Sayryns - Saga Sllayer |1|
2 1| O humano que se encantou pelo Sayryn
Notas iniciais
995 anos depois...
Tefyan — Zardren. O ano era 2012. Era noite, talvez umas 19:00h, não havia estrelas no céu e a lua crescente estava escondida por uma grande nuvem. As pessoas caminhavam de um lado para o outro pelas ruas seguindo suas rotinas diárias, indo para o trabalho, voltando do trabalho, passeando com os amigos, tudo na mais perfeita paz, quando de repente, uma garota de cabelos longos e ruivos, pele pálida, olhos vermelhos, vestida com uma blusa preta com alça de um lado e manga longa do outro, uma saia preta e botas pretas de cano longo, passou correndo em uma velocidade absurdamente rápida para um humano comum. As pessoas da rua saíam correndo às pressas para não serem atropeladas por ela. Sons de sirenes foram ouvidos e mais de dez viaturas policiais passaram uma atrás da outra em alta velocidade, até um helicóptero também sobrevoava o local perseguindo a garota. Ela estava a pé e mesmo assim as viaturas não conseguiam alcançá-la. Era rápida demais, o que era muito estranho.
— Mas que droga! Ela está correndo nessa velocidade há horas! Por que não conseguimos alcançá-la? Estamos de carro e ela a pé! Câmbio. — indagou um dos policiais da viatura indignado por um walk-talk
— Não podemos deixá-la escapar! Ela precisa ser capturada a todo custo! Não a percam de vista. Uma hora ela vai cansar. Câmbio. — respondeu uma voz pelo walk-talk, que pertencia ao policial que pilotava o helicóptero
— Entendido. Câmbio e desligo. Vamos, mais rápido! — disse para seu parceiro que dirigia
A garota se encontrava metros e metros de distância à frente das viaturas. Corria como uma atleta olímpica, apesar de não ser muito alta, tinha passos extremamente largos e a velocidade em que corria parecia só aumentar cada vez mais. Ela correu até chegar no fim da cidade e adentrou uma imensa floresta que se encontrava à frente. Ao entrar na floresta sombria recheada de árvores poderosas e gigantescas, a garota ruiva desapareceu na escuridão que dominava o local. Alguns minutos depois, as viaturas chegaram e pararam em frente à entrada da floresta com todos os policiais descendo armados até os dentes. O helicóptero ficou sobrevoando a floresta tentando encontrar a garota escondida na mesma.
— Eu realmente não quero entrar aí. Essa floresta é muito assustadora à noite. — confessou um dos policiais
— É, e diz a lenda que Lyvrenys vivem aí. — disse outro policial com voz de medo
— São criaturas mitológicas e nós nem estamos na Grécia. — rebateu outro com voz de confiança que não combinava com as mãos trêmulas de medo
— Estamos numa missão. Não é hora para ter medo. Nós vamos entrar e só vamos sair depois de pegarmos e prendermos aquela assassina. Não podemos deixar uma criminosa como ela escapar. Vamos todos entrar. A floresta é muito grande, além disso está muito escuro. Com certeza ela deve ter parado em algum lugar para descansar escondido. Nós somos muitos, vamos conseguir pegá-la. Agora vamos. — disse o policial à frente do grupo
As palavras de confiança do líder do grupo de policiais acabaram convencendo os demais. Todos ligaram suas lanternas e adentraram à tenebrosa floresta. Com passos lentos e cautelosos, todos estavam frustrados por suas lanternas não iluminarem o suficiente. Estava escuro demais e o som emitido por alguns animais aumentava ainda mais o clima assustador.
— Nós jamais vamos encontrá-la nessa escuridão... — murmurou um dos policiais
O walk-talk do líder do grupo começou a chiar.
— Algum progresso? Câmbio? — perguntou a voz do piloto
— Até agora nada. Não conseguimos enxergar nada e essas lanternas também não ajudam. Câmbio. — comunicou o policial pelo aparelho
De repente, algo passou correndo por eles e todos levaram um susto tão grande que até mesmo um dos policiais acabou atirando com sua arma. Mas era apenas um veado e por sorte a bala não atingiu o animal indefeso.
— Nunca mais faça isso de novo! — disse o líder do grupo
— Perdão, senhor. Foi por impulso. Eu me assustei. — disse o policial nervoso e constrangido
— O que foi isso? Encontraram ela? Câmbio! — perguntou a voz do piloto
— Não. Era apenas um veado. Vamos continuar à procura. Câmbio e desligo. — afirmou desligando o walk-talk
O piloto rodeava toda a floresta observando cada local onde não havia uma árvore para atrapalhar a visão. No entanto, ao olhar para um certo local, a única coisa que viu foi algo extremamente grande vindo girando em sua direção como um bumerangue.
— Mas o que é iss- — gritou o piloto assustado tendo suas palavras interrompidas no momento que o helicóptero foi atingido por uma gigantesca foice de cabo negro e lâmina extremamente grande e intensamente afiada
A lâmina da foice misteriosa era tão imensa que partiu o helicóptero ao meio, que logo começou a cair. O piloto ainda tentou pedir ajuda pelo walk-talk, mas antes que pudesse dizer qualquer palavra, o helicóptero colidiu contra o solo e uma enorme explosão foi o resultado. Todos os policiais se assustaram com a explosão e ficaram chocados.
— O que foi isso? — perguntou um deles
— Tom!! — gritou o líder do grupo tomando a dianteira e saindo correndo em direção ao local do estrondo
Os outros policiais foram mais atrás. Ao chegarem no local, só o que era refletido em seus olhos de espanto eram as chamas que se espalhavam pelas árvores. O helicóptero estava completamente destruído e não havia nenhum sinal de vida. Desesperado, o líder do grupo começou a gritar pelo nome do piloto, mas em vão.
— Mas o que aconteceu? — perguntou um dos policiais bastante perplexo com aquela cena
Eles começaram a ouvir um som estranho. Olharam ao redor mas não avistaram nada de anormal. Porém, em menos de alguns segundos, a mesma foice gigantesca misteriosa veio girando e sua lâmina afiada refletiu bem a expressão de medo no rosto dos pobres policiais antes de serem cortados ao meio. Os sobreviventes conseguiram se esquivar se jogando no chão a tempo. A foice saiu girando até ser pega pelo cabo por uma garota sentada de pernas cruzadas em cima do galho de uma das árvores. Ao olharem o rosto da garota, todos ficaram petrificados ao verem que era a garota ruiva que estavam perseguindo anteriormente. Foi ela quem tinha jogado aquela foice, porém, ela estava diferente – seus cabelos continuavam ruivos, mas estava com a pele cinza, seus enormes olhos vermelhos lembravam olhos de cobra e o globo branco estava negro, o sorrisinho malandro exposto em seu rosto mostrava os dentes caninos pontudos ultrapassando os lábios, suas orelhas eram enormes e pontudas como as de um elfo e possuía um par de asas negras gigantescas nas costas. Além disso, estava bem mais alta que o normal; parecia ter mais de três metros de altura.
Aterrorizados, todos os policiais apontaram suas armas para ela.
