Satisfaction
1 Capítulo 1
“Sinto-me tão completo agora… tão feliz…”
O poderoso empresário do meio musical Tohma Seguchi, que também era tecladista e compositor da famosa banda de música Nittle Grasper, satisfeito consigo mesmo e com sua confortável vida, estava tranquilamente parado à discreta janela de um pequeno e simples apartamento quarto e sala, localizado no efervescente Distrito de Shinjuku, Tóquio, Japão. Ele observava com olhar enamorado a luz do dia se esparramar pelos telhados, pelo asfalto daquele labirinto de pequenas ruas escondidas, pelas paredes dos edifícios ao redor, cobertas com os mais diversos letreiros e cartazes, oferecendo serviços e mercadorias para qualquer tipo de cliente.
Shinjuku. Uma mixórdia de informações cintilantes. Um lugar perfeito para se perder… e se achar.
E foi onde conseguiu respirar livremente pela primeira vez.
Havia adquirido aquele apartamento há muito tempo, buscando independência, e também como um desafio ao patriarca da família Seguchi e sua necessidade de ter o controle de tudo.
Tohma nunca foi do tipo rebelde, contestador, muito pelo contrário, mas havia certas horas em que era preciso fazer algo para não morrer sufocado.
Provavelmente seu pai nunca soube a localização daquele imóvel, pois foi sua mãe que o ajudou nas transações, mas, naquela época, quando era jovem o suficiente para querer se libertar do jugo de sua tradicional família careta, havia se sentido um rebelde, saindo da casa paterna e indo morar por conta própria, aproveitando a boa aceitação da banda de música que havia formado, juntamente com outros dois músicos muito talentosos, chamada Nittle Grasper.
Ter um apartamento tão perto do bairro mais infame de Tóquio, tão ao lado do bairro mais LGBT também, era algo que faria seu pai, se soubesse, querer o banir da família para sempre.
O que não seria tão espantoso de acontecer, dada as inusuais preferenciais profissionais e sexuais do filho, em quem depositava grandes esperanças de sucessão.
Se seu pai soubesse que o único filho dele, apesar de sua solene formação acadêmica em Economia, na prestigiada Universidade de Tóquio, só queria saber de fazer música e de arrumar um lugar só dele para poder namorar em paz o lindo e meio pirado cantor por quem havia se apaixonado, ele teria tido um infarto, antes de o deserdar.
Mas, até onde sabia, seu pai nunca percebeu nada.
Foi sua mãe que descobriu tudo.
Tohma soube que estava meio encrencado, quando viu o mercedes prateado da mãe estacionado perto do apartamento que compartia com o lindo cantor.
“Você é jovem ainda, pode se divertir mais um pouco com aquele rapaz tão bonitinho… mas não se esqueça nunca, meu querido Tohma, o compromisso assumido a tanto tempo com a família Uesugi, a obrigação de ser aquele que trará continuidade a família Seguchi… não pense em afrontar seu pai, meu querido, pois você não tem idéia do que é a verdadeira pobreza e, tenho certeza, não quer realmente ter esse conhecimento… siga seu coração, mas deixe a cabeça o comandar.
Sua mãe era elegante e sofisticada, com um jeito de falar manso e meigo, mas sabia colocar as palavras de forma a serem cortantes como navalhas.
Porém eles se entendiam muito bem, já que mãe e filho eram muito parecidos, tanto fisicamente quanto no jeito de ser, no jeito de encarar a vida.
E ambos eram pianistas, sendo o filho muito mais talentoso, para orgulho da requintada dama.
Eles tinham muito em comum e Tohma a amava muito.
Por isso, ele não fez o que seu pai esperava dele, se tornar um banqueiro, um sucessor, mas fez o que a mãe recomendou: Um Omiai Kekkon e um herdeiro.
Só não contou nada a respeito de seu noivado arranjado para Ryuichi, aquele rapaz tão bonitinho, o cantor pirado que amava, até o momento em que não era mais possível evitar o assunto. E para alguém que vivia com outro alguém há quase quatro anos, ele demorou muito. Depois da notícia, e de uma discussão que faria arrepiar os mais sensíveis, um revoltado e muito magoado Ryuichi desapareceu por cinco dias inteiros, deixando para trás um desolado Tohma. No sexto dia o cantor voltou, mas o tecladista já havia partido para Kyoto, onde se realizaria a cerimônia de casamento. E o resto era uma história cinzenta de tentativas de reaproximação e cuidados a distância.
Ele se anulou para atender convenções sociais, prosperar e se libertar de verdade.
E conseguiu. Não precisava mais da aprovação da sua família para nada. Havia seguido quase todos os preceitos familiares, se casado com sua pretendida, e trabalhado com afinco para se tornar um dos parentes com a maior fortuna pessoal dentro da genealogia Seguchi. Ele não era mais apenas o filho único de uma ilustre família de banqueiros e, sim, o famoso empresário musical Tohma Seguchi, desejado por todos aqueles que queriam adentrar essa indústria tão competitiva bem apadrinhados, pois seu poder de influência e decisão eram célebres. Não precisava mais da ajuda de parentes e amigos de parentes para ter o que queria, na hora que queria e do jeito que queria.
E a roda havia dado sua volta completa. Ali estava ele novamente na companhia de um dos grandes amores da sua vida, que naquela hora dormia a sono solto na cama que compartilharam ardentemente desde a noite de sexta-feira, quando chegaram dos EUA, no apartamento quarto e sala que viu muitas alegrias e tristezas entre os dois, que viu a Nittle Grasper nascer e morrer e renascer.
Tohma espreguiçou-se todo, sentindo-se deliciosamente relaxado, e se virou, olhando para seu amor adormecido, os revoltos cabelos escuros cobrindo-lhe os olhos parcialmente, os lábios semi-abertos, como esperando um beijo. Já ia até ali para despertá-lo com carinhos e se despedir quando…
“Ah…! Um acorde em fá sustenido… é claro! Onde estive com a cabeça?”
… teve uma inspiração musical. Deu a volta, saindo do quarto, encostando a porta para não perturbar seu querido, e rumou para o piano Yamaha Silent que estava acomodado tranquilamente perto da janela da sala. Sala esta que mais parecia um estúdio de música, tendo, além do piano, um teclado workstation, três sintetizadores, uma guitarra, um baixo e um violão, alguns amplificadores, pedais diversos, microfones em seus pedestais e outros apetrechos musicais aqui e ali, além de uma escrivaninha cheia de livros, partituras, canetas, papéis diversos, uma pequena mesa de edição de som e seu Macbook, que estava conectado aos outros aparelhos.
Mesmo depois da separação da Nittle Grasper, há três anos atrás, mesmo que a sua residência atual fosse uma espaçosa mansão ultra moderna em Nishi Azabu, tendo em uma de suas salas um Steinway & Sons de cauda inteira e em outra um verdadeiro estúdio de música, Tohma nunca deixou de fazer uso do apartamento, às vezes, quando queria tranquilidade, solidão e, também, um pouco de decadente inspiração boêmia, para trabalhar em suas composições. Por isso tanta parafernália musical junta no mesmo ambiente diminuto.
Ele colocou o fone de ouvido e começou a dedilhar as teclas, enquanto fazia algumas anotações em uma partitura bastante rabiscada que estava no atril do piano. Dali a uns minutos, sorriu satisfeito, e começou a tocar a melodia completa, sentindo nos dedos as notas que soavam em seus ouvidos e dançavam em sua mente. Ele era capaz de ficar daquele jeito concentrado, tocando, arranjando e mixando por horas, mas a composição já estava quase pronta, só faltando aquele toque final, para ficar com a sonoridade que buscava. Então, depois de tocar o último acorde, ouvindo-o até o último suspiro de som, tirou o fone de ouvido e deu outro sorriu satisfeito. Estava perfeito. Pegou as partituras e virou o banco em direção ao workstation para ajustes finais de mixagem e gravação quando, com um leve sobressalto, deu de cara com Ryuichi encostado perto da porta do quarto, o observando com um leve sorriso no rosto.
“Bom dia, Angel…” Uma adorável voz sonolenta, seguida de um bocejo.
“Bom dia, Honey. Perturbei teu sono?” Tohma sorriu enquanto ajeitava as partituras e mexia em alguns controles.
“Sim, perturbou… você não estava lá, ao meu lado...” Ryuichi se aproximou, depositou um beijo nos lábios do tecladista e, abraçando-o pela cintura, sentou atrás dele, no mesmo banco, deixando outro beijo na nuca indefesa. “Trabalhando tão cedo… Terminou a melodia?” Mãos exploradoras começaram a abrir alguns botões. “E porque você está com tanta roupa, na no da?”
