Saving me, Raping me. Fearing you, Loving you.

Chemistry — cujo o nome de batismo era Gerard, mas não revelava a ninguém mais desde que comprou um trailer e decidira viver sozinho — abriu os olhos verdes e os coçou manhosamente. Só então percebeu que tinha o braço de alguém lhe abraçando. Ele podia ser um homem muito boa pinta (e realmente era: apesar de preferir sempre a solidão e a escuridão), mas não era do tipo que tinha uma vida sexual ativa ou mesmo regular. Ele odiava ser tocado por qualquer pessoa. Chemistry foi rude ao retirar o braço que lhe abraçava, sem se importar – nem um pouco, aliás – com o que a pessoa sentiria ao ser rejeitada daquele jeito.

Ele aprendeu cedo a lidar com a reijeição das pessoas e aprendeu mais cedo ainda que tudo o que ele podia contar era consigo mesmo, todo o dinheiro que conseguisse fazer com truques de mágica e pequenos golpes, e álcool que ele mesmo manipulava. Chemistry tinha alguns poderes especiais e eram esses poderes que o mantinham vivo e seguro. Ele não sabia que não estava mais seguro e que poderia ter uma pessoa que seria capaz de manipulá-lo de uma forma irreversível.

Olhou em volta e percebeu que era o seu próprio trailer. Chemistry estranhou, porque ele nunca levava ninguém pro trailer, porque ele queria sempre ter um lugar pra se refugiar e pra um fugitivo, um trailer pra chamar de casa era ideal. Perguntou a si mesmo se, pela primeira vez na vida, algum álcool tinha feito efeito o suficiente para deixá-lo daquele jeito. Lembrou-se que suas adoradas pílulas calmantes deixavam clamo, mas causavam efeito alucinógeno algumas vezes que ele tomava com álcool.

Quando virou pro lado para ver a pessoa, assustou-se. No dia anterior estava com uma garota, tinha certeza absoluta que era uma garota cujo o nome era Charlotte! Percebeu que o cabelo do menino estava muito mais curto que o da garota com quem dormira, ele estava nu, mal enrolado numa coberta. Chemistry olhou para si mesmo e percebeu-se nu. Olhou umas camisinhas jogadas no chão do trailer e podia jurar que estava tendo alucinações sem mesmo ter tomado nada.

- Mas que merda é essa? – Ele pulou da cama numa rapidez quase invejável. Seus olhos verdes quase se tornaram vermelhos de indignação. Não, não era a bebida, ele havia mesmo dormido com uma garota e acordado com um garoto.

Observando friamente, o menino tinha feições bastante femininas. Era tudo muito delicado, tudo muito doce, muito receptivo. Chemistry se pegou admirando aquele rosto por um momento curto, mas não cogitou a possibilidade de tê-lo pra si nem por um momento. Ele se conhecia. Ele o mataria, mas nesse momento, ele o mataria por tirá-lo da moça que estava com ele.

Frank acordou com tudo dolorido. Com um homem gritando o que ele tinha feito com ele feito um alucinado, mas assustou-se quando viu as mãos do garoto seus olhos se arregalaram com o medo. Já havia acontecido outras vezes, acordado em camas desconhecidas com homens gritando que não foi com um homem que dormira, mas ele nunca se lembrava como chegara naquele lugar. As mãos do mais velho haviam se transformado em jatos de algum produto que ele não conseguia decifrar o que era.

- Onde está ela? – Gritou Chemistry, percebendo que ia chover, voltou seus olhos pra cima e deu um sorriso. – Eu acho bom você começar a falar antes que eu faça isso aqui em pedaços!

Chemistry não tinha esse apelido a toa. Ele tinha alguns poderes especiais: produzia, manipulava e controlava (quase isso) todos os tipos de ácidos, álcool e drogas derivadas do ópio (como a morfina). Naquele momento, as mãos de Gerard se tornaram dois jatos potentes de ácido sulfúrico concentrado. Sem falar que, graças a poluição do mundo, Chemistry podia transformar uma chuva comum em chuva ácida.

- C-calma, calma! – Frank pediu. – Eu não sei quem é você, pelo amor de Deus!

- O que você fez com ela? – Ele falou de novo. – Comece a falar ou eu juro que sua família não vai ter sequer seu corpo pra enterrar!

- N-não sei! – Ele falou irritado, meio desorientado. – Não sei, eu não lembro! Quem é você? Você que bebeu demais, esqueceu de mim e agora tá querendo me matar! – Frank falou num acesso, Chemistry franziu o cenho. — Por favor, senhor.

- V-você não sabe meu nome?

- Não, não sei. – Ele confirmou – Desculpe por isso.