— É ela! Ela é a culpada! — disse um dos policiais com a arma tremendo em suas mãos
— Essas asas...esses olhos...você não é humana! O que você é?! — gritou o líder do grupo rangendo os dentes com raiva
— O que eu sou? Boa pergunta... — respondeu a garota pressionando o dedo indicador contra os lábios como se estivesse pensando
— Afastem-se! Não sabemos que tipo de criatura ela é, por isso temos que tomar cuidado! — disse o líder do grupo sem parar de apontar sua arma para a garota
Para a estranheza de todos, a garota ruiva de asas negras começou a lamber o sangue da lâmina da foice. Todos assistiam àquela cena com nojo.
— Hmm...já provei melhores... — disse a garota enquanto lambia os lábios
Os policiais não resistiram e simplesmente começaram a atirar nela, mas ela foi rápida e fechou suas asas para frente como um escudo. Suas asas eram feitas apenas de penas, mas de alguma forma eram bem resistentes. Após os tiros cessarem por ficarem sem balas, a garota abriu suas asas novamente repelindo todas as balas contra os próprios policiais. A velocidade era tão rápida que pareciam estar sendo metralhados. Vários deles caíram mortos na hora e os outros ficaram bastante feridos.
— Eles são reais...é um Lyvreny...um demônio! — disse um dos policiais caído no chão bastante ferido e perdendo bastante sangue
— Demônio? Então é assim que somos conhecidos por vós? Isso magoa. — disse a criatura fazendo um biquinho fingindo aborrecimento
Ela desceu do galho da árvore e caiu em pé no chão segurando a foice sobre o ombro.
— Agora vós ireis ver o que acontece quando alguém me insulta me comparando a um demônio...já que vós, humanos, sois os verdadeiros demônios! — exclamou furiosa
Com a foice firme na mão, ela partiu para cima dos policiais e foi apenas possível ouvir seus gritos de súplica e desespero ecoando pelas árvores da floresta, obrigando os pássaros a voarem para um lugar mais longe.
XXXXX
A criatura ruiva de asas negras estava em pé no meio da pilha de corpos um pouco ofegante. Estava suja do sangue dos policiais que jorrou nela e a lâmina de sua foice apenas refletia o sangue que escorria pela mesma. O fogo se espalhava cada vez mais e o som das chamas não permitiu que ela ouvisse os passos de alguém se aproximando, mas soube que tinha mais alguém com ela quando suas orelhas vibraram.
— Nyra, já chega. Temos que ir. — disse uma voz masculina jovem, séria e simpática atrás da criatura com asas
Ela se virou e seus olhos viram um rapaz de cabelos pontudos roxo escuro até o pescoço com a franja de lado, olhos roxos, vestido com uma camisa branca por baixo de uma jaqueta preta de couro com a gola levantada, calça jeans preta e tênis também pretos. Em sua calça, um cinto preto com fivela prateada. Ele usava óculos e também tinha a pele pálida.
A criatura ficou o olhando por um tempo, até que uma luz negra a envolveu e ela voltou a ter forma humana. Sua gigantesca foice ficou minúscula e ela a prendeu na barra da saia. Nyra jogou os cabelos para trás e colocou as mãos na cintura.
— Esses humanos são tão idiotas... — disse contemplando os corpos dos policiais dilacerados no chão
— Alguma notícia dele?
— Nenhuma. Mas já se passaram mais de 900 anos...ele já deve estar por aí. — respondeu chutando a cabeça arrancada de um policial para longe como uma bola de futebol
— Precisamos encontrar logo esses corações antes da Batalha do Destino. Não podemos perder mais essa chance. — disse o rapaz ajeitando o óculos
— Parece que Casstyel foi embora da legião e está vivendo aqui no mundo dos humanos. Mas que coisa...por que confiaram o segredo dos corações ao mais fraco deles? O que estavam pensando? — perguntou Nyra fazendo bico
— Talvez para protegê-lo da maldição das Irmãs. — sugeriu o rapaz cruzando os braços
— E Maloman sempre perde...
— Verdade. Mas agora não é hora para debatermos sobre isso. Casstyel está aqui no mundo dos humanos...e eu tenho mais ou menos uma ideia de onde ele possa estar.
— O quê? Juras? — perguntou Nyra parecendo surpresa
— Sim. Agora vamos. Esse monte de corpos está me dando nojo.
Os dois saíram caminhando indo embora do local deixando os corpos e o helicóptero destruído para trás.
— Isso vai dar o que falar amanhã. — disse Nyra caminhando ao lado do rapaz de óculos
— Com certeza.
Enquanto caminhavam, Nyra olhou para trás para dar uma última olhada nos corpos.
— Sinto...sinto muito... — sussurrou abaixando a cabeça
XXXXX
No dia seguinte, todos os canais da TV reportavam o acontecido. Haviam vários outros policiais, bombeiros e médicos na floresta no local do massacre. O fogo já tinha sido apagado, mas boa parte da floresta ficou destruída. Nenhum sobrevivente foi encontrado. Vários repórteres estavam em frente à entrada da floresta fazendo reportagem sobre o ocorrido enquanto uma multidão curiosa também dominava o local.
"Ontem, mais ou menos às 19:35h da noite, um enorme massacre ocorreu aqui na Floresta dos Olhos Vermelhos. Trinta policiais foram encontrados mortos da forma mais terrível possível. Ainda não se sabe o que os matou e nem como eles morreram, mas de acordo com informações da polícia, o principal suspeito é uma garota desconhecida de cabelos ruivos e olhos vermelhos que aparentava ter mais ou menos uns dezoito anos. Ela estava sendo perseguida pelos policiais após ter sido pega em flagrante numa residência assassinando toda uma família com uma foice. Acredita-se que ela atraiu os policiais até a floresta para matá-los. O mais impressionante é que é quase impossível de acreditar que essas mortes foram causadas por uma pessoa comum, principalmente uma simples adolescente. O chefe de polícia Tom Kurttin também foi morto na queda do helicóptero que perseguia a garota, que continua desaparecida. Os bombeiros já apagaram todo o fogo mas nenhum sobrevivente foi encontrado. Por enquanto essas são as únicas informações que temos no momento. Aqui é Rebecca Loreine para o Jornal Tefyano."
Vários paramédicos saíam da floresta empurrando macas com os corpos cobertos por um saco preto. No meio da multidão, havia um rapaz encapuzado. Seu capuz cobria um pouco o rosto e não dava para vê-lo direito, mas era possível ver que ele tinha cabelos lisos e prateados até os ombros. Sua pele era pálida, ele usava um moletom cinza de manga longa, calça jeans preta e tênis pretos. Estava com as mãos enterradas nos bolsos do moletom e tinha uma expressão séria no rosto. Ele olhou de um lado para o outro e saiu caminhando entre as pessoas, saindo da multidão e indo embora do local.
Mais tarde, este mesmo rapaz chegou à escola. Era o início do ano letivo, o primeiro dia de aula. No entanto, diferente dos outros alunos, ele era o único que não usava o uniforme. Estava com o capuz abaixado e tinha os olhos verdes mais lindos que alguém poderia ter. Saiu caminhando pelo campus e chamou um pouco de atenção justamente pela sua pele pálida, sua expressão séria e o fato de não estar usando o uniforme.
