diga a ele que essa é a misericórdia que estendo apenas por você. Diga que darei a ele essa vantagem antes de matá-lo — Engoli em seco e olhei decepcionada para ele. Não apenas por dizer que iria matar meu namorado, mas porque seus sentimentos por mim não pareciam grandes o bastante para ele desistir de matar alguém apenas porque eu pedi.
Mas, ele nunca levou essa promessa até o fim. Pelo contrário, semanas depois libertou Tyler só para me fazer feliz. Ele seria capaz de fazer o mesmo pelo irmão, mesmo que não entendesse à princípio qual meu interesse em deixar Finn em paz? Klaus têm dificuldade de compreender que para ele ser feliz precisa deixar os irmãos serem também. Claro, seus problemas com Finn eram muito mais enraizados e mais graves que a birra momentânea com Tyler. Mas, mesmo no ápice do seu ódio contra meu ex ele foi capaz de abrir mão da vingança em prol de algo mais importante. Ele fez o mesmo com Katherine, e esse caso foi muito pior que o do Tyler. Seria muito difícil repetir o perdão com o irmão, justo com aquele que é mais necessário? Klaus é quem deveria pedir perdão, mas um passo de cada vez. Já seria bem custoso ele concordar em não se vingar de Finn. Contudo, eu estava confiante sobre isso, sobre Klaus ceder mais uma vez. Ou estava voando alto demais na rota de queda e da decepção certeira.
Ninguém nunca entenderia — nem eu mesma — por que me importo tanto em resolver os problemas dos outros quando nem consigo lidar com os meus, mas é mais forte que eu, ainda mais quando envolve alguém com quem me importo muito.
Andei um tanto distraída até encontrar a mesinha do corredor, em que deixávamos fotos e as chaves. Meu peito arfava e minha pele do rosto formigava um pouco. Larguei as coisas que segurava no chão e sentei ali mesmo, de pernas cruzadas, pensando em como eu sairia disso tudo.
Eu sabia muito bem o que Mikael queria. Assim como Esther, queriam me manipular e me usar para pegar a maldita estaca. Simplesmente cismaram comigo e me tragavam para cada vez mais dentro dos joguetes mortais familiares. E Finn estava sendo levado pela onda de ressentimento e tão sem emoções que me assustava. Ele era o extremo oposto dos irmãos que viviam no limite do temperamento difícil. Finn apenas se rebelou contra os infortúnios da vida e optou pelo caminho mais fácil, a morte.
E Klaus...ele precisava saber de tudo, precisava saber que seu pai estava cercando tudo e todos, planejando algo muito grande contra ele, pois só isso justificaria as palavras de Finn sobre uma tal bruxa. Peguei meu celular e já estava quase ligando, quando parei com os dedos no ar.
E se isso causasse grande fúria nele, ao ponto de sair arrancando cabeças pela cidade apenas para conseguir se libertar do feitiço?
Alisei a testa cansada. O que eu faria a seguir? A verdade é que eu precisava conversar com ele. Eu queria falar com ele. No momento era nele em quem eu mais confiava. Ouvir os seus elogios com toda a convicção que só ele tinha sobre meu potencial me passava confiança, me fazendo sentir menos vulnerável e mais poderosa. E era disso que eu mais precisava no momento, de energia e de força extra para traçar um plano eficaz e enfrentar o caos iminente, especialmente depois de ter sido rebaixada tão categoricamente pelo babaca Original.
Tamborilava os dedos no chão tentando decidir, sem perder tempo para abrir mais espaço para a catástrofe se formar.
Eu poderia falar com ele sobre outras coisas, apenas para conseguir algum contato, ouvir seu sotaque britânico me dizendo que em breve tudo estaria resolvido, que ele estaria de volta para salvar o dia mais uma vez.
Num ímpeto fora do meu normal toquei na tela e chamei seu número. Mas, desliguei em breve. Olhando para o celular dividida entre discar de novo e ver se ele me retornaria, fiquei amaldiçoando o telefone. A dúvida era cruel. Teimei e disquei de novo, mas dessa vez chamou sem resposta. E uma terceira tentativa sem sucesso me fez entender que talvez fosse obra do destino, pois certamente eu acabaria tagarelando toda a verdade pra ele.
Mesmo assim, eu estava desesperada por alguma comunicação com ele. Pensei em alguma desculpa esfarrapada para justificar meu telefonema sem me entregar por completo. Algo em que ele acreditasse em mim sem nenhum questionamento e que pudesse distraí-lo um pouco. Olhando para a bolsa, lembrei da caixinha de veludo refinada, contendo o desenho e a pulseira. Klaus gostava de me agradar com objetos materiais. Especialmente quando se tratava de relíquias que ele apreciava. Fazia parte do seu código de aristocrata milenar. Os vestidos elegantes jaziam pacificamente no meu armário e em outras circunstâncias eu os levaria comigo. Talvez eu devesse pedir algo emprestado, para manter a nossa tradição e cumplicidade até mesmo nas formas mais simples. Era inteiramente nosso essa troca de favores. Lembrei dele dizendo: "Então, isso é coisa nossa?", no dia do festival de inverno, ao me oferecer champanhe e me mostrar seu quadro impecável. Mas, eu disse "Nós não temos uma "coisa nossa". Umas semanas depois eu estaria totalmente errada. Soltei uma risadinha abafada.
