Sayryns - Saga Sllayer |1|

4 3| A catedral abandonada


Notas iniciais
Voltei com mais um capítulo de Sayryns! :D Eu travei muito nesse capítulo, mas finalmente consegui terminar. Perdoem se a escrita estiver mais pobre do que nos capítulos anteriores, mas espero que gostem :) Enfim, divirtam-se e boa leitura ^^

Em um pequeno bairro pobre da capital, Miro encontrava-se em sua pequena casa na cozinha em frente ao fogão fritando alguns ovos para preparar um lanche. Morava sozinho, por isso não se importava muito em arrumar a bagunça. Tinha alugado aquela casa quando se mudou para Zardren para estudar na nova escola. Não tinha mãe, pai, irmãos e não conhecia nenhum parente próximo. Miro era literalmente sozinho e por isso fazia o possível para conseguir levar uma vida normal. Trabalhava em uma lanchonete para poder pagar o aluguel. Enquanto preparava um sanduíche, o rapaz de olhos dourados lembrou de Casstyel e acabou permitindo que um sorrisinho bobo escapasse por seus lábios; estava feliz por saber que os Sayryns existiam de verdade. Aquilo era uma grande motivação para escrever seu livro e realizar seu sonho de ser um escritor famoso, tendo assim a chance de poder conhecer seus pais, isto é, se ainda estivessem vivos. No entanto, ele sabia que seria difícil arrancar qualquer informação de Cass, já que era mal humorado e cabeça dura.

Após preparar o sanduíche, colocou o mesmo sobre um pequeno prato de alumínio, abriu a geladeira, pegou uma latinha de Coca-Cola e se dirigiu até a sala, sentando no sofá e esticando as pernas sobre a pequena mesa de centro. Relaxado, pegou o controle remoto e ligou a TV. No primeiro canal em que o aparelho ligou, estava passando o noticiário local, o que interessou Miro e o impediu de trocar de canal. Estava sendo noticiada a destruição da pequena vila de Tefyan, a morte dos moradores causada por Ivan e a destruição que resultou da luta entre Lavidh e o Lyvreny. Miro ficou horrorizado com o que viu. De acordo com a repórter, toda aquela destruição tinha sido resultado de algo que caiu do céu, por causa do tamanho e da profundidade das crateras espalhadas pelo local. Também foram encontradas várias penas negras sujas de sangue por toda a área e aquilo chamou a atenção de Miro, já que as penas eram grandes demais para serem de pássaros comuns.

— Penas?

De acordo com algumas entrevistas que a repórter dava, algumas pessoas acreditavam que poderia ter sido pequenos pedaços de meteoro que caíram no local, outras acreditavam que poderiam ser extraterrestres, mas uma criança afirmou que foram anjos.

“— Como assim anjos? — perguntou a repórter

— Essas penas são de asas de anjo. Eu já vi um. — respondeu a criança inocentemente”

A repórter afirmou que a investigação do que realmente tinha acontecido ali iria continuar e que logo voltaria com mais informações.

— Anjos, é? Penas negras...com certeza foram Lyvrenys! — afirmou Miro empolgado

Batidas na porta. Quem seria? Miro deixou o lanche de lado e se dirigiu até a entrada. Ao abrir a porta, tremeu de nervosismo; era o dono da casa, indo receber o aluguel.

— Bom dia, Miro. — disse o senhor alto quase careca de terno

— Ah...b-bom dia, sr. Hoofman.

— Vim buscar o aluguel. — disse Hoofman de modo calmo e paciente

— Hoje já é dia 5? Ah...eu vou buscar o dinheiro. — disse Miro saindo e deixando o homem esperando

Depois de alguns segundos, ele voltou com um bolo de dinheiro em mãos.

— Aqui. 250 siliens. — disse entregando o dinheiro

Ao receber o dinheiro, Hoofman começou a conferir. Miro estava nervoso, aquele era quase todo seu salário. Por causa disso, estava com algumas contas para pagar atrasadas e já estava começando a pensar na possibilidade de procurar outra casa para morar.

— 250. Está certo. Bom, como está indo na nova escola? Já fez muitos amigos? — perguntou Hoofman guardando o dinheiro no bolso interno do terno

— Ah, você sabe como é...hoje foi só o segundo dia, ainda não me enturmei totalmente. — respondeu tímido

— Entendi. Miro, eu gostaria de lhe falar algo. É um assunto um pouco sério. — disse com um olhar sério e uma voz firme, o que deixou o moreno preocupado

— E o que seria? — perguntou o garoto coçando a cabeça nervoso

— Acontece que...o valor real do aluguel é 500 siliens. Mas por causa da sua situação financeira, eu permiti que você só me pagasse a metade. No entanto, apareceu alguém interessado na casa e ele está disposto a pagar o valor total.

Aquilo foi um tiro no coração de Miro.

— O quê?!

— Os negócios vão mal, Miro. Minha empresa está quase falindo, minha esposa foi demitida e estamos precisando de um dinheirinho a mais para pagar as contas. Por isso eu sugiro que você comece a pagar o valor total do aluguel, senão eu vou entregar a casa para alguém que pague.

— Como eu vou conseguir isso?

— Peça um aumento para o seu chefe ou arranje um trabalho que pague mais, eu não sei. Mas no próximo mês, eu já vou querer receber 500 siliens. Senão, infelizmente, eu vou ter que mandá-lo embora.

— Mas eu não tenho pra onde ir.

— Não se preocupe. Lhe darei um tempo para procurar um lugar. Eu já vou indo. Te vejo no próximo mês. Se cuida. — disse Hoofman afagando a cabeça de Miro e indo embora

— Careca idiota... — resmungou o garoto fechando a porta com força

Voltando para o sofá, Miro deitou no mesmo. Já tinha perdido toda a vontade de continuar o lanche. Encarando as hélices do ventilador de teto girando em alta velocidade, ele pensava em uma maneira de conseguir resolver aquele problema. Estava tão distraído com seus pensamentos, que demorou um tempo para se dar conta de que o despertador estava tocando. Ao olhar as horas no relógio de parede, levantou do sofá rapidamente em um pulo.

— Droga! Tô atrasado pro trabalho! — disse correndo para o banheiro para tomar banho

XXXXX

Era raro o céu ficar ensolarado naquela época já que era período chuvoso. O tempo estava fechado e mais uma chuva ameaçava cair. Caminhando às pressas pela rua com um guarda-chuva em mãos, Miro planejava chegar ao local de trabalho antes de ser pego pela chuva – o que não deu certo. Começou a chuviscar e o rapaz não pensou duas vezes para abrir o objeto que carregava. Apressando o passo, desejava não chegar atrasado, pois chegar atrasado significava perder dinheiro e isso era tudo que ele queria evitar pela situação em que estava. No entanto, ao passar por um beco, algo chamou sua atenção. Ele não entendia o porquê, mas sentiu seus pelos do braço eriçarem ao passar em frente ao pequeno e estreito beco sem saída. Sabia que estava atrasado, mas se sentiu tentado em parar e olhar para o lado.