"Quem é esse? "Não sei, mas ele é um gato." — comentavam as alunas
O rapaz adentrou a escola e foi direto para a sala de aula. Não estava com paciência para passear, afinal não era novato e já conhecia o prédio muito bem. De longe percebia-se que ele era uma pessoa quieta e não muito social, uma pessoa que preferia ficar sozinha e isolada de todos, vivendo em seu próprio mundo. Caminhando pelo corredor branco com armários por todo os lados, ele ignorava todos ao seu redor. O corredor estava lotado de alunos caminhando e conversando de um lado para o outro, mas para ele o corredor estava vazio. Ele não gostava muito de interagir com os outros e só queria chegar logo na sua maldita sala de aula.
Ao passar em frente à porta do Conselho Estudantil, ele parou. Olhou de relance para a porta e estranhou a aura sinistra que emanava daquela sala. Por algum motivo se sentiu nervoso com aquela sensação de desconforto e por isso rapidamente se afastou e continuou a caminhar. Depois de muitos passos, finalmente o rapaz de moletom chegou à sala de aula. Já haviam alguns alunos em suas carteiras conversando em grupinhos. Sem dar nenhum 'oi', ele apenas caminhou para o fundão e sentou na última carteira da fileira da esquerda ao lado da janela. Soltou um longo suspiro relaxando na cadeira e começou a ouvir os cochichos dos alunos:
"Ih, parece que o esquisito do Cass vai ficar na nossa turma de novo"; "Por que ele nunca vem de uniforme? Será que tem vergonha da nossa escola?"; "Chega e não dá nem um bom dia. Mas que mal educado."
Ignorando os comentários dos alunos, ele apoiou o cotovelo sobre a mesa e apoiou a cabeça na mão com o rosto virado admirando o jardim do campus da escola do lado de fora pela janela. Uma aluna resolveu ir até ele com um belo bolinho de chocolate em mãos em uma embalagem branca.
— Cass. — chamou a aluna gentilmente
O rapaz olhou para ela com um olhar um pouco irritado por ter tido seus pensamentos interrompidos.
— Seja bem-vindo ao terceiro ano. Eu estou entregando bolo de chocolate para os alunos da nossa classe como presente de volta às aulas. Gostaria de um?
— Não. — respondeu friamente
— Não quer?
— Eu não gosto de bolo. — justificou sem tirar os olhos da janela
— Ah...tudo bem então. Caso mude de ideia, eu tenho mais.
— Não vou mudar.
Ela saiu e foi até outro aluno da sala oferecer o bolo. Mais tarde, o sinal da primeira aula tocou e o professor entrou em sala acompanhado de um aluno de cabelos negros lisos que iam até o pescoço, a franja cobria toda a testa, mas ultrapassava a mesma apenas no centro, deixando os olhos expostos, que no caso eram lindamente dourados. Assim que eles entraram, todos os alunos ficaram de pé para a saudação, menos Cass, que continuou sentado como se não estivesse nem aí.
— Bom dia, alunos. — disse o professor que já era um simpático senhor de idade e que aparentava ter muita experiência no cargo
— Bom dia, professor. — responderam os alunos
Cass ignorava olhando o céu pela janela, quando uma coisa lhe chamou a atenção: uma pena negra sendo levada pelo vento. Uma pena grande, talvez bem grande para um pássaro comum. Seus olhos acompanhavam os movimentos da pena até ela sumir da sua vista.
"Uma pena negra...?" — pensou
— Bom, parece que serei professor de vocês novamente esse ano. Além disso, gostaria de apresentar um novo colega que irá ficar conosco até o final do ano. Esse é Miro Linckol. Ele vem do Livriew e foi transferido para a nossa escola. Espero que vocês se deem muito bem.
— É um prazer conhecê-los. — disse o novato
— Seja bem-vindo, Miro. — disse uma aluna
— Obrigado. — agradeceu gentilmente
— Pode se sentar, Miro. Abram todos seus cadernos e vamos começar nossa primeira aula.
Todos os alunos se sentaram novamente em suas carteiras e começaram a preparar seus materiais para o início da aula. Miro encontrou uma carteira vazia no fundão e se sentou ao lado de onde Cass estava. Ele olhou para o rapaz de moletom e estranhou o comportamento quieto e distraído dele.
— Oi, tudo bom? Eu sou o Miro. — disse tentando ser amigável
— Sorte tua. — respondeu não parecendo interessado
— Por que não está de uniforme?
— Por que estás falando comigo? — perguntou já um pouco irritado
— Puxa, só queria me entrosar. — disse Miro desapontado
Miro voltou a olhar para frente para prestar atenção na aula e Cass ficou olhando para o rosto dele o achando um pouco familiar. Miro também olhou para ele que rapidamente virou o rosto desviando o olhar.
— Qual o seu nome?
— Não é da tua conta.
— Esquisito.
Cass era o único que não conseguia prestar atenção na aula. Estava com a cabeça deitada na mesa perdido em seus próprios pensamentos. Parecia que a cada segundo que passava mais demorava para a aula terminar. Por alguns segundos, uma lembrança passou pela sua mente. A lembrança de dois Sayryns filhotes correndo pela floresta ao redor do castelo acima das nuvens. Ambos sorridentes e alegres. Eram quase idênticos, mas um tinha olhos felinos verdes e asas brancas e o outro tinha olhos felinos dourados e asas laranjas. A lembrança de Cass foi interrompida com batidas em sua mesa. Ele ergueu a cabeça e viu o professor bem do seu lado o encarando.
— Cass...estou vendo que continua na mesma turma.
— Até porque...tu terias que ser muito cego para não ver isso. — disse coçando os olhos como se estivesse com sono
— Por que não está de uniforme?
— Por que me perguntas isso todo ano?
— Você nunca responde.
— Não faz o meu estilo... — disse virando o rosto e voltando a olhar pela janela
O professor suspirou tentando manter a calma.
— Sinceramente, não sei porque você vem à escola sendo que não faz nada além de só ficar pensando na vida. Podia pelo menos abrir seu caderno e prestar atenção na aula?
Cass não respondeu e continuou na dele com a cabeça virada para a janela. O professor coçou a cabeça e resolveu continuar a aula. Miro não parava de encará-lo. Ele era muito curioso e queria saber por que Cass era daquele jeito.
Após o fim da aula, uma garota adentrou a sala. Por mais incrível que fosse, era Nyra, a garota ruiva que causou o massacre dos policiais na floresta. Ela estava com seus longos cabelos vermelhos soltos e usava a mesma roupa que usava na noite anterior.
— Com licença, alunos. Gostaria de um pouco da atenção de vocês. — disse Nyra de modo fofo e alegre
Assim que Cass olhou para ela, sentiu um forte aperto no peito, uma sensação desagradável causada pela aura negra e sinistra que emanava dela.