Mas, o que seria urgente ao ponto de eu estar ligando para pedir? Urgência era algo relativo. Pra mim, um vestido já foi questão de vida ou morte, mas hoje ele era só um objeto inútil. Olhei a minha volta e percebi a tragédia que era estar sentada no chão toda jogada e acabada, correndo pela cidade que nem uma desnorteada, exausta demais para levantar. Então, a luz acendeu. Eu precisava de um carro. Um que ao menos não fosse roubado.
Depois de uma pulseira de brilhantes ou um vestido da realeza, o que seria um carro? Então, respirando fundo e emergindo todo o meu famoso auto-controle, decidi gravar uma mensagem de voz. Era melhor que ligar, pois eu não teria que improvisar, ao vivo seria mais difícil de atuar e de esconder as circunstâncias atuais. Depois de algumas tentativas falhas em controlar o tom de morte explícito na minha voz tremida, consegui produzir um texto digno de mim.
— Klaus, eu estou com uma verdadeira crise nas mãos. Aquelas bruxas loucas destruíram o meu carro. Não bastou tentarem me matar duas vezes, tinham que me dar prejuízo também. Longa história, não cabe numa mensagem de voz. O fato é que estou sendo obrigada a ficar correndo na velocidade vampírica enquanto Mystic Falls pega fogo. Então, você poderia deixar eu dar uma olhada na sua coleção horrível de carros antigos? Prometo que é emprestado. Eu devolvo assim que puder. Isso se esse não for destruído também. A propósito, eu cumpri a tarefa que você pediu. A sua Doppelganger está livre, leve e solta para nos atacar novamente.
Fiquei parada uns instantes, pesando se essas palavras eram o suficiente. Pelo menos eram o bastante para iniciar um diálogo decente.
Mas, como preveni-lo das ameaças do pai sem que ele soubesse das tretas recentes a minha volta? Pense, pense, Caroline.
Bingo!
Disquei para o segundo Original mais fodão da história, mas com uma tendência menos impulsiva. Para o meu imenso alívio, ele atendeu no terceiro toque.
— Elijah? — confirmei.
— Caroline? A que devo a honra?
— Urgente. Preciso te contar umas coisas. Envolve Klaus e seus irmãos.
— Diga — Pude perceber a tensão na sua voz.
— Seu irmão mais velho esteve aqui na minha casa, Finn, conversando comigo, se é que posso usar essa expressão. Ele está planejando matar Klaus. Todos vocês, na verdade. Mas, ele focou mais em Klaus.
— Não é novidade. Já estávamos esperando por isso. Ele já fez isso antes, se você não sabe — Eu lembrava, claro, daquele baile onde Esther ligou os irmãos com um feitiço em suas bebidas. Seria mais fácil assim. Matando um, mataria todos de uma vez. Para a desgraça, essa família era a mestra das mestras — É só uma questão de quando vai tentar de novo.
— Você não entendeu. Ele estava muito seguro de que iria conseguir. Está planejando algo grande, que talvez vá além dos limites de Mystic Falls, pois ele sabe exatamente onde Klaus está agora. Me pareceu que só está aqui ainda por causa da Estaca.
— Ele mencionou a estaca pra você?
— Sim. Tentou me convencer indiretamente a pegá-la pra ele. A enganar Klaus com a minha suposta influência sobre ele, embora duvidasse dela.
— Ah, ele também notou isso. Isso é preocupante. Pelo menos ele não te usou como moeda de troca. Seria baixo, mas nenhuma novidade. Mikael está por trás disso, tenho certeza de que ele quer usar você contra Niklaus. Você está oficialmente no radar dele e isso é grave.
— Não comece, Elijah. Vamos focar no que interessa.
— Estou errado em pensar assim? — Claro que não, pensei. Fiquei calada e ele entendeu o recado — Não acredito que ele foi até você. Passou dos limites. Ele vai pagar por esse atrevimento. Você ficou em grande perigo ao estar muito perto dele, Caroline. Ele não fez nada porque não quis — Revirei os olhos. Obviamente que eu já sabia disso. Mais uma vez eu era a fraca da história — Niklaus se virou para te deixar segura e agora está mais em perigo do que nunca.
— Isso não importa, eu não sou o alvo.
— Você está ciente de que se Mikael ou Finn quiserem, eles podem chantagear Niklaus ao usar você ? Se não fizeram isso ainda, é porque têm outros planos. E isso realmente é alarmante.
— Seria ridículo — Falei isso mais para não dar razão a ele, pois o que mais justificaria a presença do papa Original na minha treta com as bruxas?
— Não existem regras no amor e na guerra — Revirei os olhos. Que besteira.
— A questão é que você deve ficar em alerta. Assim que ele puser as mãos na estaca, se conseguir, vai atacar vocês. Mas, não diretamente. Ele tá arquitetando pegar vocês pelas beiradas, eu senti isso. Ele está organizando algo elaborado. Até mencionou uma bruxa para quebrar a linhagem.
— Esther?
— Não, ao que parece — Ele soltou o ar pesadamente.
