Satisfaction
24 Capítulo 20 - Herança Melancólica
Notas iniciais

Faltava uma semana para a cerimônia de Rogue Cheney e Levy McGarden. Os preparativos foram feitos quase às pressas, os trajes estavam sendo terminados de ser confeccionados pela alfaiataria Roseneel e a igreja já fora reservada. O inverno estava começando a dar as caras e o quarteto estava mais tenso do que nunca.
Sim, isso mesmo. Quarteto.
Devida a proximidade que Lucy Heartphilia adquiriu com Natsu Dragneel, o mesmo – além de ser um grande amigo de Gajeel Redfox – foi posto por dentro do que estava acontecendo e também desejava, do fundo de seu coração, que o casamento não ocorresse. Por alguns momentos sentiu-se mal por entusiasmar-se pela “união” dos primogênitos Cheney e McGarden, mas não era culpa dele, afinal, descobrira o que realmente estava ocorrendo há menos de setenta e duas horas.
Como o combinado, o Redfox partiria para Crocus para visitar e interrogar a ex-quase-noiva de Rogue, Kagura Mikazuchi, e assim conseguir as tais valiosas informações sobre a família Cheney que causariam um escândalo suficiente para abalar a cerimônia. Interrompê-la até que não seria tão difícil, o padre mesmo possuía uma frase essencial para estes momentos.
— Você ficará bem? — uma garota de cabelos azulados perguntara, hesitante, enquanto terminava de abotoar o casaco de um moreno carrancudo.
— É claro que vou. — Gajeel sorrira para Levy. – Vou tentar não me demorar muito, mas se a mulher tiver mesmo o gênio que Rogue disse, é capaz de eu chegar em cima da hora. — o homem observara, deparando-se com a expressão preocupada da jovem McGarden.
— Eu confio em você. Faça o que puder.
E com aquela frase o Redfox compreendeu que, mesmo que não chegasse a tempo com a Mikazuchi, Levy não guardaria mágoa ou rancor dele. Mesmo que ela e Rogue fossem viver uma vida infeliz de casados e somente de aparências, ela sentia-se grata por tudo o que o moreno fizera por si até o momento.
— Eu não vou te dar um beijo de despedida. — Gajeel dissera, pegando a cartola de cima da cama.
— M-mas…! — a mais nova fora tomada por uma tristeza passageira, logo sendo surpreendida pelo braço do moreno em sua cintura, fazendo-a colar-se ao seu corpo.
— Eu não vou te beijar aqui, porque, quando eu te beijar novamente, será como minha esposa, na frente de todos naquela igreja.
Embora ruborizada, a pequena McGarden estava feliz. Aquilo era uma promessa, uma esperança. Iria agarrar-se com todas as forças àquilo até o retorno do Redfox. Abraçaram-se demoradamente e em seguida o moreno retirara-se de seus aposentos, já havia uma carruagem que o levaria à capital esperando-o em frente à residência Cheney.
Suspirando ao sentir o cheiro de Gajeel por todo o local, Levy saiu de forma sorrateira. A última coisa que gostaria para aquele momento era esbarrar com a sua mãe assim que saísse de lá. A azulada dirigira-se ao quarto de sua amiga Heartphilia, sua mente aguçada fora permeada por uma ideia, mas não poderia realizá-la sozinha.– Ir ao escritório de Gajeel?! Está louca, Levy?
— Claro que não, mas Gajeel já me contou sobre o primo dele, os dois trabalham juntos e hoje é segunda-feira. Ora, vamos, Lucy. — Levy fizera um biquinho, como se, assim, a loira aceitasse.
— Os anos passam e você não muda, quando quer alguma coisa. — Lucy rira, nostálgica. — Está certo, vamos pedir à Rogue que chame um cocheiro para nós.
Dito isso, as duas amigas puseram-se a passos rápidos em direção à biblioteca – geralmente, o moreno passava suas tardes ali. Encontrando-o lá, o Cheney não hesitara em pedir ao cocheiro da família para levá-las ao Redfox & Fullbuster Associados, mas ficara um tanto quanto muito curioso.
— Não voltem tarde, isso pode causar problemas. — Rogue advertiu-as, enquanto fechava a porta do veículo.
— Não iremos, vamos contar tudo depois. — Levy dissera, e, ao sinal do rapaz, o cocheiro partira.
O real ímpeto que levara a jovem McGarden a querer visitar o primo do Redfox era conversar, além de lhe entregar um convite para o casório. Se tudo ocorresse conforme Gajeel lhe prometera, acreditava que o moreno gostaria que parte da sua família estivesse presente. Sorrira com a ideia, estava absurdamente segura de que tudo sairia como o planejado.
O cocheiro, por fim, após tórridos trinta minutos, parara em frente ao escritório e auxiliara as jovens damas a descerem. Pediram que retornasse ao pôr do sol, assim teriam tempo suficiente e, quem sabe, até sobraria.