“Sim, terminei, e vou gravar para você poder trabalhar naquela letra de ontem. E hoje é terça-feira. Eu disse que tinha que passar na N-G, lembra? Um final de semana e mais um dia de ociosidade foi o prazo que combinamos… preciso ir até lá.” Disse Tohma, mas deixou Ryuichi terminar o trabalho de lhe desabotoar o colete e a camisa, enquanto abandonava um pouco o que estava fazendo e se encostava todo nele, deixando-o lhe acarinhar como bem quisesse.
“Ahn… Podemos rever esses prazos…? Acho que preciso de mais tempo...”
Tohma deu uma leve risada e se virou um pouco para beijar gostoso seu manhoso cantor.
“E eu preciso de café. Que tal você preparar um para nós enquanto eu termino aqui?”
Mais beijos e Tohma voltou a sua posição anterior, começando a trabalhar novamente.
“Café… café… café…” Ryuichi deu um último beijo chupado no pescoço do loiro tecladista e saiu andando em direção a diminuta cozinha do apartamento, gingando toda a sua formosura dentro de uma pequena cueca boxer verde escuro.
Tohma ficou observando por uns instantes aquela perfeição física, caminhando com uma malemolência muito sexy, e sorriu prazerosamente.
“Desfilando assim você acaba com a minha concentração, Bunny…”
Uma piscadela da porta da cozinha.”E esta é a intenção, Daddy… Esta é a intenção…! Mas, primeiro, café!”
Tohma, ainda sorrindo com deleite, começou a dedilhar o Roland, com a costumeira maestria. Ele até que sabia tocar outros instrumentos musicais com razoável qualidade, como violões, guitarras e baixos, que não eram mistérios para ele, mas a sua paixão eram as teclas brancas e pretas. Conhecia tanto este tipo de instrumento, em todas as suas diversas variações, que entrava em uma espécie de transe ao tocá-lo, sua alma fluindo com as notas musicais que dançavam pelo ar.
Uns instantes depois, quando o tecladista já havia terminado a execução da composição e estava fazendo alguns ajustes na mixagem, Ryuichi retornou com duas canecas fumegantes nas mãos.
“Hm… que cheirinho maravilhoso… obrigado…” Tohma pegou a caneca entre as mãos, assoprou um pouco e sorveu um pequeno gole do líquido escuro. “Delicioso…” Sorriu para Ryuichi, que foi andando até uma poltrona egg azul e preta, encostada na parede em frente.
“Tudo do melhor para meu Daddy…” o cantor se sentou meio esparramado na espaçosa poltrona e ficou olhando para o tecladista de forma provocativa, enquanto bebia o café em pequenos goles.
Tohma olhou-o longamente, enquanto bebia o restante do café. Passou a língua pelos lábios e deu um meio sorriso, deixando a caneca em cima da escrivaninha. “E então… gostou da melodia… Bunny...?” Ele se levantou e afrouxou a gravata, tirando-a em um movimento fluido, sem desviar os olhos do moreno, deixando-a cair em um montinho no chão.
“Muito linda… vai ser um sucesso…” O cantor largou a caneca no chão e se ajeitou um pouco na poltrona, na expectativa. “... So beautiful…” um murmúrio sensual.
“Tudo do melhor para meu LoonyBunny…”
Tohma foi se aproximando devagar, deixando a camisa e o colete caírem no chão e parando perto de Ryuichi, que deu um voluptuoso sorriso de contentamento, enquanto começava a tirava-lhe as calças.
“Eu disse que você estava com muita roupa, Daddy…”
Uma suave risada feliz deslizou pelas paredes do pequeno apartamento, sendo seguida por outros sons mais sussurrantes e sensuais.
Tic-tac
Tic-tac
Tohma Seguchi só conseguiu chegar à N-G por volta das treze horas, de um belo dia de outono, mas sem pressa alguma, com um meio sorriso bobo no rosto. Os três dias passados exclusivamente na companhia do cantor foram simplesmente formidáveis. Eles conversaram, transaram, discutiram, transaram, conversaram mais ainda, transaram ainda mais e ficaram apenas um na companhia do outro, como se o resto do mundo não existisse, como em uma lua-de-mel. O tecladista sabia, lá no fundo, que sempre sentiu falta desse tipo de convivência com Ryuichi, dessa cumplicidade tão espontânea, mas não se lembrava de o quanto ele o completava de muitas formas, fazendo-o se sentir inteiro como a muito tempo não sentia. Era como retornar à sua essência primordial, ao que ele era realmente, antes de a vida e a sociedade o forçarem a ser do jeito que elas queriam que ele fosse.
Então ele foi assim, meio aéreo e feliz, cumprimentando com um sorriso bem autêntico qualquer um que lhe aparecesse pela frente até chegar a sua sala, no último andar da N-G Records. Quando entrou, deparou-se com sua jovem secretária, que estava sentada na mesa dela, olhando embevecida para a porta fechada da sala do presidente.
“Boa-tarde, Aiko-san.” Cumprimentou, mas sem receber resposta da moça que ainda olhava para a porta fechada. O tecladista, então pigarreou de leve. “Hã, boa-tarde, Aiko-san.”
A moça teve um leve sobressalto, parecendo acordar de um sonho e, vendo quem estava à sua frente, levantou da cadeira em um salto.
“Ah, Seguchi-san! Boa-tarde! Mil desculpas pela distração!” ela se curvou um pouco.
“Tudo bem, tudo bem.” Tranquilizou-a Tohma, com seu sorriso habitual. “Desculpe-me pelo atraso. Não pude vir mais cedo. Está tudo bem por aqui? Alguém me procurou?”
Um suspiro profundo e um sorrisinho doce.
“Sim… Yuki Eiri...”
Ba bum…
A atenção do loiro empresário foi rapidamente focada no nome citado. Será que havia ouvido direito?
“Hã? Eiri-san me procurou? Quando?”
Ela olhou para o chefe e deu outro sorriso bobo.
“Ele está na sua sala, Seguchi-san! Aw… ele é tão lindoo! Nem acredito que ele é gay! Aw… tão fofo!”
Tohma olhou entre pasmo e divertido para a jovem se derretendo toda daquele jeito pelo seu cunhado favorito, ainda não acreditando muito que Yuki Eiri estava ali, na sua sala, em uma hora como aquela.
“Uh, tudo bem, Aiko-san. Tem certeza que é o Eiri-san que está aqui?” apontou para a porta fechada.
“Sim, Seguchi-san. É ele mesmo! Chegou a mais ou menos uns quinze minutos atrás. Tão lindo de tirar o fôlego!”
Ba bum…
Tohma olhou para a porta, sem saber se ficava feliz ou com medo. Yuki Eiri na sua sala era tão incomum, que só podia ser notícia ruim. Obviamente que sentia muitas saudades dele e queria muito o ver, mas… e se… e se… suspirou.
“Tatsuha…”
“Tudo bem, Seguchi-san?” A moça o olhou intrigada.
O loiro empresário se sacudiu mentalmente e deu um sorrisinho para a jovem secretária suspirante.
“Tudo bem, Aiko-san. Tudo bem. Então, se Eiri-san está aqui, vou ver o que ele quer comigo, certo? Segure todas as ligações para mim até ele sair, tudo bem?” Ele se virou sem esperar resposta, sem querer saber de mais nada, e entrou na sala, fechando a porta atrás de si.
Ba bum…
“Hã… Eiri-san…?” chamou para a sala aparentemente vazia.
“Hm… aqui, Sumido-san…”
Ba bum...
Tohma olhou para o lado e pode ver o loiro escritor, com seu um metro e oitenta e seis de pura beleza física esticado no sofá que havia ali e, a despeito do receio de que Tatsuha tivesse feito alguma pavorosa fofoca, seu coração se encheu mais ainda de calor e afeto enquanto se aproximava.
“... Eiri-san… que saudades… Como vai você?”
Aqueles esplêndidos olhos dourados o olharam semicerrados, como sob o efeito de alguma dor. “Com um pouco de dor-de-cabeça…” Yuki se ergueu um pouco do sofá. “Você poderia fazer aquilo…?”
“Ah, sim, claro…” O loiro tecladista se sentou no pequeno espaço, permitindo assim que o loiro escritor deitasse a cabeça em seu colo. Começou a fazer suaves carinhos naqueles cabelos macios, massageando de leve o couro cabeludo, em pequenos movimentos circulares. Era uma coisa natural nele, depois de tantos anos de convivência, fazer aquele procedimento para tentar aliviar qualquer tensão que houvesse no outro, uma leve massagem carinhosa. E tinha o maior prazer em fazer isso, já que Yuki Eiri era o outro grande amor da sua vida.
Porém era um amor de uma outra esfera, ou assim acreditava, nascido da mistura de muita afeição fraterna, enorme afeição fraterna, com um sentimento de culpa também enorme. Tohma tinha tanto medo de errar com Yuki Eiri novamente, tanto medo de falhar em protegê-lo que, para muitos, ele tinha uma obsessão por demais estranha pelo cunhado, uma fixação nele e no bem estar dele quase perigosa, que chegava a assustar um pouco.
