Save me

1 Rumo ao desconhecido


Notas iniciais
O primeiro capítulo é uma "continuação" da 2º temporada;Espero que gostem;

P.O.V Bellamy

O portão se fechou com um baque, separando-nos dos nossos inimigos.

Eu esperei, o coração palpitando de forma desconfortável no peito.

Eu não queria olhar para trás, se o fizesse isso chamaria a atenção dos demais.

Eu precisava deixar ela ir, por mais que isso me martirizasse.

A movimentação dentro do acampamento era espantosa.

Pessoas se abraçavam felizes pelo reencontro, outras choravam a morte dos que se foram e muitos estavam concentrados demais tentando não morrer para se preocupar com qualquer coisa que fosse.

Visualizei Octavian e Lincoln há alguns passos de mim.

Ambos estavam tão absortos em um abraço que minha presença nem fora notada.

Eu sentia muito orgulho de Octavian. Ela havia se tornado uma guerreira, suficientemente treinada e pronta para tudo. Mas, ainda assim, me sentia estranho por perceber que minha irmã, minha pequena e vulnerável Octavian, não precisava mais de mim. Na verdade, ela não precisava nem mesmo de Lincoln. Ela era auto-suficiente.

_Bellamy?

Virei-me e vi Marcus, ainda com hematomas e escoriações pelo corpo.

Ele se aproximou e, para minha total surpresa, estendeu a mão.

_Obrigada, por tudo.

Apertei sua mão, os dedos rígidos, a postura ereta demais.

_Eles são meu povo. Nunca os deixaria._minha voz saiu com uma camada de remorso sutil.

Marcus pareceu ligeiramente envergonhado.

_Entendo. Eles lhe respeitam. Respeitam a Clarke e, por mais que isso seja insano, eu sei que vocês se tornaram uma espécie de líderes para eles.

Marcus me olhava de forma solene, sua voz não trazia raiva, frustração ou confusão. Apenas a face de alguém que admitia que estava errado.

_Clarke é a líder. Me contento em ser o braço direito dela, afinal, é para isso que servem os amigos.

Marcus assentiu brevemente e se afastou devagar, contendo palavras que, provavelmente, estavam entaladas em sua garganta.

Olhei para a confusão de pessoas em meu entorno.

Rostos conhecidos foram ganhando destaque gradativamente: Miller estava ao lado do pai, seu rosto abatido trazia um brilho de alegria, mesmo em meio ao massacre de sangue e corpos que deixamos para trás; Monty estava ao lado de uma garota loira, talvez seu nome fosse Harper. Ele parecia cansado, mais tranquilo, como se enfim sua luta tivesse chegado ao fim; Jasper estava num canto, abraçado com uma arma como se fosse um bote salva-vidas, seu rosto estava pálido e suas feições eram indecifráveis. A morte de Maya mexera com Jasper, eu o entendia, apesar de tudo. Ele precisava de tempo, assim como Clarke.

Clarke.

Um nó se fez em minha garganta ao relembrar a dor de seus olhos.

Ela estava transtornada. Causara muitas mortes em prol de seu povo e, por mais que isso tenha sido o certo, Clarke agora carregava o peso do mundo nos ombros, um peso que nem o tempo conseguiria curar.

P.O.V Autora

Pedregulhos rolavam abaixo dos pés de Clarke causando um barulho alarmante.

Ela estava ciente que, a qualquer momento, poderia ser atacada, mas ela rumava sem caminho, desejando encontrar um ser ou animal capaz de curar seu sofrimento num único golpe.

Ela havia se tornado uma assassina impiedosa, capaz de matar muitos pelo bem de poucos. Capaz de trair seu povo em prol de uma guerra, de uma vingança.

Ela matara crianças;

Matara soldados que confiaram nela;

Matara até mesmo homens e mulheres de seu grupo;

Ela matara Finn, de forma automática e fria.

Ouviu que a culpa da morte de Finn não era sua. Que ela o ajudou. Que amenizou uma dor infinita e excruciante.

Mas ela não via dessa forma.

Por um tempo deixou-se enganar pelo ato de bondade que a morte de Finn fora, mas agora, agora o sangue pingava de suas vestimentas, Clarke via que fora apenas seu instinto lhe falando que Finn era apenas um, enquanto centenas de vidas estavam em jogo.

Deixou-se pensar: e se fosse ao contrário?

E se Finn tivesse que matá-la ou deixá-la para ser tortura nas mãos de Lexa, o que ele faria?