— Como sabe que esse tal primo do Gajeel é adepto a conversas? — Lucy sussurrara nervosa para a amiga.
— Não sei. — Levy respondera, batendo na porta.
Foram atendidas por uma mulher de cabelos azulados, um pouco mais escuros que os de Levy, compridos e enrolados nas pontas. Usava um vestido azul-escuro, com borda de pele em seu pescoço e um chapéu de frio seguindo o mesmo estilo. Por mais que nunca tivessem se visto na vida, a mulher era incrivelmente familiar.
Pois não, o que gostariam? — a mesma perguntara, em tom solícito.
— Quem é, amor? — foi-se ouvida a voz de um homem atrás de si, e logo o ser dera as caras ao lado da – ao que aparentava – esposa. Estava com uma camisa branca amassada e tinha cabelos pretos arrepiados, seu olhar arregalara-se ao pousar na pequena figura ao lado da Heartphilia.
— Mas é… Levy McGarden.
— A amante de Gajeel? — mesmo que a mulher tenha dito baixo o suficiente para que somente o marido a ouvisse, a audição de Levy pôde captar a fala, e com tal, seu rosto adquirira um tom avermelhado.
— Menos, Juvia. Ao lado dela está a filha do Conde Heartphilia. — o homem sussurrara para a esposa. – Vamos, entrem, está frio aqui fora.
—x-
Estava anoitecendo naquela Magnólia primaveril. Casais, homens e empregados começavam a recolher-se das ruas do centro, mesmo com a temperatura agradável. A andar pelas calçadas estava um pequeno garoto de cabelos escuros bagunçados, trajando roupas que, normalmente, seriam usadas por membros de uma alta classe social. Estavam sujas, o que denominava que não nascera dos becos, mas que estava há muitos dias longe de casa.
Contando os poucos jewels que recebera numa caneca de cobre, o menino bufara e sentira vontade de atirar tudo ao chão, mas precisava comer algo pela noite. Correu até a padaria mais próxima e trocou seus suados dez jewels por um pão dormido. Era melhor do que nada, de qualquer forma.
Segurando sua viola numa mão e o pão em outra, o rapazinho caminhou até o coreto da praça central e sentara-se nas escadas, dedilhando as cordas e murmurando uma cantiga popular. Aparentemente, a criança não possuía dotes musicais excepcionais, mas possuía amor pela música.
As coisas não estavam fáceis para o pequeno rapaz, que, já tão jovem, não conformava-se do pai ter desaparecido sem mais nem menos. Sua mãe lhe dissera que fora viajar, mas o teimosinho insistia em dizer que o pai os abandonou, mesmo que estivesse fora há menos de dois meses. A propósito, enquanto estava em seu terceiro dia vivendo nas ruas, a pobre mulher procurava por seu filho, cansada de suas travessuras e fugas.
— Mas você não tem jeito mesmo, moleque. — uma mulher de cabelos róseos pouco grisalhos parara de correr, a poucos metros de distância do garotinho, que fizera pouco-caso de sua presença.
— Não vou voltar pra casa com você, Poluchka.
— Sabia que responderia isso. — a mulher de quase cinquenta anos suspirara, ajeitando a saia de seu vestido. — Mas sua mãe não está se sentindo bem, suas fugas só a estão maltratando, Gajeel.
— Você está mentindo, mamãe está muito bem! — o menino chamado Gajeel parara de dedilhar as cordas e encarava a calçada, emburrado.
— Sua mãe está muito abalada desde a viagem de seu pai, sem você em casa, ela está ficando pior. Pare de birra, vamos voltar, já é a quinta vez que você faz isso e mal tem doze anos! — Poluchka se exasperara, andando a passos em direção ao pequeno Redfox.
— Então mamãe sente minha falta…? — o rapazinho dissera como se nunca tivesse pensado em tal hipótese. E era verdade, vinha sendo muito egoísta nas últimas semanas.
— Mas é claro, você é o homem da casa agora! Se seu pai o visse com este comportamento, o que ele faria?
— Provavelmente me daria umas palmadas… — Gajeel reprovara-se.
— Exatamente, agora dê-me a mão, precisamos voltar. Gail está criando rugas de preocupação a cada vez que você some com medo de também te perder.
Mesmo que aparentasse mal humor, a senhora preocupava-se muito com o filho de sua patroa e com o estado de saúde da mesma. Tinha muito apreço por Metallicana, mas desde que o mesmo sumira após uma viagem pelo Atlântico, não havia o que fazer ou pensar, era certo esperar que o marido da dona da casa estivesse morto, então o que podia fazer era cuidar o máximo de seu único filho.
Após aquele dia, o primogênito dos Redfox evitara suas fugas, embora na adolescência tenha tido contato muito cedo com mafiosos, bordéis e a vida boêmia. Todos os jovens nobres e aristocratas estavam fadados a passar por tal tipo de vida em Magnólia, querendo ou não.