— Nosso pai nos persegue há anos, só vai acabar quando Niklaus matá-lo. Estou ansioso por esse dia. Finn é só um meio para o joguete de Mikael. Quando ele conseguir o que quer, vai matar meu irmão também. Não quero isso. Me preocupo com todos igualmente — Arqueeis as sobrancelhas com incredulidade — E Niklaus nunca permitirá que ele chegue até a Estaca. Ela está bem escondida. Tem que ter acesso a cofres no subsolo protegidos por feitiços. E nem está na casa de Mystic Falls. Não mais.
— Não preciso saber onde está. Melhor que não haja possibilidade de ele arrancar isso de mim me hipnotizando.
— Ou Finn. Ele realmente pode.
— Eu sei. Então, viu.
— O que mais você sabe?
— Sua mãe acha que não deveria ser Klaus a consumar o ato.
— Você falou com a minha mãe também? Meu Deus. Dois carniceiros da mesma laia. Mas, não entendi.
— Ela veio com um discurso de que quer quebrar o ciclo de violência na sua família, não permitindo Klaus matar o pai e libertando vocês de futuras vinganças contra ela. Ela quer matar Mikael com as próprias mãos.
— Não acredite em nada do que ela disser. É tanta besteira que até me enoja. Duvido que ela tenha coragem de matá-lo.
— Claro que não. Não sou burra — Revirei os olhos, ele falava comigo como se eu fosse uma criança — E eu acho que ela está bem convicta, sim, Elijah. Então, se prepare para ouvir essas besteiras ao vivo. Ela foi para New Orleans horas atrás. Com a intenção de conseguir a Estaca de mim, ela consentiu em se esforçar para quebrar a barreira e libertar Klaus.-
— De você? Então, ela também quer te usar, que repugnante. Vamos ver se ela não quer mais do que isso. Ela sempre tem motivos ocultos. Não me surpreenderá se ela estiver caçando outras coisas. Vou ficar de olho nela quando a encontrar — Seria melhor mesmo, pensei. Até porque se ela desse um passo em falso, Klaus arrancaria a cabeça dela — O que me surpreende é: por que ligou pra mim e não para Niklaus? Acho que ele ficaria mais feliz e menos paranoico se conversasse com ele, não comigo. Não estou reclamando, você pode me chamar sempre que puder. Mas, conheço meu irmão. Ele vai encrencar com isso.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Ele não precisa saber. Eu liguei, mas ainda bem que ele não atendeu. Eu teria soltado o verbo e estragado tudo pra ele.
— O que está acontecendo para você precisar esconder algo?
— Ataques e mais ataques. Umas bruxas vieram pra cima de mim. Mas, não se preocupe. Meus amigos me ajudaram — Eu não seria louca de dizer que foi Mikael, não agora por telefone — Não queremos Klaus numa onda de assassinatos depois de um surto pelas notícias, não? Temos que controlar a fera. Sabemos do que ele é capaz. Tentaria atravessar a barreira a todo custo.
— Você o conhece muito bem. Fico feliz que se preocupe com ele. Todo progresso lento e árduo que tivemos até agora seria com certeza jogado no lixo. Lidar com ele é como andar sobre ovos.
— Então, você entende que deve guardar isso até segunda ordem.
— Claramente.
— Me prometa, Elijah. Não vai cair no golpe se ele te ameaçar ou for suave de maneira suspeita para te manipular.
— Não sou tão manso ou ingênuo quanto você pensa.
— Manso não é. Lembro da sua chegada assustadora à Mystic Falls.
— É bom ser respeitado. E até lembrado. Mas, cuide-se, Caroline. O cenário não está nada bom, ao que parece. Não deve ficar perambulando pela cidade. Rebekah me ligou dizendo que iria para a casa do lago e que você iria também. Por que não está com ela? Foi pelas bruxas?
— Sim. Minha mãe se feriu, mas vai ficar bem. Quando ela puder se locomover, vou direito para o Lake Barcroft. Mas, perdi o pouco dos recursos que eu tinha. Meu carro foi detonado nesse pequeno inconveniente com as malditas bruxas. Preciso de um. Então, se não for muito abuso, gostaria de pegar emprestado um dos seus. Eu sei que tem uns comendo poeira lá na sua garagem.
— Pode ir lá à vontade. Sirva-se — Ele disse soltando uma risadinha.
— Eu vou devolver assim que puder. Não vou roubar o carro dos outros — Falei como se eu não tivesse feito isso horas atrás.
— Não se preocupe com isso. Um carro não é nada demais para nós. Vamos torcer para que Niklaus saia logo dessa prisão, pois estou ficando realmente incomodado. Ele queria que eu voltasse a Mystic Falls para ajudar você e Rebekah, mas achava que podiam dar conta. Agora, estou verdadeiramente preocupado.
— Não fique tanto. A verdade é que eu não posso sozinha. Mas, Rebekah tem me ajudado. Até mesmo Kol. Ele está lá no hospital com a minha mãe enquanto vim pegar roupas em casa.
— Mesmo? Isso me intriga. Mas, ele foi até Alexandria buscar Niklaus. Talvez eu esteja sendo cético demais com meu irmão mais novo.
— Eu nem perguntei por quê. O bizarro já não é mais tão surpreendente assim. Eu vou desligar. Tenho que voltar ao hospital.
— Tudo bem. Se precisar de algo mais, só me chamar.
— Obrigada. Até mais.
— Cuidado, Caroline. E até breve.