Ao virar o rosto, se deparou com uma cena um tanto chocante: Cass estava sentado no chão encostado no muro ao lado de um latão de lixo. Estava de cabeça baixa com a mesma coberta pelo capuz do moletom. Miro ficou parado observando o rapaz de pele pálida naquela situação, parecendo um pobre morador de rua. O chuvisco ficou mais pesado e a chuva começou a aumentar, mas Cass não parecia se importar, além disso, estava dormindo.

Entrando no beco, Miro caminhou até o rapaz e se agachou à sua frente, também o protegendo da chuva com seu guarda-chuva. Estranhando o cessar da chuva sobre sua cabeça, Cass abriu seus belos olhos verdes e ergueu a cabeça, se deparando com um Miro sorridente à sua frente.

— Desculpa perguntar, mas...o que você tá fazendo aqui? — perguntou Miro

Cass ficou olhando ao seu redor.

— O que tu estás fazendo aqui? — perguntou de volta

Miro franziu a testa confuso.

— Ué, eu vi você aqui e vim saber o que está acontecendo. Você está bem?

Cass o empurrou o fazendo cair no chão sentado à sua frente.

— Estou ótimo. Só quero dormir. — respondeu voltando a fechar os olhos e suspirando para relaxar e tirar uma soneca

— Dormir? Aqui? Por quê? — perguntou Miro ainda confuso e curioso. Por que Cass estava ali?

— Porquê...aqui é minha casa. — respondeu em um sussurro tímido enquanto abria os olhos

Miro ficou chocado ao ouvir aquilo.

— C-casa?! Você tá zoando, né? — perguntou sem conseguir evitar sorrir da situação, mas o Sayryn continuava o olhando com o rosto sério, sem nenhuma expressão e um olhar vazio enquanto as gotas da chuva escorriam pelos fios prateados da sua franja

— Estou falando sério. — foi apenas o que Cass disse enquanto fechava os olhos

Miro o fitava com os olhos trêmulos. Aquilo era mesmo verdade? Cass vivia em um beco estreito, sujo e escuro? Dormia no chão perto de sacos e latas de lixo? Por que ele vivia ali? Por que estava naquela situação? A curiosidade de Miro sobre a vida do Sayryn apenas aumentava.

— Você...não tem um lugar pra morar?

Cass manteve-se em silêncio com os olhos fechados. Estava cochilando.

— Há quanto tempo você vive assim? — perguntou Miro mesmo sabendo que aquelas perguntas não seriam respondidas

Ignorando o silêncio de Cass, Miro ficou de pé e estendeu a mão para ele.

— Tá com fome?

O Sayryn abriu os olhos um pouco irritado. Queria cochilar mas Miro não lhe dava sossego. Ergueu um pouco a cabeça e viu o rapaz de cabelos escuros olhando para ele com um sorrisinho fofo no rosto enquanto lhe estendia uma mão e segurava o guarda-chuva com a outra.

— Eu trabalho numa lanchonete. Vem comigo. O lanche é por conta da casa. — convidou Miro gentilmente sem tirar o sorriso do rosto. Aquele maldito sorriso familiar que enchia a mente de Cass de lembranças

— Posso levantar sozinho. — resmungou levantando do chão sem segurar a mão de Miro

— Tudo bem... — disse sem jeito

Cass saiu caminhando na frente sem esperar por Miro, que foi logo mais atrás o acompanhando. Ao ficar ao seu lado, Miro levou o guarda-chuva um pouco para o lado para também proteger o Sayryn da chuva.

— O que estás fazendo? — perguntou incomodado

— Você pode pegar um resfriado, sabia?

— Imbecil, esqueceste que eu não sou humano? Eu não fico doente.

— Foi mal.

Depois de um bom tempo, ambos chegaram à lanchonete onde Miro trabalhava – que por causa da chuva, estava com poucos clientes.

— É aqui que eu trabalho.

— E daí? — perguntou mal humorado

— Nada. Só tô falando. — respondeu aborrecido

— Eu não ligo. — disse indo na frente e se sentando em uma mesa

Miro ficou o olhando. Por que Cass era daquele jeito? Irritado, mal humorado e depressivo? Seria aquela a personalidade dos Sayryns? Miro sabia que Cass não era humano, além disso não sabia de nada sobre as lendárias criaturas esquecidas da mitologia grega conhecida como Sayryns, e por isso sentia que não devia julgá-lo. Mas sabia que deveria ter muita paciência para aturá-lo.

— Miro! Está atrasado! — Medrick, o chefe baixinho, pançudo e com um charuto na boca, dono da lanchonete, chegou parecendo zangado

— Me desculpe! É que por causa da chuva, eu acabei perdendo a hora e...

— Não quero mais saber de desculpas! Vamos! Os clientes estão esperando! — interrompeu Medrick

— Sim, senhor! — respondeu o pobre rapaz correndo para a cozinha para pôr o uniforme e começar a servir os clientes

Com os olhos fechados, Cass estava sentado à mesa com um cotovelo apoiado à mesma e a mão apoiando o queixo. Parecia entediado, na verdade estava sempre entediado. Com os olhos baixos, teve uma pequena lembrança:

“Dois Sayryns filhotes corriam e voavam pela floresta do mundo dos Sayryns brincando e se divertindo.

— Ah, tu não me pegas! — cantarolou o Sayryn de olhos felinos dourados e asas laranjas voando por entre as árvores em alta velocidade enquanto que o outro Sayryn de olhos felinos verdes e asas brancas voava atrás dele

Mesmo batendo forte suas asas, elas eram pequenas e por isso o Sayryn de olhos verdes perdeu o controle e caiu no chão.

— Casstyel! Tu estás bem? — perguntou o Sayryn de olhos dourados voando até ele e pousando no chão, ajudando o amigo a se levantar

— Sim...peguei! — disse Casstyel abraçando o outro Sayryn bem forte o prendendo em seus braços

— Ei, assim não vale! Eu ganhei! — disse o outro Sayryn sorrindo e o empurrando fazendo-o soltá-lo

— Sorte tua que as minhas asas ainda são pequenas. Mas prepara-te pois quando eu for adulto, eu vou te ultrapassar! — disse Casstyel de modo alegre

— Hmf, só acredito vendo. — respondeu o outro Sayryn cruzando os braços. — Se tu ainda não sabes, eu fui considerado o mais forte da minha legião.

