Saturno
1 Capítulo 1
Há certas histórias que são difíceis de contar, mesmo quando você já sabe o final. Há certas memórias que só reaparecem no momento certo.
Você lembra e relembra repetidas vezes. Percebe que lembranças se formam em camadas. Julga insano, ainda mais em um momento como esse.
Na primeira camada, você já adulto, depois de três ou quatro copos de cerveja, ouviu a garota apaixonada mostrar-lhe o novo clipe de uma banda indie. Nunca fora o seu tipo de música, mas ela mostrava tão empolgada que tudo o que você podia fazer era sorrir enquanto assistia.
A princípio, a vontade forçada lhe distraia, mas ao passar dos minutos, algo foi desenterrado. Talvez um mero prelúdio do que viria, talvez apenas paranoia, talvez nem um, nem outro.
No clipe, você viu aquela pessoa aparecer e reaparecer entre portas e janelas, viu as faíscas de Bombril virarem estrelas, enquanto um personagem oculto o girava. Durante todo o clipe, as estrelas de Bombril voltavam para quem as fazia, retrocedendo à origem.
Não foi diferente com você, não é?
Naquele dia, você voltou para uma origem há muito enterrada. Para a segunda camada de sua memória.
Lembrou-se de seu velho pai com as mãos banhadas em graxa. Do caminhão que o pobre coitado arrumava, mesmo sabendo que não receberia um tostão furado. Fazia aquilo porque gostava ou por falta de confiança. De qualquer forma, a motivação já não importava, somente o que sucedeu.
Já era fim de tarde e seu pai, um bom homem, também queria cumprir esse papel. A cada parafuso que seu pai arrancava você fazia uma pergunta. Ele não perdia a cabeça, apenas respondia, mas agora ficou evidente: Você sabe que ele não sorria.
Em determinado momento, seu pai inspirou fundo, e você, mesmo criança, sabia o que aquilo significava. Ele estava estressado. Infelizmente, você nunca descobriria o real motivo, mas isso já não importa mais.
Seu pai, com o jeito que só ele tinha, arrancou uma das peças. A memória já não é tão boa. Você não identificaria esse borrão nem se quisesse, mas isso já não importa, não é mesmo?
Seu pai agora sorria. Encarava-lhe com ar de descoberta.
— João, você já pegou uma estrela?
Você era criança, mas não era bobo. Sabia bem que estrelas eram bolas de basquete queimando a cinco quilômetros de altura. Uma vez perguntara a seu pai o quanto media a torre da esquina. “Cinquenta Metros”, disse ele. Cinco quilômetros parecia uma ótima medida para as estrelas e não podiam ser mais do que uma bola de basquete, já que a lua parecia maior.
De uma forma ou de outra, você estava errado, mas isso não é tão importante agora, não é?
Você questionou seu pai sobre as estrelas serem, na verdade, bolas de basquete queimando há cinco quilômetros de altura. E ele sorriu segurando aquela peça.
— Existem muitos tipos de estrela, João, algumas cabem na palma da mão.
Você duvidou de seu pai, mas não disse nada. Ele costumava lhe surpreender.
Com um inclinar de cabeça, pô-lo a acompanhar, e você foi até a porta do seu avô, ouvir seu pai gritar:
— Pai! Vou usar o esmeril!
E ouviu também a voz de seu avô.
— Tá bão!
Você sabia o que era o tal esmeril. Seu avô nunca lhe deixara chegar perto. Dizia que você podia ficar cego, que as faíscas podiam abrir um buraco na sua pele.
Seu pai voltou, ainda carregando aquela peça nas mãos sujas de graxa e você o acompanhou.
Ele caminhou a sua frente, assoviando até que depositou o borrão metálico em cima de um tambor virado, bem ao lado de uma bananeira.
Você sorri, porque percebe que não são só camadas. Quando a memória está prestes a voltar, os segundos antes dela são mais detalhados, mesmo que isso não importe mais.