"Wow, quem é essa garota?" "Ela é uma gata!" — comentavam os alunos
— Eu me chamo Nyra. Sou a vice-presidente do Conselho Estudantil esse ano. — se apresentou gentilmente
— Hã? O que aconteceu com a antiga vice-presidente? — perguntou uma aluna
— Bom, ela...ela teve que se transferir para outra escola por problemas de saúde. — respondeu a garota ruiva com um pouco de nervosismo exposto em sua voz
Cass não parava de encarar Nyra com um enorme olhar de desconfiança. Ele rapidamente cobriu sua cabeça com o capuz do moletom e virou o rosto tentando evitar que ela o visse.
— Deixando as perguntas de lado, gostaria que apenas ouvissem o que eu tenho a dizer. O diretor conversou com todos do Conselho Estudantil e pediu que passássemos este aviso em todas as salas de aula do terceiro ano. Ele mandou avisar que no final do ano, todos os alunos terão que formar duplas e apresentar um projeto. — disse Nyra sentando sobre a mesa do professor
— Que tipo de projeto? — perguntou um aluno confuso
— Bom, vocês decidem. O tema é livre. Podem escrever um livro e divulgá-lo, podem gravar um documentário, um curta-metragem, uma peça de teatro, podem apresentar música e dança...o que vocês quiserem.
Os alunos pareceram gostar da ideia.
— Mas é obrigatório. Todos devem participar. Seria bom se escolhessem logo quem vai ser sua dupla para irem logo se preparando. Aliás, tem que ser algo muito bem feito, pois será apresentado para toda a escola. — completou
Os alunos começaram um falatório enquanto formavam suas duplas. Miro apenas olhava de um lado para outro. Como era novato e não conhecia ninguém, estava com vergonha e dificuldade para chamar alguém. Até que ele olhou para o lado e observou Cass quieto na dele, virado para a janela encarando o céu como se tivesse alguma coisa de interessante ali. Miro deu um pequeno sorriso, levantou de sua carteira e foi até o rapaz misterioso. Assim que se aproximou, Cass já se adiantou dizendo de modo desinteressado:
— Procura outra pessoa.
— O quê? Mas quem? Todo mundo já tem dupla.
— Azar teu. — respondeu bocejando
— Ela disse que é obrigatório. Então você também vai ter que participar. — disse cruzando os braços
— Também é obrigatório usar o uniforme. E olha eu aqui. — respondeu com os olhos fechados como se estivesse tentando tirar um cochilo
— Escuta aqui, eu não te conheço, mas eu não gosto nenhum pouco desse seu jeito. Que tal tentar ser mais legal com as pessoas? — perguntou Miro tentando abaixar o capuz de Cass, que agarrou o pulso dele com força o impedindo
— Fica longe de mim. — disse Cass de modo raivoso o empurrando para longe
Miro suspirou abaixando os olhos desapontado. Ele olhou para frente e viu a ruiva sentada na mesa do professor só o olhando com um largo sorriso assustador no rosto. Um sorriso tão bizarro que o deixou desconfortável e com um pouco de medo. Nyra desceu da mesa.
— Bom, qualquer dúvida é só falar com o diretor. Eu já vou indo. — finalizou saindo da sala de aula cantarolando sem desfazer o sorriso sombrio do rosto
— Que garota esquisita... — pensou Miro se arrepiando só de lembrar do sorriso dela
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Finalmente a hora do almoço chegou. A refeição do dia era arroz, macarrão, feijão, salada e carne de porco. Miro estava na fila para pegar sua comida e ele não conseguia tirar Cass da cabeça. Havia algo naquele rapaz que chamou a sua atenção. O que será que era? Miro não conseguia descobrir, mas sentia que precisava saber mais sobre ele. Tinha algo naquele rapaz de diferente, algo que uma pessoa comum não tinha, uma aura pura e angelical. Seus pensamentos foram cortados quando finalmente chegou sua vez de pegar a comida. Ao pegar, saiu caminhando pelo refeitório procurando uma mesa para sentar.
— Ei, novato! Aqui! — chamou a voz de uma aluna
Miro se virou e viu alguns alunos da sua turma sentados em uma mesa o chamando. Ele deu um pequeno sorriso e foi até lá se sentando com eles.
— E então? Está gostando da escola?
— Sim. Já gostei mais pela comida. — respondeu Miro
Eles riram.
— É um prazer conhecê-lo, Miro. Eu me chamo Selena.
— Eu sou o Jared.
— Michael.
— Isabelle.
— Prazer, pessoal. — disse Miro após todos se apresentarem
— Então você morava no Livriew? Por que se transferiu pra cá? — perguntou Selena
— Misteriosamente teve um incêndio no prédio onde eu estudava. Todos os alunos foram transferidos para outras escolas do Livriew. Eu fui o único a ser transferido para o Zardren. Até hoje não entendi o porquê. Mas eu moro sozinho mesmo, então nem me importei. — respondeu Miro dando uma mordida na carne e mastigando
— Por que você mora sozinho? — perguntou Michael
— Bom...é uma longa história...eu venho de um orfanato e...nunca conheci meus pais. — respondeu um pouco triste
Os alunos se olharam.
— Sentimos muito. — disse Isabelle o consolando
Miro olhou para o lado e avistou Cass caminhando entre os alunos no refeitório. Ele não conseguia tirar os olhos daquele rapaz misterioso que caminhava pelo local ignorando tudo ao seu redor como se estivesse completamente sozinho. Estava encapuzado e com as mãos enterradas nos bolsos do moletom. Ao invés de entrar na fila para pegar o almoço, simplesmente subiu os degraus da escada que levava para o segundo andar do prédio. Miro ficou o olhando até ele sumir de sua vista, ao abaixar os olhos em seguida, ficou pensativo, tentando entender por que aquele rapaz tinha chamado tanto a sua atenção. Seriam seus olhos? Aqueles belíssimos olhos verdes brilhantes e hipnotizantes? Pensando bem, aquela cor não era um verde comum, era uma tonalidade que ele jamais tinha visto. Mas o que mais tinha chamado sua atenção? Seria sua personalidade fria e quieta, ou justamente a sua falta de personalidade? Seria sua pele pálida e seus cabelos prateados como a lâmina de uma espada ou o rosto dele que lhe era estranhamente familiar? Miro apertou os punhos. Precisava descobrir o que havia por trás de toda aquela atração por um rapaz que ele nem conhecia.
— Algum problema, Miro? — perguntou Michael percebendo a inquietação do moreno
— Ah...aquele cara...o Cass...podem me falar um pouco sobre ele?
