Savin' Me

2 1x02 —Back in the road


Notas iniciais
Olá, hunters! Aqui está o segundo capítulo da série, Savin' Me. É um capítulo bem interessante e neles vocês poderão conhecer um pouco mais sobre David Harper, o tio de Ravenah e irmão de Joseph. Tenham uma boa leitura, nos vemos nas notas finais.

1x02 — Back in the road.

Acordou repentinamente; a respiração ofegante e o suor lhe banhando o rosto. Sentada na cama olhou ao redor observando aquela escuridão profunda que tomava o quarto. Ainda meio confusa olhou o despertador que em números azuis marcavam três horas em ponto.

Levantou-se ainda meio agitada, devido o despertar repentino e caminhou em direção ao banheiro. Ligou a luz e apoiou as mãos sobre o mármore da pia, dirigindo o olhar para seu reflexo confuso no espelho. Os cachos castanho-escuros que moldavam o rosto claro e combinavam perfeitamente com os olhos escuros do mesmo tom. Olheiras preenchiam abaixo dos mesmos, sobressaltando a cor clara de seu rosto, lhe dando uma expressão cansada de quem não tinha uma noite de sono completa há dias. E isso era verdade. Vinha dormindo pouco ao longo da semana; acordava mais de uma vez na noite e mantinha um sono cheio de interrupções.

Molhou o rosto e suspirou pensativa; sua vida passando rapidamente por sua mente. Escolhas, momentos e perdas. Estava na hora de receber respostas para perguntas antigas e por um ponto final em histórias inacabadas. Após secar-se largou a toalha na pia e desligou a luz retornando à cama. Pelo cansaço logo foi embalada pelo sono novamente.

O dia rapidamente amanheceu; alguns raios dourados atravessavam timidamente a cortina clara. O relógio marcava 08h00min e mesmo que ainda sentisse sono e quisesse se esconder embaixo do lençol, a jovem levantou-se e rumou até o banheiro bocejando.

Arrumou-se rapidamente e saiu do apartamento, seguindo até a universidade do Colorado. Trancou sua matrícula mesmo tendo a certeza que nunca mais voltaria aquele lugar e despediu-se de alguns colegas que lhe questionavam a decisão repentina. Suas respostas foram artificiais, informando que gostaria de viajar um pouco, distrair-se. Era sua decisão e não se arrependeria.

Com passos rápidos ela retornou para casa, tomou um café rápido e seguiu até seu quarto pegando suas coisas que havia arrumado na noite anterior. Colocou sua mochila nas costas e nas mãos outras duas com o que tinha ganhado de David. Armas, livros e tudo o que precisaria para se proteger longe dele.

Ao tentar sair do quarto enroscou o pé em algo que supostamente era uma almofada, e ao tentar se livrar do objeto que lhe prendia, resultou em tudo o que segurava caindo no chão. Odiou-se por ter feito tamanho barulho.

Alexie acordou com o barulho de algo caindo e levantou-se rapidamente pegando uma das algumas armas escondidas por aquele apartamento. Prontamente abriu a porta de seu quarto, respirando aliviada ao ver que era só a desastrada de sua melhor amiga querendo levar tudo de uma vez só. Ela realmente iria embora.

—Quer ajuda? —perguntou timidamente mesmo sabendo que era inútil tentar ajuda-la.

—Não obrigada! —respondeu seca, pegando as mochilas e saindo do quarto sem ao menos olhar para a outra.

Alexie a seguiu.

—Olha... Não precisa ser assim. Somos amigas, sempre fomos—disse e sua voz tinha um tom de mágoa. Seus olhos estavam miúdos e os cabelos curtos sobre o ombro, brevemente bagunçados; a pele levemente bronzeada era realçada pela a luz do dia que invadia o apartamento. Alexie tratou de mexer na franja, livrando alguns fios rebeldes que lhe cobriam a visão.

Ravenah virou-se, olhando-a.

—Uhum! —disse sem se importar muito—Tudo bem.

Seus olhos escuros mostravam sentimentos confusos e Alexie gostaria de desvendar cada um.

—Realmente é isso que você quer? —questionou enquanto observava a outra pegar as chaves do carro—Tem certeza?

A morena parou frente à porta. Os cabelos perfeitamente cacheados lhe cobrindo a jaqueta de couro, quase até o fim das costas.