E assim, eu desliguei. E um peso enorme saiu do meu peito. Pude respirar um pouco menos temerosa. Pelo menos eles estavam avisados. Quando fosse para o Lake Barcroft, avisaria a Rebekah. Talvez não fosse uma boa ideia Kol saber enquanto estivesse em Mystic Falls livre e solto. Ele poderia pegar a Estaca e sair à procura do pai sem medir as consequências. Talvez, se ele fosse bem sucedido, não seria tão ruim assim ele saber, Não é mesmo? Não, Caroline. Não haja por impulso. Você só está com raiva pela aparição inconveniente de Finn e pela intromissão repugnante do papa Original. Aquele projeto de demônio. Se eu pudesse, mataria ele com as minhas próprias mãos. Ele precisa me dar só mais um motivo...E daí que não sou mais forte que ele? Elena e Jeremy conseguiram matar Kol, não foi? Não sei como, mas conseguiram. E Matt, com toda a sua fraqueza humana, conseguiu transformar Finn em cinzas da mesma forma. Por que eu não poderia? Era inteligente o bastante para inventar uma artimanha e dar uma rasteira no velho imundo.
Mas, eu não tiraria isso de Klaus. Nem dos irmãos. Eles merecem toda a glória e toda a honra advinda da morte de Mikael. Era deles por direito, eu não poderia me meter nisso.
Ouvi o pequeno soninho se notificações do meu celular. Elijah me mandava mensagem:
"Código de acesso 1045977DC. Vai precisar para o carro"
Sorri com a gentileza. Ele era bastante atencioso.
Olhei em volta, cansada, mas me obriguei a me levantar. Precisava guardar de uma vez tudo o que eu precisava. Tentaria ir direto do hospital para Barcroft. Quanto menos tempo em Mystic Falls, melhor.
E ainda precisava falar com Stefan. Seria a segunda pior parte do dia...
Depois de ter guardado só o que precisava (pois era só isso o que cabia na minha pequena bolsa), meti o pé dali sem olhar para trás. A sensação estranha de abandonar a minha casa tinha passado.
Dirigi tentando formular um jeito mais tragável de iniciar o assunto assim que eu estivesse de frente para Stefan. Mas, não existe nenhuma forma sutil de informar a alguém que sua pessoa querida morreu. Meu peito começava a arfar e minhas mãos tremiam um pouco. Para o meu pavor, já estava de frente para a mansão Salvatore. Fiquei parada no carro por mais alguns minutos, tentando criar alguma coragem. Mas, ela não viria.
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Liz
Abri os olhos, mas os fechei imediatamente. A luz branca fez minhas vistas doerem. Bem devagar, voltei a abri-los, ajustando e controlando a entrada de luz.
Tentei movimentar meu corpo, meus braços, mas não sentia um deles. Olhei um tanto desnorteada e percebi que ele estava imobilizado e preso ao meu corpo. Girei o pescoço tentando focalizar o ambiente, mas isso só fez minhas têmporas explodirem de dor e uma náusea forte se apoderou de mim. Deitei a cabeça lentamente no travesseiro e fiquei paralisada apertando as pálpebras. Foi preciso muito esforço meu para não vomitar ali mesmo. Imagens disformes rodopiavam na minha mente, como se eu estivesse num brinquedo giratório. Fiquei apertando a cama com a mão livre até que o quarto diminuísse de velocidade. Fiquei ofegando por um tempo até que ouvi a porta abrir. Meus olhos demoraram uns segundos para se ajustarem e compreenderem quem era. Uma figura borrada, mas conhecida, entrava no meu campo de visão aturdido, que voltava a suas funções plenas lentamente.
Meridith entrou no quarto segurando uma prancheta. Ela carregava um sorriso gentil, mas seu olhar me passava algo que não soube o identificar, porém não gostei de ver. Anos como detetive apuraram os meus instintos e Meridith cheirava a más notícias. Senti um mal estar, um presságio ruim se aproximava, eu podia sentir. O que poderia ser pior? Mystic Falls estava sempre testando os nossos limites. Ela se aproximou de mim e checou os monitores. Tentei ver o que estava escrito nas suas folhas, mas ela manteve discretamente longe do meu alcance. Ao tentar levantar o pescoço, minha cabeça girou e o quarto ficou temporariamente escuro.
— Liz, não deve se levantar assim — Ela segurou meus ombros — Ainda está com anestesia no seu sistema. Vai levar algumas horas para sair completamente. Se fizer movimentos bruscos, sentirá náuseas fortes — Escutei o eco da sua voz, parecia como num filme longínquo. A ouvi de longe arrastar a cadeira e senti suas mãos tocarem meus pulsos. Então, minha mão ardeu e percebi os acessos intravenosos — Sentindo alguma dor? — Ela indagou.
— Só quando me mexo. Fora isso, todo o braço está dormente — Tentei ser concisa na fala, mas ela saiu fraca e tremida.
— É o esperado. Você vai precisar ficar aqui mais uns dois dias. Depois, repouso absoluto em casa — Revirei os olhos. Era só o que me faltava.
— Sabemos que isso pode ser perigoso para nós nas atuais circunstâncias.
— Caroline vai fazer o possível para te deixar segura, tenho certeza.
— Ela está me esperando no corredor? — Pisquei algumas vezes, olhando para a porta.
— Não. Eu disse a ela que você demoraria horas para acordar. Mandei que ela fosse resolver suas questões pendentes. Mas, eu menti. Eu sabia que você acordaria em pouco tempo — Enruguei a testa.