— O Cass? Ele é um completo idiota. — respondeu Selena
— Apesar dele estar conosco desde o primeiro ano, a verdade é que não sabemos nada sobre ele. — disse Isabelle
— Ninguém sabe. Não sabemos nem o verdadeiro nome dele. No primeiro dia de aula, ele apenas disse para chamá-lo de Cass. Não sabemos sua idade, nem de onde ele é. Desde o seu primeiro dia aqui na escola, ele nunca conversou com ninguém. É o tempo todo calado e quieto. Não presta atenção nas aulas, não faz as atividades, nunca participou de nenhum clube, de nenhum evento, nunca participou das aulas de educação física, sempre fica de fora dos trabalhos em grupo e nunca veio de uniforme. — contou Jared
— Além disso, ele sempre está com essa mesma roupa. Acho que é a única que ele tem. Literalmente. — complementou Selena
— Primeiro eu achava que ele só vinha para a escola pra comer. Mas nem isso ele faz. Ele nunca comeu a comida da escola. Na verdade, eu nunca vi nem ele bebendo água e usando o banheiro. Ele só vem pra cá pra dormir. E mesmo assim passou direto em todos os anos. — disse Michael
— Que estranho... — disse Miro
— Pois é. Ele é um cara muito esquisito. Eu é que não ia querer dar de cara com ele sozinha na rua de noite. — disse Isabelle
— Mas eu acho o modo de falar dele bem sexy. — disse Selena
— Francamente, Selena... — retrucou Isabelle
— Ué, qual o problema?
— Bom, eu já vou indo. Foi um prazer conhecê-los. A gente se fala depois. — se despediu Miro levantando da cadeira e saindo da presença deles
— Ei, mas você nem terminou a sua comida. — avisou Selena, mas em vão
Miro subiu a mesma escada que viu Cass subir e chegou no segundo andar do prédio. Haviam vários alunos caminhando de um lado para o outro. Ele saiu caminhando entre eles pelo corredor, até que viu outra escada. Resolveu subi-la. Era uma escada imensa e Miro já estava cansado de tanto subir, até que finalmente chegou no telhado da escola. O céu estava bem azulado e ensolarado e o vento soprava um pouco forte contra seus cabelos e roupas. Ele saiu caminhando pelo enorme terraço, quando avistou Cass apoiado nas grades da varanda observando a paisagem ao longe. Seu capuz estava abaixado e seus belos cabelos prateados balançavam com o vento. Miro caminhou até ele, quando uma pena branca passou voando na sua frente sendo levada pelo vento. O moreno ficou observando a pena flutuar pelo ar e resolveu continuar sua caminhada.
Cass observava a paisagem distraído, pensando na vida, com uma expressão séria e mal humorada no rosto. Parecia estar o tempo todo arrependido, com remorso de algo. No entanto, seus pensamentos foram interrompidos por uma voz masculina jovem ao seu lado.
— No que será que você tanto pensa, hein? — perguntou Miro chegando ao seu lado e também se apoiando nas grades da varanda
Cass olhou para ele e lhe deu de ombros.
— Estás curioso, é?
— Pior que eu tô. Por que você é tão solitário? Não é legal viver assim.
— E tu entendes bem disso, não é? — respondeu sempre evitando olhar para ele
— Como assim? — perguntou franzindo um pouco a testa
— Passaste a vida toda sozinho e por isso estás desesperado tentando arranjar um amigo...mas eu sugiro que vás procurar outra pessoa. Amizade é a última coisa que se pode esperar de mim. — disse Cass com uma voz cansada, sem tirar os olhos da paisagem ao longe
— Como você sabe...que eu passei a vida toda sozinho? — perguntou Miro com os olhos trêmulos
— Dá para saber só olhando para ti. Teus olhos são de alguém que convive com a solidão.
"Será que é isso que me atraiu nele? O fato dele ser tão solitário quanto eu?" — pensou cabisbaixo
— Por que ainda estás aqui? — perguntou Cass começando a se irritar com a presença do garoto
— Quer ser minha dupla pro projeto da escola no fim do ano?
— Não. — respondeu sem pensar duas vezes
— Ah, vamos lá! Eu aposto que vai ser divertido! Eu até tenho uma grande ideia pro que a gente pode apresentar. O meu sonho é ser escritor e eu pretendo escrever um livro sobre o mito dos Sayryns.
Ao ouvir aquela palavra, Cass finalmente virou o rosto para olhar Miro nos olhos.
— O que disseste?!
Olhando nos olhos de Cass, Miro sentiu seu coração acelerar. Aqueles olhos não eram olhos comuns. Aquele verde era único, extremamente raro.
— Bom...eu sempre fui muito fã do mito dos Sayryns. São criaturas que foram esquecidas da mitologia grega por já terem sido extintas. São criaturas aladas que viviam em um mundo acima do nosso. Mas eu acredito que ainda possam existir alguns deles porque eu já vi um. Não sei se foi um sonho...mas eu juro que vi um Sayryn no telhado do orfanato onde eu vivia quando eu ainda morava no Livriew. Ele tinha asas negras e olhos amarelos. Assim que ele me viu olhando pra ele, foi embora voando. Nunca mais o vi depois daquilo.
— Não era um Sayryn.
— Hã?
— O que tu viste não era um Sayryn. Se tinha asas negras...provavelmente era um Lyvreny. — disse Cass virando de costas para as grades da varanda e se encostando nas mesmas com os braços cruzados
— Lyvreny? Já ouvi falar. São tipo os Sayryns, mas numa versão das trevas.
— Os maiores inimigos dos Sayryns. Fazem parte do exército das três Irmãs do Destino, Lahkhesis, Atropos e Clotho, três entidades da mitologia grega que possuem o poder de controlar o destino do mundo. O objetivo delas é terem posse dos corações dos três deuses-lobos Mynddz, Sllayer e Keryuss, que protegem o equilíbrio do universo, e usarem os poderes desses corações para dominarem o mundo.
Miro estava com o rosto bastante corado impressionado com aquilo.
— Mas o que é estranho...é o fato de tu teres dito que o Lyvreny que viste tinha olhos amarelos. Todos os Lyvrenys têm olhos vermelhos...a não ser ele... — disse lembrando do rosto de Maloman, que era o único Lyvreny que não tinha olhos vermelhos e sim, dourados
Miro segurou as mãos de Cass.
— Viu só? É por isso que você tem que ser minha dupla pro projeto! Você parece entender bastante sobre a lenda dos Sayryns! Você pode me ajudar a escrever meu livro!
Cass o afastou com um empurro.
— Sai fora. Eu tenho mais o que fazer.
— Ah é? Tipo o quê? Nada?
— Exatamente. Nada.
Miro sorriu.
— Você fala engraçado.
— Eu não estou rindo. — disse com uma carranca no rosto
— Desculpa.
Uma terceira pessoa chegou no terraço. Nenhum dos dois sabia que era o mesmo rapaz que estava conversando com Nyra na floresta na noite do massacre.
— O que estão fazendo aqui em cima? A hora do intervalo já terminou. Por que não estão na sala de aula? — perguntou o rapaz ajeitando os óculos
— E tu quem és? — perguntou Cass meio desconfiado
— Me chamo Ivan. Sou o presidente do Conselho Estudantil.
— É mesmo? — questionou parecendo duvidar
Cass deu um passo à frente e ficou na frente de Miro.
— Nunca ouvi falar de ti. O que aconteceu com o antigo presidente?
— Ele foi embora para outra escola. Então o diretor resolveu me nomear o novo presidente. — respondeu Ivan de modo confiante
— Eu não lembro de ter te visto aqui na escola antes... — continuou ainda duvidando
— É porque eu entrei esse ano.
— Um novato como presidente do Conselho?