Mas a resposta para sua pergunta era simples e clara e Clarke percebeu o quão monstruosa era.

Finn não teria hesitado em defendê-la. Teria pago com seu próprio sangue, mesmo que isso não a salvasse de fato, mas teria tentando. Não deixaria que ninguém lhe fizesse mal. Não se importaria com sua vida se ela não estivesse ao seu lado. Por quê então ela abrira mão dele tão facilmente?

Por quê não seguiu as malditas ordens dos demais e pegou seu povo e foi embora enquanto tinham chances?

Por quê preferiu, mesmo que rapidamente, arriscar a vida de Finn a lutar?

Morreriam?

Sim, com toda certeza não sobraria um sobrevivente da Arca para passar adiante suas histórias, mas morreriam como um grupo, como um clã unido, que defende um ao outro.

A culpa era dela, constatou.

Ela sempre tinha algo a dizer, algo a reafirmar ou contestar. Nunca estava feliz em manter-se de boca fechada. Sempre estava seguindo na frente, liderando sem ter capacidade de liderar.

Clarke permitiu-se se afundar ainda mais dentro de si.

Ela queria, desesperadamente, um fim rápido e repentino, como num abrir e fechar de olhos. Mas sabia que não tinha esse direito.

Sabia que sua morte deveria ser lenta e dolorosa, como punição pelas suas mãos sujas de sangue.

Pela primeira vez Clarke não teve medo, tudo o que sentia era um aperto de ansiedade na boca do estômago. Morrer significava acabar com a dor, com a tristeza e com o sentimento de culpa que lhe golpeava de forma certeira.

Ela queria o fim.

Ela teria o seu fim.

P.O.V Bellamy

A noite chegou rápido e a euforia era tanta que ninguém percebera a ausência de Clarke.

Abby estava ocupada demais se recuperando junto de Raven.

Jasper estava exasperado para sequer cogitar o desaparecimento de sua amiga.

Monty, por fim, foi o único que veio até mim, sua expressão demonstrava apreensão.

_Bellamy, não vi mais a Clarke desde que chegamos.

Não foi uma pergunta e, nos olhos de Monty, eu pude ver o desespero ali contidos.

_Ela precisa seguir o caminho dela, Monty.

Monty abriu a boca várias vezes para falar, mas as palavras se perderam na mesma.

_Diga-me que ela vai voltar. Ela tem que voltar! É nossa líder!_Monty alterou um pouco a voz, mas estava tão fraco que ninguém percebera a elevação do tom.

_Monty, acalme-se. Clarke sempre soube o que fazer. Isso nunca irá mudar.

Minha voz era segura, firme até, mas por dentro eu sentia a insegurança tentando desmoronar o muro de emoções contidas em mim.

_Mas ela não pode ficar na floresta sozinha. Não somos mais aliados dos terra-firme, eles podem matá-la!_justificou, as mãos se mexendo ao lado de seu rosto.

_Clarke é a pessoa mais corajosa e forte que eu já conheci. Ela saberá se defender. Não tenho dúvida disso._garanti.

Monty me olhou nos olhos, seu olhar era cansado, como se estivesse envelhecido trinta anos nas setenta e duas últimas horas.

_Mas ela é humana, Bellamy. Uma humana que sacrificou crianças, homens e mulheres e teve de matar, com sua próprias mãos, o namorado. Por mais forte que Clarke seja não é o suficiente. Ela carrega uma mar de sangue em sua história. Ela não pode ficar sozinha, não agora.

Meu coração se apertou ainda mais dentro do peito.

Monty tinha razão.

Clarke era humana e, como tal, não aguentaria as centenas de mortes depositadas sobre seus ombros.

_Não podemos fazer nada, Monty. Eu queria, de verdade, que Clarke voltasse. Mas eu a vi. Ela já não é a mesma. Ela mudou. E, por mais que seja seguro mantê-la aqui, ao nosso lado, não podemos pedir isso à ela. Já esgotamos nossas cotas de pedido ao lhe entregar um fardo de mortes. Não podemos fazer com que ela olhe para cada rosto todo dia sem sentir a culpa da morte de alguém. Isso, Monty, seria demais para ela.

Monty apenas me olhava, de seus olhos caíram duas lágrimas solitárias.

Ele assentiu uma vez, seu corpo tremendo para conter os soluços.

_Só espero que ela fique bem._falou fungando.

Depositei minha mão no ombro de Monty, confortando-o.

_Só o tempo nos dirá isso, meu amigo.

Notas finais
Beijos, nos vemos nos próximos capítulos;Comentem!