— E por que você fez isso? — Ela me encarou com o semblante anuviando antes de continuar.
— Temos que tratar de um assunto grave, temo dizer. Eu sei que agora não é o melhor momento para dizer isso, mas eu queria falar com você antes que ela voltasse. Seria impossível esconder dela devido ás suas habilidades. Respeitamos a privacidade dos pacientes. É direito deles fazer o que quiserem com a informação que têm e...
— Meridith, apenas fale. Não estou em condições de aguentar a sua enrolação — Não queria ser grossa com alguém tão gentil, mas estava me irritando.
— Tudo bem — A voz dela vacilou — Caroline me disse que usou sangue de vampiro em você na esperança de te curar — Arregalei os olhos. Ela sabia o quanto eu repudiava a ideia de virar uma criatura dessas — Mas, infelizmente, não funcionou.
— Depende do ponto de vista — Sorri fracamente.
— Liz, quando o sangue não funciona é mal sinal. Ao longo da minha carreira eu usei esse artifício em muitos pacientes e somente em casos específicos ele não teve o sucesso esperado. Existe uma lista pequena de doenças que tornam o sangue ineficaz e essas doenças são...irremediáveis.
— E qual delas eu tenho? — Falei fechando os olhos, constatando aonde ela queria chegar. Meu corpo enrijeceu na expectativa de ouvir o pior. Ela inspirou fundou antes de jogar.
— Mandei fazer uma bateria de exames para confirmar, mas os primeiros resultados indicam Câncer no Pâncreas em Estágio IV.
— Ninguém falou nada por um tempo. A nuvem densa de morte pairou sobre nossas cabeças como chumbo, me tragando para o abismo. O quarto a minha frente sumiu e só me restou um zumbido agudo bem ao longe. Às vezes, quando eu estava sonhando, percebia detalhes que não condiziam com a verdade que eu conhecia. Detalhes que passariam despercebidos a olhos menos perspicazes e treinados que os meus. E se agora fosse um desses momentos? Mentalmente me ordenei que abrisse os olhos e acordasse, mas quando o fiz, só encontrei os olhos preocupados e piedosos de Meridith. A realidade poderia ser pior que o pior dos pesadelos.
— E o que isso significa na prática? Que vou morrer em breve? — As palavras saíram queimando como ácido a minha garganta.
— Está nos últimos estágios da metástase — Ela não respondeu diretamente — Quer dizer que já se espalhou para outros órgãos. Não há mais tratamento, só medidas paliativas para diminuir suas dores, seu sofrimento. Queria trazer notícias melhorares, mas...
— Diminuir? Não sinto quase nada.
— Quase? Quer dizer que você já sentiu algo? — Ela anotava enquanto me ouvia.
— Às vezes senti algumas palpitações e dores fracas. Nada demais.
— Liz, é de um câncer em estágio final de que estamos falando. Normalmente as pessoas reclamam de dores fortes. A partir de agora, você vai sentir.
— E por que não antes? — Que estranho.
— Porque você não estava nessa condição até hoje — Ela engoliu em seco antes de continuar — Seu Câncer piorou, de acordo com o padrão que percebi nas suas células — Olhei confusa para ela.
— Como isso é possível?
— Pela forma cruel e irônica de a mãe natureza se vingar das nossas tentativas de enganar a morte. Quando você recebeu o sangue da sua filha, ele acelerou a sua doença. Quanto mais tentarmos trapacear, maior a reação contrária do câncer. Os breves testes me indicaram que você estava na fase I para a II. Vou confirmar com os exames que faltam sair, mas tenho certeza do que aconteceu. Os exames são apenas formalidades — Fiquei um tempo calada, apenas olhando pra ela boquiaberta. Realmente foi melhor Caroline não saber nada disso, pelo menos por enquanto. Ela ja carregava o peso do mundo nas suas costas. Não queria jogar mais essa culpa sobre ela. Ela não sabia, só queria me salvar, claro. Mas, conhecia muito bem minha filha ao ponto de saber o quanto ela iria se martirizar. Não queria nem pensar no que isso poderia significar para o espírito otimista e frágil de Caroline.
— Então, não tinha como eu desconfiar...
— Não. Esse é o pior caso, pois a pessoa só descobre...
— Quando já é tarde — Terminei a frase pra ela, olhando para a parede branca.
— Mas, a sua piora foi quase instantânea ao receber o sangue. Antes, talvez você tivesse alguma chance de tratamento. Ou talvez você começasse a sentir um mal estar nos próximos meses, se ele se agravasse. Mas, nunca saberemos. Eu sinto muito, Liz. Queria trazer notícias melhores. O que podemos fazer é começar uma série de medidas assim que os resultados chegarem. Você terá algum tempo para organizar suas pendências caso tenha alguma...
— Químio? Quanto tempo me resta? — Falei com a voz embargada. Eu tentava me conter, mas as lágrimas começavam a descer. Minha cabeça rodou vertiginosamente outra vez. Senti uma vontade enorme de vomitar. Quando Meridith percebeu meu desconforto, levantou e pegou um recipiente de metal. Me entregou bem na hora que eu estava convulsionando e colocando todo o conteúdo do meu estômago para fora. Olhei enojada para o aquilo e continha sangue misturado. Desviei os olhos, senão eu vomitaria de novo.