— O mais forte? Uau! Isso é demais! — disse Casstyel empolgado

— Pois é. Superei até mesmo o meu pai na cerimônia. Ele disse que eu tenho tudo para me tornar o Sayryn mais poderoso de todos. E um dia, terei a chance de ter uma audiência com Mynddz, que irá confiar a mim os poderes de seu coração! Eu irei me tornar um DD! — disse o outro Sayryn pulando e batendo as asas eufórico enquanto que suas orelhas pontudas vibravam em excitação

— Tu és bem otimista. Tu mereces, estou feliz por ti. — disse Casstyel

O outro Sayryn percebeu que Casstyel parecia triste. Foi até ele e colocou a mão em seu ombro.

— Ei, não te preocupes. Tu és forte, mas ainda tens muito o que aprender. Se tu acreditares e te esforçares bastante, um dia serás um dos mais fortes da tua legião, senão o mais forte. Podes até ter uma audiência com Keryuss e receber os poderes do seu coração. — disse o Sayryn tentando consolar e encorajar o amigo

— Tu achas mesmo que eu posso ser um SS? Mesmo sendo um híbrido? — perguntou Casstyel com um brilho nos olhos

— Eu tenho certeza! Torna-te o mais forte de todos, Casstyel. E quando esse dia chegar, vamos lutar. Quero ver se finalmente vais conseguir me ultrapassar.

— Eu prometo. Prometo que vou me tornar o mais forte por ti. — disse Casstyel inspirado

— É assim que se fala! — disse o Sayryn com um belo sorriso nos lábios

As orelhas do Sayryn vibraram e ele rapidamente se virou.

— Essa não, eu tenho que ir! Meu pai não pode saber que eu estou aqui!

— Ah...tudo bem. — disse Casstyel

O Sayryn abriu suas asas, pegou impulso e voou alto para ir embora.

— Maloman!!

O Sayryn de olhos dourados parou no caminho e se virou para ele batendo suas asas para permanecer no ar.

— Até amanhã! — disse Casstyel acenando para o amigo

Maloman, o outro Sayryn, deu um pequeno sorriso e acenou de volta.

— Até. — respondeu batendo suas enormes asas brancas com mais força e voltando a voar, indo embora para bem longe sumindo entre as nuvens”

Cass ficou ainda mais mal humorado com aquela lembrança, pois ele não sabia se ficava feliz ou triste por ela ainda permanecer em sua memória.

— Cass...Cass! — chamou uma voz irritantemente familiar

Olhou para o lado e viu Miro parado em pé ao seu lado vestindo o uniforme de garçom da lanchonete com uma pequena caderneta e caneta em mãos.

— Caramba, tô te chamando há mais de cinco minutos... — disse Miro coçando a cabeça

— O que tu queres?

— Já decidiu o que vai querer lanchar?

— Nada.

— Nada?

— Nós Sayryns não sentimos fome. Além disso, não comemos. Principalmente essa comida nojenta que vós humanos fazeis.

Miro começou a anotar na caderneta.

— O que estás fazendo?

— Ué, tô anotando. Preciso de toda informação sobre vocês para colocar no meu livro mais tarde. Então quer dizer que vocês não comem? Tipo, vocês não se alimentam nenhum pouco? — perguntou Miro curioso

— Os únicos órgãos que existem dentro do corpo de um Sayryn são cérebro e coração, além de osso e carne. Não temos mais nada além disso. Nosso corpo é completamente vazio. Não temos estômago, por isso não sentimos fome. — explicou

— Uau! Que interessante! Me conta mais! — disse o moreno puxando uma cadeira e se sentando à mesa com ele

— Tu não tens que trabalhar?

— Ah, tem outros garçons pra atender. Por favor, me fala sobre vocês! Eu quero muito escrever esse livro!

— Caramba, como tu és irritante... — disse Cass passando a mão na testa por baixo da franja prateada e os olhos fechados

Miro fechou a cara. Cass sentiu algo estranho. Ao olhar discretamente para o lado, o Sayryn avistou dois homens de preto lanchando em uma mesa um pouco afastada. Ambos possuíam a pele pálida e pareciam bem suspeitos, não só pela aparência sombria, mas também pelo modo como comiam o lanche de um jeito forçado. Cass observava atentamente os dois por entre os dedos da mão que apoiava seu queixo.

— Droga, até aqui? — resmungou colocando o capuz para esconder o rosto

— Hm? O que foi?

— Eu tenho que ir. — foi o que Cass respondeu enquanto levantava da mesa

— Mas ainda tá chovendo. — disse Miro também levantando

— Dane-se. — respondeu saindo pela porta de vidro giratória da lanchonete e indo embora na chuva

Sozinho, Miro suspirou passando uma mão nos cabelos. Por que Cass se recusava tanto em falar sobre ele e os outros Sayryns? Ele sempre conheceu a história dos Sayryns através de livros e sites de lendas e mitologias da internet. No entanto, as informações não eram o suficiente para escrever um livro. Por isso, queria informações direto da fonte, porém, o único Sayryn que ele conhecia sempre fugia do assunto e se recusava em falar.

Assim que Cass saiu da lanchonete, os dois homens de preto deixaram seus lanches de lado, se levantaram e saíram do estabelecimento. Miro suspeitou.

— Ei Giselle, aqueles homens pagaram o lanche? — perguntou para sua colega de trabalho

— Não. Não acredito que eles foram embora sem pagar! — respondeu Giselle

— Eu vou atrás deles. Se o chefe perguntar por mim, você explica porque eu saí. — avisou Miro retirando o avental e saindo da lanchonete

— Tudo bem. — respondeu a garçonete

Ao sair da lanchonete, mesmo a chuva tendo diminuído um pouco sua intensidade, ela ainda estava bem forte. Ignorando o peso das gotas em sua cabeça, Miro caminhava por uma calçada perseguindo os dois homens de preto que andavam calmamente muito à frente. Ele tentou apressar o passo para conseguir alcançá-los, mas o vento forte que trazia a chuva contra ele o impedia de manter os olhos abertos e por isso colocou o braço na frente para tentar se proteger do ataque gélido da chuva. O céu não parava de chorar e Miro estranhava o porquê do sol se recusar a aparecer por um tempo longo.

— Ei, vocês aí! — chamou, mas em vão. Os homens, que pareciam cada vez mais distantes, não o ouviram e ignoraram seu chamado

Mesmo com dificuldade, Miro resolveu correr atrás deles. Não podia deixar que clientes lanchassem sem pagar. Com a situação em que estava, precisava de todo dinheiro que pudesse arrecadar. Valeria a pena pegar um resfriado? Isso ele já não sabia. Mas já tinha começado, então ia até o fim. Após um bom tempo correndo, parou e se apoiou em um muro para descansar. Deu um forte trovão e aquilo era um sinal de que a chuva só ia piorar. Olhou de um lado para o outro e não viu os homens em lugar nenhum.