— Antes das aulas começarem, o diretor me chamou para um reunião. Eu era o aluno número um da minha antiga escola. E por causa de minhas excelentes notas, ele me colocou para assumir o cargo. Alguma objeção?
— Não, não, nenhuma. É só um pouco estranho... — respondeu Cass erguendo os ombros como se não estivesse nem aí
Miro estava atrás de Cass apenas observando em silêncio.
— Agora se não se importam, queiram ir para a sala de aula. O professor já deve estar lá.
— Hmf, que se dane. — resmungou Cass indo embora
Ao passar por Ivan, ambos se olharam de relance e um clima tenebroso de hostilidade surgiu entre eles. Cass apenas continuou a caminhar e Ivan ficou parado no lugar com um sorrisinho malandro de canto.
— Ei, Cass! Espera por mim! — disse Miro saindo correndo atrás do rapaz de moletom
— É melhor ficar longe desse cara, garoto. — disse Ivan repentinamente
— Hã? — perguntou Miro parando de correr e se virando para Ivan
— Ele não é quem você pensa. — alertou o presidente do Conselho com seu olhar afiado em seus belos olhos roxos por cima dos óculos
XXXXX
O sinal tocou, era o fim da última aula e hora da saída. Miro estava guardando seus materiais na mochila, quando Selena foi até ele.
— Oi, Miro! Aceita uma carona pra casa? Eu tô de carro.
— Ah...não, obrigado. Eu moro perto. Vou a pé mesmo. — disse colocando a mochila nas costas
— Tudo bem. A gente se vê amanhã então. Até mais. — Selena se despediu indo embora
— Até.
Miro olhou para a carteira de Cass e viu que ele não estava lá e nem seus materiais. Ele já tinha ido embora antes mesmo da aula terminar. Miro suspirou e de repente uma ideia muito louca passou pela sua mente. Resolveu ir atrás de Cass e tentar descobrir mais sobre ele. Não iria descansar até descobrir o que aquele rapaz de pele pálida e cabelos prateados tinha de tão atraente.
Enquanto isso, Cass caminhava por uma rua deserta. Andava por uma calçada coberta por algumas folhas de árvores que eram arrancadas pelo vento forte. De vez em quando um carro passava por ele. Ele gostava daquele silêncio e daquele clima de paz e sossego, que era tudo o que ele queria. A franja prateada escondia seus olhos, mas era possível ver o brilho verde dos mesmos através dos fios. Ele caminhava respirando o ar puro, ouvindo apenas o som do vento e dos seus passos lentos e calmos, quando de repente, parou ficando alguns segundos imóvel. O vento começou a soprar mais forte, ele apertou o punho esquerdo e virou um pouco a cabeça para o lado com os olhos baixos. Conhecia aquela sensação, estava sendo seguido. Dando um leve suspiro, ele manteve os pés firmes no chão e rapidamente se virou empunhando uma espada de luz que surgiu instantaneamente em suas mãos pronto para atacar. No entanto, não havia ninguém.
— Tsc... — resmungou frustrado
— Lento demais. — sussurrou uma voz masculina em seu ouvido por trás
Cass arregalou os olhos. Tentou se virar rápido, mas foi atingido com um soco no abdômen tão forte que o jogou longe contra um muro de tijolos de uma casa que ainda estava em reforma. Antes que ele caísse no chão, o dono do soco lhe deu mais um chute no rosto e em seguida uma cotovelada na cabeça afundando a mesma no chão. Com o rosto contra o chão quente, Cass ouviu uma risada familiar. Ele levantou a cabeça e ao olhar para cima, viu um belo rapaz de cabelos longos negros, pele pálida, olhos lindamente amarelos, vestido com uma camisa preta sem manga, calça jeans escura e um par de tênis cinza. Cass o reconheceu. Era Lavidh.
— Finalmente te achei. — disse Lavidh puxando Cass pelo capuz do moletom o levantando do chão
— Lavidh?! O que pensas que está fazendo aqui?! — perguntou parecendo bravo
— Oi, Casstyel. É muito bom te ver também depois de todos esses anos. — debochou cruzando os braços
— Por que tu sempre me atacas quando chega? — perguntou passando as mãos nas roupas para limpar a poeira
— Faz parte do teu treinamento. E olha...tu continuas péssimo.
— Ainda não me respondeste o que estás fazendo aqui.
Lavidh suspirou e passou a mão em seus belos cabelos longos e negros.
— Já estou aqui no mundo dos humanos há alguns anos. Há 995 anos atrás, assim que tu foste embora, o palácio foi invadido por um exército de Lyvrenys.
— Como é que é? — perguntou sem acreditar
— Lahkhesis estava presente. Estavam atrás de ti. Ainda bem que tu tinhas ido embora. Francamente...tu fazes tudo errado, mas no fim acaba sendo o certo. — disse com um sorrisinho preguiçoso nos lábios
— Perdemos alguém?
— Apenas um. O Dyllan.
Cass arregalou os olhos ao ouvir o nome.
— Ele foi morto por um Lyvreny. Eu teria o salvado, se aquela maldita Irmã não tivesse me atacado por trás. — disse Lavidh com uma voz repleta de indignação. — Eu também fui pego...mas consegui escapar a tempo.
— Eu sinto muito... — era somente aquilo que Cass poderia dizer
— É...mas não vai demorar muito até que te encontrem. Além disso, faltam apenas cinco anos para a Batalha do Destino.
Cass se zangou ao ouvir aquilo.
— Eu não vou lutar contra ele! De novo não!
— Tu vais, Casstyel. Foi o teu destino determinado pelas Irmãs. E olha...é bom que tu venças.
— Se eu vencer...vai acontecer de novo...e eu já estou cansado disso.
— Então nós temos que derrotar as Irmãs e os Lyvrenys antes disso.
— "Nós"? Desculpa, mas eu não quero mais ser um Sayryn. Se quiserdes derrotar as Irmãs, ides vós. Me deixeis fora disso.
— Me diz, qual é a graça de viver entre os humanos? Pela tua cara, deve ser algo bem divertido, não é? — ironizou por causa da expressão séria e fechada do rosto de Cass
— É melhor assim.
— Ah, tem mais uma coisa. Os Lyvrenys tiraram um dos nossos, mas nós tiramos um deles.
— Do que estás falando?
— Capturamos uma Lyvreny. Uma filhote. Ela está presa no subsolo do palácio. Simon e Loon ficaram encarregados de vigiá-la.
— Hmf...aqueles idiotas?
— Para uma filhote, ela é bem agressiva. Mas nosso líder acha que ela não é uma ameaça.
— E meu pai? Como ele está? — perguntou Cass parecendo preocupado
— Ele está bem. Não tem um único dia que ele não fale de ti. Ele sente a tua falta. Tu bem que devias ir visitá-lo de vez em quando.
Cass ficou em silêncio com os olhos abaixados.
— Bom, eu já vou indo. Se cuida.
— Lavidh...que bom...que estás bem.
Lavidh deu um pequeno sorriso.