Todavia, os outros poderiam pensar o que quisessem, desde que não interferissem no relacionamento com o seu cunhado favorito, pois o tecladista era capaz de atos temerosos para defender sua posição. Cuidar para que Yuki Eiri tivesse uma vida sem muitas angústias era um dos prazeres mais queridos de Tohma Seguchi. E uma obrigação também.
“Está melhorando…?”
Um profundo suspiro.
“Sim… suas mãos são mágicas… sempre me relaxam…”
Ba bum…
“Que bom… fico muito feliz em ouvir isso, Eiri-san… e você, tirando essa dor, como está? Soube que o motivo de suas inquietações passaram, mas mesmo assim fico preocupado com você…”
Uma respiração mais profunda e um olho dourado apareceu.
“Nem tão preocupado assim, não é mesmo? Você chegou a Tóquio, não falou com ninguém e sumiu por três dias, desapareceu no ar.”
Tohma deu um sorriso culpado, mas cheio de contentamento ao ouvir aquelas palavras, pois significava que fez alguma falta ao escritor. E enterrou mais ainda os dedos naqueles sedosos cabelos loiros.
“Hm… você me pegou nessa… mas como seu desconforto havia acabado… então… tirei um tempo para cuidar de alguns assuntos meus.”
“Certo, tem todo o direito, mas eu é que fiquei um pouco preocupado com você… não viu minhas mensagens?”
O loiro empresário olhou espantado para o escritor. “Que mensagens? Eu não recebi mensagem nenhuma de você e…” após falar isso, deu em si mesmo um tapa mental e se lembrou que havia deixado o celular no modo off-line. Tirou o aparelho do bolso interno do paletó e colocou-o online novamente. “Mil desculpas, Eiri-san. Eu havia esquecido que o deixei fora do ar.” Dali a uns segundos, os mais diversos sons saíram do iPhone, acusando o recebimento das mais diversas mensagens, três do Yuki, duas do Suguru, três de alguém que ele deduziu ser Shuichi, pelo tipo de mensagem, uma da Mika e umas cinco do Sakano-san. Além de umas dez ligações perdidas. “Ahn… me desculpe mesmo…”
“Sakuma Ryuichi deve ser mesmo muito importante, para fazer você se desligar do mundo desse jeito e ir se esconder sabe-se lá aonde com ele…”
Tohma sentiu seu corpo descer uns dez graus de temperatura ao ouvir essas palavras.
“Hã, como assim…? … porque você está falando isso…?” Pelos jeito a fofoca havia criado pernas enormes. E, para seu azar, tinha ido bater nos ouvidos do Yuki Eiri, logo ele, aquele com quem não gostava de ficar de fingimentos e meias palavras, pois sabia que podia confiar nele. Mas era um assunto muito delicado para tratar com alguém com quem tinha aquele tipo de parentesco.
“Olha, sinceramente, não sei…” Yuki tirou o próprio iPhone do bolso interno do blazer e mexeu nele rapidamente, para depois mostrar a pequena tela cheia de mensagens e passar o aparelho para um cada vez mais gelado tecladista. “...mas meu irmão infernizou minha caixa de mensagens e meus ouvidos, dizendo umas coisas muito bizarras em relação a você, um avião e Ryuichi Sakuma. Aí você chega e some de um jeito que ninguém sabe do seu paradeiro. Shuichi diz que eu não devo me meter nesse assunto, dando a impressão de saber alguma coisa a seu respeito que eu não sei… e isso é muito estranho para dizer o mínimo…”
Eles se encararam por breves instantes e Tohma, após devolver o iPhone, desviou o olhar para a janela do outro lado da sala, sem saber o que responder e sentindo uma aflição crescer em seu peito.
E ele estava tão feliz a uns minutos atrás...
“Ah, tudo bem. Isso não é assunto meu mesmo. Só queria avisar que Tatsuha está bem alterado e ele está lá, fazendo umas deduções estranhas a seu respeito e bem ao lado da Mika… disse a ele que ela está grávida e não pode ficar se estressando com babaquices… mas não sei se ele me ouviu…” Yuki se levantou e sentou direito no sofá, olhando de lado para o tecladista, que parecia estar em outro mundo, e em um não muito feliz. “Tohma…”
O loiro empresário piscou os olhos e virou-os para o escritor, muito brilhantes e preocupados.
“Acho que cometi o maior erro da minha vida…” ele se levantou e andou um pouco pela sala, como se buscasse algo que sabia não estar ali, pois, por mais paradoxal que pudesse parecer, ele estava procurando pelos braços protetores de Ryuichi.
“Hm… foi isso mesmo o que pensei depois de beijar Shuichi pela primeira vez…” Yuki se levantou também e pegou o loiro tecladista pelos ombros, encarando-o nos olhos. “Vamos, Tohma, não vai surtar agora, que você é capaz de fazer melhor do que isso…” olhou para aqueles grandes olhos verdes muito brilhantes e meio aterrorizados e deu uma pequena sacudida naqueles ombros que ainda segurava. “Vamos, acalme-se, homem. Faça Tatsuha esquecer esse assunto de alguma forma e tudo vai ficar bem…”
Tohma fechou os olhos por uns instantes, inspirando profundamente e deixando o ar sair devagar, buscando seu ritmo normal, querendo se acalmar, mas a imagem de Mika perdendo o bebê estava assombrando-o insistentemente, esgueirando-se tenebrosa por sua mente atormentada, paralisando-o de terror. Passou uma das mãos pelos olhos, evitando assim que qualquer gota represada caísse e o tornasse ainda mais patético. Tinha que se controlar.
“Pense… pense… pense…”
Respirou fundo mais uma vez e voltou a encarar o escrutínio do loiro escritor.
“Eiri-san… será que você…” um suspiro consternado. “... isso é tão embaraçoso… mas Tatsuha-kun vai ouvir você... vai acreditar em você…” ele pensou mais um pouco, muito indeciso.
“Dá para dizer logo o que você está pensando?” Yuki se encostou na grande mesa do presidente e cruzou os braços, enquanto Tohma o olhava ainda indeciso.
“Você se importaria de me emprestar o seu iPhone de novo para que eu possa ver o que Tatsuha-kun mandou para você?”
Yuki passou o aparelho para ele e Tohma começou a ver todas as mensagens que Tatsuha havia enviado ao irmão nos últimos três dias. E era um bocado delas. Mensagens que chegavam tão perto da verdade, que eram preocupantes. Se não estivesse tão angustiado, teria achado graça de algumas respostas atravessadas do loiro escritor. Devolveu o celular e pensou mais um pouco.
“Ele está muito chateado… e eu fui incapaz de evitar isso… você poderia…” ele encarou o outro por uns instantes. “Você se importaria de… de dizer a Tatsuha-kun que Sakuma-san está em Saitama, visitando alguns parentes e só vai voltar no final de semana…?”
“Ele está lá mesmo?”
Eles se encararam por um tempo e Tohma desviou o olhar.
“Não… ele não se entende muito bem com o pai...”
“Certo…” Yuki pareceu pensar por um segundo e abaixou o olhar, começando a mexer no iPhone.
Tohma passou a mão pela testa, sentindo-se muito incomodado.
“E… poderia dizer que foi Shindou-san quem passou essa informação a você...?”
Yuki deu uma olhada rápida para o loiro tecladista e voltou a digitar.
“Ele vai acreditar se não vier de mim…”
Ele parou de novo, pensativo. Sentia-se tão vil, tão desprezível, por estar envolvendo Yuki Eiri naquele assunto, que estava começando a passar mal.
“Pare, por favor… você não deve fazer isso… não deve se envolver… eu não posso fazer isso com você…”
O loiro escritor olhou sério para o loiro tecladista e apenas pôs o dedo no botão de enviar.
“Já está feito…”
Yuki ficou uns instantes olhando para o outro, pensativo, enquanto Tohma olhava para a janela, para depois voltar o rosto e enfrentar aqueles olhos dourados inquiridores.
“Sinto muito que você tenha que participar de meus problemas dessa forma…”
“Ok… Espera um instante... Vamos ver se eu entendi bem... Você, por acaso, está tendo um caso amoroso com Ryuichi Sakuma, como meu irmão desconfia? É isso mesmo ou eu estou pirando?”
Slap. O Yuki Eiri de sempre, direto ao ponto, com um olhar franco e sério.
Tohma engoliu em seco, mas sustentou aquele olhar que queria lhe invadir a alma.
E suspirou.
“Ah… que se dane tudo… não vou mentir para ele...”
“Sim…” Ele também podia ser direto, quando necessário. “Meu relacionamento com Ryuichi vem de muito tempo atrás, mais ou menos desde a formação da Nittle Grasper… com um intervalo de três anos, quando me casei com Mika-san e ele foi morar nos Estados Unidos…”
O escritor estava com uma cara de espanto quase cômica, mas voltou rápido a seriedade costumeira.
