Scarlet Blood II - One First Breath
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Chicago. Cidade dos Ventos.
Já estava praticamente de noite quando Drew chegou. Chicago era esplêndida. Assim que o ônibus adentrou na área do Loop, o garoto apenas afastou seus problemas e preocupações por alguns segundos para poder admirar a cidade. Magnífica. Todos aqueles enormes arranha-céus erguendo-se do chão, os incontáveis carros presos no trânsito, a variedade e quantidade de pessoas caminhando pelas ruas... Era incrível. Uma típica metrópole. Drew conhecia a cidade por fotos e vídeos, mas estar ali... Estar naquele meio era único. Springfield era uma cidade mediana e bem arranjada, mas era também uma típica cidade “interiorana” – mesmo quando era a capital do estado de Illinois. Portanto, a emoção de se estar numa cidade grande era incrível. Se Drew não estivesse numa situação de vida ou morte, gostaria de poder passear pelas ruas de Chicago e admirar com maior detalhamento o lugar, as pessoas, a arquitetura...
Porém, seu tempo de apreciação logo acabou. O ônibus tinha chegado à rodoviária. Assim que a porta do veículo se abriu, Drew logo se apressou em descer. Como imaginara, manter a bolsa consigo economizaria tempo precioso. E tempo era tudo que Drew não tinha.
Ele estava caminhando e foi então que se deu conta: como ele acharia Annie naquela multidão de gente?, pensou. Ele nem mesmo sabia onde ela estava. Entretanto, foi o toque de seu celular que o afastou de sua mais recente preocupação. Era Lizzie.
– Lizzie, já estou em Chicago! – disse fingindo estar animado.
O outro lado da linha permaneceu mudo por alguns instantes. Só o que Drew ouviu foi o respirar pesado de alguém.
– Lizzie?
– Já é tarde demais, Drew...
Lizzie começou a chorar ao telefone. Drew tentou assimilar as palavras da garota. A princípio, ele pensou ter entendido errado, mas o choro do outro lado da linha o fez ter certeza de que ele tinha escutado perfeitamente bem. Então, ele começou a negar que aquilo fosse verdade, não poderia ser. Ele estava ali em Chicago para salvar sua amiga de infância. Sua melhor amiga. Fora lá apenas para salvá-la das mãos do tirano Mason.
– É uma brincadeira, não é Lizzie? – falou com a voz pesada.
– Sinto muito, Drew!
O garoto deu um grito no meio da rua, chamando a atenção de todos que estavam ao seu redor. Ele socou a parede do prédio que se estendia ao lado dele na calçada. Só o que conseguiu foi quebrar a mão. Porém, a última coisa que ele sentiu naquele momento foi a dor por seu ferimento. Além do mais, de que importava? Em poucos minutos, talvez segundos, ele estaria curado, novo em folha.
Drew estava de novo chorando. Chorar era a única coisa que ele vinha fazendo em dias, a única maneira de aliviar sua dor. Sou um homem, pensou, não devia estar chorando feito uma criancinha! Se ele tivesse chegado um pouco antes, quem sabe, Annie ainda estaria viva. Era culpa dele. Minha culpa!, pensou Drew num estado quase que depressivo por sua tristeza.
As pessoas ao redor o encaravam, mas, logo, ele era só mais um entre a multidão. Apenas uma sombra. Ali era Chicago, e em grandes metrópoles uma trivialidade como um garoto chorando desesperadamente no meio da rua não era notada. E se fosse, era logo esquecida. “Apenas mais um rosto no meio da multidão, apenas mais uma sombra que passa e se esvai”, dissera Heinrik a Mason certa vez. Drew, é claro, não sabia daquilo, mas era aquela a realidade de uma cidade grande.
– Drew? – a voz de Lizzie do outro lado da linha fez com que o garoto recobrasse a consciência. – Você ainda está aí?
– Estou... – respondeu numa voz chorosa.
– Não se culpe, como eu sei que você está fazendo neste exato momento!
– É claro que é minha culpa, Lizzie! Se eu não fosse tão covarde a ponto de só ficar dentro de casa nos últimos dez dias, todos saberiam sobre Matthew! Inclusive Annie! Mas, não, eu tinha que ficar lá dentro trancado... – ele passava a mão no rosto e nos cabelos descontroladamente. – Do que eu estava com medo, afinal? Matthew? Tolice!
– Ele poderia te esmagar, Drew!
– Que esmagasse... Teria sido mais digno do que minha atitude! Mais vale um homem que morre por sua valentia do que um covarde que foge por seu medo...
– Drew... – Lizzie disse quase que numa súplica.
– Não era suposto que acabasse assim, Lizzie! Carly e Max já morreram. Depois Chris e o segurança da escola e os meus pais... E eu fui o culpado pela morte deles. Mas, Annie, eu podia ter salvado ela! Era minha chance de redenção... Não era suposto que acabasse assim!
Drew engoliu o choro. De repente, uma ideia cruzou sua mente e seu rosto se iluminou de uma maneira estranha. Tinha uma saída, uma chance restante. E era preciso tentar.
– Não era suposto que acabasse assim – falou –, e não é assim que vai acabar!
– Drew, o que você quer dizer? – perguntou Lizzie confusa.