—Se você aceitar a medicação, talvez alguns meses. Difícil dizer um tempo exato pois cada organismo responde de uma forma diferente. O que posso dizer é que sem o a químio seu tempo será reduzido — Olhei assustada para ela. O universo sempre com o seu carma. Nesse instante, eu desejava que o maldito sangue tivesse funcionado — Tentei arrumar palavras melhores, mas acredito que a sinceridade é a melhor opção com os pacientes. Vocês merecem a verdade.
— Esse é um daqueles casos em que a Químio só piora o condicionamento físico do paciente em troca de miseráveis semanas a mais sem nenhuma qualidade de vida?
— Nas últimas semanas, sim. Mas, vai ganhar algum tempo para...
— Para que serve esse tempo extra se vou passar na cama do hospital definhando? — Ela demorou a responder.
— Essa é uma escolha do paciente. Alguns acreditam que o tempo extra pode ser necessário para certas resoluções. Outros querem qualidade de vida até o final e saem rodando pelo mundo até...chegar a hora. No final, Liz, tudo cabe a você. Só decida aquilo que tiver certeza — Certeza de que? De qual forma prefiro morrer? Suspirei pesadamente.
— Apenas não conte a Caroline, nunca. Eu sei como lidar com ela. Farei da minha forma. Ela nem sempre sabe quando...deixar ir.
— Como preferir. Por isso quis conversar com você antes de ela voltar, para você tratar da sua privacidade como queira. Só aconselho a não demorar muito para falar, pois ainda é um mistério as reações que o sangue especial causa no sistema do paciente. Às vezes a presença do sangue inviabilizou a químio. Então, temos que descobrir o quanto antes quais são os nossos recursos possíveis. O tempo que eu te disse é apenas uma estimativa do que eu tenho visto ao longo dos anos, mas cada caso é um caso — Em outras palavras, conte antes que você morra de repente, foi o que entendi. Acenei lentamente para ela, sem olhá-la nos olhos — Quando eu tiver todo o dossiê de exames, nós conversamos novamente sobre a sua escolha. Você pode tirar uma dias para pensar e descansar. Mas, não mais que isso. O tempo é precioso, Liz. Não queremos que se arrependa de nada.
— Então, era isso. Tinha que escolher entre ficar agonizando na cama para ter mais um mísero tempo ou morrer mais rápidocommuito dor.
— De quanto estamos falando?
— Desculpe?
— O valor desse "tratamento". Deve ser uma fortuna.
— Em Mystic Falls não temos esses recursos. Você teria que no mínimo se mudar para Washington D.C. ou para outra cidade que tenha o que você precisa.
— Só isso já seria bem caro.
— Admito, um tratamento desse pode custar milhares de dólares. Mas, não deve se preocupar com isso agora. Muitos pacientes conseguem pagar ao longo dos anos — Disse Meridith um tanto constrangida e lamentosa. Anos que eu não teria, apenas Caroline, enfurnada em dívidas. Ergui as sobrancelhas. Nem mesmo contando o salários dos meus últimos 15 anos de carreira chegaria nesse valor. O sistema de saúde desse país era falho e vergonhoso — Se você decidir por escolher a mediação, vamos analisar as suas opções no sistema. Só preciso saber o mais rápido possível — Só pensava em Caroline. Ela ficaria sozinha e perdida nesse mundo. Ela não estava pronta para me perder. Mas, quem está pronto para perder alguém que ama? Quando eu finalmente pensei que teria uma vida melhor com a minha filha...Até estava pensando em viajar depois que ela entrasse para a faculdade. Talvez levá-la para um dos seus destinos dos sonhos desde criança — Vou deixá-la descansar mais. Se precisar, só chamar os enfermeiros — Ela apontou para o pequeno dispositivo ao meu lado, que ignorei completamente.
Quando ela saiu do quarto, fiquei olhando para o teto, imaginando todos os cenários que eu não viveria. E a cada conversa que eu treinava um jeito diferente de contar para Caroline, todos terminavam em tragédia. Quando Bill morreu, de alguma forma minha filha conseguiu passar por isso sem ser consumida pelo luto ou pela dor. Caroline sempre foi muito emotiva e levava tudo até as últimas consequências e me admirou que ela não tivesse tentado formas mais drásticas de salvar o pai. Mas, ela seria capaz de manter o equilíbrio outra vez?
Enquanto alisava a testa e pensava onde ela estaria agora, me deixando aflita que estivesse sozinha perambulando por Mystic Falls recém sucumbida ao desastre, a porta se abriu novamente. Meu peito arfou de tal forma que chegou a doer. O ar sumiu e senti minha garganta muito seca.
— Não se preocupe. Eu vim em oferta de paz. Você que não é muito confiável. Mas, já que está imobilizada e não pode apontar a sua arma de novo para mim, podemos deixar isso de lado por enquanto.
— O que faz aqui? A nossa conversa não foi esclarecedora o bastante para você? — Minha voz quase não saiu.
— A sua filha não te contou as nossas últimas desventuras?
— Obviamente não tivemos tempo de colocar as fofocas em dia.
— Mas, você já deve ter notado que quase passaram dessa para melhor.
— Onde ela está? — Levantei a cabeça de supetão e a sala girou.
