Save Me
2 Capitulo 2
Notas iniciais
Façamos da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança,
Do medo uma escada,
Do sonho uma ponte, da procura um encontro!
Fernando Sabino
Hidan estava naquele momento sentado no seu sofá de cor verde, a sala era escura, assistia televisão e bebia mais uma cerveja, outras tantas vazias pousavam sobre a mesa cinzenta no centro da sala. Estava pensativo, não gostava nem um pouco de Temari trabalhando de noite num barzinho qualquer. Evidentemente sabia bem que a esposa não o amava, e isso era arriscado... A deixar sozinha com outros homens. No entanto sabia que ela não seria tola o suficiente para o trair, ou sequer pensar nessa possibilidade.
Soltou suspiro carregado de raiva, olhou o relógio de parede que marca meia-noite e dois minutos. Realmente estava ficando tarde e nem sinal da sua mulher. Decidiu que esperaria mais meia hora, se ela não chegasse, de manha teriam uma conversa daquelas que ele tanto apreciava. Esperava que ela possuísse uma boa desculpa para demorar tanto a chegar a casa.
……
Temari acabava de contabilizar o dinheiro no cofre, não tinha faturado muito era uma certeza. Os preços eram baratos e os clientes poucos, muito poucos na verdade. Mas mesmo assim sentia-se cansada e sem vontade nenhum de ir beber o tal copo com Shikamaru. Mas a ideia de voltar tão apressadamente para casa não era tentadora, o seu inferno pessoal a esperava, e pensando bem uma bebida não faria mal nenhum, não era como se fosse um encontro ou algo semelhante.
— Vai demorar muito? – Shikamaru questionou impaciente, bocejando e esticando os braços atrás da cabeça.
Ela o olhou com um sorriso, aquele garoto realmente aparentava ser um folgado.
— Está quase. – Respondeu ainda sorrindo e voltou a contar as poucas notas que faltavam.
Shikamaru voltou a bocejar e retirou mais um cigarro do bolso do casaco, o acendeu e tragou o gosto forte que o mesmo possuía.
— Isso ainda te vai matar. – Temari avisou e em seguida fechou o cofre dando por encerrada a contagem.
— Existe muita coisa que provavelmente me pode matar, então porque me devo preocupar com esse cigarro? – O rapaz respondeu se levantando do banco onde estava há imenso tempo.
A mulher de cabelos amarelados bufou com a resposta do jovem, porque os fumadores nunca admitiam que aquilo os podia matar? Era o mesmo que negar que mesmo sem beber água não morreria.
— Vamos logo ou não? – Shikamaru pressionou, realmente gostava de não fazer nada, mas estava há tanto tempo sentado e sem fazer nada, que já começava a ficar cansado.
— Vamos claro. – A mulher concordou recolocando as mangas da camisa branca para baixo e apagando as luzes atrás de si. Mas entretanto lembrou-se de algo. – Há espere. Gai me disse que o filho dele me vinha buscar.
Shikamaru voltou a tragar o cigarro tranquilamente soltando o fumo no ar logo a seguir.
— Eu já falei com o Lee. Ele já sabe que hoje — Fez uma pausa. — Você é minha. – Completou e virou as costas saindo do bar deixando Temari um pouco corada. Como assim hoje ela era dele?
— Eu não sou sua coisa nenhuma. – Gritou alto seguindo o mesmo trajeto que o rapaz. Saiu do bar e fechou a porta de ferro gradejada. – Onde vamos beber a tal bebida? – Questionou após guardar a chave do bar dentro da mala azul escura que usava.
— Na minha casa. – Shikamaru respondeu seco como se fosse óbvia a resposta.
— Na sua casa? – Temari repetiu um pouco preocupada. Deveria mesmo ir? Quer dizer, estava inda na casa de um desconhecido no meio da madrugada. Que intenção teria ele, ou quem ele julgaria que ela era? Não queria causar um mal-entendido nem ser mal interpretada.