— Sou o segundo mais poderoso dos Sayryns. Tu sabes que eu não morro fácil. — disse com confiança
Cass assentiu. Lavidh virou de costas para ele e em seus olhos era possível ver um olhar de tristeza e constrangimento.
— Nos veremos de novo.
Uma luz branca envolveu o moreno e o mesmo tomou sua verdadeira forma de Sayryn, e, ao abrir suas gigantescas asas para poder levantar voo, para o extremo espanto de Cass, as belíssimas asas de Lavidh, que já foram um dia consideradas umas das mais belas dentre os Sayryns, estavam negras. Negras como a escuridão intensa, negras como a noite, negras como as trevas. Cass estava paralisado e seu corpo tremia. Não conseguia acreditar no que estava vendo. Por que as asas de Lavidh estavam negras? Cass não conseguia pensar em uma respostas decente para aquela pergunta que ecoava em sua mente.
— L-Lavidh...o que...o que significa isso? — perguntou com os olhos lacrimejando
— Lembras que eu disse que também fui pego mas consegui escapar? Acho que...Lahkhesis tentou me transformar em um Lyvreny...mas eu consegui fugir e apenas minhas asas foram atingidas. — disse ainda de costas para Cass, pois estava com vergonha de olhar para o rosto do amigo
Cass lembrou do que Miro havia lhe dito:
"Mas eu acredito que ainda possam existir alguns deles porque eu já vi um. Não sei se foi um sonho...mas eu juro que vi um Sayryn no telhado do orfanato onde eu vivia quando eu ainda morava no Livriew. Ele tinha asas negras e olhos amarelos."
— Um Sayryn de asas negras e olhos amarelos...então eras tu. Lavidh...olha, tu...tu não precisas ter vergonha. Além disso, o que faz de ti um verdadeiro Sayryn, não é a cor das tuas asas, e sim o orgulho no teu coração de ser quem tu és. Por isso, mantenha teu orgulho de Sayryn. — disse tentando consolar o amigo
— Belas palavras vindas de alguém que desistiu de ser um Sayryn.
Cass franziu a testa atingido por aquelas palavras. Lavidh não disse mais nada, apenas pegou impulso e voou para bem alto, sumindo entre as nuvens. Assim que ele deixou o solo, várias penas soltaram de suas asas e ficaram voando pelo vento. Cass ficou de cabeça erguida observando a chuva de penas negras que caía sobre ele. Ele estendeu a mão direita para frente e uma pena negra caiu sobre a mesma. Ele ficou a observando. Um Sayryn de asas negras. Ele sabia que era o culpado e a raiva o fez apertar a pena em sua mão com força.
— Lavidh...me perdoe... — murmurou fechando os olhos com força. Lembrou que desde que era filhote, Lavidh sempre esteve com ele. Lavidh foi o Sayryn escolhido por Lídius para treiná-lo e sempre foi como um irmão mais velho
De repente, Cass sentiu algo estranho, como se estivesse sendo observado. Ele se virou, olhou de um lado para o outro, mas não viu ninguém. Suspirou e continuou a caminhar. Depois de um bom tempo caminhando, adentrou a Floresta dos Olhos Vermelhos. Ele sempre andava por aquela floresta a usando como um atalho. Caminhando por uma trilha de terra, pedras e folhas secas, Cass passeava entre as gigantescas árvores de onde se era possível ouvir vários cantos de pássaros diferentes. Os raios de sol penetravam os espaços deixados pelas folhas e iluminavam a floresta calma e tranquila. A área onde tinha ocorrido o massacre estava interditada, com várias faixas policiais de "NÃO SE APROXIME" em volta do local. Apenas o canto dos pássaros, o vento lento e suave e os passos que Cass dava sobre a trilha de pedras eram os sons que dominavam a gigantesca floresta. Após alguns segundos, mais um som se fez presente – o som de uma pequena cachoeira que banhava um rio de águas cristalinas em um bosque próximo. Cass amava aquele lugar, se sentia em casa ali. Ao olhar para cima, o belíssimo céu azul o acompanhava. No entanto, após vários passos, ele chegou em uma área onde uma imensa névoa cinzenta e densa dominava. Não era possível ver nada, tudo estava dominado pelo cinza. Aquele clima de calma e serenidade foi substituído por um clima de tensão e tenebrosidade. Por não conseguir enxergar nada por causa da névoa, Cass diminuiu os passos e começou a caminhar devagar, cautelosamente, para não esbarrar em nada estranho.
De repente, um vulto negro passou por ele em uma velocidade absurda. Ele parou de andar e ficou parado no local. Começou a ouvir passos e mais outro vulto negro passou por ele na mesma velocidade. Após isso, começou a ouvir risadas maléficas que ecoavam pelas árvores. Começou a ouvir passos novamente, dessa vez de alguém correndo. O som dos passos ficava mais alto e parecia cada vez mais próximo, até que Cass tomou sua verdadeira forma de Sayryn e se virou dando um chute violento no Lyvreny que se aproximava por trás o jogando longe contra o tronco de uma árvore. Outro Lyvreny surgiu de dentro da névoa e tentou atacar Casstyel com sua gigantesca foice, mas Casstyel foi mais rápido e projetou uma espada de luz em suas mãos rebatendo o ataque da foice. O Lyvreny tentou atacá-lo novamente, mas o Sayryn se esquivou de todos os golpes e deu um enorme salto para trás do Lyvreny agarrando suas asas, o jogando para cima e em seguida o jogando com toda força no chão, tão forte que o mesmo afundou em um enorme buraco que surgiu com o impacto. Um terceiro Lyvreny que estava escondido na névoa, surgiu e envolveu a lâmina de sua foice pela nuca de Casstyel, o puxando para perto e lhe dando um soco violento no rosto, batendo com o cabo da foice com toda força em seu crânio o jogando longe.
Casstyel bateu suas asas e conseguiu se recuperar no ar, firmando seus pés contra o tronco de uma árvore, pegando impulso e partindo para cima do Lyvreny o atacando com sua espada, mas o Lyvreny se defendeu com sua foice. Faíscas voavam durante a briga do Sayryn e o Lyvreny quando as lâminas de sua espada e foice se batiam.
— Morra, Casstyel! — disse o outro Lyvreny tentando atacar Casstyel covardemente por trás enquanto este estava distraído na luta, mas o Sayryn, em um milésimo de segundo, transformou sua espada de luz em um chicote e se virou enrolando a corda do mesmo no pescoço do Lyvreny de trás e o jogando contra o outro Lyvreny com quem estava lutando. O Lyvreny teve o peito perfurado pela lâmina da foice do outro, morrendo na hora
O terceiro Lyvreny surgiu no meio da névoa voando na direção de Casstyel em alta velocidade com sua foice firme na mão, mas o Sayryn bateu suas asas para frente, causando um vento muito forte que jogou os dois Lyvrenys restantes longe. Enquanto ainda estavam no ar, Casstyel bateu com seu chicote, enrolando a corda no pé de um deles e o jogando contra uma árvore. Assim que colidiu contra o tronco, o chicote foi transformado em um arco de luz, onde apenas ao puxar a corda uma flecha de luz surgiu, sendo atirada contra o Lyvreny perfurando sua asa. O Lyvreny pregado na árvore gritou de dor, gritou mais ainda quando Casstyel transformou novamente o arco em um chicote, enrolou a corda no pé do Lyvreny e o puxou para baixo, arrancando sua asa direita que estava pregada no tronco da árvore com a flecha de luz. O Lyvreny caiu no chão com apenas uma asa nas costas e com sangue jorrando no local da outra.