Seu pai liga aquela máquina. O som lembra a fábrica onde Sarah Connor eliminou o primeiro exterminador. Ele retoma a peça e a encosta no disco. Você pula para trás, porque imagina o buraco em sua pele. Seu pai ri.
— Pode chegar perto, filho.
— Não! O vô disse que isso cega a gente!
Seu pai anui.
— Ele não tá errado, mas pra tudo na vida a gente dá um jeito. Fica aqui.
Seu pai desaparece dentro do porão e volta com óculos de proteção entre dois dedos, lutando para não sujar com a graxa.
— Coloca isso aqui.
Você coloca e o mundo fica embaçado. Seu pai retoma a peça e torna a encostá-la no disco. As faíscas voam e você o ouve gritar.
— Coloca a mão embaixo, João!
— O vô disse que faz buraco na pele!
— Se você não tentar, nunca vai encostar numa estrela!
Você confia em seu pai, mas ainda sente medo. Você coloca as mãos embaixo do esmeril esperando o pior e até chega a fechar os olhos quando sente a primeira faísca.
— Abre o’zóio seu medroso!
Você ouve seu pai gritar e depois gargalhar.
As mãos estão mais quentes, mas não estão queimando.
Você abre os olhos.
De repente, o mundo embaçado é substituído por uma constelação caindo em suas mãos. Seu queixo também cai. Você gira a mão, deixando que as estrelas caiam do outro lado, e observa seu pai. Por um momento, pode ver pontos de luz iluminando o castanho de seus olhos.
A máquina para e o mundo volta ao breu de fim de tarde, embaçado pelos óculos de proteção. Você permanece ali por algum tempo, encarando as mãos que tocaram as estrelas, até que seu pai arranca seus óculos.
— E aí, como foi tocar nas estrelas, Tampinha?
— Legal! – Você diz, balançando a cabeça em um frenesi.
A palavra te joga para a terceira camada da memória, bem longe dali, mas essa é mais curta. Você não entende por quê, mas isso não faz mais diferença.
Você já é um adolescente. Lembra-se que estava no planetário do Parque Ibirapuera, mas nada mais que isso, apenas consegue se lembrar das sensações.
Tudo estava escuro. Seu estômago estava frio como gelo. Até que o crepúsculo começou a se formar a sua frente. Você sente alívio.
De repente, na abobada, uma estrela surge, seguida de outra e mais outra, e no final, a Via Láctea inteira estava logo acima da sua cabeça. Você sente o mesmo que ao tocar as estrelas de seu pai.
Como uma doença que recolhe, de repente você age como a mesma criança de anos atrás: Balança a cabeça em um frenesi e diz apenas “Legal”.
Agora, você está deitado no meio da Dutra, e isso não é uma lembrança. Tudo fica claro. O céu acima está negro. Não há estrelas de Bombril, do seu pai, ou de um planetário, apenas os faróis, que só seriam estrelas se você pudesse ver de cima.
Sua moto está destruída, quase cinquenta metros à frente. Se fora você quem não viu o caminhão, ou o caminhoneiro quem não o viu, já não importa. Foi apenas um terrível acidente.
Seu braço lateja retorcido embaixo de seu corpo. Você sente algo escorrendo pela costela, mas não consegue se mexer. Não consegue olhar nada além do céu negro e nessa hora percebe o que a morte lhe entregou.
Algumas pessoas dizem que no momento da morte, a vida passa diante dos olhos como um filme, mas você sabe que não. Quando a morte colocou as garras frias em seu peito, também lhe deu um ponto de acalento. Agora, depois de anos, você finalmente entendeu por que escolheu ser astrônomo, mesmo sabendo que morreria de fome no Brasil.
Mesmo com o céu negro, você pôde rever todo o tipo de estrelas que já conhecera. Certas memórias só reaparecem na hora certa.
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