— Não se preocupe. Só vamos para a minha casa porque a esta hora já não existe nenhum lugar agradável aberto. – Explicou como se tivesse percebido a preocupação da sua nova amiga. Jogou a beata do cigarro no chão e colocou as mãos nos bolsos da calça cinzenta que usava. – Vamos? – Incentivou com um meio sorriso.
Temari vacilou um pouco, realmente não sabia se deveria ir. Se Hidan descobrisse o que estava prestes a fazer seria uma mulher morta e Shikamaru também. Mas por outro lado, o moleque não parecia ser o tipo de pessoa que tivesse segundas intenções, e a vontade de voltar para o inferno a que chamava de casa não era nenhuma.
— Vamos. – Concordou por fim e começou a seguir Shikamaru que lhe indicava o caminho que deveriam seguir.
Durante o pequeno trajeto ambos seguiram em silêncio. Apesar do jovem moreno se sentir tentado a fazer montes de perguntas. Nunca se havia interessado por mulher nenhuma principalmente mais velha, mas essa mulher era diferente. Simplesmente pelo facto de ter paciência para suas provocações lhe despertava imensamente o interesse, e não podia esquecer que a beleza que ela emanava não lhe era de todo indiferente.
— Que problemático. – Murmurou baixinho para si mesmo.
Poucos minutos se passaram e finalmente ambos entraram numa pequena rua composta por várias casas. Shikamaru parou em frente a uma com a porta vermelha e algumas letras pretas. O jovem retirou calmamente uma chave de dentro do maço de cigarros e abriu por fim a porta. Entrou e fez calmamente um sinal com o dedo para que Temari o seguisse.
— Essa é a minha casa. – Anunciou jogando a chave e os cigarros em cima de uma pequena mesa atrás da porta de entrada. – Fique a vontade. – Disse entrando numa outra divisão da casa.
Temari o seguiu atenta ao interior da habitação. Não parecia ser uma casa grande e nem havia sinal de residir mais alguém ali além do jovem. Adentrou na cozinha onde Shikamaru preparava dois copos e retirava uma garrafa de sumo de dentro da geladeira.
— Sumo? Ou algo mais forte? – Questionou erguendo outra garrafa com um conteúdo avermelhado semelhante a um licor.
— Fico pelo sumo. – Respondeu prontamente, beber álcool não seria bom.
O jovem assentiu e despejou o sumo de maça dentro dos copos colocando uma pedra de gelo em cada um. Pegou no copo destinado á mulher na sua frente e o entregou.
— Me fale sobre você. – Pediu se sentando em uma cadeira e fez sinal para que ela fizesse o mesmo.
— O que quer saber? – Temari não gostava de falar sobre si para desconhecidos, mas já que estava na casa de um. Não podia fazer muito a respeito disso? – Pergunte o que deseja saber. – Informou se sentando ao lado de Shikamaru e colocou o copo de sumo na mesa.
Por um segundo o rapaz ficou pensativo. Havia muitas coisas que queria saber, mas tinha que começar por alguma pergunta. Por fim havia se decidido.
— No bar, quando me disse que era casada pude sentir em sua voz que seu casamento não é feliz. Pois bem, qual o motivo? – Foi direto ao assunto que logo não lhe despertou interesse, mas agora lhe martelava intensamente na cabeça. Como poderia uma pessoa tão bela e paciente não ser feliz no matrimónio que escolheu?
Temari olhou o chão castanho da cozinha evitando cruzar os olhos com Shikamaru, porque ele tinha que ir logo ao ponto que era mais doloroso e até mesmo vergonhoso. Mas ela mesma o incentivou a questionar o que quisesse, não tinha o direito de reclamar.
— Porque eu não o amo. – Respondeu fria mantendo os olhos fixos no chão.
— Se não o ama porque casou com ele? – O jovem replicou em seguida se mostrando efetivamente confuso e ainda mais curioso.
Aquilo realmente o confundia, não conseguia entender. Se não havia amor porque ela se tinha casado? Porque as pessoas sempre teimavam em complicar o que deveria ser simples?