— Relaxe — Mikael colocou suas mãos asquerosas em mim, me fazendo voltar a encostar no travesseiro, mas eu não tinha forças para me desvencilhar — Ela está na sua casa agora mesmo, se punindo por ser tão ingênua — Olhei pra ele atravessado — Mas, sabe, ela quase não teve essa oportunidade. Se não fosse a minha eficaz intervenção, vocês duas agora seriam só estatística da adorada Mystic Falls.
— O que exatamente aconteceu para você ser tão necessário assim? — Falei com tom irônico. Tentava me lembrar, mas as imagens eram recortes e borrões. Só lembrava de gritos e do fogo.
— As bruxas que queriam o pescocinho da sua filha pela façanha da doce Caroline voltaram por um tempo limitado.
— Caroline não mexe com ninguém para ser um alvo — Eu sabia que isso era mentira.
— Você realmente não sabe nem da metade do que sua filha apronta — Desviei os olhos dele e foquei num quadro feio e velho ao lado da porta — A amiguinha de vocês morreu. É uma pena.-
— Lexi?! — Tentei falar alto, mas minha voz soou rouca e minha garganta doeu. Comecei a ofegar e a suar frio.
— O tempo está se esgotando, Liz. Principalmente para você — O olhei surpresa — Sim, eu ouvi a sua conversa com a médica. Que lástima. Mas, é isso o que resta quando se tem um corpo tão frágil quanto o humano. Você não gostaria de ter alguma chance de passar as suas últimas semanas com a sua filha, sem preocupações extras de morte? Você já tem isso o bastante na sua condição.
— Você realmente vai usar isso para conseguir o que quer de mim? Que nojento.
— Eu deveria me regozijar com seu sofrimento? Ou me compadecer pelas suas angústias? Nenhum dos dois. Estou aqui de forma objetiva.
— Realmente é necessário ser um monstro para ser capaz de derrotar outro. Não esperaria de você qualquer traço de humanidade.
— Não vamos levar para o lado pessoal, Liz. Sinto muito se o bem maior prevalece. Colocá-la no meio do fogo cruzado pode ser o mal necessário para trazer paz ao mundo. Mas, se pudermos evitar que você ou Caroline padeçam na destruição de Niklaus, melhor para as duas. E para isso você deveria me ajudar.
— O que me garante que após eu te te ajudar, você não vai sumir do mapa e nos deixar comprometidas?
— Nada. Mas, hoje foi uma boa demonstração da minha palavra, você não acha? Tem muito mais. Aposto que você não quer que a sua paz chegue apenas no além quando você estiver morta junto da sua filha. Tempo é algo precioso, Liz, e você agora mais do que ninguém sente isso na pele. Cada minuto que você perde nesse joguete mortal te leva para longe de ter um fechamento digno com sua filha.
— Eu não quero ouvir nada disso — Falei entredentes — É o cúmulo você vir aqui no meu quarto me dizer como devo passar meu tempo restante. Apenas saia daqui — Fechei os olhos controlando a raiva.
— Eu entendo. Talvez você precise de uma motivação maior. Ouvi que você talvez precise de uns trocados para pagar seu tratamento. Isso seria facilmente resolvido — Olhei incrédula para ele.
— Você está tentando me subornar? O quão desesperada e sem escrúpulos você pensa que sou ao ponto de trabalhar com o psicopata mais desprezível que já existiu apenas por dinheiro?
— Você realmente me acha mais desprezível que Niklaus? Agora você foi longe de demais. Sorte sua que ainda acredito que possa ser útil pra mim, senão eu te faria engolir essas palavras da pior o forma. Cuidado, Liz. Eu ainda não sou seu inimigo e você não vai querer que eu seja.
— Me ameace o quanto quiser. Já estou com o pé na cova, como você ouviu muito bem. Não tenho mais motivos para me preocupar com a minha segurança.
— Mas, tem a segurança da sua preciosa Caroline — Sorri maldosamente.
— Na nossa última conversa eu estava preocupada em não expor a minha filha e essa obsessão sem sentido que Klaus tem por ela. Mas, já que você está bem ciente dos atos insanos do seu bastardo em relação a minha filha, digamos que não há mais motivo para eu maquiar a verdade. Se você não conseguir matar Klaus, se você deixá-lo solto por aí e se meter no caminho da Caroline, seu precioso filho vai te transformar em pó. E eu vou adorar assistir — Ele fez uma cara de quem está pagando para ver.
— Sabe, Liz, você não merece nem um pouco a minha ajuda com tamanha falta de cooperação e de consideração. Mas, não vim aqui para te fazer enxergar o óbvio ou para repetir as palavras que te causaram tanta repulsa dias atrás a ponto de atirar na minha cabeça. Apenas quero que saiba que você ainda tem opções. Basta uma ligação sua para a sua adorada Mystic Falls se ver limpa e monótona outra vez — Ele pegou uma das revistas na mesa de cabeceira, arrancou um pedaço de papel e escreveu escreveu nele — Se mudar de ideia, estou apenas a uma ligação de distância — Dobrou o papel e o colocou dentro da gaveta.
— Ele ia falar mais algum coisa, mas ouviu algum barulho, pois olhou de esguelha e alarmado abruptamente para a porta. Me encarou sugestivamente e deixou o quarto na velocidade vampírica.