— Droga! Não acredito que eu os perdi de vista! — reclamou completamente ensopado por causa da água que caía sobre si

No entanto, ele ouviu um som muito estranho se aproximando cada vez mais por trás. Era um bater de asas tão forte, tão alto e tão intenso, que Miro ficou pálido e seu coração acelerou. Ele rapidamente se virou e foi pego por uma criatura com mais de três metros de altura de pele cinza e asas negras. Um Lyvreny o agarrou pela cintura e saiu o levando voando pelo ar em alta velocidade. Miro gritava desesperado e aterrorizado, ele podia ver as nuvens abaixo e deduziu que estavam em uma altura muito alta.

— Me solta!! Por favor! Me solta! — gritou se rebatendo tentando se soltar

O rapaz era minúsculo para o Lyvreny, que o carregava com um braço envolto da sua cintura.

— Eu tenho medo de altura! E tá muito rápido! Para! Me solta! — gritava

Miro parou de se rebater e desistiu de tentar se soltar, pois ele não era idiota e sabia que caso se soltasse daquela altura, com certeza a queda resultaria na sua morte.

— Pra onde você tá me levando?! — perguntou o garoto com lágrimas nos olhos gritando de susto em seguida quando caiu um raio bem próximo deles, mas por sorte o Lyvreny se esquivou

— Cala a boca! Você é muito tagarela, humano idiota! — rosnou o Lyvreny

Ao olhar o rosto do Lyvreny, Miro conseguiu reconhecê-lo: era um dos homens que tinha ido embora da lanchonete sem pagar pelo lanche.

— Ei! Você é... — disse Miro alterando sua fala para um grito aterrorizado de desespero quando o Lyvreny o soltou e o pobre garoto começou a cair por entre as nuvens

Quanto mais caía, mais a velocidade aumentava e o solo ficava visível. Ele esperneava e gritava. Em uma tentativa desesperada, bateu os braços como asas tentando voar, mas é claro que não deu certo.

— EU NÃO QUERO MORRER!!! — gritou apavorado com lágrimas caindo de seus olhos e sendo deixadas para trás no ar

Assim que foi colidindo contra o solo de uma floresta, a queda não chegou a acontecer, já que algo o agarrou no ar. Com apenas milímetros de distância do chão, Miro estava pendurado por algo que agarrava sua camisa por trás. O que quer que fosse que estava o segurando, o jogou contra o tronco de uma árvore com bastante força. Miro gritou de dor e caiu no chão machucado. Caído no chão com o corpo todo dolorido, ele ergueu a cabeça e viu dois enormes Lyvrenys o encarando, ambos com suas enormes asas negras abertas as batendo para permanecerem no ar e um largo sorriso assustador no rosto. Ao olhar para o outro Lyvreny, Miro também o reconheceu – era o outro homem que tinha ido embora da lanchonete.

— V-vocês... — tentou começar a falar, mas estava muito fraco

— Vamos direto ao ponto. Nos diga, onde o Casstyel está? — perguntou um deles

— Eu...e-eu não sei...

— É claro que sabe! Nós o seguimos por um tempo, mas ele desapareceu. E nós vimos você conversando com ele no beco, por isso esperamos por vocês na lanchonete. Se vocês são amigos, deve saber para onde ele foi. — disse o outro Lyvreny pousando no chão e caminhando até Miro enquanto que o outro continuava flutuando no ar

— Não somos amigos. O C-Cass...me odeia... — respondeu Miro tentando se levantar, mas seu corpo doía demais

— Cass? Tem até apelidinho carinhoso? Vamos lá, humano. Não tenha vergonha. Nos diga para onde ele foi e nós não iremos machucá-lo. Na verdade, nós vamos machucá-lo, mas não a ponto de você morrer. E caso você morra, vai ser sem querer. — ameaçou o Lyvreny agarrando Miro pela gola da camisa e o erguendo no ar enquanto que o outro apenas sorria

— Eu já disse que não sei! Eu não tô mentindo! — disse o moreno se rebatendo tentando se soltar das garras do Lyvreny

— O Casstyel sabe onde os deuses-lobos esconderam seus corações. E nós precisamos encontrá-los o quanto antes! — disse o Lyvreny começando a perder a paciência

— Por que querem tanto esses corações? — perguntou Miro com a voz sufocada

Os Lyvrenys se olharam.

— Isso não interessa a um simples humano que está prestes a morrer. — respondeu jogando Miro no chão e pisando em sua cabeça a pressionando contra a superfície com bastante força

O impacto da queda foi bem forte. Ao cair, um alto e irritante ruído tomou conta dos ouvidos de Miro. Não conseguindo mais ouvir nenhum outro som além daquele ruído, sua visão foi ficando borrada, foi embaçando cada vez mais até escurecer de vez. Miro desmaiou.

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No mundo dos Sayryns, Lavidh estava sentado em um degrau da pequena escadaria que levava para o altar onde se encontrava o trono de Lídius. Ainda bastante ferido, Angela encontrava-se ao seu lado cuidando de seus ferimentos e fazendo os curativos. Loon e Simon estavam lá e este último não tirava os olhos dos dois com os braços cruzados e a cara emburrada.

— O que foi? — perguntou Loon curioso

— Ela está tocando demais nele. — respondeu o irmão batendo com um pé no chão várias vezes parecendo incomodado

— Estás com ciúmes, é? — perguntou de modo provocativo cutucando o braço de Simon com o cotovelo

— Ciúmes do Lavidh? Há! Ele nem faz o meu tipo! — respondeu fazendo bico e virando o rosto com o nariz empinado

— Estou falando da Angela, imbecil.

Yel e Willow entraram voando por um buraco do teto causado pela destruição e pousaram bem atrás de Simon e Loon, fazendo ambos levarem um baita susto e sacarem suas espadas se preparando para lutarem.

— Ah, sois vós. — disse Loon aliviado guardando sua espada novamente

— Sorte vossa. Se fosseis Lyvrenys, teríamos feito picadinho de vós! — disse Simon de modo convencido e confiante apontando a espada para Yel

Com uma expressão de tédio no rosto, Yel segurou a espada de Simon pela lâmina e puxou a tomando da mão dele e a jogando longe.

— Ei... — disse Simon sendo interrompido por Yel que lhe deu um chute no peito e o jogou longe contra um pilar

Loon caiu em uma tremenda gargalhada enquanto que Simon caía no chão.

