Savior
3 Third
— Você está com febre... — o mais novo sussurrou num tom preocupado, deitado ao lado do irmão na pequena cama de solteiro, naquele quarto barato de hotel. — Por que não me disse que não estava se sentindo bem?
Apesar de aquilo soar como uma repreensão, Sam apenas o mantinha contra seu corpo, sobre as cobertas, enquanto o loiro permanecia mudo, a testa pressionada contra seu peito, estremecendo mesmo sob o calor de seus braços e o tecido grosso que o rodeava. Não era como se Dean tivesse notado a temperatura alta de seu próprio corpo, até ser acordado pelo caçula, que alegava ouvir estranhos resmungos vindos de sua boca, e começar a ter calafrios.
— Mas eu estava. — teimou, como uma criança, apesar de a rouquidão denunciar seu estado debilitado, e, logo em seguida, corrigiu-se: — Eu estou...
— Claro que não! — o moreno revirou os olhos, prendendo-o contra si, um tanto incomodado.
A situação estava complicada. Não fosse a tempestade que caía, teria saído há horas daquele quarto, apenas para comprar um remédio que abaixasse a temperatura absurda do mais velho. Mas, infelizmente, estavam ilhados ali, sem ter como escapar. A única forma de fazer com que aquilo acabasse, era impedi-lo de tentar agir como se estivesse em perfeito estado, impedi-lo de dizer que continuariam caçando.
E, estranhamente, até aquele momento, Dean não tocara no assunto. Como se soubesse que Sam se negaria a escutá-lo, e o amarraria àquela cama se fosse necessário, apenas permanecia em silêncio, aceitando o conforto sem pronunciar nem uma única palavra.
O moreno não estava reclamando, porque, afinal, era justamente isso o que desejava desde o momento em que deitara ao lado do mais baixo, alegando que só sairia dali quando o loiro estivesse em perfeito estado, suando pelo excesso de tecidos e o corpo que o cobria como uma proteção; podendo, assim, xingar o mais novo com o primeiro palavrão que lhe viesse em mente. Afagou os fios dourados, acariciou a nuca, pressionou levemente a região da coluna, e teria continuado em seu tour de cuidados, não fosse o sussurro fraco que quebrou sua concentração no momento seguinte:
— Pode pegar um pouco d’água, por favor? Minha garganta está seca...
Com um longo suspiro, Sam assentiu antes de levantar e ir pegar o bendito copo. Nesse meio-tempo, Dean obrigou-se a sentar, recostado sobre a cabeceira da cama, erguendo as mãos para esfregar os olhos e afastar o sono; inquieto com toda aquela impotência, sem saber se deveria agradecer ao irmão por não se importar em ajudá-lo, ou se isso faria com que o outro o encarasse com as sobrancelhas arqueadas, o cenho franzido, os lábios comprimidos pela preocupação.
— Aqui.
Se lhe desse aquela liberdade, o mais novo provavelmente o teria feito beber sem permitir que tocasse o objeto, mas o olhar que o loiro lançou-lhe deixava bem claro que aquilo era o tipo de coisa que não toleraria, independentemente do quão abatido estivesse.
— Devagar. — o moreno manteve-se firmemente ao seu lado, o encarando enquanto Dean levava o copo aos lábios para tomar o primeiro gole.
— Não sou uma criança, Sammy. — grunhiu, antes de suspirar.
O caçula nada declarou, observando-o com cuidado; o loiro não conseguiu se sentir à vontade o bastante para manter os olhos nos dele. E Sam tocou seu rosto, acariciando o queixo, o nariz afilado, as maçãs proeminentes da face composta por traços duros suavizados pelas sardas. E contornou os músculos dos braços, com as pontas dos dedos, acariciando, pressionando, involuntariamente fazendo com que relaxasse, fechando os olhos.
E, por fim, Sam levou seus lábios aos dele, pressionando-os com cuidado, ternura. Depositou o copo na cômoda ao lado da cama, sem deixar de encarar o mais velho durante nem um único segundo, sentando-se ao seu lado e passando um braço por seus ombros.
— Deveria ter dito que não estava bem. — repetiu, num tom baixo. — Eu teria tempo de comprar alguma coisa na farmácia, se tivesse avisado.
Sentiu-o estremecer antes de tombar a cabeça contra seu peito. E Dean suspirou, os dedos brincando com o tecido da blusa do irmão, sem erguer o rosto para encará-lo.
— Eu sei, Sammy. — foi tudo o que disse. — Eu sei...
O moreno tinha plena consciência de que, se o mais velho estivesse verdadeiramente são, jamais teria falado aquilo. Sorriu, apertando-o ainda mais contra si, até ouvir o leve arquejo que indicava que o sufocaria se continuasse abraçando-o daquela forma. Puxou a coberta, envolvendo o irmão nela e enroscando os dedos em seu cabelo, mesmo sabendo que o outro não gostava, exatamente, daquele tipo de carinho.
Seguiria à risca a promessa que havia feito a si mesmo, mas o loiro precisava estar mais enérgico. Para, pelo menos, brigar com ele, xingá-lo, alegar que ficariam uma semana inteira sem qualquer tipo de contato. Precisava tomar conta do mais baixo, até que estivesse em perfeito estado, para que pudesse se divertir com as expressões que faria, com os sorrisos sacanas. Se quisesse de volta o irmão que admirava, precisaria cuidar dele naquele momento. Depois, poderia acabar com aquela dor.
Se tivesse sorte, o mais velho cooperaria, aceitaria sua decisão. Mas, conhecendo-o como Sam conhecia, sabia que as coisas não seriam tão simples; viveriam em pé de guerra.
Sentindo a agitação em seus braços, beijou sua testa com carinho.
— Volte a dormir Dean.
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