Save me
12 Defesas
Notas iniciais
P.O.V Autora
_Eu sinto muito mesmo._falava Jasper pelo que parecia a centésima vez naquela última hora.
Bellamy fez um gesto abrangente, deixando claro que, agora que sua raiva tinha se esvaído, ele já não estava mais bravo com o rapaz.
_Vai me dizer o que estava esperando para atirar?_questionou o Blake com uma careta, tentando disfarçar a dor que a bala em seu ombro espalhava por seu corpo.
Bellamy viu a face de Jasper sobrevoar seus pensamentos inquietantes.
Jasper havia mudado muito desde a época em que foram trazidos para terra firme, mas, agora, Bellamy via que, dentre todos, Jasper era o que mais havia sofrido emocionalmente com todas as reviravoltas que à Terra trouxera para cada um.
_Não precisa me responder._avisou o Blake, identificando o esforço quase sob humano de Jasper.
Os olhos do garoto, tão negros e perdidos, se voltaram para Bellamy com dureza.
_Eu sei. Mas eu quero falar.
E então Jasper falou de seu "encontro" com Finn, da imagem de Maya e Bellamy morrendo aos poucos e de como tudo ficou tão complicado quando percebera que ele precisava escolher: deixar a radiação consumir a vida de Maya ou esperar a morte lenta de Bellamy.
O Blake escutava tudo atentamente, observando cada linha de desespero tingir a expressão de Jasper e, naquele instante, ficara ainda mais claro para Bellamy o quanto Jasper precisava ser salvo de si mesmo.
A insanidade estava sutilmente impregnando Jasper dia após dia, se nada fosse feito era certo que o rapaz afundaria ainda mais até não sobrar nada.
_Vou ajudá-lo a sair dessa, Jasper. Você não está sozinho._garantiu o rapaz, a face compenetrada, uma promessa de ajuda embutida em sua simples frase.
Não foi surpresa para Bellamy quando os olhos de Jasper se encheram de lágrimas e ele soluçou igual a uma criança que havia perdido a infância.
Bellamy, mesmo fraco por conta da bala alojada em seu ombro, permitiu-se acalmar o confuso Jasper, enquanto seus pensamentos se dividiam em dois objetivos que, de certa forma, se assemelhavam: salvar Jasper de seus fantasmas e salvar Clarke de si mesma.
***
_A corda está machucando. Meus pulsos estão em carne viva._reclamou Clarke, a face coberta de suor e sujeira.
Lars olhou os pulsos da garota e se odiou por estar tendo que fazer aquilo.
_Desculpe, mas não vejo outra forma de agir.
Clarke não disse nada. Assim como Tristan, Lars ficara igualmente abalado com a tentativa da garota de dar fim à sua própria vida e isso apenas se alojava ao peso de culpa que a garota carregava.
_Eu sinto muito. Não queria que vocês tivessem nada a ver com isso._garantiu se remexendo inquieta.
_Não se trata disso.
_Se trata do que, então?_a voz de Clarke saíra mais dura do que ela pretendia, mas era inevitável não sentir raiva e frustração quando haviam cordas impedindo-a de fazer qualquer movimento.
Lars olhou-a.
Os olhos amendoados do garoto eram tão parecidos com os de Finn que Clarke teve de desviar o contato para se manter focada na conversa e na certeza que não estava frente à frente com seu ex-namorado.
_Se trata de protegê-la de si mesma.
A cabeça de Clarke se voltou para a figura de Lars com rapidez, seus olhos queimando em sentimentos que a garota mal sabia identificar.
_Minha vida é problema meu!
_Sim, mas até você saber o que fazer com ela eu não vou lhe libertar._rugiu Lars com ferocidade, os olhos tão duros e indecifráveis que Clarke mal conseguia achar qualquer semelhança que fosse com os sempre tão bondosos olhos amendoados.
_Por quê se importa?
Lars caminhou até a soleira da porta e abriu a mesma, deixando raios de um amanhecer incandescente adentrarem pela cabana escura.
_Ainda acredito na raça humana. Podemos sim melhorar. Podemos reconstruir tudo que um dia nossos antepassados foram._os olhos de Lars traziam a esperança perdida que Clarke tanto lembrava de carregar consigo_Mas, para que isso posso se tornar realidade, precisamos de pessoas como você. Pessoas que sabem liderar sabiamente e que, mesmo depois de tudo, ainda mantém a fé no futuro.
_Sabe que não acredito mais nisso._salientou a garota, a amargura presa à sua voz e às suas feições.
_Não acredito nisso. Nem eu e nem Tristan e, embora você afirme o contrário, sei que também não acredita.
_Você está enganado.
_Não. Você está enganada.