“Caramba... nunca que eu ia imaginar algo assim… pensei que ele era meio apaixonado pelo Shuichi…”
“É… antes de voltar para mim, também pensei que ele estava interessado em Shindou-san ou em Tatsuha-kun...”
“Pelo jeito tudo isso era só para fazer ciúmes em você…”
Tohma deu um sorriso triste.
“Não, acho que não. Ele não é assim… Ele queria esquecer… como eu também queria esquecer…”
“Mas ninguém esqueceu ninguém…”
Naquele momento o iPhone do Yuki emitiu um pequeno som, o que fez o escritor olhar para o aparelho e dar um suspiro.
“Tatsuha está perguntando se você está em Saitama também… ah, maninho, desista…” Ele digitava rapidamente. “Seu querido cantor há muito tempo já tem dono…” Ele terminou o que estava escrevendo e clicou em enviar. “Pronto. Disse que você está aqui em Tokyo, trabalhando. Isso deve acalmar os ânimos, por enquanto.”
“Obrigado, Eiri-san…”
Um instante de silêncio.
“E minha irmã? Ela sabe que você… bem… Como ela fica nisso tudo?”
Um longo suspiro.
“Não sei, ainda, mas eu gostaria muito que ela ficasse como está agora, ao meu lado, como minha esposa, futura mãe do meu filho…”
“É mesmo…?”
“Sim… eu a amo, de certa forma… e não quero que ela seja magoada, por nada desse mundo...” Tohma olhou Yuki no olhos. “Estou ofendendo muito você, Eiri-san…? Por querer continuar cuidando daqueles que amo? Por querê-los perto de mim? Eu sei que não é o convencional, mas preciso tanto desses dois comigo… só que não quero ofender você… você que é tão importante para mim, que também preciso muito que permaneça na minha vida...”
Eles se olharam por alguns segundos em silêncio.
“Bom, eu acho que você está arrumando muita encrenca para sua vida, mas, me ofender? Não, você não está me ofendendo de jeito nenhum, pois eu conheço você, Tohma Seguchi, e não me surpreendo mais tão facilmente. Eu sei que você é capaz de fazer qualquer coisa para conseguir o que quer, e tem força para mostrar a todo mundo o quanto está certo nas suas escolhas.”
Tohma suspirou e deu um leve sorriso.
“Eu sou assim, não sou…?
Yuki olhou-o de lado e deu um meio sorriso.
“Sim, você é…” O escritor desencostou da mesa e guardou o celular. “Bem, acho que já resolvi tudo aqui.” O sorriso dele se ampliou um pouco. “E veja só, eu tirei você de uma fria! Eu protegi você desta vez!” Ele deu uma piscadela para o sorriso que se formava no rosto do empresário. “Ah, só mais uma coisa…”
“Sim?”
“Tatsuha mencionou, quando me ligou ontem, como se fosse um mistério que precisa descobrir, algo como LoonyD ou LoonyB…” o loiro escritor viu o rosto do tecladista adquirir um suave tom rosado nas bochechas, o que fez sua curiosidade aumentar. “O que é isso? Algum tipo de código? Um apelido?”
Tohma sentiu o rosto esquentar violentamente e desviou o olhar, querendo enfiar a cabeça em algum buraco bem fundo, não conseguindo responder de imediato.
“Porque Tatsuha não consegue manter fechada aquela boca enorme dele?”
Cri-Cri.
“Hm… não é nada que eu deva saber, pelo jeito…”
Yuki estava com um olhar muito perspicaz, procurando observar os olhos do envergonhado empresário, que deu o sorriso mais sem graça do mundo.
“… é apenas uma bobagem… um apelido… nada de importante…”
“Tudo bem… um apelido... Mas tenho quase certeza que eu não devo chamar um certo cantor por este apelido...”
“Você está certo, ele não ia gostar…”
“Hm… e é LoonyD ou LoonyB?”
“Eiri-san… por favor...”
“Vai, D ou B?”
Suspiro.
“B… É LoonyB… satisfeito…?”
“E o que é esse B?”
“Hm... você não costuma ser tão curioso assim…”
“Vamos lá, me diz… o que significa?”
Outro suspiro e uma revirada de olhos.
“... Bunny…”
“Ah, sim, Loony Bunny… um apelido muito apropriado, diga-se de passagem…”
Yuki ficou observando o outro com um brilho muito divertido no olhar, enquanto o tecladista dava um longo suspiro, ainda sentindo o rosto quente como em um dia de verão.
“Espero que você esteja satisfeito agora, porque não vou dizer mais nada sobre esse assunto…”
“Tudo bem. Eu já tenho todo um interessante quadro surreal pintado na minha mente. E é incrível como, apesar de conhecermos alguém por tanto tempo, esse alguém ainda é capaz de nos surpreender tanto…” O escritor deu um meio sorriso, se aproximou e deixou um beijo carinhoso no rosto ainda corado do tecladista. “Bom, agora vou indo. Shuichi já deve estar me esperando. Ele quer comer monjayaki aqui perto...” Ele arregalou os olhos. “Yuukii, vamos comer monja em Shibuya, vamos, vamos, poor favooorrr!” Fez uma imitação cômica do espevitado cantor e suspirou. “Que pirralho chato…”
Tohma sorriu e olhou o outro com muita ternura. “Você o ama de verdade, não é mesmo? ...Deve ser maravilhoso ser amado por você, Eiri-san...”
Yuki fez uma fingida cara enfezada e deu um empurrão leve no ombro do outro. “Ah, cala a boca…” depois sorriu aquele sorriso lindo dele e foi andando até a porta. “E quanto a ser amado por mim… você já devia estar cansado de saber como é, não é mesmo, Tohma?” Ele abriu a porta e ergueu uma mão em despedida. “Tchau! Fui!”
Babum
“Tchau, meu querido… E muito obrigado…!”
“Ele disse que me ama… não disse…? Ele me beijou por vontade própria e disse que me ama…!”
Tohma ficou apenas olhando para a porta fechada por uns instantes, com um sorriso muito bobo no rosto, sentindo-se novamente feliz. Talvez mais feliz ainda, se isso era possível. Seu adorado Yuki Eiri se revelou um inesperado aliado muito importante, na delicada situação em que se encontrava e, com a ajuda dele, não precisava se preocupar, por enquanto, com Tatsuha e sua enorme língua faladeira.
“Ele me ama… Ele me ama… Ele me ama…!”
Cantarolando para si mesmo mentalmente, deu a volta e se sentou na sua confortável cadeira presidencial, mas, ao invés de começar a ver os papéis que o aguardavam na mesa, pegou o iPhone e, virando a cadeira para a grande janela envidraçada, fez discar um número da memória. Ainda precisava aparar algumas pontas.
“Olá, meu amor, como vai você? … Que bom... Eu sou um pobre marido morrendo de saudades da esposa… sim… me desculpe, estava trabalhando em umas composições, como eu disse que faria… sim, eu vi, me desculpe por não responder a tempo… certo… tudo bem… Mika, querida, estou querendo ir buscar você mais cedo… sim… sei… que tal na sexta-feira, então? … certo, combinado… devo chegar aí ainda na parte da manhã, está bom assim?… ah, eu adoraria… sim… Meu bem, estava pensando em passar o final de semana em algum lugar gostoso, em Hakone, com você, antes de voltar para Tóquio, o que acha? … sim, só nós dois, aliás, nós três... ah, adoro ouvir a sua risada, sabia…? … também preciso de uma pausa… que tal o Kinnotake…? … sim, boas lembranças… vou providenciar tudo, então… sim, estive com seu irmão e está tudo bem… você tinha toda a razão, como sempre… sim, eu reconheço… eu te amo, sabia…? … também estou com muitas saudades de você… Ah, certo… então, até sexta… te amo… outro… até...”
Ele desligou e fez digitar um outro número da memória, cantarolando uma das musiquinhas bobas que inventou com seu querido cantor.
