Scarecrow

2 Encontrada


Ventava. Ventava tanto... Eu quase não conseguia mais correr, e o trigo agora estava começando a me incomodar. Eu não via para onde estava indo, mas não podia parar...

Porque ele não me seguiu depois daquele encontro?

O céu já estava escuro naquelas alturas, mas não haviam estrelas. Apenas nuvens tempestuosas e trovões que percorriam o céu iluminando o caminho que eu nem sabia mais se era o certo. Estava frio, e o vestido sem mangas que usava também não ajudava a me aquecer, e estava com medo e tão cansada... Será que isso nunca iria acabar?

Ao longe, então, avistei uma terra mais escura. Grama... o fim dos campos de trigo. Finalmente! Tudo estaria finalmente acabado, finalmente eu encontraria alguém para me ajudar, para me fazer acordar deste pesadelo!

Corri o máximo que podia, aliviada mas ainda em desespero, já que a presença daquele monstro inanimado ainda me perseguia na escuridão da tempestade. Ele ainda estava tão perto, tão próximo de me alcançar...

Eu precisava ser rápida.

Alcancei aos tropeços o lugar onde estava a ajuda até mais rápido do que esperava. Cai, tropecei, cai de novo... mas isso não importava. Ajuda, eu conseguiria ajuda. Eu poderia me livrar deste pesadelo e finalmente voltar para casa. Eu até mesmo sorria, esperançosamente entre meus soluços ao simplesmente imaginar a ajuda que poderia conseguir, mas...

O lugar estava vazio.

Além dos campos de trigo, poucos metros além de onde eu estava, dois grandes e monstruosos celeiros obscuros e abandonados obscureciam ainda mais a paisagem, velhos e mal cuidados assim como a antiga caminhonete aos pedaços que estava jogada ao lado de um deles. Algumas outras ferragens enferrujadas e arcaicas estavam caídas aqui e ali, enegrecendo ainda mais a vista dos campos escuros e vazios que restavam além do trigo.

O céu era ainda mais negro e tenebroso além dos celeiros, mostrando não muito longe um princípio de furação que parecia começar a se formar. O vento era ainda mais gélido e úmido aqui, fora da segurança dos claros e camuflados campos de trigo...

Eu havia sido emboscada.

Um raio rasgou os céus e veio a cair em uma velha árvore morta perto de um dos celeiros mais atrás de mim, me fazendo voltar o olhar confuso e desesperado novamente aos campos de trigo.

Mais uma vez, lá estava ele me observando. Rindo de meu desespero e de minha tolice, ainda preso na cruz mas agora há mais ou menos 5 ou 6 metros de altura, quase tocando os céus.

Seu rosto me observava sorrindo irônico e entretido, enquanto meu olhar retomava o pavor e o desespero de antes agora com mais uma aura de desesperança e falha que meu coração não conseguia aguentar. Eu chorava em desespero, tremia, gritava, mas meu olhar não conseguia deixar o abismo do olhar do espantalho. Era cruel, macabro...

Trovões cortavam os céus atrás dele e iluminavam o campo como se fosse dia, e nestes momentos eu poderia jurar que seu sorriso se abria e me mostrava o abismo dentro de sua mente, mais alegre e entretido do que jamais esteve em toda aquela corrida.

Foi ai que percebi um outro.

Atrás de mim, ecoando entre os uivos do vento e os rugidos dos trovões, passos queimavam a grama lentamente em minha direção, calma e despreocupadamente. Tentei virar o rosto e ver o que era, mas meu corpo não quis me escutar. Era estranho, eu tremia... mas não conseguia mover nem sequer o olhar. Era como se aqueles olhos me tivessem amarrado. Me amarrado forte com algo que eu não podia ver, a algo que nem sequer existia.

Meu coração batia forte, os passos se aproximavam. Cada vez mais perto, cada vez mais claros... e mesmo os ouvindo e sentindo sua presença macabra e funesta eu não conseguia nem mesmo mover o olhar para trás e tentar ter um vislumbre do que era. Não conseguia nem sentir a mim mesma direito.

Sentia o chão, mas não meus pés. Sentia frio — muito, muito frio -, mas não sentia o vento, mesmo vendo meus cabelos no rosto e sentindo meu corpo congelar com suas rajadas. Era um momento estranho. Era agoniante. Eu tinha que sair, tinha que fugir logo dali...

Os passos então subitamente pararam. Braços invisíveis então abraçaram minha cintura e meus ombros delicadamente, e um rosto que eu mal podia sentir recostou-se colado ao meu bem aos pés de meus ouvidos, enquanto uma intenção macabra de não sei bem o que era claramente visível naquele gesto.

Eu não o via, mas pude sentir um sorriso. No momento seguinte então, as palavras daquele ser selaram meu destino, em um tom sínico e coberto de ironia, como se aquela fosse simplesmente uma brincadeirinha de criança;

Ele riu, e então anunciou.

"Te peguei."

Notas finais
Bem, é isso ai. Aqui a segunda parte deste sonho/pesadelo. Espero que gostem[?]
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!