— O que tu estavas dizendo? — perguntou Yel provocando Simon

— Maldito! — gritou Simon erguendo a cabeça com o rosto todo machucado e os cabelos bagunçados

Willow deu um sorrisinho bobo com o rosto corado.

— Yel, tu és meu ídolo. — disse Loon se curvando perante Yel

— Onde está o líder? — perguntou Yel ignorando Loon

— Temos que falar algo urgente. — disse Willow

— E o que seria? — perguntou Angela

— A Minxie foi para o mundo dos humanos. — respondeu Willow

— Como é?! — perguntou Lavidh ficando de pé rapidamente

— Lavidh, não levantes assim. — disse Angela com um tom de preocupação na voz

— Eu já estou bem, Angela. Não te preocupes. O que a Minxie foi fazer no mundo dos humanos?

— Não faço ideia. Ela disse que ia fazer “o que nós já devíamos ter feito há muito tempo.” — respondeu Yel fazendo aspas com as mãos

— Ela foi tentar invadir o esconderijo dos Lyvrenys. Ela quer vingar a morte do Dyllan. — disse Angela

— Por que não a impedireis? — perguntou Loon

— O vento lá em cima das torres é tão gostoso que eu nem me dei conta. — respondeu Yel coçando a cabeça e sorrindo embaraçado. — Quanto percebi, ela já tinha se jogado nas nuvens.

— Hmf, depois eu é que sou irresponsável. — disse Loon virando os olhos

Simon levantou do chão e foi correndo em direção de Yel para atacá-lo. Mas assim que se aproximou, Yel lhe deu outro chute o jogando longe novamente. Loon morreu de rir.

— Isso não é bom... — resmungou Lavidh

Eles ouviram passos se aproximando e Lorien chegou.

— O que faremos? A Lyvreny presa não fala nada. Será que devemos começar a sessão de tortura? — perguntou

— Tu não já a torturas o bastante? — perguntou Lavidh

— Aquilo não dá nem cócegas!

— Sessão de tortura? Temos isso? — perguntou Angela

— Não, mas eu queria fazer. Vós sabeis como eu adoro torturar Lyvrenys. — respondeu Lorien com um sorrisinho sapeca e malandro no rosto com seus enormes dentes caninos à mostra

— Uh, Lorien é hardcore. — disse Loon

— Só não a mates. O líder não aprovaria. — disse Willow

— E onde ele está?

— Ele foi para a floresta observar a plantação de sophias. — respondeu Angela

— Hm, então aposto que não vai querer ser incomodado. — disse Lorien abaixando os olhos parecendo desapontado

Lavidh vestiu seu sobretudo cinza que estava de lado no degrau onde estava sentado, engatilhou sua pistola, a girou no dedo pelo buraco do gatilho e a prendeu no coldre em sua cintura. Jogando seus longos e belos cabelos prateados para trás, o Sayryn de asas negras apertou um pouco mais o cadarço do coturno em seu pé direito e saiu caminhando pelo salão de modo determinado.

— Lavidh, aonde pensa que vais? — perguntou Lorien

— Vou buscar a Minxie. O que ela está fazendo é suicídio. Não fazemos ideia dos tipos de Lyvrenys que existem e o quão poderosos eles são. A Minxie não é tão forte. Sozinha, ela vai morrer lá.

— A Minxie foi para o mundo dos humanos?! — exclamou Lorien desacreditado

— Mas Lavidh, tu acabaste de voltar de uma luta e estás muito ferido. Por favor, fica. Espera pelo menos teus ferimentos sararem. Tu és forte, vão sarar rápido. Não quero que te machuques mais. — disse Angela com seus olhos felinos azuis trêmulos e um olhar de preocupação presente nos mesmos

Simon chegou de repente ao lado de Angela e envolveu um braço pelo ombro dela a abraçando de lado.

— Fica tranquila, minha Angel. O Lavidh é o segundo mais forte da legião e pode acabar com os Lyvrenys. E enquanto ele vai, eu vou ficar aqui te fazendo companhia. Tu não tens com o que te preocupar. — disse Simon de modo galanteador deitando com a cabeça no ombro de Angela e acariciando a mão direita dela

Angela deu um soco com a mão esquerda no rosto dele o jogando longe contra o mesmo pilar onde Yel o jogou anteriormente.

— Fica longe de mim, pirralho! — disse a Sayryn enquanto que Loon rolava no chão de tanto rir

— Lavidh, a Angela tem razão. Tu deverias ficar. Estás muito machucado. — disse Willow olhando para uma parte da atadura enrolada pela cintura de Lavidh que estava vermelha por causa do sangue que saía da ferida

Lavidh suspirou.

— Tudo bem. Então é o seguinte. Simon, Loon e Angela, ides para o mundo dos humanos trazerdes a Minxie de volta. Ainda não está na hora de confrontarmos os Lyvrenys. Tudo precisa ser planejado antes.

— Ué, por que eu? — perguntou Loon

— Eu não posso ir! Não estás vendo que eu estou sendo agredido? — gritou Simon ainda caído no chão

— Vós ides. E nada de reclamações. Vós sabeis que sou eu quem mando quando o nosso líder não está. Apenas vós três serão o suficiente para derrotar os Lyvrenys que aparecerão no caminho e trazer a Minxie de volta. — disse Lavidh com as mãos enterradas nos bolsos do sobretudo

— Minxie é uma burra. Ela esqueceu que nós temos uma Lyvreny capturada? Com certeza os Lyvrenys vão capturá-la também para usá-la como moeda de troca. — disse Willow

— Exatamente. — concordou Yel

— Yel concordou comigo! — comemorou Willow batendo palminhas bobas

— Yel, Willow, volteis para as torres para ficardes de vigia. Lorien, fica de olho na Lyvreny presa. — disse Lavidh

— Tanto faz. — disse Lorien lhe dando os ombros e saindo

Yel e Willow bateram suas asas e saíram pelo buraco do teto de onde vieram. De repente, Samantha pousou no chão em uma posição de aranha.

— E eu? — perguntou Samantha empolgada

— Onde estavas? — perguntou Lavidh

— Me balançando no lustre. Eu ouvi tudo e quero ajudar. Quero quebrar cabeça de Lyvrenys na machadada! — disse girando seus machados pelo cabo um em cada mão

— Tudo bem. Podes ir. — permitiu

— Eba! — comemorou Samantha dando mortais pelo chão

— Não te preocupes, Lavidh. Vamos voltar logo. — disse Angela

— Espero que sim. E Angela, eu não quero te ver ferida. Nem que seja um simples arranhão. Isso é uma ordem. — disse Lavidh

Os olhos de Angela brilharam.

— Pode deixar.