— Maldito!! — gritou o outro Lyvreny voando na direção de Casstyel e o atacando com sua foice, mas o Sayryn se agachou se esquivando do golpe e durante a esquiva, seu chicote se transformou em uma lança, que foi atravessada na garganta do Lyvreny com sua ponta saindo do outro lado completamente banhada de sangue
Casstyel puxou a lança novamente e enquanto o Lyvreny caía morto no chão, o Sayryn jogou a lança contra o outro Lyvreny que tivera a asa arrancada, tendo seu coração perfurado. Após o terceiro Lyvreny ser morto, Casstyel sentou no chão extremamente ofegante. Passou a mão em seus cabelos prateados atrás da cabeça e sentiu um pequeno líquido escorrendo em seu crânio. Ao olhar a mão, viu que seus dedos estavam sujos de sangue. A ferida do golpe de foice que levou na cabeça estava sangrando bastante.
— Tsc... — resmungou
Depois daquela luta, ele realmente concluiu que era o Sayryn mais fraco. Um Sayryn poderoso não ficaria tão exausto daquele jeito após lutar contra três Lyvrenys fracos. Casstyel ergueu a mão para a lança de luz fincada no peito do Lyvreny morto no chão e a mesma retirou-se sozinha voando de volta para o Sayryn. Assim que ele a pegou, ela desapareceu.
Ignorando a ferida em sua cabeça, Casstyel levantou do chão e assistiu aos corpos dos Lyvrenys mortos se desfazerem em milhares de penas negras que saíram voando pelo céu. Observando as penas negras sendo levadas pelo vento gélido, ele avistou três penas brancas entre elas, deu um suspiro aliviado e se espreguiçou flexionando os músculos.
— Irei precisar de um banho...
De repente ele ouviu um barulho e fez posição de ataque projetando mais uma vez sua espada de luz nas mãos. Ficou parado, esperando, mas nada acontecia. Até que ele viu uma silhueta entre a névoa densa. Casstyel partiu para cima daquela silhueta e quando foi atacando aquele que a projetava, foi impedido por um grito de súplica.
— Por favor! Por favor não me mata! — gritou Miro caindo no chão e protegendo o rosto com as mãos extremamente apavorado
— Tu?! — perguntou Casstyel sem acreditar
Miro abaixou as mãos lentamente revelando seus olhos cheios de lágrimas.
— O que estás fazendo aqui?! Estavas me seguindo?
— M-me...me desculpa...não consegui evitar. Eu queria saber mais sobre você...e...acabei sabendo mais do que devia...você é um Sayryn! — disse perplexo e admirado ao mesmo tempo
— Vós humanos sois um pé no saco mesmo...adorais se meter onde não sois chamados. — reclamou Casstyel enquanto a espada de luz sumia novamente de suas mãos
Miro ficou olhando para Casstyel de cima a baixo impressionado com o que via. A pele cinza, os cabelos prateados, os olhos verdes felinos, as orelhas pontudas, os dentes caninos afiados, as gigantescas asas brancas angelicais, a altura que parecia ser mais de três metros, a camisa branca folgada de manga longa no lugar do moletom, calça preta de tecido grosso também folgada, um par de coturnos negros nos pés e luvas pretas de couro nas mãos. Era um Sayryn de verdade e Miro estava ali, presenciando aquilo.
— Eu sabia...eu sabia que vocês eram reais! Você não faz ideia do quanto eu estou feliz! É mais uma motivação pra eu escrever o meu livro! – disse Miro alegre se levantando do chão
— Será que dá para calares a boca? A tua voz irrita. — disse Casstyel enquanto uma luz branca o envolvia o fazendo voltar com sua forma humana. Os coturnos se transformaram em tênis, a calça se tornou jeans, a camisa branca se transformou novamente no moletom cinza de capuz e as luvas em suas mãos sumiram. Ele voltou a ter a altura de uma pessoa normal e as asas, os dentes caninos, a íris felina dos olhos, a pele cinza e as orelhas pontudas desapareceram, dando lugar às características de um humano comum
Miro viu uma gota de sangue escorrer pelo pescoço de Cass e viu que o chão estava repleto de sangue espalhado. Miro colocou a mão na boca enjoado com aquela enorme quantidade do líquido vermelho.
— O que aconteceu aqui?
— Não é da tua conta. Agora vai embora. — disse de modo frio
Cass projetou a espada de luz em suas mãos e a apontou de vez para Miro com a ponta da lâmina tocando a pele de sua garganta, o fazendo levar um tremendo susto enquanto engolia em seco e uma gota de suor escorria pela sua testa.
— É muito bom que não contes para ninguém o que viste. Ninguém pode saber que eu sou um Sayryn. Estamos entendidos? — perguntou de modo ameaçador
— N-não se preocupe. Seu segredo está a salvo comigo. — disse com a voz trêmula repleta de nervosismo em seu tom
— Hmf, assim espero. — disse afastando a espada de Miro e a fazendo sumir
Cass cobriu sua cabeça com o capuz do moletom e assim que se virou para ir embora, foi interrompido pelas palavras de Miro.
— É claro que eu não vou a contar a ninguém...com uma condição. — disse de modo sapeca
Cass se virou para ele novamente, mas seu rosto estava meio escondido pelo capuz e só era possível ver do nariz para baixo.
— Vós humanos não perdeis a chance, não é? — perguntou com a voz rouca cheia de irritação
— Mas é claro! — respondeu sorrindo
— Muito bem...o que tu queres?
— Eu não conto pra ninguém que você é um Sayryn...se você aceitar ser minha dupla pro projeto da escola! Quero que me ajude a escrever um livro sobre vocês!
— Eu já imaginava que podia ser isso...
— E então? O que me diz?
Cass ficou olhando para ele por alguns segundos e respirou fundo.
— Tudo bem.
— Sério?! Aaahh!! Legal!! — comemorou pulando bastante alegre
— Agora vê se cala essa boca e vamos embora daqui. — disse saindo caminhando
— Claro! — disse ainda sem retirar o sorriso de alegria do rosto
Miro o acompanhou e os dois saíram caminhando juntos pela floresta enfrentando a névoa acinzentada.
— Pode me dar um autógrafo? Só um! Eu sempre fui fã dos Sayryns! Você pode escrever aqui no meu braço! Ou se preferir pode ser na minha camisa, é a minha favorita! Quantos de vocês ainda existem? Vocês vivem mesmo num mundo acima das nuvens? O que vocês são exatamente? São metade elfos e metade anjos? Agora tá explicado porque você fala desse jeito esquisito! — disse Miro bastante eufórico
— Mas era só o que me faltava... — resmungou Cass irritado enquanto que o garoto tagarelava sem parar ao seu lado.
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