“Hello, my Love, tudo bom por aí? … também estou com saudades, muitas saudades… sim… Honey, queria pedir um favor… ah, nossa, que maravilha, mas isso fica para mais tarde… bem, queria pedir para você desbloquear Tatsuha-kun no celular … porque ele deve estar querendo falar com você… só para jogar conversa fora, sei lá …. sim… é, ele ainda está chateado… eu sei, mas não é isso que estou pedindo, é só para jogar conversa fora… hm, se ele perguntar, você poderia dizer que está em Saitama…? … para parar com as desconfianças dele… isso… Eu sei, my dear, você é livre para fazer o que quiser, onde quiser e com quem quiser, mas eu não sou… não, a culpa é toda minha… sim, vou passar o resto da minha vida em penitência, me desculpando com você, com o maior prazer… você sabe que eu te amo… I love you, love you, love you… I love you so so much… Thank you, Honey… sim, faço tudo o que você quiser… mas se eu não vier trabalhar, vou falir… hehe, está bem… hm, que covardia, Bunny, falar assim quando estou aqui, no meio do expediente… hm… é? … posso imaginar… vai…? … Hmm… é…? … hehe… quer parar…? ... Sim… eu sei… hm… ahn, não faz assim… ah, não, não posso fazer isso aqui… não, vou desligar… I love you… muito, muito… até mais tarde, my Love…”
Ele desligou e ficou olhando a paisagem uns minutos para se acalmar do ardente telefonema. Após se sentir mais tranquilo e centrado, voltou a cadeira para a mesa e colocou o iPhone sobre a mesa, no pedestal de carregamento. Pensou por uns instantes e mexeu em uma pilha de pastas que estavam no lado esquerdo da mesa, tirando uma delas do meio da pilha, a que tinha o título de Lesson-Five. Esse era o nome de uma nova banda de JRock que vinha observando discretamente, decidindo se seria um bom investimento. Era uma banda de cinco integrantes e a cantora tinha uma linda voz. Seu visual sexy e andrógino era realmente interessante e os outros integrantes, três rapazes e uma outra moça muito bonita, também eram bastantes vistosos.
Pegou o CD demo que estava dentro da pasta e colocou para rodar na aparelhagem de som, que ficava ao lado da mesa. O som era um pouco pesado, muito harmônico e profundo, com umas batidas e variações originais. A letra da música podia ser mais bem lapidada, mas era bastante inspirada.
Olhou por um tempo a foto da cantora, que parecia uma versão feminina do Ryuichi. Observou que ela tinha também olhos violáceos, talvez um pouco mais claros, mais azulados e maiores, olhos femininos muito maquiados, com uma doçura agressiva encantadora, em um lindo rostinho em forma de coração. Além de ser a vocalista principal, também era a baixista e compositora. Uma garota bonita e talentosa.
Perfeito.
Pegou o CD e guardou-o na pasta novamente, enquanto apertava o interfone e chamava a secretária, que levou apenas alguns segundos para a abrir a porta, toda sorridente.
“Sim, Seguchi-san?”
“Aiko-san, por favor, poderia entregar essa pasta nas mãos de Sakano-san e dizer a ele que tem sinal verde para contratar essa banda?” passou a pasta para as mãos da moça. “Diga que falarei com ele mais tarde sobre esse assunto, e que também quero saber como andam os trabalhos da Bad Luck. Poderia também ver se Suguru está na casa e pedir para vir me ver assim que possível? E depois, por favor, providencie a reserva, em meu nome e da minha esposa, da suíte premium no Ryokan Kinnotake, em Hakone, por duas noites, a partir do sábado próximo. E também uma reserva no Shinkansen até Kyoto, para sexta-feira, no primeiro horário da manhã. E é só. Muito obrigado.”
Assim que a secretária saiu começou a estudar a papelada que havia na mesa. Se tudo desse certo, brevemente Tatsuha teria um outro interesse amoroso, outro ídolo para seguir e se apaixonar. Alguém mais apropriado. Daria até um jeito para que os dois se conhecerem pessoalmente, em algum evento social, que patrocinaria para a banda dela. Faria qualquer coisa para que aquela fixação adolescente em Ryuichi terminasse de uma vez por todas.
Eram por volta das oito horas da noite quando Tohma finalmente voltou para o apartamento em Shinjuku, ansioso para rever seu querido cantor, mas, infelizmente, o lugar estava escuro e vazio. Ryuichi havia saído. Uma leve lembrança ruim passou rápida pela mente do loiro tecladista, mas ele espantou aquela inoportuna lembrança, dizendo a si mesmo que não era nada daquilo. Não tinha feito nada de tão grave para que o cantor fosse embora de novo. Estava tudo bem entre eles. Afinal, até falaram bobagens eróticas pelo telefone. Estava tudo bem. Resolveu relaxar com uma ducha e depois ia ver se tinha algo na cozinha que poderia ser transformado em comida saborosa.
Estava saindo do banheiro quando ouviu a porta da frente ser aberta e suspirou aliviado, com qualquer nuvem negra desaparecendo em definitivo.
“Tadaimaaa!”
Ba bum… Ba bum...
O coração do empresário se encheu de amorosa ternura.
“Okaeri!”
Tirou o roupão atoalhado de banho que usava e vestiu um robe de seda negra, amarrando-o frouxamente na cintura. Sacudiu um pouco os cabelos, que ainda estavam úmidos, ajeitando-os com os dedos, enquanto rumava para a sala, onde Ryuichi terminava de colocar umas sacolas de compras, que trazia nas mãos, em cima da bancada que dava para o pequena cozinha.
Ba bum… Ba bum… Ba bum...
“Comprei alguma coisa para a gente comer e…uau…!” Ryuichi mal teve tempo de ver o tecladista se aproximando antes de ser abraçado carinhosamente. “Hm… que cheiroso…” apertou-o nos braços enquanto enterrava o rosto em seu pescoço. “... todo lindo e cheiroso… na no da…”
“Estava morrendo de saudades de você…” Tohma se afastou um pouquinho para poder beijar o cantor apropriadamente, devorando-lhe os lábios com uma fome dele que nem sabia que estava sentindo tão forte assim. E depois se afastou, puxando-o pelo braço. “Vem, LoonyBunny… Que tudo o que eu quero agora é você…”
“Uh, claro, vou sim…” Ryuichi jogou a carteira e as chaves, que ainda tinha nas mãos, em algum lugar indefinido, enquanto ia meio tropeçando pela sala.“...opa, opa...” Ele riu um pouco daquela pressa e puxou o braço, trazendo o tecladista junto, encostando-o na porta do quarto. Beijou-o com igual voracidade, enquanto o livrava da pouca roupa que lhe cobria o corpo. “Que delícia te encontrar tão entusiasmado assim…” O virou e pressionou-o com todo o corpo, enquanto distribuía beijos chupados pelos ombros, nuca, pescoço, por qualquer pedaço de pele cheirosa que seus lábios conseguiam alcançar, enfiando-lhe a mão pelo meio das pernas, para acariciá-lo intimamente. “Agora me diz, Daddy… o que quer que eu faça com você…?”
“Ah… ahn… você… sabe…” O loiro tecladista já se sentia todo eletrizado e muito sensível a todas as carícias recebidas, empinando-se um pouco para melhorar o contato com o outro corpo, que ondulava suave as suas costas.
“... Diz…”
“… Ahn… por favor, Bunny… me come bem gostoso... como você disse... ah… que faria…”
Ryuichi deu um sorriso. “Com todo o prazer… Daddy…” Ele virou Tohma novamente e o beijou enquanto o conduzia até a cama, onde o empurrou sem cerimônias, para depois arrancar as próprias roupas ansiosamente, extasiado com a visão do loiro se ajeitando sobre os lençóis, muito convidativo, muito entregue.
“Vem…”
E o cantor mergulhou ávido naquele corpo que se abria tão docilmente para ele.
Tic-tac
Tic-tac
Por volta das nove e pouco da noite, um muito satisfeito e extenuado tecladista estava esparramado de bruços na cama desarrumada, um leve lençol cobrindo-lhe parcialmente a nudez, ouvindo seu querido cantor assobiar uma melodia enquanto ia na sala pegar a comida que havia trazido mais cedo.
Barulho de saco de plástico sendo mexido, na sala, e de um bocejo, no quarto.
“Vai demorar muito, Honey…?”
“Quer que eu esquente um pouco?”
“O que é?”
“Yakitori e Takoyaki.”
“Não precisa, não. Vem, que estou morrendo de fome…”
Dali a uns minutos, Ryuichi apareceu na porta do quarto, carregando uma bandeja de madeira cheia de petiscos interessantes e uma garrafinha de saquê, com os respectivos copinhos.
“Hm… parece tão bom…” Tohma se ergueu e sentou de pernas cruzadas, ajeitando os lençóis para que o outro colocasse a bandeja ali entre os dois. “Posso…?” Ele apontou para um Takoyaki, enquanto Ryuichi se sentava e fazia um sinal para que prosseguisse. Ele então colocou o bolinho todo na boca, comendo-o prazerosamente.
“Está bom? Talvez se eu tivesse esquentado um pouco, ficaria melhor…” O cantor entregou um dos copinhos para o tecladista e lhe serviu da bebida.
“Para mim, está delicioso.” Tohma sorriu e fez um afago no rosto do outro. “Obrigado, Ryuu-chan, por me amar e me alimentar com tanto carinho.” E serviu a bebida do cantor, como de costume.
“Fique comigo e você sempre será tratado assim…”
O tecladista pegou um yakitori.
“Eu estou com você, não estou?” Ele sorriu e mordeu um pedacinho de frango.