As mãos de Chemistry voltaram ao normal e ele desfez o controle que tinha da chuva. Seria só água novamente quando caísse. A poluição do mundo deixa Chemistry mais poderoso que ele realmente era. O menino relaxou aos poucos e esticou a mão para o garoto.

- Chemistry.

- Frank Iero. – Frank apertou a mão do mais velho.

- Ierol? Riquinho e veio parar num trailer com um cara que não tem o menor pedigree. – Chemistry deu um sorriso. – Eu to muito fodido. Além de ser um Iero é um pirralho.

- Não se preocupe. Sou um Iero sozinho. – Chemistry quase não acreditou que estava falando com um homem lindo, de olhos expressivos e de meiguice envolvente. Só que ele não sabia que estava se enfiando num problema completamente sem volta. – Sabe onde estão minhas roupas?

Chemistry só percebera então que todos os lençóis dele estavam enrolados no corpo de seu acompanhante, mas como havia um ácido na mão de Chem, Frank nem teve tempo de contemplar o mais velho direito. Ao ser questionado, ele encolheu os ombros e Frank saiu atrás das suas roupas. Ele só sabia de uma coisa: tinha algo errado e mesmo que o menino fosse docemente meigo, tinha algo que não se encaixava: Charlotte.

Álcool nunca teve o menor efeito em Chem, como ele pôde não diferenciar um homem de uma mulher?

Quando Gerard saiu do quarto, vestido com jeans, camiseta branca e jaqueta quase não acreditou no que viu. Frank usando as roupas de Charlotte. Esfregara os olhos algumas vezes para não achar que era mais um pedaço do pesadelo que ele estava vivendo. Frank estava vestindo uma micro-saia e botas de couro que chegavam até acima do joelho. Uma blusinha regata branca decotada, mas que perdera toda a sensualidade no corpo magro de Frank. Sua mente fez com que Chemistry revivesse os momentos que passara com Charlotte.

- Charlotte? — Chamou baixinho.

- V-você sabe dela? — Frank engoliu em seco. — Ninguém nunca sabe dela.

- Você estava diferente ontem. — Chemistry falou, mas Frank não disse mais nada a respeito daquilo. — Bem, onde você fica?

- Qualquer lugar. — Frank encolheu os ombros. — Meu aluguél já venceu e a essa altura, fui despejado.

Infelizmente — ou talvez nem tanto — Gerard tinha um coração muito bondoso. Ficou com a consciência pesada em deixar o homem sem um lugar pra ficar. Supostamente ele não se lembrava de como havia chegado a Gerard, então não seria justo simplesmente deixar o menino por aí. Gerard o levou ao único lugar que considerava seguro: um bar.

Não era qualquer bar, era um refúgio para Chemistry. Um lugar que ele podia simplesmente ser ele mesmo, sem medo de seu passado — que o perseguia sempre — ou das pessoas. Ele os conhecia desde que tinha dezessete anos. O dono daquele bar, Ray Toro, se tornara o único amigo que lhe sobrara.

- Ray, preciso de ajuda. — Falou, segurando Frank pelo braço ao que o levav para dentro do bar. Ao ouvir a voz de Chemistry, Ray sorriu largamente. Sabia que seu amigo aparecia apenas exporadicamente. Principalente porque havia uma sociedade grande entre eles a respeito das drogas.

Gerard sobrevivia traficando heroína de farmácia, vendendo para farmácia e para viciados diretamente. Ray ajudava niso, ele vendia uma parte das drogas em seu bar e cobrava apenas cinco por cento do lucro. O bom de ouvir a voz de Chemistry era saber que teria mais mercadoria. Toro foi ver porque Chemistry — que sempre foi independente — estava precisando de ajuda.

- Hey, Chem. — Manteve o sorriso. — Qual teu problema?

- Ele. — Chemistry respondeu logo de cara, apontando Frank. — Sei que você tem um quarto aí nos fundos do bar. Preciso de um lugar pra hospedá-lo até achar um outro lugar pra ele em definitivo.

- E isso aí é homem? — Toro franziu o cenho, falando sem maldade. — Parece uma mulher pra mim.

- Acordei com ele agora a pouco. — Gerard encolheu os ombros. — Pode me fazer esse favor?

- O que eu não faço chorando que você me peça sorrindo, Chem? — Sorriu de leve. — Mas você tem que ver aquela mercadoria antes de sair daqui.

- Fechado. — Sorriu. — Ele é Frank Iero.

- Uh, saquei o problema.

- # -

Gerard voltou várias horas depois. Era de noite e o bar estava cheio. Pessoas de todos os tipos e quase todas as idades espalhadas pelas mesas de bilhar e mesas comuns. Bebendo e usando drogas — drogas das quais Chemistry era diretamente responsável. Segurando uma bandeija de cafeteiria, ele procurou por Ray que estava com uma cara nada boa, aquilo o preocupou.