— QUE INVEJA!!! — gritou Simon enquanto que Loon o puxava pelas asas tentando levantá-lo do chão

Fora do palácio, havia uma gigantesca floresta que rodeava o castelo — composta por árvores gigantes com troncos bem grossos e raízes poderosas, belos frutos brilhantes e exóticos que não existiam no mundo dos humanos, as folhas mais verdes que os mais belos campos e belíssimas e fofas criaturas aladas minúsculas do tamanho de um grão de feijão com asas coloridas e brilhantes que voavam pelo local como vagalumes cantarolando belas canções com suas vozes suaves e ao mesmo tempo tão poderosas que era possível ouvir por toda floresta. Todas essas pequenas criaturinhas eram femininas, não usavam nenhum tipo de roupa e se assemelhavam muito a fadas. Além dessas criaturas aladas, mais outros seres podiam ser encontrados naquela floresta, já que os Sayryns não eram os únicos naquele mundo. A floresta também era lotada de leões gigantes de quatro metros de altura, suas caldas mediam aproximadamente dez metros de comprimento, eram brancos, os olhos eram prateados e possuíam asas enormes. A floresta possuía várias cachoeiras, riachos e pequenos rios, onde por baixo d’água nadavam várias criaturas aquáticas também exóticas, criaturas únicas que só existiam completamente naquele universo e eram completamente desconhecidas pela espécie humana.

Lídius se encontrava nessa floresta sentado na grama com suas gigantescas asas brancas abertas diante um campo infinito de flores azuis. Belas flores cada uma com cinco pétalas e bastante espinhos. A luz do sol as iluminava e o vento soprava contra as mesmas para amenizar o calor. Era uma bela paisagem que Lídius gostava de admirar todo santo dia. O líder dos Sayryns chamava aquelas flores de “sophias”, em homenagem a uma mulher humana que tinha sido alguém muito importante e especial em sua vida. Sentindo o vento soprar contra seus longos cabelos lisos e prateados, o mais poderoso dos Sayryns mantinha o rosto sério e o olhar sereno. Mesmo com todo aquele silêncio e tranquilidade, a mente de Lídius estava completamente atordoada e lotada com um turbilhão de pensamentos agoniantes. Além da preocupação de saber se seu filho estava bem, ele também sofria de saudades da sua amada falecida há milênios de anos e também tinha medo de perder mais Sayryns na luta contra os Lyvrenys.

Lídius foi tirado de seus pensamentos, quando uma voz masculina falou em um tom calmo atrás dele.

— As sophias estão lindas hoje. Graças às chuvas, elas cresceram bastante. — disse a voz de Lavidh, que se encontrava em pé atrás de seu líder

— Como estão teus ferimentos?

— Não são nada demais. Logo estarei curado.

— Ivan...nunca tinha ouvido falar desse Lyvreny. Da próxima vez toma mais cuidado. Eu não sei se suportaria te perder também.

— Sim, senhor. Bom, eu...estou aqui para informar que...

— A Minxie foi para o mundo dos humanos. — interrompeu Lídius parecendo calmo e bem paciente

— O senhor já sabias?

— Eu já esperava que ela fizesse isso. Aliás, a Minxie é muito sentimental e não consegue aceitar o fato de terem matado o Dyllan. Já suspeitava de que uma hora ela iria querer se vingar.

— Como o senhor estavas ausente, eu tomei a liberdade para ordenar que Angela, Simon, Loon e Samantha fossem atrás dela para trazê-la de volta. Afinal, sozinha ela não irá conseguir nada lá.

— Fizeste muito bem, Lavidh.

— Obrigado. E quanto à Lyvreny presa, Lorien sugeriu que usasse tortura para obrigá-la a falar.

— Mas ele não já faz isso?

Lavidh sorriu.

— Ele é um idiota impulsivo e todos nós sabemos disso.

— Diz para ele pegar leve. Vamos esperar mais um pouco. — disse Lídius de modo decidido

— Esperar? Mas...

— Vamos esperar, Lavidh. — interrompeu Lídius

Lavidh resolveu se calar. Lídius era mesmo imprevisível e Lavidh não fazia ideia do que seu líder estava planejando. No entanto, nenhum plano bolado por ele tinha dado errado. Então o Sayryn de asas negras tomou a melhor decisão: confiar e esperar.

— Sim, senhor. — finalizou

XXXXX

Atravessando o portal invisível para o mundo dos humanos, Angela, Simon, Loon e Samantha batiam suas enormes asas brancas e voavam em alta velocidade pela imensidão do céu. Olhando de baixo, os quatro Sayryns poderiam ser facilmente confundidos com pequenos pássaros brancos pela distância em que estavam do solo. Angela e Samantha voavam calmamente de forma distraída, quando Simon e Loon passaram por elas como um foguete, ambos apostando corrida.

— Ei, pirralhos! — chamou Angela

— Eu vou ganhar de ti! — disse Simon ignorando o chamado de Angela

— Não, eu que vou ganhar! — disse Loon

— Eu sou muito mais rápido!

— Não, eu que sou!

— Eu que sou!

— Não, eu que sou!

Eles começaram a se agarrar e a se empurrar.

— Simon! Loon! Isso não é hora para brincar! Estamos em uma missão! Iremos precisar de toda nossa energia possível para lutarmos contra os Lyvrenys! — avisou Angela

— Vamos ter que lutar contra Lyvrenys?! — perguntou Simon assustado

— Vamos invadir o esconderijo deles. O que tu esperavas? — perguntou Samantha

— E o Lavidh explicou em alto e bom som. — disse Loon

— Eu não lembro disso. Estava ocupado demais levando socos e sendo jogado contra pilares.

— Angela, mas tu sabes onde é esse esconderijo? — perguntou Loon

— De acordo com boatos, eles estão vivendo em uma catedral abandonada em uma floresta em Tefyan.

— Estamos perto?

— Quase lá. — respondeu Angela

Depois de um tempo, um enorme avião passou voando por eles. E pelas janelas, era possível ver várias pessoas sentadas nas poltronas aproveitando a viagem.

— O que é isso? — perguntou Simon impressionado, já que nunca tinha visto um avião na vida

— É um objeto que os humanos inventaram para poderem voar. É chamado de avião. — respondeu Angela

— Uau... — exclamou admirado

Um garotinho que estava no avião sentado no colo da mãe ao lado da janela, olhou para o lado e viu Loon voando do lado de fora pelo vidro. O garotinho colocou as mãozinhas no vidro com um sorriso bem fofo no rosto admirado com o que via. Loon acenou para ele e começou a fazer várias caretas e poses engraçadas. O garotinho ficou sorrindo das palhaçadas de Loon, quando Simon chegou por trás e puxou o irmão pelas asas o tirando de vista bem na hora que a mãe do menino olhou pela janela.