—Já conversamos sobre isso, não é? Eu vou e se algum dia perceber que é praticamente impossível viver uma vidinha normal, me liga. Eu venho te buscar— se dirigiu abrindo a porta e saindo adiante pelo corredor sem ao menos se despedir da mais nova. Ravenah era o orgulho em pessoa e isso meio que moldava a sua personalidade de uma forma um tanto cruel.

Alexie observou o corredor vazio e percebeu que ela realmente havia ido embora. Adentrou o apartamento e fechou a porta. Sentia-se triste por ser daquele jeito, por elas não poderem desfrutar de uma simples vida normal ao lado das pessoas que amavam. Tudo era muito triste.

Ravenah chegou ao térreo com as mochilas em mãos e prontamente seguiu até o Ford Mustang 1968 fastaback azul-marinho, estacionado em frente ao prédio. Abriu o porta-malas e guardou suas coisas rapidamente sem muita organização. Certos costumes nunca mudam.

Abriu a porta e adentrou o carro, fechando-a em seguida. Olhou para os andares do antigo prédio que moravam desde que entraram na faculdade e viu que aquela parte da sua vida estava definitivamente sendo deixada para trás. Era preciso seguir seu caminho.

Ligou o rádio; o carro sendo invadido pela voz de Jon Bon Jovi.

It's my life

It's now or never

I ain't gonna live forever

I just want to live while I'm alive

(It's my life)

Deu partida e viu que não haveria mais volta. Caçaria sozinha. Viveria sozinha.

Dirigiu o dia todo com apenas algumas paradas; para almoçar, lanchar ou simplesmente descansar por alguns minutos.

A noite havia chegado e com a chave do quarto em mãos, ela seguia até o número indicado pelo senhor recepcionista do antigo motel à beira de estrada. Adentrou o lugar. Não era luxuoso e realmente ela não esperava por isso, algo simples e limpo, já era o suficiente. Já estava acostumada com hotéis pela estrada, a maioria das vezes confortáveis, por exigência de David. Conforto era algo que elas mereciam.

Nunca que o homem foi a favor delas caçarem, mas o trabalho batia em sua porta e David se sentia obrigado por alguém ou alguma coisa a descobrir e por um fim em cada caso. Deixa-las sozinhas a mercê do perigo estava completamente fora de questão.

Ravenah jogou-se na cama e encarou o teto. Chegava até ser engraçado. Ela tinha tudo para ser uma profissional incrível, era inteligente e de um esforço e dedicação inacreditável. Mas escolhera (ou talvez, não) viver na estrada, desvendando as mais terríveis criaturas, salvando e garantindo junto aos demais caçadores um mundo menos obscuro e oculto. Ah, e claro em busca de uma vingança, a qual jamais abriria mão.

Levantou-se largando os pensamentos de lado e seguiu ao banheiro, despindo-se. Embaixo da água morna sentiu o relaxamento lhe tomar, livrando-a do cansaço dos dias, em especial daquele. Após alguns minutos, desligou o chuveiro e enrolou-se na toalha retornando ao quarto, trocou-se rapidamente e checou se tudo estava em seu devido lugar em caso de algum ataque.

Seu corpo esticou-se na cama e adormeceu segurando sobre o peito um terço com inscrições no crucifixo que seu pai havia lhe dado meses antes de morrer.

Tudo se resolveria jovem criança.

A noite no Colorado era fria e por mais que Prescott quisesse se enrolar em um cobertor e dormir até que os problemas acabassem ela não podia. Mantinha-se rodeada de livros sobre psicologia e folhas com anotações importantes. Teria uma prova no dia seguinte e não achava que havia estudado o bastante. O ensino médio havia tão fácil e um tanto divertido. Lembrou-se do caso que resolveram aos dezessete anos na escola em que estudavam. Sem elas, grande parte da escola estaria abaixo do chão e provavelmente o local estaria fechado em um luto eterno.

Jogou os papéis que estavam em suas mãos sobre a mesa, cansada de tanto ler. O apartamento parecia silencioso demais, vazio demais, e era capaz até de ouvir a Sra. Brige conversando com seu gato no apartamento ao lado.

Levantou-se e jogou-se no sofá, passando o polegar pelos botões do controle. Daria um tempo na revisão da prova. Moveu seus olhos até a estante e pode ver o grande e grosso livro marrom de Ravenah; exorcismos e mais algumas armas contra o mal.