Nesta época, já oito anos após o desaparecimento de Metallicana, Gail caíra numa depressão terrível, e, mais tarde, o médico da família a diagnosticara com diabetes, uma doença rara e incurável que exigia muito do paciente e daqueles que conviviam consigo. Gajeel procurara ajudar a mãe no que pudera junto de Poluchka, largando suas companhias e seus “amigos de bar”, mas, infelizmente, a mulher não durara mais de um ano com a doença e falecera.
Logo em seguida o falecimento de Gail Redfox, Poluchka deixara de ser a governanta da família e começara a trabalhar para os McGarden, que possuíam uma filha de doze anos, também recém-descoberta com diabetes, mas aquele fato fora ocultado do primogênito, que passara a viver solitário com sua pantera de estimação, Pantherlily, na mansão Redfox.
Numa tentativa de não cair pela perda da pessoa mais importante que tivera em sua vida, o rapaz, agora com vinte e dois anos, concluíra a faculdade de Direito e abrira um escritório com o primo, também advogado. Porém, as saideiras e a vida boêmia ainda lhe atormentavam como um fantasma, e precisou de mais dois anos e meio para largá-la de vez. Aos vinte e três anos encontrara a filha mais velha do velho Strauss – juiz falecido logo que terminou seu ensino superior – na esquina do Phantom Lord, maltrapilha e bêbada, e decidira levá-la para casa, em consideração ao senor, e vivem como patrão e governanta, ou melhor, dois irmãos que amam implicar um com o outro.
— Desde então, Gajeel está sóbrio e foi a contragosto ao baile do Conde Heartphilia, já que sua fama o precedia, mas precisava socializar, já que alguns de seus clientes estariam presentes. — o rapaz de cabelos rebeldes e pretos estava chegando ao fim de sua narrativa.
— Mas o Gajeel só foi porque Juvia insistiu em acompanhá-lo, e, graças a isso, pôde conhecer a Levy. — sua esposa, de cabelos azuis, pronunciara-se.
— Sim, isso é verdade, e acredito que ele é bem grato a você por isso. — Gray dirigira um olhar carinhoso a Juvia, afagando as costas de sua mão. — Enfim, meu primo, infelizmente, é um homem de poucas palavras e bem fechado, talvez em dez anos ele fosse te contar essa história toda. Ele não se orgulha nada dela.
— Não tem por que, afinal, Gajeel era apenas uma criança. — Lucy, que estava acompanhando Levy, comentara, compreensiva. — Não é mesmo, Lev?
— Hã? Oh, sim. Sinto muito, estava distraída pensando. — a azulada dera um sorriso sem graça. — Poluchka nunca contara sobre seu emprego anterior, apenas limitou-se a dizer que já havia tratado uma diabética… Como eu fui burra! Gajeel me disse que perdeu a mãe dele para o diabetes, naquele jantar com os Cheney lá em casa, como que não pude ligar os fatos…?
— Não se cobre, srta. Levy, haviam muitas preocupações em sua cabeça. Além de que não faria diferença, agora eu lhe contei tudo o que gostaria de saber sobre o passado de seu futuro marido. — Gray lhe dera uma piscadela e a pequena McGarden corara. Ainda era surreal para ela a ideia de casar-se com o moreno.
— Bem, eu e Lucy agradecemos profundamente a hospitalidade, sr. e sra. Fullbuster-
— Por favor, aqui entre nós, chame-nos apenas por Gray e Juvia. — o homem sorrira, acolhedor, pegando as xícaras de chá das duas visitas e deixando-as sobre sua mesa.
— Ah, bem, Gray e Juvia. — Levy sorrira, sem graça, corrigindo seu excesso de formalidade. — Agradecemos e muito pela sua hospitalidade e paciência, mas temos de ir, combinamos com o cocheiro de vir nos buscar ao anoitecer e creio que o mesmo já esteja lá fora.
— Oh, não seja por isso, vamos acompanhá-las até a porta.
Dito isso, o casal Fullbuster levantara-se e levara as duas amigas à porta do estabelecimento, despedindo-se calorosamente. A Heartphilia e a McGarden adquiriram profunda empatia por ambos, se não tivessem pedido ao cocheiro que as buscassem tão cedo e Rogue e Natsu não as estivessem esperando, ficariam mais algumas horas tomando chá e jogando conversa fora.
Chegando à residência Cheney, logo a loira e a azulada foram abordadas pelos dois homens, que procuraram pôr os fatos ocorridos daquela tarde em dia. Contaram vagamente sobre a visita aos Fullbuster e que Gajeel partira logo após o almoço para Crocus, mandaria uma carta assim que se instalasse em um hotel e achasse Kagura.
Agora, era só esperar.
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