- O que foi? — Perguntou. — Você nunca fica com mal humor pra mim.

- Tem algo muito errado com aquela criança. — Falou, suspirando. — Ninguém conseguiu entrar lá desde que você saiu e você sabe que a porta do quartinho dos fundos não tem fechadura.

- Como não conseguiram entrar? Pra que tentaram entrar?

- Eu ouvi gritos, coisas sendo quebradas, fiquei preocupado porque era um Iero e os Iero são podres de ricos e eu poderia me ferrar pra caramba. Só que eu não consegui abrir a porra da porta. — Explicou gesticulando.

- Droga! — Chemistry entregou para Ray a bandeija de comida que trouxera para Frank e saiu correndo e dizendo que pagaria a porta para o amigo. Concentrou-se e pôs a porta a baixo com seus poderes. O que os outros tentaram fazer foi arrombar, Chemistry perfurou um buraco usando ácido concentrado. Lá dentro, fumando, encontrou Frank, mas ele estava completamente diferente. — Você podia ter aberto a porta.

- Não ouvi ninguém bater. — Respondeu, jogando a fumaça pra cima. — Boa noite, Chemistry. Tá gostoso hoje.

O exemplar de pura meiguice se transformou em um exemplar de pura malícia em poucas horas. Ele fumava e seu braço começara a tremer por algum motivo. O busto agora estava levemente sobressaltado, como se nessas horas que Chemistry passara longe, o menino se transformara num exemplar feminino de malícia e determinação. A voz também estava mais fina e o cabelo alguns centímetros maiores.

O que Gerard não sabia era que Frank tinha mais do que poderes especiais. Frank tinha uma personalidade feminina. Eram duas mentes em um só corpo. Um corpo que passava por uma dolorosa transformação até chegar ao ponto que estava. Até Charlotte deixar de ser apenas uma mente para poder ter vida. Enquanto homem, Frank não tinha o menor poder, mas enquanto garota ele tinha telecinésia. Uma pena que para ter poderes Frank era obrigado a se desfazer de sua meiguice.

- Frank?

- O idiota foi embora. — Charlotte, o nome da segunda personalidade de Frank, falou com malícia. — Mas tem eu e sei que você prefere a mim, Chem.

- Ele foi embora pra onde? — Chemistry insistiu. — Eu trouxe comida para ele.

- Já disse, ele se foi. — Encolheu os ombros, apagando o cigarro no móvel. — Mas eu estou por aqui, para sua felicidde. Você derreteu a porta e nós perdemos não ter privacidade.

- Do que você tá falando? — Gerard ficou assustado. — Eu não vou transar com você nem pagando, Charlotte.

-Ah, poxa... — Charlotte fez um biquinho e foi se aproximando de Chemistry. Enroscou seus dedos nos cabelos do garoto e começou a sussurrar qualquer coisa ali.

O que ela queria na verdade era o descontrole de Chemistry. Ter novamente a sensação de ter mergulhado em uma piscina de heroína e ter saído viva de lá de dentro. Chemistry não gostava de ser tocado por seu descontrole. Uma vez matara uma menina com overdose de morfina e até controlar seus instintos, não queria mais ter sexo com ninguém.

Uma pena que não avisaram Charlotte que de novo conseguia exatamente o que queria.

- # -

Dias depois.

- Olha só, pirralho...

No final das contas, Gerard acabou por deixar que Frank morasse com ele no trailer. Depois de se envolver com ele e não entender muito bem a coisa da dupla personalidade, só queria manter Frank seguro e salvo de qualquer coisa que pudesse machucá-lo. Mesmo Charlotte.

- Frank. – O menor girou os olhos. – Por que insiste em me chamar de pirralho? Há dias você parece ter esquecido meu nome.

- Porque você e eu temos, pelo menos, quinze anos de diferença. Pra mim, você não passa de um pirralho. – Chemistry disse sem maldade, encolhendo os ombros. – Pois como eu ia dizendo, eu preciso sair agora. Tenho umas coisas pra resolver, mas vou te dar um aviso, aconteça o que acontecer não toque nos vidros que estão em cima da mesa. Principalmente aquela leva com as tampas azuis e verdes. As verdes são ácidos e dependendo do vidro de tampa verde, você pode morrer, compreende?

- Ahn, tudo bem. – Ele sorriu de leve.

- Tem comida na geladeira, é só usar o micro-ondas e não mexa nas minhas cervejas. Tem álcool demais pra um pirralho. – Falou, colocando uma jaqueta sobre a roupa que estava. Saiu portando uma maletinha.