“Fique só comigo…”
Eles se olharam por uns segundos e Tohma desviou o olhar, voltando a morder o espetinho de frango, mas esticou a perna direita e encostou-a na perna esquerda do cantor, que começou a acariciar suavemente.
Ryuichi pegou um takoyaki, mas não o comeu e ficou rodando com os dedos o palitinho onde o bolinho estava espetado, como se fosse muito interessante vê-lo girar.
“Taty-chan me ligou… queria saber se eu estava bem, se você não tinha feito nada de errado comigo…” ele deu uma leve risada meio melancólica. “Como se você fosse capaz de me fazer alguma coisa que eu não quisesse que você fizesse comigo, sendo errado ou não…”
Tohma terminou o espetinho e deixou o palito no canto da bandeja, lambendo um restinho de molho dos dedos, para depois beber um gole de saquê. Falar a respeito de Tatsuha e seu coração partido não era o que tinha em mente naquele momento.
“Sinto muito por tudo o que aconteceu, Honey… Acho que esqueci que ele ainda é quase uma criança… espero não cometer esse erro novamente…”
O cantor deslizou a mão pela coxa do tecladista, acariciando-a toda.
“Você não tem que se desculpar de nada, my Angel… e Tatsuha está muito enganado comigo, pensando que precisa me proteger… e logo de quem ele quer me proteger… me deu vontade de dizer a ele que quem deveria ser protegido é Tohma Seguchi… ser protegido do amor voraz de Ryuichi Sakuma...” ele parou de rodar o bolinho e encarou o outro. “Mas eu não disse nada disso… falei o que você me pediu para falar… e o enganei como você queria que eu o enganasse…”
Tohma chegou a bandeja um pouco para o lado e se aproximou do cantor, pegando o bolinho da mão dele e o oferecendo na boca, olhando-o bem de perto, amorosamente. Sorriu quando o cantor abocanhou o petisco com vontade. O tecladista então o abraçou, encostando a testa no ombro dele, sendo abraçado com igual carinho por Ryuichi.
“Sinto muito mesmo colocar você neste tipo de situação, my Love… mas ele estava lá, muito perto de falar demais e criar uma confusão com Mika-san, e tudo isso por minha culpa… porque eu o enfrentei daquele jeito… porque eu ainda sou muito apaixonado por você e voltei para você, como você queria, e como eu também queria...”
“Ele foi muito grosseiro com você e esse não é o normal dele… mesmo assim, eu gosto do Tatsuha e não quero ficar enganando ele assim… ele disse que está apaixonado por mim… sei que isso deve ser só coisa de fã, mas, mesmo assim, não quero brincar com os sentimentos dele desse jeito…”
Tohma suspirou e ergueu o rosto, indo deixar alguns beijos nos lábios do cantor.
“Tudo bem. Vamos resolver isso eventualmente… mas, Honey, podemos falar sobre esse assunto uma outra hora? Eu não estou conseguindo pensar em nada que seja mais complicado do que takoyaki e saquê… estou no meu formato neko, não percebeu? Sou um lindo e mimado neko, que ama você e é só seu. E eu só quero ficar aqui, ronronando para você, enquanto você me alimenta e me faz carinhos… ”
Ryuichi olhou de lado para o tecladista, que estava naquele momento esfregando o rosto no seu, como um gato, e sorriu.
“Neko, é…?”
“Nyan-Nyan…”
O cantor começou a rir, sendo seguido por Tohma na risada, depois se afastou um pouco e pegou um outro takoyaki, mordendo a bolinha levemente, segurando-a nos lábios, para depois oferecer a outra metade ao tecladista, que a aceitou de imediato, mordendo delicadamente o pedaço que lhe cabia. E comeram o bolinho com olhares divertidos de um para o outro.
“Neko-chan está bem alimentado…?”
“Quase…”
Ryuichi sorriu e pegou o rosto do outro entre as mãos, beijando-o muito carinhosamente, para depois o olhar bem de perto.
“Neko-chan está bem acarinhado…?”
“Hm… para os próximos dez segundos, sim…”
“E depois de dez segundos…?”
“Vou precisar de mais carinhos…”
Eles seguiram assim, dando umas risadinhas das bobagens que falavam, e falando ainda mais bobagens, enquanto acabavam com a comida e o saquê, já em um clima mais ameno, como Tohma queria. Apenas comer e beber e transar.
E fazer música.
“Bem, terminei a letra da música…” informou Ryuichi, após mastigar o último takoyaki. “Mas fiz muitas modificações. Quer ouvir…?”
“Sim! Vou adorar assistir uma performance particular do meu cantor favorito!” O loiro empresário se ajeitou na cama, na expectativa.
“Perai…” Ryuichi se levantou em um salto e foi para a sala.
O tecladista se espreguiçou todo e catou uma camisa de pijama cinza escuro que estava jogada ali perto, vestindo-a sem se preocupar em a arrumar corretamente, apenas se cobrindo um pouco.
Uns barulhos foram ouvidos é algo caiu em algum lugar, fazendo Tohma dar uma risada, imaginando a bagunça que ele estava fazendo lá, mas sem se importar realmente com isso. Desde que parasse de cobrar uma atitude que não seria possível adotar no momento, ele poderia quebrar tudo lá na sala novamente.
Já haviam conversado a respeito desse assunto e Ryuichi sabia que Tohma não poderia assumir publicamente a relação deles dois, como desejava, e provavelmente nunca poderia ser assim. Não tinha mais liberdade para isso. Mas Tohma também sabia que Ryuichi não ia aceitar viver nas sombras por muito tempo. Não era da natureza dele. E o que ia fazer quando ele resolvesse gritar para o mundo o amor deles dois? Não sabia, mas provavelmente não poderia fazer nada, a não ser implorar para que ele não fizesse isso. E ia implorar com todas as forças.
O tecladista se lembrava muito bem o que o cantor fazia quando a Nittle Grasper estava no auge da fama, durante os diversos shows que fizeram Japão afora. Quando eles eram muito apaixonados um pelo outro e eram livres para viver esse sentimento sem muitas restrições.
Por causa das performances nos palcos, onde o cantor invariavelmente dava um jeito de abraçar o tecladista e ficar um tempo assim, como se estivesse cantando só para ele, as cartas de muitos fãs chegavam com perguntas a respeito da relação deles dois, querendo saber se eles formavam um casal. Queriam saber porque eles pareciam olhar tão carinhosos de um para o outro, porque eles se tocavam e se abraçavam tanto, porque, nas poucas vez em que Tohma atuava como back vocal para Ryuichi, o cantor sempre ia dividir o microfone com o tecladista. Pareciam não ver que o cantor fazia as mesmas coisas com Noriko, às vezes.
Devido a tanta curiosidade alheia, que ia crescendo à medida que a banda ficava mais famosa, Tohma passou a evitar olhar muito para Ryuichi durante uma apresentação, com receio de algum flash pegar o que não devia em seus olhos e incrementar o falatório
Era como estar sob um microscópio, com todas as ações sendo analisadas minuciosamente.
É claro que Ryuichi não dava a mínima importância para o que os flashes pudessem revelar, divertindo-se muito quando vinham lhe dizer o que escreviam sobre eles nos meios de comunicação.
A grande maioria dos fãs não queria saber desse assunto homoafetivo, particularidades pessoais e etc, interessados só no talento deles e no som que faziam. Alguns achavam que um dos dois era namorado da Noriko, enquanto outros achavam que eram os dois, e que aconteciam as maiores libertinagens nos bastidores, mas havia aqueles que torciam para que os dois rapazes fossem realmente um casal, ansiosos para que eles assumissem a relação logo de uma vez.
Eles nunca confirmaram nada, obviamente. Tohma, o lado mais sóbrio, invariavelmente dizia que eles eram bons amigos. Noriko, a gatinha espevitada, às vezes brincava em dizer que os três eram namorados, uma tríade do amor. Ryuichi, a estrela brilhante que desafiava definições, só sorria misteriosamente e mudava de assunto, falando alguma excentricidade engraçada. O staff dizia que era bom marketing esse mistério em torno da sexualidade deles, então eles iam seguindo, sem responder a perguntas de cunho muito pessoal. Fazia parte do show business.
Mas era assim no passado. Não poderia ser assim no presente momento.
“Eiri-san disse que estou arranjando muita encrenca para minha vida… e ele tem toda a razão… mas não tenho como evitar… pois não vou mais viver sem Ryuichi ao meu lado…”
O cantor voltou com um dos sintetizadores debaixo do braço, e com uns fios sendo arrastados pelo chão, um desses fios carregando um pequeno amplificador. Chegou perto da cama e deixou o equipamento todo por ali.
“Pode cuidar disso para mim?”
Tohma, rindo um pouco, pegou o equipamento e reconectou os cabos, ligando o sintetizador em uma tomada perto da cabeceira da cama. Depois fez alguns ajustes, buscando na memória do aparelho a gravação da melodia terminada naquela manhã.