Clarke assistiu a luz do sol arder sobre a pele alva de Lars, enquanto o mesmo seguia para fora da cabana.
***
P.O.V Clarke
As palavras de Lars se misturavam à de Tristan e, a medida que faziam sentido, eu me sentia cada vez mais hipócrita.
Eu realmente acreditava na raça humana.
Vim para o planeta Terra como prisioneira, banida da Arca por mal comportamento e, mesmo assim, mesmo após ver meu pai ser morto, incapaz de se defender, descobrir a traição de minha mãe e matar Finn com minhas próprias mãos, ainda sim me mantive em pé, com a cabeça erguida, encarando tudo e todos por acreditar, acreditar que podíamos mudar e viver em paz.
E, embora eu soasse tão confiante em minhas alegações, eu me odiava por saber que no fundo eu mantinha uma centelha de fé crepitando.
Eu acreditava no amanhã.
Acreditava na raça humana.
E, principalmente, acreditava que um futuro poderia ser construído para todos.
Lars tinha razão.
Tristan tinha razão.
A carga de sofrimento e culpa me consumira ao ponto de me fazer largar meu grupo, de largar aqueles que, como eu, estavam apenas tentando encontrar seu lugar no mundo.
Com um novo pensamento se consolidando dentro de mim adormeci.
E, pela primeira vez em muito tempo, não tive pesadelos.
***
P.O.V Tristan
_Não me peça isso, Lars._eu estava implorando, mas Lars parecia bastante certo sobre sua decisão de me importunar.
_Se fizer isso lhe garanto que não lhe peço mais nada._mentiu.
Revirei os olhos.
Aquela frase era tão típica de Lars que, caso eu fechasse os olhos, várias cenas como aquela vinham a minha memória.
_Não posso, Lars. Sabe que ela vai tentar fazer alguma coisa e não quero ter de passar por isso de volta._garanti, me lembrando das noites sem dormir, enquanto o corpo inerte de Clarke se mantinha desacordado.
_Sei que foi difícil para você. Não estou dizendo o contrário. Mas..._Lars pausou, esperando um grupo de jovens passar para prosseguir a fala_Selenia está desconfiada de que há algo errado. Há alguns dias ela me pede para visitar minha cabana e eu estou fazendo de tudo para mantê-la afastada.
_Isso é o que dá sempre levá-la lá._o repreendi, chateado pelo que viria.
_Por favor, Tristan. Realmente preciso da sua ajuda.
_Por que não a deixa ir? Seria tão mais fácil._suspirei, sabendo que a opção mais fácil era a que mais exigia precauções.
Lars era um cara de ideologias, de caráter intacto que, de certa forma, me ensinou a ser assim. Graças à ele não me tornei um assassino e, seja o que ele tivesse em mente, eu sabia que era a coisa certa a fazer.
_Que horas pego ela?_perguntei derrotado, assistindo Lars triunfar com um sorriso gigante no rosto.
_Começo da tarde. Pretendo tirar Selenia da cabana até à noite._garantiu.
Assenti, respirando profundamente.
Seria uma longa tarde.
***
P.O.V Clarke
Sobressaltei de meu sono e me assustei a ver Tristan à minha frente, desamarrando as cordas que me mantinham refém.
_O quê...?
_Não pergunte, apenas me siga._ordenou ele me pondo de pé e mantendo suas mãos como apoio até que eu pudesse me firmar.
Tristan retirou uma pequena e fina corda do bolso e a entrelaçou novamente aos meus pulsos.
Ele sorriu ao ver minha cara de frustração.
_Não sou tolo. Quase posso ver você arquitetando um plano para se ver livre._alertou me puxando para perto dele enquanto tratava de amordaçar minha boca.
Me debati em protesto, mas Tristan logo me imobilizou com suas mãos grandes. Seus olhos azuis estavam perto o suficiente para que eu pudesse distinguir as cores que se misturavam a leveza do azul...cinza...preto.
_Não tente gritar, você colocará a si, a mim e a Lars em perigo. Se tem um pouco de consideração por ainda estarmos poupando sua vida, a hora é agora para considerá-la.
E, por mais incrível que fosse, eu sabia que lhes devia muito. Estava lúcida o suficiente para entender que estava em dívida com eles.
Assenti devagar, concentrada nos olhos que me encaravam com fervor.
Tristan segurou-me pelos pulsos acorrentados e me guiou para a luz cegante do começo da tarde.
Minha visão, por meros segundos, viajou pela escuridão, se adequando a luz do dia a medida que a mesma se apresentava.
_Venha por aqui._instruiu baixo, tomando o cuidado de nos guiar por caminhos estreitos e apertados.
Tive uma visão panorâmica do que era a aldeia Condor e, pelo que vi, era tão assustadoramente normal quanto a própria Arca.
