Saudade

1 Capítulo único


Notas iniciais
Oh dismal mourning
I open my weary eyes once again
My life has been left hollow
And ashes have filled the gorge of my within
Last night I hoped and wished I'd die in my sleep
But no catharsis was granted to me
Will this pain ever pass?
The enchanting perfume of winter
And the bleak, cold breath of her
Still haunts me...
She Painted Fire Across The Skyline - Agalloch

Sinto tanta falta da minha infância. É difícil pensar que os dias em que nossa maior preocupação era brincar acabaram, e nunca irão voltar. Naquela época eu também esperava conhecer meu pai. Sabia apenas que ele havia sumido depois que minha mãe ficou grávida, e nunca voltou. Passei minha infância pensando se o motivo de ele ter ido embora era eu.

Na escola sempre tive poucos amigos, mas verdadeiros. Com o passar do tempo eles também foram me deixando, começando a gostar de outras coisas – e das pessoas que gostavam dessas coisas. Comecei a me sentir muito sozinho, mesmo tendo minha mãe ao meu lado sempre. Realmente me arrependo de não ter visto que ela foi a única pessoa que conheci que nunca desistiu de mim.

Antes de eu me formar, ela começou a ficar doente. Câncer. Viajei com ela para outra cidade, para fazer quimio/radioterapia – já que a que morávamos não tinha. Perdi dias de aula, mas passei eles ao lado dela. O cabelo dela começou a cair, e fisicamente ela não era mais a mãe que eu acordava e via todos os dias.

Senti que ela estava se recuperando, mas isso foi um engano. A doença tomou conta dela. Ela passava os dias deitada na cama, e eu ao lado dela. Em um final de semana antes do aniversário dela, o estado dela piorou e ela foi parar na UTI, em coma. Me senti sozinho no mundo antes mesmo de ela morrer.

Os dias foram passando, e eu continuei indo nas duas únicas visitas diárias da UTI. Até que um médico veio falar comigo. Disse que era melhor desligar as máquinas que a deixavam viva, e a “deixar partir”. Me ofendi quando ele disse aquilo, mas algum tempo pensando – e chorando – me fez ver que quem mais estava sofrendo era ela, e não eu.

No outro dia, antes de desligarem as máquinas, pedi para que eu pudesse beijá-la no rosto. Quando terminei, tive a certeza de que se ela estivesse “acordada”, teria retribuído aquele beijo. De alguma forma, senti que ela retribuiu. Desligaram as máquinas e então soube que ninguém mais gostaria de mim como ela gostou. As pessoas no começo parecem legais e prometem manter uma amizade, mas com o tempo cansam de você, e elas não sabem o quanto isso dói em mim. Paro pra pensar na última pessoa que prometeu nunca parar de falar comigo e vejo que ele é aquele antigo amigo que atualmente me ignora ou parece não querer conversar. Não vejo muito sentido mais em continuar aqui se sempre vou ter que sofrer para ter uma amizade nova e sofrer ainda mais por perder ela – por culpa dos outros. Mas cada uma das pessoas que me apeguei mora no meu coração, porque sempre acabamos ficando com um pouco das pessoas que gostamos dentro de nós, e isso forma quem nós somos. Mesmo que morram ou se distanciem, as pessoas que amamos em uma época da nossa vida sempre estarão dentro de nós. Mesmo que isso não me conforte – até por que sinto falta das pessoas – é o que me anima nos piores momentos. Tenho saudades da minha antiga vida.

Notas finais
Se acharam que o título - ou qualquer coisa da história - não ficou bom, avisem por MP. :/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!