Frank havia reparado que tinha uns vidros que Chemistry mexera quase o dia todo. Percebera também que por algum motivo, ele não o deixava chegar perto. Assim que o mais velho saiu, Frank decidiu que não teria problema se tomasse uma das cervejas de Chemistry. Eram só cervejas a final. Só que quando ele tomou um gole da cerveja que abrira e sentiu a garganta queimar como se tivesse tomando um gole de whisky puro.

- Urgh. Pior é que eu vou ter inteira. – Frank infantilmente colocou a língua pra fora.

Frank não sabia que Chemistry alterava as composições das cervejas, aumentando muito o percentual do álcool para que tivessem algum efeito nele. Aliás, Frank só tinha visto uma vez a manifestação do poder de Chemistry: quando acordou. Vira as mãos do menino virar um jato de alguma coisa, mas não saberia dizer de que substância era o jato. Colocou a cerveja sobre a mesa e pegou um dos vidros que Chem pediu para não pegar. Assustou-se quando percebeu que estava na casa de um traficante de heroína e drogas farmacêuticas.

O problema era que Frank era adicto em heroína.

Ao saber do que os frascos se tratavam, a bebida concentrada que ele se obrigava a beber parecia não ser suficiente para acalmar sua mente e a voz que gritava lá dentro querendo o efeito da droga concentrada. Terminando a cerveja, Frank procurou por uma seringa a casa toda, mas não achou nenhuma. Ficou intrigado por não conseguir achar, até que Charlotte o fez lembrar da seringa que ela carregava em sua bolsa. Usando aquela seringa, ele fez uso de dois frascos de heroína concentrada seguida.

Chemistry procurou por sua carteira na bolsa que usava para receber o dinheiro de um dos clientes, mas percebeu que estava sem. Enfiou o dinheiro no bolso e voltou pro trailer. Embora fosse homem, ele odiava andar com o bolso cheio de dinheiro e havia conseguido uma quantia significativa. Quando chegou, viu os frascos no chão, junto a garrafa de cerveja no chão e imaginou o que tinha acontecido.

- Mas que pirralho idiota!

Correu até o menino e confirmou o que havia acontecido. Chemistry podia sentir a carga extra de drogas no sangue do garoto. Colocou a mão sobre a veia furada e os lábios sobre os do menor que estava tendo uma overdose. Espumava pela boca e tremia como um louco. Chemistry começou a trazer para si todas as drogas de volta: o álcool e a heroína. Era um processo que doía bastante em Chemistry e também no alvo da reversão: Frank. Quando percebeu que nada mais vinha, ele se afastou e deitou no chão do trailer, ao lado de Frank e aplicou uma dose de codeína, apenas para aliviar a dor que sabia que o outro estava sentindo. Chemistry sangrava pelo nariz.

- Me desculpe... – Frank murmurou, usando o pano que fizera de torniquete para limpar o nariz do mais velho.

- Eu disse pra não mexer com isso! – Ele exclamou, meio irritado.

-Eu não resisti. Foi mais forte que eu. – Frank virou os olhos para o outro lado. Chemistry deu um pequeno sorriso, sem a menor emoção, mas o outro não viu. – Eu estive tentando parar e essa droga toda ali. Não achei que... faria diferença se eu usasse um ou dois frasquinhos.

- Só que os dois frasquinhos que você usou tem uma quantidade dobrada dos componentes químicos da heroína, pirralho. – Chemistry explicou – Você usou o concentrado, era como se pra cada frasco desse, você usasse três da heroína comum.

- Meu Deus! – Exclamou, surpreso. – Eu... nunca vi ninguém vendendo nada disso.E como você...? Como eu não morri?

Chemistry pegou o frasco usado, ainda dolorido, e colocou na frente do mais novo. Deu um toque leve na boca do frasco e o mesmo começou a encher da mesma heroína que o menino tinha usado. Frank ficou surpreso com o que estava vendo, nunca tinha sequer ouvido falar de alguém com um poder tão impressionante como aquele.

- Meus níveis de álcool e drogas são sempre muito altos. – Chem falou. – Por isso minhas cervejas são adulteradas. Não fazem efeito comigo. Eu produzo e manipulo toda droga proveniente do ópio (como heroína, codeína, morfina e metadona), todos os ácidos – incluindo os ácidos humanos como o sulco gástrico – e todos os tipos de álcool.

- Você é...muito poderoso. – Frank mordeu o lábio.

- Infelizmente. – Suspirou.

- Você não me parece muito bem. – Frank soltou o nariz de Chemistry e sorriu pro garoto.

– Eu tive que sugar de você toda a droga, ou você teria morrido. – Suspirou novamente. – É um processo dolorido tanto pra você, quanto pra mim. Você não tá sentindo, porque está sob efeito de uma dose pequena de codeína. Logo você melhora.

- E você? – Frank perguntou preocupado. – E a sua dor?

- Passa. – Chemistry respondeu vagamente. – Logo passa.

FIM.

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