“Pronto.” Ele olhou para o cantor, que estava de cabeça baixa, um microfone batendo de leve na perna direita e outro na mão esquerda, como se estivesse se concentrando para um show. E foi o ser musical, que havia nascido para brilhar em um palco, diante de milhares de pessoas, que lhe passou um pedaço de papel, juntamente com um dos microfones.
“O que está entre parênteses é seu, Angel…”
Tohma olhou o papel, onde havia o que parecia ser os refrões da música.
“Hm… espero conseguir acompanhar você… como eu faço?”
“É só começar um pouco depois de mim, em sol, para nossas vozes se misturarem, mais suave, alongando um pouco o final... assim…” Ele cantou uma parte e Tohma o imitou. Então ele cantou uma frase principal e o loiro fez a segunda voz. “That’s it, my Angel… tudo bem para você?”
O tecladista fez sinal de positivo e acionou o aparelho, fazendo a melodia sair pelos altos-falantes, um som que era uma balada de hard rock, com alguma coisa de blues aqui e ali. Ainda faltava incluir um ou outro instrumento, mas, no geral, parecia bom para Tohma.
Então Ryuichi, que parecia radiante como a estrela que era, que o olhava como se o quisesse hipnotizar, um olhar que deixava o tecladista meio mole por dentro, vestido apenas com as calças cinza escuro de um pijama de seda, começou o espetáculo particular como se estivesse em uma noite de estréia.
I will be your everything, my dear friend
Pelos vãos abertos da sua alma vou adentrar
Invadir sua mente e profanar seu corpo
Serei o sangue sem o qual não pode viver
Serei o ar que traz vida aos seus olhos
Verde mar dos meus tormentos e prazer
Eu sei que não estou errado (it’s all right)
Em sentir tudo que sinto por você (my beloved one)
Esse amor sombrio que me ilumina (you will be my everything)
Esse amor que é feito de você (forever)
Mas todos dizem que estou errado
Em amar aquele que não pode ser meu
Aquele que viaja nas estrelas distantes, frias
Feliz prisioneiro de brilhantes salas vazias
Senhor daquele reino de cristal e camafeu
O príncipe encantado de todos os meus eus
Eu sei que não estou errado (no, you are not wrong)
Em sentir tudo que sinto por você (I love you)
Esse amor destrutivo que me renova (You are my everything)
Esse amor que é feito para você (my beloved friend)
Mas todos dizem que estou errado
Em aceitar apenas migalhas do seu querer
Um lobo esfomeado do seu doce sabor
Vagando pelas extremidades do seu brilho
Mendigando pequenos pedaços do seu amor
I will be your everything, my angel
Mas eu sei que não estou errado (it’s all right)
Em sentir tudo que sinto por você (my beloved one)
Esse amor proibido que me liberta (You will be my everything)
Esse amor que é feito com você (forever)
Eu tenho o cheiro de sua pele na minha pele
O gosto da sua boca habita a minha boca
Mergulhei no verde do seu mar de tempestade
Raptando sua razão, tiranizando seu querer
Maculando os suaves relevos do seu corpo
Porque você nasceu para me pertencer
Eu sei que não estou errado (no, you are not wrong)
Em sentir tudo que sinto por você (I love you)
Esse amor lindo que me faz renascer (you are my everything)
Esse amor que floresceu em você (my beloved friend)
I will be your everything, my angel
E vou encher o infinito com seu nome
Até você admitir que não vive sem mim
Até que meu nome esteja escrito no seu
Eternamente meu, my dear angel
my dear friend... Tohma...”
“Céus... estou ferrado…”
Após terminar o que lhe cabia cantar, o homenageado ficou alguns segundos meio paralisado, atônito com as modificações havidas na letra, aliás, tudo havia mudado. A música deixou de ser a respeito de sentimentos românticos de um modo geral, sendo direcionada explicitamente ao relacionamento dos dois.
“Estou ferrado, mas ficou muito boa…”
Ele então se ergueu um pouco da cama, ficando de joelhos, e começou a bater palmas entusiasticamente, pois, apesar de extremamente comprometedora, a letra o agradou muito, a harmonia entre as palavras e a melodia estava perfeita. Além da voz de Ryuichi estar particularmente bela naquela noite. Para uma apresentação privada, a música estava ótima. Para o público, nem pensar.
“Ficou muito bonita!” Ele mandou beijos, como um fã, para um sorridente e satisfeito Ryuichi. “Mas meu nome vai sair do final, na versão oficial, não é?”
O sorriso do cantor ficou um pouquinho malicioso.
“Essa é a versão oficial… a única versão que vou cantar…”
Tohma deixou-se cair sentado na cama novamente, com o sorriso começando a ficar meio sem graça. “Ahn, Ryuu-chan, você não está falando sério, não é?”
Ryuichi sentou na cama e olhou o outro de lado, ainda sorrindo um pouco.
“Oras, porque não…? Estou até pensando em dar um beijo cinematográfico em você no final da apresentação… na no da… fazer o que muitos fãs gostariam de me ver fazendo… o que acha…?” Um sorriso muito provocante.
Um leve temor percorreu o corpo do loiro, pois ele sabia que o cantor era capaz de tal façanha. Não era provável que ele fizesse isso realmente, mas ele era capaz...
“Vamos, Honey, você não vai me fazer sair correndo de você no meio de uma apresentação, não é? Isso seria muito vergonhoso…”
Ryuichi riu um pouco.
“Vergonhosamente divertido… and I’d catch you, my Angel… my dear Angel...”
Tohma se aproximou e enlaçou o cantor com as pernas e os braços.
“Eu que vou pegar você e te prender aqui, assim, e então só eu vou ouvir a sua linda voz e receber seus deliciosos beijos, para sempre… o que acha…?”
O cantor se virou e ficou de frente para o tecladista, entrelaçados um no outro.
“Eu acho que vou aceitar a proposta, se for só nós dois… só nós dois juntos para sempre… como deveria ser… como nunca poderia ter deixado de ser...”
Tohma deu um suave suspiro e sorriu levemente, para depois encostar a testa na do outro. Tudo o que não queria era discutir a relação recém reatada deles. Mas, pelo jeito, era só o que Ryuichi queria fazer.
“Eu te amo tanto…”
O cantor beijou suavemente os lábios do tecladista.
“Então vamos viver juntos novamente, my Angel… como antes… quando eu tinha a enorme felicidade de ter só para mim o homem que eu amo… Minha cabeça dói sempre que lembro que nós dois aqui, sempre juntos, só vai durar até o domingo… e depois disso, terei que dividir e esperar… esperar e dividir...”
O loiro engoliu em seco e se afastou um pouco, fazendo carinhos suaves pelos braços e peito do cantor, como em reconhecimento, se recusando mentalmente a informar, naquele momento, que não seria até o domingo a exclusividade. O nefasto comunicado ia ficar para o dia seguinte.
“Por favor, my Love, vou precisar muito da sua paciência e compreensão… precisarei de algum tempo para pôr tudo em ordem… ”
Um suspiro do cantor, que pegou uma das mãos que o acariciava e beijou-lhe a palma, para depois prendê-la entre as suas.
“A única coisa que eu quero é que seja como antes… eu não consigo esquecer o quanto me fazia feliz poder dormir todos os dias com você nos meus braços...”
Tohma também lembrava muito bem dessa felicidade. Mas não queria lembrar, pois não podia ter isso de volta. Olhou bem dentro dos olhos do cantor. Se Ryuichi queria falar a sério, iria falar a sério um pouco também... de novo.
“Infelizmente, para nós dois, não vai ser como era antes. Eu amo muito você, continuo tão apaixonado por você como quando nos conhecemos e, pelo jeito, isso nunca vai mudar, mas não pode ser como antes.”
O cantor o olhou chateado.
“Angel, não estou pedindo para você jogar tudo para o alto e vir morar comigo imediatamente, mas, depois de resolver o que precisa resolver, vamos voltar a morar juntos, como você sabe que deve ser...”
“Ryuichi... não é assim tão simples. Eu… Eu fiz uma outra vida depois que você me deixou e não posso, porque você voltou para mim, esquecer essa vida de agora e retomar a vida anterior que tínhamos um com o outro.”
E, depois de dizer essas palavras, de novo, Tohma sabia o que ia acontecer, via brilhar nos belos olhos violeta do cantor.
“Eu deixei você porque você ia se casar… com aquela lá… ao invés de se casar comigo… com aquele que você diz amar tanto…”
O tecladista abraçou o cantor mais ainda, pois o sentia se afastando, querendo sair de seus braços e não estava disposto a terminar aquela noite com frieza e distanciamento. Por isso, preferiu deixar para lá tudo aquilo que gostaria de dizer, e que ia jogar ainda mais pólvora no fogo. Não ia levar a lugar nenhum mesmo discutir algo que havia ficado no passado.