Havia, com toda certeza, uma liderança naquele meio, caso contrário como haveria união?!
Mas, mais do que isso, havia afabilidade e comunicação. As pessoas elaboravam suas tarefas sempre atentas, com um sorriso amigável e entre conversas entusiasmadas.
Era o paraíso na Terra.
Tristan percebeu que eu parara atrás de um cesto para ficar observando a movimentação e logo me trouxe para a realidade.
_Precisamos ir._ordenou me fazendo segui-lo.
Após uma breve caminhada, estávamos finalmente entre o verde resplandecente da floresta.
Fiz um aceno para a amordaça em minha boca, implorando para ser retirada dali.
_Não grite._avisou ele.
Rolei os olhos, meus corpo tensionado ao sentir as mãos dele sobre meu rosto.
Com habilidade e delicadeza Tristan retirara o pano, deixando-me livre para sentir o cheiro fresco de planta e solo molhado.
_Bem melhor._garanti inspirando o ar com vontade.
Tristan sorriu levemente, me guiando mais alguns minutos, a mão atenta em meus braços.
_Para onde estamos indo?_questionei, curiosa por perceber o quão despreocupado ele estava.
_Estou levando você para a cachoeira, fica logo mais à frente.
_Por que estamos indo lá?_emendei, querendo respostas mais do que nunca.
Tristan me encarou, seu rosto relaxado sob o sol aconchegante.
_Hoje você quer conversar?!_ironizou com um sorriso de canto.
_Não seja tolo. Apenas estou me assegurando de que retornarei com vida._garanti, sem de fato ser essa minha preocupação.
O verdadeiro problema era que eu precisava ouvir. Precisava conversas para garantir que não enlouqueceria submersa em meus próprios pensamentos.
_Agora se preocupa com sua vida?
Percebi que toda a brincadeira e divertimento haviam sumido da face de Tristan, restando apenas uma seriedade profunda.
Assenti.
_Você estava certo, afinal. Sou a mocinha, não posso mudar o que fiz, mas posso tentar não errar novamente._garanti, enquanto uma esperança adormecida acordava dentro de mim.
Tristan sorriu, o sol iluminando suas madeixas loiras, enquanto seus olhos faziam questão de exibir o azul límpido deles.
_Espero que não mude de ideia ou que esse seja apenas um blefe para se livrar das cordas._falou sorrindo.
Impressionando mais a mim mesma do que à ele, eu sorri, como há muito tempo não sorria. A sensação foi boa, enchendo-me de uma paz reconfortante.
Andamos algum tempo mais até Tristan estagnar, indicando a cachoeira à frente.
_Chegamos._anunciou com um singelo sorriso_Estenda as mãos.
Franzi o cenho, confusa.
_Por quê?
_Pare de fazer tanta pergunta. Você quer ou não se ver livre dessas cordas?_disse ele insinuando um sorriso.
Não perdi tempo.
Logo minhas mãos estavam desamarradas, livres das cordas afiadas.
Massageei os machucados que circundavam meus pulsos, um brinde das algemas persuasivas.
Voltei meu olhar para Tristan e percebi o quão incomodado ele ficara com aqueles minúsculos machucados.
_Não é nada._garanti.
_Não precisaria usar se não fosse tão impulsiva.
Em outro momento eu retrucaria sua fala, mas ele estava certo. Não havia porquê tentar parecer vulnerável, quando eu sabia que de vulnerável eu não tinha nada.
_E agora?
_Agora você toma isso._disse me entregando uma pequena trouxa que eu não havia percebido_E faz um favor à todos: tome um banho.
Minha boca escancarou em ofensa.
_Está me dizendo que estou fedendo?_perguntei envergonhada e enraivecida.
Tristan gargalhou vendo minha expressão.
_Já estava imaginando a que horas os abutres seguiriam o seu cheiro.
Embaixo de toda raiva eu sabia que ele estava certo.
Há semanas eu não me banhava e o cheiro, definitivamente, não estava dos melhores. Eu quase podia sentir meu cabelo se empertigar no alto da cabeça, implorando por água límpida.
_O lago é seguro?_perguntei aprumando a pequena trouxa no ombro.
Tristan assentiu.
_Usamos para nos banhar aí. Toda a aldeia._garantiu.
_Não é arriscado?
_Só existe uma entrada e eu estarei vigiando para que ninguém a importune. É ideal._justificou dando de ombros.
_Ok. Retorno em alguns minutos._avisei caminhando alguns passos.
_Não se apresse. Pode aproveitar o quanto quiser para se limpar, faça esse favor à todos nós.
O olhar que lhe lancei deve ter sido mortal, pois apenas serviu para fazê-lo gargalhar às minhas custas.