Seus olhos abriram-se lentamente; piscando algumas vezes devido à claridade que adentrava o quarto pela janela, que se mantinha descoberta pela cortina. O toque do celular parecia longe, por ainda estar sonolenta, porém correu a mão pelo criado-mudo ao lado direito da cama e pegou o aparelho.

Olhou o visor e isso a fez despertar-se rapidamente e de forma inevitável encolher os ombros em receio.

Respirou fundo e atendeu.

— Oi tio!

—Oi, Ravenah— sua voz era um misto de preocupação e cansaço. —Eu já sei de tudo.

Ela suspirou desapontada.

Foi a Alexie, né? —questionou olhando os seus dedos sobre o lençol.

Não, não foi!—David fora firme em sua fala.

Então, como sabe? Ninguém sabia, além dela. —parecia irritada, mas entendia que devia explicações a ele.

Preciso encontra-la, onde está?—ignorou a pergunta da moça, indo ao que interessava.

Em um motel no Nebraska... —suspirou dada como vencida.

Chegarei em um dia... Tente ficar viva, eu te amo.

Eu sei me cuidar. Também te amo, até.

Fechou os olhos após desligar o celular. Ele já sabia e ela queria acreditar que ele a apoiaria.

Dakota do Norte, Grand Forks.

Após desligar o aparelho, o homem percebeu o quão as coisas haviam saído dos trilhos. O quão suas tentativas de tira-la daquela vida haviam falhado. Lembrou-se de Joseph Harper, seu finado irmão; guerreiro, honrado e batalhador. O homem que seguira os passos do pai, que levara o legado dos Harper, o homem que cuidou dele, o irmão mais velho digno de todo agradecimento do mundo. Oh Deus! Quanto Joseph lutou para deixar David longe de tudo aquilo? Mas a vida de caçadores é assim: entrar e não sair, nascer e morrer naquilo e querendo ou não levar as pessoas que lhe cercam.

David suspirou; os olhos extremamente azuis fora de foco, sem olhar para algo realmente.

O sentimento de fracasso lhe consumia. Sentia-se culpado e injusto; fracassar logo com quem cuidou tanto de si, logo com Joseph...

Dias antes de morrer, o mais velho havia lhe chamado para uma conversa. Ele lhe disse: ‘’Cuide delas, Dave! Cuide como se não houvesse amanhã, e realmente pode não haver. Faça isso meu irmão e eu serei eternamente grato!’’

David não entendeu e até assustou-se. Por que seu irmão lhe dizia aquilo? Por que tanto pesar em sua voz? Ele não sabia naquele momento, mas pode entender dias depois. Joseph, Anne e Shay. Todos mortos e levando com eles as lutas, as batalhas vencidas e a força de cada um.

David tinha apenas 26 anos, era um rapaz quebrado pelas mágoas, as desgraças que a vida lhe mostrara e naquele momento tendo que lidar com a perca de alguém que jamais haveria substituição, alguém que o jovem nunca pensou em perder. Tudo era triste, era sombrio e o mais novo só gostaria de apagar tudo. Mudar sua vida; ter Joseph novamente rindo perto de si, tê-lo vivo, tê-lo lhe passando confiança. Querendo ou não, Joseph sempre fora o alicerce de David. Era o mais velho que lhe sustentava, que lhe dava forças quando suas feridas eram doloridas demais para ele seguir.

Após a perda de Joseph, David nunca mais fora o mesmo. Ele não sorria, e quando o fazia, era apenas uma linha que seguia por seus lábios, tão cheio de tristeza. Seus olhos eram confusos, cansados, tão cheio de decepções. David sentia-se como um prédio sem estruturas para manter-se de pé. Onde estava aquele que sempre esteve contigo? O irmão mais velho que lhe ensinou tudo o que sabia e mostrou-lhe como lidar com a pressão do mundo, da vida. Ele não estava ali. E o homem teve que procurar forças, aprender a andar sozinho e ter a certeza que se caísse não haveria a mão amiga de Joseph pra levanta-lo.

David passou a pensar nas meninas. Ele não podia ser egoísta ao ponto de fechar-se em uma tristeza profunda e deixar de cumprir o pedido de seu irmão, o qual era cuidar, cuidar como não houvesse amanhã daquelas duas garotinhas.