— Do que está rindo, filho? — perguntou a mãe

— Tinha um anjo engraçado lá fora. — respondeu a criança inocentemente

— Um anjo? — perguntou com a testa franzida

Eles pararam no ar deixando o avião passar na frente e seguir com sua viagem.

— Idiota, não podemos ser vistos assim. — disse Simon com as mãos no pescoço de Loon como se o estrangulasse

— Mas o menino era tão fofo! — disse Loon fazendo bico

Para eles, estavam voando devagar. Mas a verdade é que voavam em uma velocidade tão absurda que podiam passar de um país para outro em questões de minutos. Após algum tempo voando, eles avistaram algo estranho ao longe. Duas criaturas enormes e negras voando em alta velocidade em uma distância bem afastada.

— O que é aquilo? — perguntou Simon

— São Lyvrenys! — respondeu Loon

Realmente eram dois Lyvrenys que estavam voando entre as nuvens. Os mesmos que tinham atacado Miro e um deles o carregava ainda inconsciente no ombro.

— Vamos levar esse humano para o nosso líder. — disse um dos Lyvrenys

— É, nosso líder vai saber o que fazer com ele. — disse o outro

— Sammy. — disse Angela

— Deixa comigo! — cantarolou Samantha

Samantha pegou seus machados, girou ambos nas mãos pelo cabo e lançou-os contra os Lyvrenys como um bumerangue. Os machados de cabo curto e lâminas extremamente afiadas saíram girando pelo ar tão rápido quanto a hélice de um helicóptero em direção aos Lyvrenys e assim que se aproximaram, atingiram os mesmos por trás, cada um cortando o pescoço de um Lyvreny e arrancando suas cabeças fora. Morreram silenciosamente. Suas cabeças foram jogadas no ar e logo se desfizeram em penas negras junto com seus corpos. Entre as penas negras que voavam pelo ar, era possível ver duas brancas entre elas. Como os Lyvrenys tinham sumido, Miro começou a cair.

— O que é aquilo? — perguntou Samantha segurando seus machados no ar que retornaram girando até ela

— É um humano. Vamos! — disse Angela batendo suas asas com mais força e aumentando a velocidade enquanto voava em direção a Miro

XXXXX

Miro acordou. Suas pálpebras tremeram, até que ele as abriu bem lentamente. Sua vista estava bastante embaçada e sua cabeça doía bastante. Ele estava deitado em algo macio e com o tempo, começou a se dar conta do que estava acontecendo ao seu redor; seus ouvidos foram voltando a captar os sons normalmente e a primeira coisa que ouviu ao acordar foi:

— Simon, queres parar de cheirá-lo? — perguntou uma voz jovem feminina

— Argh, ele fede a Lyvreny. — disse outra voz jovem masculina

Assim que a visão de Miro melhorou completamente, ele percebeu que estava em um bosque deitado em um monte de folhas secas e viu Simon, Loon, Angela e Samantha parados em sua frente o encarando. Os quatro estavam na forma humana. Angela na forma humana tinha os cabelos loiros, olhos azuis, uma blusa azul turquesa de alça grossa com vários pontinhos brilhantes de enfeite, uma saia curta branca e um par de botas marrom de cano longo e salto alto grosso nos pés. Era maravilhosamente linda. Samantha tinha os cabelos brancos, olhos cinza escuro, vestia uma blusa branca bem curtinha de manga curta por cima de uma outra blusa comprida de manga longa listrada branca com preto. Usava um short jeans e tênis all star. Simon tinha os cabelos verdes, olhos cinza claro, usava uma jaqueta preta de botão e gola levantada por cima de uma camisa branca também de botão totalmente abotoada apenas com o primeiro botão aberto. Usava calça jeans cinza escura e um par de tênis pretos. Loon tinha os cabelos iguais o de Simon, mas eram ruivos. Olhos violeta escuro, vestia uma camisa folgada de manga longa marrom, calça preta e também um par de tênis pretos. Os quatro observavam Miro com um olhar de estranheza.

— Q-quem...quem são vocês? — perguntou Miro

— Até a voz é parecida! — disse Samantha parecendo assustada

— Hã? — perguntou o rapaz confuso ainda com dor de cabeça

— Tudo bem, humano? — perguntou Simon

— Humano?

— Os Lyvrenys que o capturaram foram mortos. Não precisas mais te preocupar. — disse Angela

— Eu que matei. Euzinha aqui! — disse Samantha formando um “coração” com os braços em cima da cabeça

— Mortos? O que...quem são vocês? — perguntou novamente

— Eu sou Angela.

— Samantha.

— Esse é o meu irmão Simongol. — disse Loon apontando para Simon

— E esse é o meu irmão Loonático. — disse Simon também apontando para Loon

— Somos Sayryns. Estamos na forma humana pois ganhamos essa habilidade assim que pisamos nesse mundo. Assim fica fácil para ficarmos entre vós. Já ouviste falar de nós? — perguntou Angela

Miro arregalou os olhos ao ouvir a palavra “Sayryns”.

— Você disse Sayryns?! — perguntou Miro rapidamente ficando de pé

— Nossa, como ele melhorou rápido. — disse Samantha

Miro se inclinou um pouco para frente os saudando.

— Muito obrigado por terem me salvado. Eu me chamo Miro. Confesso que aqueles Lyvrenys me deixaram assustado. Eles realmente queriam me matar. — disse o pobre rapaz ainda pálido e com o coração acelerado

— Por que estavam te levando? — perguntou Angela

— Não faço ideia. Eu desmaiei antes. Eles queriam que eu falasse onde o Cass está. Mas eu não sei. Ele vive sumido.

— Cass? — perguntou Loon

— Casstyel?! — perguntou Samantha

— Tu conheces o Casstyel?! Sabes onde ele está? — perguntou Angela indo pra cima de Miro

— Eu não sei! Caramba! Quantas vezes eu vou ter que dizer isso? Eu não o conheço muito. Somos apenas colegas de escola. Nem sabia que o nome dele era Casstyel.

— Colegas de escola? — perguntou Samantha

Simon levantou a mão.

— Eu tenho uma pergunta!

— Qual? — perguntou Miro

— O que é escola?

Angela revirou os olhos e suspirou.

— Bom...já que estão aqui, poderiam me falar sobre vocês? É que eu pretendo escrever um livro sobre os Sayryns! Eu sempre fui fã de mitologia grega e sempre fui fascinado pela história de vocês.

— Agora não, garoto. Estamos em uma missão. Vai para casa e fica seguro. — disse Angela

— Mas...