Temari ainda mantinha os olhos no chão. Porque tinha tomado a decisão de casar com Hidan? Para salvar uma amiga que nunca mais se recordou dela? Para fazer pessoas que a esqueceram felizes e ser infeliz.
— Porque... – Murmurou fazendo questão de continuar a manter os olhos fixos no chão. – Porque fui uma idiota. – Por fim respondeu tentando segurar uma lágrima. Não se degradaria ao ponto de chorar na frente de um quase desconhecido.
Shikamaru semicerrou os olhos, estava incrédulo. Aquilo deveria ser a maior barbaridade que já tinha escutado. Casar sem amor? Sim realmente ela tinha sido uma idiota e mesmo sem entender o motivo, a idiotice dela o estava afetando, mais do que havia desejado. O jovem se levantou da cadeira e olhou para a mulher de cabeça baixa, aquela posição era claramente um ato de derrota e isso ainda o afetava mais.
— Você é forte? – Questionou com uma voz estranhamente séria. Enquanto esperava a resposta caminhou até a porta da cozinha.
— Sim... Eu sou. – Temari respondeu com a voz fraca apesar de não entender onde o rapaz queria chegar com aquela pergunta.
— Então arrisque! O amor não é para covardes – Shikamaru disse com uma voz autoritária e abandonou a cozinha.
Temari ergueu por fim os olhos procurando o moreno mas já não o encontrou. Estava confusa, as palavras de Shikamaru a deixavam abalada. Como assim arriscar? O que ele estava querendo dizer? Estava levando uma lição de moral de uma criança? Obviamente, sabia que falar era fácil e para qualquer um que não vivesse a sua vida todos os conselhos eram fáceis de oferecer, mas difíceis de pôr em prática.
Em poucos minutos Shikamaru voltou com um cigarro na boca e se sentou novamente ao lado de Temari.
— Entendeu o que eu quis dizer? – O jovem questionou soltando o fumo do cigarro no ar. E recebeu um aceno negativo como resposta.
Não se lembrava desde quando se havia tornado um conselheiro sentimental, mas sentia vontade de ajudar aquela mulher que ao mesmo tempo em que lhe parecia forte no segundo a seguir lhe parecia mil vezes mais frágil. Suspirou e continuou.
— Eu quis dizer que se você não é feliz, então procure alguém que você ame, alguém que queira ao seu lado todos os dias quando abrir os olhos. Procure ser feliz, arrisque no amor e será recompensada. Mesmo que erre uma ou duas vezes, vai acabar por encontrar a felicidade. Mas se ficar parada sendo infeliz ao lado de alguém que não ama esperando que caia uma solução do céu. Então se prepare para ser sempre infeliz. – Shikamaru apesar de dizer palavras fortes sua voz era descontraída. Sabia que aquelas palavras teriam efeito na mulher. Tinham que ter a menos que ela fosse muito burra.
Temari piscou os olhos verdes várias vezes. Aquele moleque não deixava de ter razão, sabia disso e não podia negar. Mas com Hidan não era tão simples assim. Ele não era o tipo de pessoa de quem pudesse simplesmente fugir. Ele era um monstro, e monstros nos preguem a vida inteira.
— Isso, essa felicidade de que me falou é só um sonho, nunca vai ser mais do que um sonho. – Murmurou sem vontade evidenciando a tristeza na sua voz. Palavras de incentivo não iam mudar a sua realidade.
Shikamaru bufou e jogou o cigarro para dentro da pia da louça suja, lançando um olhar reprovativo para Temari. Com aquele tipo de pensamento seria difícil ela obter qualquer tipo de mudança na sua vida. E isso o começava a deixar irritado.
— Nunca vai ser mais do que um sonho, porque você não se esforça para torna-lo realidade. – Praticamente gritou fazendo com que Temari se assustasse e cruzasse seus olhos com os dele. Sentiu a impaciência no olhar do jovem e isso a deixou preocupada, ele era um estranho e não deveria estar tão preocupado com o que fazia da sua vida.