Apenas cinco anos elas tinham. Ravenah um pouco mais velha, tendo nove dias de diferença de Alexie, porém, eram jovens, inocentes, pequenas e tendo que carregar sobre suas costas um peso muito maior que o que podiam suportar.

Era doloroso e David gostaria de ficar somente abraçada com ambas, lhes protegendo e cumprindo o pedido de Joseph.

Mas não era assim fácil. Apesar de muito novas, as duas tinham a plena consciência do que ir morar no céu significava. O homem teve que aguentar firme ao ouvir perguntas confusas da pequena Alexie sobre sua mãe e a expressão dolorosa de Ravenah naquele rostinho de criança.

Doeu-lhe vê-la dizer, em um pedido sofrido, sussurrado: ‘’Eu quero o papai, tio Dave! Eu quero a mamãe’’ e logo após entrar em um choro contínuo, sendo quase palpável o sentimento doloroso que ela sentia.

E doeu também ver a pequena Alexie lhe questionar de todas as maneiras, com os olhos molhados e a voz tristinha: ''Tio, a mamãe. Eu quero ela.'' ''Ela não vai voltar?’’ Por que ela foi morar no céu, tio? Ela nem me levou.'’

O homem abraçou as duas e depositou um beijo sobre o cabelo de ambas, prometendo a si mesmo que as protegia a todo custo, cuidaria delas e se fosse preciso daria a vida por cada uma.

''Vai ficar tudo bem, eu estou aqui.’’

Em momento algum foi fácil. David teve que lidar com a dolorosa reação de Ravenah; a pequena calou-se por um longo tempo e desde aquele dia ela não foi mais como era. O homem percebia o quanto aquilo havia mudado sua sobrinha, o quanto a maltratara, lhe moldara. Retirando à força sua alegria e inocência de criança, lhe mostrando a realidade cruelmente.

Alexie observava sua amiga e gostaria de ajuda-la; mas sentia-se triste também e não sabia o que fazer. Pobre criança!

A filha de Joseph tinha pesadelos em todas as noites, seu sono não era tranquilo e seus gritos assustados mostravam realmente isso. O tio lhe abraçava e lhe dizia: ''Joph não está aqui, querida. Mas, o tio Dave está ok? Eu não vou te abandonar, minha garota. Nunca!''

Ela assentia, porém, nada dizia. Ravenah nunca mais fora a mesma e isso matava David.

Todos os três nunca mais foram os mesmos.

A vida seguiu e no recente momento David percebia que havia falhado. O que fizera Ravenah tomar essa decisão? Ele se perguntava e tentava entender. Por que ele não conseguia afasta-las de toda essa porcaria, assim como Joseph fez consigo? Era tão difícil manter uma palavra diante da sobrinha. Ela tinha um gênio forte, a personalidade idêntica ao do pai. Ravenah Harper era o desenho de Joseph; os cabelos escuros, os olhos da mesma cor, a pele em um tom pardo, a boca carnuda e um sorriso largo que lembrava perfeitamente o mais velho dos Harper. Todos que conheceram Joseph e viam Ravenah percebiam que a lenda que fora o caçador não havia morrido, havia sua filha. E ela seguiria com o legado, pelo visto.

David piscou, sentindo algumas lágrimas seguir por seu rosto claro. Ele não decepcionaria Joseph. Nunca.

''Tudo bem, Joph! Eu cuidarei delas, meu irmão!’’

Notas finais
Devo admitir que essa capítulo me tocou de certa forma. Inicialmente ele não teria essa parte do David, apenas a volta para a estrada de Ravenah. Porém, ontem a noite, apesar de estar cansada, com o sono atrasado, eu resolvi revisar o capítulo. Li ele e vi que faltava algo, tentei iniciar algum trecho, porém, era raso. Tentei novamente e a escrita fluiu naturalmente. Como pode-se ver é um capítulo bem emocional, podemos ver nitidamente como cada um reagiu a perca da família e como isso mudou eles. Gostei muito do resultado, e espero que tenham gostado também. Comentem, favoritem, recomendem, Hunters! ♥ Ah, gostaria de agradecer à Pye, pelo primeiro comentário da série. Muito obrigada e espero que não abandone a história ♥ *Música do capítulo: It's My Life — Bon Jovi.