— Vai logo! — interrompeu Angela de modo rígido

— Eu...eu sei onde o Cass mora. — continuou

— O quê? — perguntou Angela

Depois, os cinco estavam caminhando pela rua.

— Puxa, o mundo dos humanos evoluiu bastante desde o último milênio. — disse Loon impressionado com o lugar

Enquanto caminhava, Miro estava com os olhos baixos e parecia um pouco tonto. Ele colocou a mão na testa por baixo da franja e cambaleou um pouco.

— Ei humano, tu estás bem? — perguntou Samantha

— Sim...minha cabeça ainda dói um pouco. Mas eu estou bem. — disse Miro com um sorriso no rosto tentando disfarçar

Miro os levou até o beco estreito e sem saída onde Cass tinha dito que era sua casa. E por mais incrível que fosse, ele estava lá. Sentado no chão ao lado de um latão de lixo encostado na parede com a cabeça coberta pelo capuz do moletom e com um cobertor velho e rasgado que ele tinha pegado do lixo para se proteger do frio.

— Cass! — disse Miro correndo até ele

Cass continuou imóvel. Estava dormindo. Angela levantou o latão de lixo e o virou de ponta cabeça, derramando todo o lixo em cima de Cass. Ele acordou com o susto completamente atordoado durante a chuva de lixo sobre a sua cabeça. Angela jogou o latão longe e limpou as mãos uma na outra.

— Aquele latão pesa uns quinhentos quilos... — disse Miro impressionado com a força de Angela

Ao vê-los, Cass arregalou os olhos bastante surpreso e ao mesmo tempo chocado.

— Angela? Samantha? Simon? Loon? Por que os trouxeste aqui?! — perguntou Cass para Miro furioso

— Ué, eles estavam atrás de você.

— Olha só quem a gente encontrou. — disse Angela jogando os cabelos para trás e cruzando os braços

— Ela é tão perfeita... — disse Simon todo abobalhado suspirando apaixonado

Cass não pensou duas vezes. Tomou sua verdadeira forma em um milésimo de segundo, bateu as asas e subiu aos céus tentando fugir voando para bem longe dali. Angela também tomou sua verdadeira forma e voou atrás dele. Por ter quatro asas, Angela voava mais rápido que ele. Ela o alcançou e agarrou seu tornozelo esquerdo, o impedindo de continuar.

— Nem penses em fugir de nós! — disse Angela jogando Casstyel com toda força de volta para o chão

Casstyel caiu de volta no beco e caiu no chão criando uma grande cratera no local onde caiu. Ele tomou novamente sua forma humana e assim que pousou, Angela fez o mesmo.

— Puxa, então é assim que tu nos recebes depois de tanto tempo? — perguntou Samantha

— Eu te abraçaria, mas tu estás fedendo a lixo. — disse Simon

— O que estais fazendo aqui? — perguntou Cass levantando do chão com dificuldade

— A Minxie veio para o mundo dos humanos tentar invadir o esconderijo dos Lyvrenys. Então nós viemos levá-la de volta. Queres vir conosco? — perguntou Angela

— Sem chance. Eu já disse que não quero mais ser um Sayryn. Seja lá o que tivereis que fazer, fazeis sem mim.

Miro estava apenas assistindo com os olhos trêmulos.

— Por quanto tempo vais ficar fugindo? Tu sabes que não poderá escapar da Batalha do Destino que vai acontecer daqui há cinco anos. Sabes o que isso quer dizer? Se faltam apenas cinco anos, então Maloman com certeza já deve ter reencarnado e está por aí. — disse Angela

"Batalha do Destino? Maloman?" — pensou Miro enquanto que a curiosidade apenas aumentava cada vez mais

— Se tu não queres mais lutar contra Maloman, então nos ajude a derrotar as Irmãs do Destino. Assim que derrotá-las, ficarás livre dessa maldição. E assim que matar Maloman, será a última vez. Nunca mais precisarás lutar contra ele de novo. — disse Angela

Cass ficou em silêncio. De repente, eles ouviram um som. Um som de alguém caindo no chão. Se viraram e viram Miro caído no chão inconsciente.

— Ele desmaiou de novo? — perguntou Angela

Samantha tocou na testa de Miro e sentiu que ele estava ardendo em febre.

— Que quente!!

XXXXX

Já era noite. Assim que o sol se escondia do outro lado do planeta, a catedral abandonada da floresta ficava muito mais sombria e assustadora que o normal. Um clima aterrorizante e tenebroso dominava ao redor e a catedral parecia mal assombrada. O vento gélido soprava contra as árvores, sons de coruja, sapos e grilos podiam ser ouvidos. Nenhuma alma viva ousaria se aproximar daquele local. Aquela catedral estava abandonada há séculos, justamente pelo fato do enorme número de ataques de Lyvrenys na região, sendo que agora tinha se tornado o esconderijo dos mesmos. Uma névoa cinzenta e não muito densa dominava a área e de vez em quando uma enorme pena negra passava pelo ar sendo levada pelo vento.

Em uma árvore perto da catedral, Dlav estava deitado no galho mais alto com as mãos atrás da cabeça tirando um cochilo, quando ouviu passos sobre folhas secas, o que o fez acordar na hora. Abrindo apenas um de seus olhos felinos vermelhos, avistou uma garota de cabelos verdes, olhos lilases, uma blusa azul escura comprida de alça cruzada nas costas, uma calça legging preta e sapatilhas pretas. Era Minxie. Ela estava em sua forma humana para poder entrar na catedral com mais facilidade e não chamar muita atenção, sendo que já tinha chamado a atenção de Dlav.

— Minxie? — pensou Dlav bastante surpreso e ao mesmo tempo perplexo

— Finalmente encontrei. — disse a Sayryn seguindo suas palavras com um suspiro de alívio

Caminhando sorrateiramente e de maneira bastante cautelosa, ela se aproximou do local tomando todo cuidado possível para não se encontrar com algum Lyvreny. Ao se aproximar da entrada, viu que a catedral era tão velha que o enorme portão da entrada principal estava entreaberto, já que não fechava direito por estar com a maçaneta, fechadura e dobradiças enferrujadas e apodrecidas. Abrindo um lado do portão bem devagar para não fazer barulho, Minxie adentrou o interior da catedral.

Notas finais
Miro foi atacado por dois Lyvrenys, mas foi salvo pelos Sayryns Angela, Loon, Simon e Samantha, que foram para o mundo dos humanos a mando de Lavidh para resgatarem Minxie e que também acabaram descobrindo onde Casstyel estava se escondendo. Minxie invadiu o esconderijo dos Lyvrenys, mas foi descoberta por Dlav. Agora como Dlav a conhece? E Maloman já foi um Sayryn? Fiquem ligados no próximo capítulo de Sayryns! :D