– Onde Annie estava? Seu corpo? – Drew falou apressadamente.
– Ela estava na Trump Tower...
– Eu ligo pra você, Lizzie... – disse prestes a desligar o celular.
– Drew, espere!
Mas já era tarde demais, o garoto tinha desligado o telefone. Lizzie tentou retornar a ligação, mas Drew não atendeu. Ela continuou tentando diversas outras vezes. Todas sem respostas.
–--
Quando Drew se aproximou da Trump Tower, viu carros da polícia e da perícia logo na entrada. Correu até o oficial mais próximo e o abordou.
– Com licença... – falou sem ar. A correria tinha lhe sugado o oxigênio dos pulmões.
– Sim? – falou o policial olhando para Drew de forma suspeita.
– Foi nesse lugar que acharam o corpo de Annie Amberden?
– Sim!
– E onde ela está agora?
– Foi levada para o necrotério mais próximo. Como você sabe sobre... ?
O garoto já tinha saído correndo em disparada e o policial iria emitir um chamado para que fossem atrás do menino, entretanto, alguém pediu para que ele subisse até a cena do crime. Acabou por ignorar completamente o garoto.
–--
Drew parou um homem de terno que caminhava na rua. O senhor se assustou e já estava discando o número da polícia, achando que o garoto o roubaria.
– Senhor, por favor... – disse ainda sem ar. – Onde fica o necrotério mais próximo?
Sem entender nada, o homem apenas apontou na direção da qual ele viera caminhando. Drew fez um gesto de agradecimento com a cabeça e continuou correndo. Metros à frente, depois de muita correria, deparou-se com uma pequena clínica que era também um necrotério. Ele entrou, tentando recuperar o fôlego.
Não era suposto que Drew, um atleta nato, tivesse falta de ar por uma corridinha. Aquele percurso que ele fizera não fora de longe o exercício que exigiu mais de sua capacidade física. Principalmente agora que ele era um vampiro e suas habilidades haviam sido “ampliadas”. Talvez fosse apenas a situação em si: o desespero, preocupação, medo. Aquilo consumiu Drew. Logo, porém, ele estava renovado.
Se aproximou do balcão.
– Com licença?
– Em que posso ajudar? – perguntou uma simpática atendente.
– Este é o necrotério que trouxeram o corpo de Annie Amberden?
– A garota que foi encontrada na Trump Tower?
– Exatamente! – falou com uma esperança no olhar.
– Isso mesmo, foi para cá que trouxeram ela. Pobre garota, tão jovem...
– Será que eu poderia vê-la?
A mulher olhou para Drew como se ele fosse algum tipo de louco.
– Receio que isso não seja possível, jovem...
– Por favor! – implorou Drew com lágrimas se formando nos olhos. – Ela é... ela era minha amiga. Preciso vê-la uma última vez!
– Querido – disse a atendente de maneira gentil ao perceber a dor do garoto –, eu sei que é difícil perder alguém, mas não posso permitir que você a veja. Vai contra as regras da clínica. Além do mais, neste momento ela está passando por uma série de exames para sabermos a verdadeira causa da morte. Estão investigando a morte dela.
– Eu... eu entendo...
Drew ficou sem chão, mas deu as costas para a atendente e caminhou para fora. A mulher o olhou indo embora e sentiu pena por ele.
Mas aquele não era o “ponto final” da história, havia ainda uma pequena possibilidade de Drew conseguir. Ficou escondido do lado de fora da clínica que não funcionava 24 horas como um hospital, portanto, só o que ele tinha que fazer era esperar. Quando todos os funcionários tivessem ido embora e o lugar estivesse completamente vazio, seria a sua deixa. Ele entraria e iria atrás de Annie. Demorou horas, mas Drew esperou. Ainda permaneceu escondido até que fosse de madrugada, o horário mais seguro para invadir o lugar, pensou ele.
Era por volta das 2 da manhã quando Drew decidiu entrar. Nos fundos da clínica, havia no alto uma janela que estava aberta. Estava a muitos metros do chão, nenhum humano seria capaz de vencer aquele obstáculo – a menos que tivesse uma escada, é claro –, mas Drew não era um simples humano. Para ele, aquilo seria fácil. Ele saltou e, quando deu por si, estava agarrado à beira da janela. Fora mais fácil do que ele imaginara que seria. Aquela era a primeira vez que ele usava suas novas habilidades “conscientemente”. Todas as vezes anteriores, ele agiu por impulso... Pela vontade de se alimentar. Aquilo o fez lembrar de sangue. Percebeu, finalmente, o quanto se sentia fraco. Afastou o pensamento e, finalmente, jogou-se para dentro do prédio.
Caiu no chão do lado interior tão silenciosamente quanto um gato. Estava tudo escuro, mas Drew conseguia enxergar perfeitamente bem. Antes de ir até Annie, decidiu que precisava urgentemente de sangue. E não seria só para ele. Não demorou até que ele encontrasse a sala onde ficavam estocadas as bolsas com o liquido da vida. Pegou três sacos e os guardou na mochila. Um quarto pacote, o qual Drew manteve nas mãos, era para que ele se alimentasse ali mesmo. Depois de ingerir a bebida, sentiu-se forte e revigorado. Estava novo em folha.
Era hora de achar de Annie.
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