Temari suspirou, aquela conversa realmente a estava desgastando. Cansada tomou um gole do sumo. E deu continuidade a conversa.
— Eu não posso, meu marido nunca aceitaria uma separação. – Disse por fim pousando o copo de volta na mesa.
— Ninguém está falando em separação, se você não é feliz e nem o ama então procure alguém. Aventure-se e quando encontrar aquela pessoa que sinta que realmente mereça se jogue de cabeça e mergulhe no amor. – Shikamaru incentivou com um meio sorriso.
Temari negou com a cabeça afastando imediatamente essa possibilidade. Não seria capaz de fazer uma loucura dessas. Se Hidan descobrisse seria uma mulher morta. Já para não falar que não sabia onde procurar e nem onde começar a buscar a sua futura felicidade. Falar era fácil.
— Eu não posso. – Voltou a murmurar desta vez mais convicta de suas palavras e se levantou da cadeira. – Está ficando tarde, preciso ir. – Estava dando por terminada aquela conversa que nem deveria ter sido iniciada.
Shikamaru se levantou também. Não iria aceitar um “não posso”. Normalmente não gostava de se meter em confusão ou servir de orientador. Era cansativo e deprimente. Mas estava decidido a fazer com que essa mulher lutasse por ser feliz. Sentia que ela merecia mais do isso. E para tal acontecer ia começar por mostrar que sim, ela podia procurar alguém. Fazer loucuras e tentar ser feliz. E mesmo que não conseguisse no fim poderia sorrir e dizer que ao menos tentou.
Em silêncio o jovem acompanhou-a até a porta a fim de se despedir da mesma.
— Obrigado pelo sum... – Temari não conseguiu completar a frase. Shikamaru lhe tomou os lábios a comprimindo contra a porta. As mãos do rapaz se encaixaram nas mãos dela a impedindo de afastá-lo. Sentia o doce aroma de maça nos lábios da mulher que mesmo relutante de início, começava agora a corresponder ao beijo. Aquilo era uma loucura. Mas precisava mostrar que sim ela podia.
Aos poucos Shikamaru foi soltando as mãos de Temari e como esperado, ela o afastou. E antes que a mulher o condenasse se apressou a dizer.
— Viu como você pode. – Sussurrou sorridente. E em resposta levou um tapa sonoro no rosto. E sem dizer uma única palavra Temari virou costas abandonando o local.
…..
Temari abriu a porta da sua casa lentamente. O relógio de seu celular marcava três da madrugada. Rezava mentalmente para que Hidan estivesse dormindo. Com passos cuidadosos e silenciosos entrou no banheiro que possuíam fora do quarto. Despiu a roupa totalmente cansada e deixou o corpo escorregar até ao chão frio. Involuntariamente levou a sua mão até aos lábios onde podia ainda sentir o gosto forte de tabaco deixado por Shikamaru. Onde aquele moleque estava com a cabeça para a beijar... E pior onde ela esta com a cabeça para corresponder. Mas algo era certo. Aquele beijo tinha sido diferente de todos os que Hidan alguma vez lhe tinha dado.
Viu como você pode. Se lembrou das palavras de Shikamaru. Sim ela podia... Mas não devia, não se desejasse viver.
Já sem roupas Temari saiu do banheiro e entrou no quarto onde Hidan dormia tranquilamente de costas viradas para ela. Suspirou aliviada. Melhor assim. Ao menos ele não saberia a que horas havia chegado e não precisaria se justificar.
Cansada e exausta fechou os olhos. Só queria descansar e esquecer a miserável vida a que se tinha condenado.
Hidan que estava deitado de costas para Temari tinha os olhos bem abertos, neles brilhava a chama da raiva e desconfiança. Olhou o alarme na cômoda. Marcava três e dez da madrugada, mordeu o lábio inferior contendo a vontade de explodir agora mesmo. De manhã sua esposa lhe devia uma bela explicação
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