***
P.O.V Tristan
Encostado em uma árvore eu vigiava a entrada da cachoeira despreocupadamente, mas o barulho de cascos foram o suficiente para me alarmar.
O som era distante, talvez cinco ou seis cavalos, no máximo, mais rondavam o território em busca de algo, ou melhor, de alguém.
Me apressei por entre os arbustos, contornando os mesmos até a cachoeira.
Clarke precisava sair dali agora.
Mas, no segundo em que visualizei sua imagem, percebi o quão tolo havia sido.
A garota estava de costas, imersa na água até a cintura, expondo sua pele alva e suas curvas sedosas. O cabelo claro pingava nas costas, agora limpo e suave, como deveriam ter sido a vida toda.
Meus olhos estavam grudados na imagem de Clarke, banhando-se com delicadeza e tranquilidade, o mais natural o quanto poderia ser.
Engoli em seco, tamanho era o desejo que crescera dentro de mim.
Tentei me focar no que vim fazer e, devagar, me virei de costas, fechando os olhos e mantendo a calma que sempre dispunha.
_Precisamos ir._falei alto, sabendo, pelo barulho da água, que ela havia se sobressaltado.
_O que está fazendo aqui?_rugiu brava, o que me fez sorrir ao imaginá-la com a face ruborizada de vergonha.
_Não há tempo. Há homens vindo por esse caminho._alertei, enquanto ouvia o barulho da água.
_Não se vire._avisou ela, com toda a dignidade que lhe restava.
_Não se preocupe. Não há nada para ver._menti, sentindo o peso da mentira se abater sobre meus ombros.
Em menos de um minuto uma Clarke encharcada, com o cabelo molhado e usando roupas limpas, se apresentou ao meu lado.
Me permiti ver o quão a roupa que Tristan havia roubado de Selenia havia se ajustado de forma colossal ao corpo da jovem líder.
Clarke deve ter percebido minha avaliação, porque se apressou a perguntar:
_Ficou tão ruim assim?
Não, é claro que não havia ficado nada ruim, mas, por outro lado, havia ficado terrível: era difícil me concentrar quando o corpo dela ficava tão destacável naquelas roupas.
_Vai servir._desconversei, apressando o passo e levando-a comigo.
_Quem você acha que é?_questionou ofegante, enquanto corríamos do barulho ensurdecedor que os cascos causavam.
_Não faço ideia.
Nossos pés se moviam na mesma sincronia e eu quase poderia tê-la beijado de gratidão por isso.
Mas, embora estivéssemos nos saindo bem em nossa fuga, os cavalos eram mais velozes, não conseguiríamos.
Fiz Clarke parar, vendo o medo afundar em seus traços suaves.
Ela era, de fato, apenas uma garota, embora sua coragem fosse extraordinária.
Só havia uma coisa a fazer para passarmos despercebidos.
Levei a mão ao solo bolorento, ainda molhado pelas chuvas recentes, e passei no rosto limpo de Clarke.
_O que você...?
Não deixei que ela finalizasse sua pergunta, ela falava demais e, no momento, precisávamos salvar nossas vidas.
Enrosquei meus braços na cintura dele e a trouxe para junto de mim, chocando seu corpo ao meu. Eu pude ver a indignação e confusão perpassar em seus olhos azuis, mas se foram assim que meus lábios encontraram os dela em uma confusão de sentimentos excruciante.
Pude ouvir os cascos dos cavalos, risadas e alguém xingando baixo.
Eles estavam indo embora, perceberam que não se tratava de nada mais do que um casal de namorados.
Relaxei, meu corpo todo diluindo a preocupação e dando lugar a um desespero faminto.
Clarke continuava a atuar em seu papel de namorada, até ouvir os cascos se afastarem o suficiente para rompermos o beijo.
Mas não o fizemos.
As mãos de Clarke em meu cabelo, minhas mãos sobre o corpo dela..., tudo parecia se encaixar meticulosamente.
Pude senti-la se afastar devagar, os lábios inchados e rosados, o rosto uma máscara de terra adorável.
_Eles já foram?_cochichou perto o suficiente para que eu pudesse sentir seu hálito quente.
_Acho que já._assegurei me afastando.
Clarke levou a mão a face e limpou a mesma, rindo no ato.
_Você adora me ver suja, não é mesmo?_disse rindo, como se o episódio anterior não tivesse tido impacto nenhum nela.
Sorri, enquanto percebia seu sorriso crescer no rosto.
_Bom..., a hora de descanso acabou, estenda os braços._ordenei, tentando soar tão mandão quanto aparentava.
Ela revirou os olhos, estendo a mão obedientemente, mas sem deixar de compartilhar de seu sorriso caloroso.
Armei minhas defesas.
Era hora de tomar cuidado para Clarke Griffin não ultrapassá-las.
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