— Então, eu soltei o ar. Pensei que ele estivesse aqui para me matar após o meu atrevimento. Mas, ele ainda queria a mesma coisa que me pediu. Como fazê-lo desistir dessa ideia mirabolante, esquecer a mim e a minha filha de vez? Que ele se virasse com os filhos e não nos metesse nessa história. Mas, ele estava decidido, iria me perseguir até me convencer, eu podia sentir. Ou até que ele conseguisse a maldita da estaca sem mim. Quando eu me sentisse um mínimo melhor, iria propor uma ideia supostamente simples a minha filha, mas vital no momento. Perguntaria a ela se queria fazer uma viagem comigo, para bem longe de Mystic Falls, dessa família amaldiçoada. Quanto antes eu tirasse Caroline do radar de Klaus, melhor para todos.
Fiquei alguns minutos remoendo a desgraça em que eu estava metida até que a porta abriu de repente. Me sobressaltei na cama e meu corpo enrijeceu. Um rapaz de cabelos e olhos castanhos e de sorriso irônico me olhava com as sobrancelhas arqueadas.
— Liz, não é? Espero que tenham me informado o lugar certo. Um hipnotizado não mente. Menos aquela médica enxerida. Mas, o que ela poderia fazer? Vou ser seu acompanhante por um tempo. Eu juro que sou divertido, você vai gostar — Ele se jogou na poltrona ao lado, pegou uma revista e começou a folhea-la despretensiosamente enquanto ignorava totalmente a minha presença. Peguei o botão para chamar a enfermeira, mas ele segurou a minha mão com uma força sobre-humana ainda olhando para a revista — Não vai precisar disso. Não estou aqui para te ferir.
— Quem é você?! — Falei alterando a voz algumas oitavas.
— Ah, desculpe. Eu sempre acho que as pessoas deveriam me conhecer. Kol — Ele sorriu finalmente me olhando — Kol Mikaelson — Encostei na cama resignada e bufando. Ótimo, mais um maldito Mikaelson. Essa cidade está infestada dessa gente. Eram como pragas, ratos espalhados por todo canto de maneira que nenhum dedetizador era eficaz o bastante.
— Posso ao menos perguntar que infernos você está fazendo aqui?
— Já não disse? — Ele abriu os braços — Vou te acompanhar. Desculpe a minha falta de tato, talvez você esteja meio surda depois da explosão.
— Eu só quero entender por que tem um Original no meu quarto de hospital para seu meu acompanhante — Falei entre-dentes e apertando os olhos
— Que gênio, hein, moça. Você realmente é mãe da loirinha atrevida.
— Foi ela quem te mandou aqui?! — Caroline era inacreditável.
— Indiretamente, sim — Bufei consternada. Ela estava perdendo o juízo, se associando a esse gente — Mas, não gaste neurônios com isso. Vai precisar deles, já que é uma humana bem limitada. Não precisa falar comigo. E eu não preciso nem gostar de você. Minha função é só impedir que o caos lá de fora chegue até você aqui dentro — Ele gesticulou apontando para a porta e para mim.
— Tarde demais, garoto.
— Irônico, eu tenho mil anos. Sou muito mais velho que você, mesmo tendo essa pele esticada e bonita. Não sinto nem um pouco falta de envelhecer. A propósito, você nem tem tantas rugas para uma velha — Ele esticou o pescoço para me olhar mais de perto. Inspirando fundo, me afastei dele e olhei para a parede do lado oposto.
— Você espera que eu acredite que veio me vigiar apenas por que Caroline pediu?
— Claro que não, minha senhora. Minha adorada irmã me prometeu 500 mil dólares — Escutei as páginas da revista virando. Olhei pra ele espantada — E como eu acabei de voltar e não tenho acesso à conta bancária da minha generosa família, ainda — Ele levantou o indicador — Tenho que aceitar essa micharia para recomeçar no mundo dos vivos sem precisar ficar roubando os cartões de crédito dos meus emprestáveis irmãos. Eu disse a Rebekah que se eu tiver que entrar em briga corporal com alguém, o preço aumenta. Se bem que não vai ser esforço algum — Ele se levantou e pegou o jarro de água — Posso? — Antes de eu responder ele já estava se servindo. Revirei os olhos — E sabe, a loirinha é gente boa. Eu não sou do tipo que faz caridade para os desafortunados, mas até que gosto de ajudá-la de alguma forma. E Nik tem uma fissuração por ela que pode me ser útil. Se eu fizer algo pela loirinha talvez meu querido irmão não queira mais tanto assim arrancar meu fígado e seja mais generoso com seus contos de réis — Ele encheu o copo até o topo e bebeu tudo de uma vez — Pena que não é vodka — Ele olhava para o copo meio chateado e eu só podia imaginar a minha cara de incredulidade no momento — Será que tem aquelas máquinas de doces aqui? Chame a enfermeira, mulher — Fiquei parada olhando pra ele sem reação — Tá, eu chamo — Ele apertou o botão e esperou impaciente tamborilando os dedos na mesinha de canto. Quando uma mulher entrou, ele segurou seus ombros e mirou diretamente eu seus olhos — Quero que me traga aqueles pacotes de salgadinhos, vários deles, um chocolate e uma soda. Não demore, estou com fome e você não vai querer me ver com fome — Ele sorriu maliciosamente e voltou a folhear a revista sentado na poltrona enquanto assobiava despretensiosamente.
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