Satisfaction

3 Capítulo 2 - Salvando-a de si mesma


Levy corria desesperadamente pelo salão, chamando a atenção de alguns convidados, outros simplesmente se entretinham com a bebida e música. Atravessara um corredor escuro, desviando de serviçais que estavam com bandejas e carrinhos de comes e bebes, dirigindo-se à parte mais prestigiada, porém vazia, daquela noite.

O grande pavilhão a céu aberto possuía uma grade de ferro cercando-o, a mesma não possuía mais que um metro e meio. A jovem McGarden varreu os olhos pelo lugar, certificando-se de que estava sozinha no local. Ouvia a música abafada ao longe. Seu peito subia e descia de forma desregulada, estava alterada tanto pelo álcool quanto pela crise de choro que tivera.

Engolindo mais uma vez o choro, a azulada tomou coragem de se aproximar da grade, sentindo a brisa marítima lhe bater no rosto e braços desnudos, encarando um longo penhasco de cerca de dez metros abaixo de si. As ondas batiam ruidosas nos rochedos naquela noite.

Respirou fundo, e tirou sua tiara prateada, jogando-a como oferenda para o mar. Logo foi desamarrando seu vestido de festa, chutou seus sapatos de salto para longe, ficando apenas de espartilho, meias finas e duas anáguas.

Permitiu-lhe a adrenalina preenchê-la por completo, colocando uma perna de cada vez para fora da grade, se equilibrando no pouco pedaço de chão que lhe restava além da mesma. De costas para tudo, Levy suspirou, sentindo uma grande vontade de chorar novamente ao ver o que estava prestes a fazer.

Desta vez as coisas serão diferentes, pensou ela.

Quando estava prestes a soltar as mãos trêmulas da grade, foi interrompida por uma voz que surgiu logo atrás de si.

— O que está fazendo?

O susto a fez perder o equilíbrio, mas antes que caísse de encontro às rochas pontiagudas, duas mãos lhe seguraram pela cintura, trazendo-a para dentro da grade.

— V-você! — Levy exclamara ao ver que seu misterioso salvador era o mesmo homem no qual esbarrara minutos atrás. Ele mantinha a mesma carranca impassível de quando deixou-a falando sozinha.

— Sabe, não acho a noite muito propícia para um mergulho, mocinha. — disse, a colocando no chão e se prontificando a catar suas roupas jogadas pelo pavilhão.

Sem reação, Levy não sabia se devia se irritar ou falar a sério com aquele homem. Encarou a si mesma e suspirou, logo corando violentamente pelo estranho ter sido o primeiro homem a vê-la seminua.

— E-ei! Devolva logo minhas roupas! — a garota dissera numa voz estridente, ocupada em cobrir parte do busto com os braços.

— Aqui está. — o moreno lhe jogara o vestido e os sapatos, sem encará-la. Quando o fez, revirou os olhos. – Pare de tentar se esconder tanto assim, não é a primeira vez que vejo uma mulher seminua, mas, com certeza, é a primeira que vejo uma criança seminua com roupas de mulher. – dito isso, o homem deu um sorriso provocativo, logo rindo. Ao menos Levy supos que seu “gihi” fosse uma risada.

— Já disse que não sou criança! — Levy gritara, ainda vermelha pela situação.– De qualquer forma… — a azulada encarara a imensidão azul no horizonte. – Obrigada por me salvar. — sorriu fracamente, encarando seu estranho salvador.

Seu tom ficou sério de repente.

— Eu já vi muitas coisas, mas é a primeira vez que vejo uma moça de família rica tentar se matar no meio de uma festa. — ele dissera. — O que a faz tão infeliz a ponto de querer abrir mão de sua própria vida assim? — Levy percebera a perplexidade em seus olhos. Ele tinha o olhar de quem já sofrera muito.

— É… complicado. — a pequena McGarden limitou-se a dizer, abraçando os braços, ainda segurando os vestidos e os sapatos, com o olhar focado no nada. — Digamos que as coisas não estão um mar de rosas para mim e minha mãe há alguns anos, e ela está querendo me usar de passaporte para uma vida melhor.

Isso pareceu explicação suficiente para o homem parado em sua frente, que teve o olhar perplexo trocado por um de compreensão, mesmo em sua carranca.

— Acho melhor você vestir-se logo, antes que alguém apareça e ache que tentei abusar de você.

— Posso ao menos saber o seu nome? — pela segunda vez Levy o encarara nos olhos naquela noite, e sentiu seu peito queimar. Ele parecia tão intimidador perto dela.

