Saudade
1 Prelúdio: Enquanto o céu pega fogo
Ladybug hesitou antes de pular e Chat noir avançou apenas dois pequenos passos para ficar ao seu lado.
Eles nunca tinham visto nada igual.Aquilo não fazia parte das noites que lhes eram mais familiares que a própria luz do dia.
Haviam trovões de um assustador tom rubro serpenteando pelo céu e as nuvens eram de uma densa cor de chumbo e mais pareciam rochas pesadas que se moviam em conjunto lentamente como se, de maneira silenciosa, estivem ameaçando despencar sobre suas cabeças.
E bem no centro de tudo, como se a conduzir uma nefasta orquestra, estava o símbolo dele. Luzes multicoloridas se alinhavam perfeitamente formando uma gigantesca borboleta cravando o céu noturno no centro de Paris com sua energia sobrenatural, iluminando-os de cima, lhes assombrando ao mesmo tempo em que os vigiava em silêncio, esperando.
Ela lembrava se ter visto um efeito parecido em um vitral estilhaçado nas ruínas de um prédio. Sempre parecia que havia alguém, ou alguma coisa, lhe observando do outro lado.Porém, aquilo era mais que uma pequena inquietude na boca do seu estômago. Era real e transmitia uma mensagem. Uma ameaça.
Ladybug cruzou os braços sobre o peito, na verdade, era mais como se estivesse envolvendo a si própria em uma abraço. Talvez, de uma maneira subconsciente, estivesse mimicando a memória de alguém que não estava ali, não poderia estar ali. Na tentativa de enganar seu cérebro, procurando de alguma forma, algum tipo de acalento. Ela se pegou imaginando se embaixo de seus pés, dentro do apartamento, todos já haviam recebido um beijo de boa noite. Passado alguns segundos, voltou a sua posição normal, um pouco envergonhada e um pouco com frio.
O vento rugia e parecia percorrer as ruas de Paris como um aviso: de uma tempestade forte, de uma calamidade ou a total destruição do equilíbrio quântico do universo, o que quer que fosse que as pessoas imaginaram fizera com que se trancassem dentro de casa em um silencioso acordo mútuo e a cidade luz estava vazia e tão soturna quanto as construções de uma civilização perdida.
O ar parecia descer da atmosfera como fuligem e queimava o caminho todo até chegar aos seus pulmões, mesmo assim, a respiração dela estava cada vez mais acelerada e a cada golfada em busca de ar, ironicamente, parecia sufocar mais ainda.
O silêncio entre eles parecia ecoar e, por alguns segundos, Ladybug teve certeza que ouviu a batida desesperada de seu coração entrar em sincronia com o dele. Foi naquele momento que perceberam, o quanto estavam sozinhos.
Todos as janelas e portas ao redor estavam trancadas. As pessoas iriam dormir aquela noite tendo a certeza que os seus heróis iriam trazer mais um amanhã rotineiro embrulhado para presente. Eles não falhariam.
Mas eles já haviam falhado. Muitas e muitas vezes. De maneiras catastróficas e ainda estavam pagando o alto preço de seus erros.
Ladybug se recordou da vez em que chorou em cima de um espaguete a bolonhesa numa noite em que não conseguiu convencer seu pai a desligar a televisão que passava o noticiário nacional durante o jantar. E uma vez em que Chat noir lhe confessou que ele revivia os acidentes todas as noite antes de dormir (se ele conseguisse dormir) e mesmo durante o dia a culpa se arrastava no fundo dos pensamentos. De certa forma, havia um certo conforto em, ao menos, não estar só.
No entanto, eles eram apenas adolescentes e nada mais, tão pequenos em comparação ao que enfrentavam.Possuíam super habilidades e ainda sim eram tão assustadoramente mortais. Ninguém tinha parado pra pensar nisso nos primeiros dias. Ela mal tinha começado a ter consciência dessa variável.
Ladybug tocou Chat noir pelo ombro, ela sentiu o corpo dele estremecendo dentro do uniforme e então, sua mão começou a segurá-lo com força ao ponto do garoto poder sentir as unhas dela afundando em sua pele. Se o fizesse parar de tremer, talvez ela conseguisse parar a si mesma também. Haviam tantas perguntas que ela queria fazer que as palavras começaram a se embolar dentro da sua boca, de repente, o seu estômago se contorceu em um nó e lágrimas se formavam no canto de seus olhos.
“Você acha que a gente tem alguma chance?” ela quebrou.
Ele pareceu surpreso, era a primeira vez que ela demonstrava algum tipo de duvida ou fraqueza na sua frente. Algumas vezes, Ladybug sentia que tinha partido todos os laços que a ligavam com o mundo a sua volta e a ultima coisa que queria era perder Chat noir. Não ele.Qualquer coisa, mas não ele.
Chat noir sempre tagarelava sobre bobagens o tempo inteiro mas as coisas mais importantes, que com o tempo ela viera a descobrir, ele parecia nunca precisar dizer. As suas conversas mais significativas eram tecidas no silêncio, no que parecia ser um parênteses alheio ao mundo, onde o tempo passava devagar.
Ela sentiu o suave toque da mão dele sobre a sua e ela soltou o braço do rapaz. Ladybug percebeu o modo como os dedos de Chat noir tremiam segundos antes de se entrelaçarem com os seus, mas ela favoreceu a percepção do calor aconchegante que vinha através da pele dele sob a luva.
Então, ele sorriu de uma maneira diferente, mais contido porém mais maduro e Ladybug fitava os olhos verdes semicerrados do rapaz como quem tinha encontrado peças extras para um quebra-cabeças que pensara ter terminado. Era engraçado pensar que, depois de todo esse tempo, ela nem mesmo sabia quem estava por detrás daquela mascara, se as iris dele continuavam verdes mesmo sem as lentes.
Ela estaria rindo, de verdade. Se o seu coração não estivesse doendo tanto.
Chat noir apertou a mão dela com firmeza. Sem oferecer nenhum tipo de promessas, apenas a sua presença. Ele estaria lá até o fim, fosse o que fosse. Ladybug assentiu e correspondeu a ação. Talvez, aquela não fosse a melhor maneira de transmitir um senso de segurança antes de uma batalha, mas tudo o que podiam oferecer um ao outro naquele momento.
E dentro daquele pequeno laço que os unira que acabaram encontrando uma centelha em meio a escuridão noturna.Não havia mais dúvidas ou temores assolando seus corações, apenas um inabalável sentimento que os ligava. Ela queria, ao menos, ter percebido antes.
De repente, a esperança não estava assim tão longe.
“Eu consigo fazer o impossível quando estou com você.” ele piscou.
Ela não tinha certeza o quanto daquilo era ele dizendo a verdade e quanto era uma tentativa de melhorar o humor dela, mas de qualquer maneira, ela sorriu e o rapaz deu um único riso baixo que fora carregado pelo vento.
Chat noir levou a mão de sua parceira em direção aos seus lábios, a garota conseguia sentir o momento em que cada palavra se formava contra seus punhos, cada silaba eram um pequeno beijo. Os olhos dele pareciam ser o tom de verde mais profundo que ela já havia visto, um resquício de vida na cidade onde o céu ardia em chamas.
A oportunidade se apresentava de novo.
“Pronto quando você estiver, my Lady.” ele disse olhando para frente, em direção ao destino inevitável.
Ladybug abriu sua boca para dizer algo, mas antes de proferir qualquer palavra, ela deixou seus lábios formarem um pequeno sorriso.
Ela não deixaria que a oportunidade lhe escapasse mais uma vez.
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