“Por favor, não vamos brigar por causa disso de novo, my Love… não nesta noite em que você cantou tão lindamente para mim… vamos namorar mais um pouco, está bem…? É tão melhor namorar com você do que brigar… eu sou seu… só seu...”
Depois de alguns segundos de tensão, o cantor relaxou o corpo novamente e deixou sair um suspiro.
“Está bem, Angel…”
E Tohma o beijou bem demorado, sentindo-se ser abraçado com uma firmeza aconchegante e carinhosa. Depois ficaram dizendo palavras amorosas um para o outro, entre carinhos e beijos, até o momento em que o tecladista se afastou um pouco, para colocar a bandeja de comida sobre um pufe roxo que estava ali perto, enquanto o cantor baixava o sintetizador até o chão.
Após desocupar a cama da comida e da música, o loiro empresário tirou a camisa que havia posto há pouco e se deitou novamente, pegando uma das mãos do cantor para beijar-lhe a palma, lamber-lhe os dedos e a deslizar pelo próprio corpo devagar.
“Posso ter você em mim, de novo…?”
Ryuichi deu um meio sorriso e começou a fazer carícias no corpo do loiro por conta própria.
“É assim que você vai resolver as coisas, Daddy…?”
“Ahn Bunny, não seja mauzinho… eu só quero um pouco mais sexo com você…” murmurou o loiro todo charmoso e entregue.
O cantor se deitou também, indo distribuir pequenos beijos chupados ao longo do pescoço do tecladista, para depois e olhar bem de perto.
“Tem certeza, my Love? Você havia dito que precisava de um descanso...”
Tohma enroscou uma perna no quadril do cantor.
“Estou bem, LoonyB, não se preocupe… apenas me ame como só você sabe fazer… desfrute dos meus ‘suaves relevos’...”
E Ryuichi, muito obediente, assim o fez.
tic-tac
tic-tac
tic-tac
Eram por volta das três horas da madrugada e Tohma Seguchi estava novamente parado em frente a janela do pequeno apartamento quarto e sala, no distrito de Shinjuku, observando a noite ainda um pouco iluminada, ainda viva. Ele gostava de observar as luzes que brilhavam ao longe, uma miríade de pedras preciosas espalhadas sobre veludo negro, como uma promessa de beleza e diversão.
Também não estava conseguindo mais dormir, pois sentia-se desconfortável e um pouco dolorido. Havia exagerado e sabia o que ia acontecer de antemão, mas precisou fazer Ryuichi voltar a estar ao seu lado e não contra ele, com diversas cobranças que não poderia atender.
Por isso estava ali, a aquela hora da madrugada, insone e com vontade de sentar um pouco em um balde repleto de gelo, pois havia esquecido de comprar todos os produtos que poderiam ajudar em um momento como aquele, e qualquer coisa que pudesse lhe dar algum alívio, estava a alguns quilômetros de distância, em sua moradia oficial.
Ryuichi entrou em sua vida novamente como um furacão e não lhe deu tempo de fazer nada a respeito disso, demandando ser colocado no centro de tudo, de novo.
E por mais tentador que fosse aceder a todas as reivindicações dele, Tohma não podia fazer isso. Porque tudo o que o cantor queria ouvir era que ia se separar da Mika, para voltar a viver com ele, como antes, mas isso não ia acontecer. Não ia se divorciar da esposa. A não ser, é claro, se ela pedisse a separação. Mas queria muito que ela não fizesse isso.
Mika era uma companheira muito querida, que o havia apoiado nas mais diversas situações, principalmente quando ele estava desalentado demais para seguir em frente, quando tudo parecia cinza e sem vida, porque sua vida havia resolvido ir morar do outro lado do mundo.
Ela nunca perguntou a razão do seu marido, após o belo casamento deles, parecer como alguém sem alma, oferecendo apenas sorrisos vazios e gentilezas frias àqueles ao redor, precisando se esforçar muito para parecer normal e bem disposto, para, no final do dia, revelar-se esgotado e nostálgico.
E como Tohma detestou não ter controle sobre si mesmo daquele jeito. Ele fez de tudo para sair daquela condição tão estranha a sua pessoa. O problema era que simplesmente não conseguia escapar daquele buraco sozinho, por mais que tentasse.
E foi a esposa que o ajudou a emergir daquele estado deplorável, sem questionamentos, apenas sendo ela mesma, uma pessoa determinada e jovial, que tinha muito prazer em viver.
Tohma não demorou muito a voltar a ser ele mesmo, ou algo perto disso, e devia isso, em grande parte, a ela.
Por isso, só ia se separar dela se ela fizesse muita questão.
Mika não era tola e sabia que tipo de homem a havia levado ao altar. Por isso aquela pergunta, a alguns dias atrás, querendo saber se ele estava apaixonado pelo irmão dela, insinuando que Yuki Eiri era seu verdadeiro amor. Ela até estava certa em pensar que seu marido era apaixonado por outro homem. Só não acertou quem era o destinatário dessa paixão.
Apaixonado por Yuki Eiri...
Tohma não gostava de pensar muito nesse assunto e preferia o deixar onde estava, em um lugar escondido e inacessível. Não tinha nenhum interesse em analisar essa nebulosa área do seu ser. Yuki era seu amigo, o amava muito e tinha uma dívida enorme para com ele. E era o que bastava saber.
Ainda bem que Yuki Eiri só o via como um bom amigo, uma espécie de irmão mais velho. Ainda bem. Já tinha paixão suficiente com o cantor, não precisava de mais outra. Senão era capaz de virar cinzas em algum tipo de combustão espontânea.
Sendo assim, apesar de aparentar ser o mais leviano dos maridos, ele nunca traiu a esposa, até aquele momento, durante os três anos de casamento deles.
Poderia ser até difícil de acreditar, mas sempre foi um marido fiel.
Da mesma forma que foi um amante fiel para Ryuichi.
O problema era que essas duas partes tão importantes na sua vida, resolveram colidir uma contra a outra.
Tohma olhou para o adormecido cantor. O seu primeiro grande amor. Objeto da paixão mais intensa que já sentiu por outro alguém, em um conjunto de sentimentos que o faziam ser único e inimitável. O que eles viveram juntos era forte e extenso demais para ser ignorado, relegado a segundo plano. O tecladista não podia colocar o cantor no centro da sua vida novamente, mas sabia que gravitar ao redor dele de novo, fazendo-lhe as vontades e recebendo seu amor, era o que mais queria.
Ryuichi acertou em cheio na música que criou para os dois, pois realmente ele era como o sangue que lhe corria pelas veias, capaz de o elevar a temperaturas altíssimas, bem como o congelar no mais cinzento torpor.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Aquele que não tinha consciência do poder que tinha.
Ou talvez, sim, tivesse alguma ciência do seu poder.
Afinal, o que Ryuichi teve de fazer para o ter de volta? Algum sacrifício muito grande? Implorar perdão por o ter abandonado daquele jeito?
Não.
Apenas dar-lhe um beijo muito bem dado. Foi o que ele teve de fazer. Bem simples. Fácil, fácil.
Estar nas mãos de outro alguém daquela forma era perturbador.
Por sorte, era dono das mãos que o seguravam.
O tecladista sabia que, em algum momento do futuro, seu querido, seu amado cantor daria um jeito de abalar seu casamento, na tentativa de acabar com tudo de uma vez por todas. Ele não era ardiloso e não faria nenhuma grande armação maquiavélica para conseguir seu intento. Provavelmente apenas diria a verdade para todo o mundo, inclusive na cara da Mika, de que Tohma Seguchi pertencia a Ryuichi Sakuma desde que cruzaram olhares pela primeira vez, há mais de dez anos atrás. Ele faria algo assim tranquilamente.
Precisava impedir que ele fizesse isso. Só não sabia ainda como.
O tecladista suspirou e deu meia volta, indo para sala. Queria compor. Queria por letras no papel, dedilhar o Yamaha e ver no que ia dar.
A vida ia se complicar, sim, mas naquele momento ele só queria algo básico, como escrever uma música, derramar os pensamentos que gritavam em sua mente em uma folha de papel e exorcizá-los de uma vez por todas. Apenas isso.
Depois ia pensar na complicação que se aproximava.
Ou talvez não fosse haver nenhuma complicação.
Quem sabe…
Tudo era possível...
Talvez os céus ficassem cor de rosa, com nuvens fofas de algodão-doce, e poderiam viver todos juntos e felizes.
Suspiro.
Depois ia pensar nisso…
“Estive perdido em sonhos cinzentos
Vagando sozinho nos meus pensamentos
Esperando despertar
Esperando ser acordado
Mas você não apareceu
Você, meu amor, me deixou só
Na escuridão da minha alma vazia
Derramando lágrimas geladas
No frio deserto de solidão
Que você criou só para mim…
My Honey… My Love…
My LoonyBunny…”
Fim.
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