Após alguns segundos de silêncio que pareceram minutos e até horas, ele abriu a boca para falar, quando alguém se adiantou atrás deles.

— Gajeel!

Erguendo as sobrancelhas e os olhos, Gajeel virou-se com indiferença, como se aquilo acontecesse sempre consigo. Ali estavam uma mulher de cabelos azuis um pouco mais escuros que os de Levy e compridos, os Cheney, a mãe de Levy e dois guardas.

— Vire-se. — um deles ordenou, se aproximando de Gajeel com um par de algemas. O coração de Levy acelerou e a vontade de defender o homem que a salvara foi maior do que nunca.

Gajeel não mostrou resistência, apenas riu quando as algemas não couberam em seus pulsos, dando de ombros para um dos guardas.

— Como explica esta situação, senhor Redfox? — o outro guarda se pronunciou, apontando para Levy, seminua, de rosto corado pelo vinho, descabelada e segurando suas roupas à frente do corpo.

— A menina deve ter bebido um pouco demais na festa e sentido calor, acho que só isso explica ela estar seminua, e provavelmente ficou meio fora de si e ficou sentada na grade com as pernas para fora. Coincidentemente, eu estava querendo vir aqui para beber um pouco mais sossegado e encontrei-a quase perdendo o equilíbrio, então a salvei e perguntei se ela estava bem. — o moreno disse sem cerimônias, com seu ar entendiado de sempre.

A versão que Gajeel contara surpreendeu Levy. Ele a estava acobertando.

— Canalha! Minha Levy jamais beberia o suficiente para fazer tal bobagem! — Elevínia gritara e estava prestes a avançar sobre o Redfox, mas Reyward a segurara.

— De todas as suas desculpas, essa foi a mais criativa. — o guarda que falara por primeiro balançou a cabeça de forma negativa. — Nem que usemos duas algemas, vire-se.

— É verdade! — antes que Rogue e sua mãe a pegassem, a McGarden mais nova se pronunciara com claro desespero.

— Como?! — todos perguntaram, atônitos.

— Eu me senti um pouco confusa sobre a ideia de noivado, quis me acalmar e acabei exagerando na bebida, podem perguntar aos garçons, peguei ao menos uma taça de cada bandeja que circulava pelo salão. — Levy começara meio encabulada. Mesmo que levasse uma lição de moral daquelas de sua mãe, nenhuma punição que ela sofresse seria suficiente para cobrir seu salvador sendo preso.

— Ah, as mocinhas de hoje em dia… — a mãe de Rogue suspirara em desaprovação.

— Se ela está dizendo para confirmarmos até mesmo com os garçons, creio que não há motivos para prender o homem que a salvara. — Reywards pronunciara-se.

Os guardas pareceram render-se, destrancando as algemas dos punhos de Gajeel, que virara-se com um sorriso triunfante nos lábios.

— Sabe, Churckle, posso até ter tido muitas mulheres, mas pra você pensar que eu tentaria algo com essa criancinha, quem bebeu muito por aqui foi você. — com esses dizeres o homem, agora sabido seu nome, Gajeel Redfox se virava para ir embora.

— Espere!

— O que foi, Juvia? — o moreno perguntou, com as mãos nos bolsos do paletó e postura cansada, porém sem se virar.

— Juvia acha que Gajeel deveria dar a oportunidade da família da menina agradecê-lo. — o fato da mulher falar de si mesma em terceira pessoa intrigou os presentes.

— Não há por que me agradecerem, qualquer um que estivesse passando acharia estranho uma garota estar sentada numa sacada de frente para o mar. — o Redfox deu de ombros, ficando parado por mais um tempo.

Sendo coberta pelo paletó cheirando a whisky de Rogue (que lhe cabia como um vestido perfeitamente), Levy correra até Gajeel e tocara seu braço, fazendo-o virar o rosto para si.

— Minha mãe, em sinal de gratidão por ter salvado minha vida, gostaria de saber se aceitaria jantar em nossa casa amanhã. — a baixinha disse formalmente, erguendo-se na ponta dos pés para sussurrar: –se disser não, nunca mais te darão sossego.

— Certo, você me convenceu. — Gajeel murmurara. — Diga que aceito, apenas mandem o horário e um convite formal para a residência dos Redfox às dezesseis horas.

Levy se surpreendera com a exatidão das instruções que o moreno lhe dera, mas as acatou e voltou para sua mãe e os Cheney, observando o homem que acabara de conhecer naquela noite se afastar.