Saturday
1 Capítulo 1 - No Cimento
Atravessaram a rua, perto de uma avenida, o grupo todo se movimentando lentamente. Enquanto andavam distraídos, Karen olhou para o chão e viu aquelas letras que seriam o estopim de uma reviravolta em sua vida. Há muito tempo gravado no cimento, estavam um nome e um telefone:
“ Gabrielle
3296 3882
ME LIGUE! ”
Karen parou encarando a mensagem na calçada e chamou as amigas para darem uma olhada.
— Vamos ligar? – animou-se Jane.
— Duvido que ela vá estar em casa sábado á noite, mas vamos tentar.
Karen sacou o celular do bolso traseiro do jeans e discou o número com os dedos correndo pelas teclas. Esperou pacientemente que atendessem e uma voz feminina lhe cumprimentou com um “alô” do outro lado.
— É Gabrielle?
— Sim, eu.
Agora que tinha ligado, Karen não sabia exatamente o que pretendia dizer para ela.
— Vi seu número no cimento. – informou pateticamente.
— Que cimento? – fez-se um pequeno silêncio e então sua voz se encheu de reconhecimento – Ah, na frente de um prédio!?
— Rua Brockeback, 126.
— Cara, inacreditável, fazem séculos! – comentou Gabrielle, estupefata – Eu escrevi faz dois anos.
— E ninguém nunca te ligou? – perguntou curiosa.
— Nunca. Foi uma daquelas loucuras idiotas que a gente faz quando está saindo com os amigos.
— Tipo ligar para um número que viu escrito no cimento? – brincou Karen, tendo como resposta uma risada.
— Qual seu nome mesmo?
— Karen.
Karen estava cercada por uma roda de amigos que a olhavam especulativos, mas ao verem que a conversa não teria nada de mais, se reagruparam à frente, Jane fazendo sinal para que Karen viesse andando também. Saiu andando atrás deles, sem deixar de desligar o telefone. Conversaram por todo o caminho.
Gabrielle tinha vinte e dois anos, um dois anos a menos que Karen, e vivia sozinha. Tinha um senso de humor sarcástico, descobriu logo, e bastante disposição para conversar.
— Achei que ninguém atenderia sábado à noite – comentou em certo ponto da conversa – Por que está em casa?
— Ninguém disponível: uma está viajando, outra conhecendo a família do namorado e o outro de plantão no hospital. Sobrei hoje como você pode ver.
Karen fez um barulhinho de quem pensa enquanto considerava chamar ela para sair com seus amigos. Não era uma idéia muito ruim, ela parecia bem legal. Perguntou onde ela morava, e era convenientemente uma rua pela qual seu grupo passaria no trajeto para o bar aonde iam. Acabou convidando-a.
Combinaram que se encontrariam lá em aproximadamente dez minutos, o que daria para ela se arrumar rapidamente. Ela estaria no cruzamento da rua com a avenida, perto de onde ela morava. Estivera tão longe de casa pois havia sido convidada no dia anterior para a casa de Jane e decidira passar a noite de sábado com ela também. Despediram-se então e Karen pôs-se a andar.
Enquanto se aproximava do cruzamento em que devia encontrar Gabrielle, discerniu uma figura recostada em um poste. Seria ela? Ao chegar mais perto, encarou seu rosto como quem pergunta “é você?”.
— Você é Gabrielle? – perguntou.
— Sim. Karen? – perguntou ela, seu rosto se abrindo em um sorriso que oscilava entre meigo e provocante.
Gabrielle a encarou tão intensamente que Karen não resistiu, desviou os olhos, encabulada e aquiesceu. Sobre a meia luz da rua anoitecida Karen viu um belo rosto. Os cabelos de Gabrielle eram longos e castanho-mel, seu rosto magro, o nariz reto e os olhos negros cintilavam refletindo pontos de luz. Karen estava embasbacada; ela era belíssima, como uma modelo.
Sorriu para ela e chamou-a para irem andando. Faltavam apenas quatro quadras para chegarem ao bar que procuravam, e a conversa no caminho foi pontuada de silêncios incômodos e palavras hesitantes de quem acaba de se conheçer. Finalmente chegaram ao local cheio e conseguiram duas mesas para juntar, Karen acabou sentada do lado de Gabrielle, as duas espremidas contra a parede, as coxas se tocando.
Enquanto várias conversas se desenvolviam paralelamente no grupo Karen pôs-se a conversar com Gabrielle. Ela se mostrava extrovertida, o que complementava a introversão de Karen. Uma de suas maiores paixões era musica, enquanto a outra estava mais para literatura.
Enquanto Gabrielle fazia piada de tudo e jogava sorrisos a torto e a direito, Karen se portava bastante tímida agora que falava pessoalmente com a mulher. Mas nada disso as impediu de ter uma boa conversa. Eram bem diferentes uma da outra, quase opostos, mas de um modo que não acabava uma anulando a outra.
Karen esqueceu do tempo e de tudo á sua volta enquanto conversava fascinada com aquela mulher que provara em tão pouco tempo ser uma pessoa tão incrivelmente agradável.
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