Sapatinhos de Cristal
6 Capítulo VI
Notas iniciais
Sucessivos estalidos ecoaram pelo enorme quarto, ao mesmo tempo em que, um feixe de luz o atravessava, alcançando o abdômen do invasor. O Chidori, uma das especialidades de Sasuke, estava moldado para ser uma lâmina e com o seu início na mão esquerda do mesmo.
Por breves segundos, os olhos amarelos demonstraram surpresa, mas rapidamente voltaram a se afiarem em pura diversão, quando o capuz foi jogado para trás, acompanhando o movimento brusco que seu corpo fez, causado pelo impacto do golpe.
No topo da cabeça revelou-se um ralo cabelo verde. Já no rosto, os olhos amarelos possuíam formatos diferentes, mas o que surpreendeu Sasuke foi a coloração da pele do homem a sua frente: o lado direito era preto e o esquerdo era branco.
— Quem é você? – indagou. – E como sabe de Sakura?
— Sou apenas um ser informado, nada mais que isso, majestade. – respondeu divertido. – Agora Sakura, digamos que nutro um grande interesse por ela, afinal somente ela sabe onde está o outro par do sapato de cristal.
— Não ouse aproximar-se dela. A Sakura de agora não sabe de nada.
— Eu não diria isso se fosse você, majestade. Estará se precipitando. – o tom de voz soou sério.
— Como?
— De certa forma, eu tenho pena de você. Não posso acreditar que está se deixando ser engando tão facilmente por uma cópia. – lamentou-se teatralmente. – Imaginei que sua inteligência estivesse intacta, majestade. Contudo, como suspeitaria do próprio irmão, não é mesmo?
— Seja mais específico. Não sou um bruxo para adivinha no que está se referindo. – rosnou impaciente, farto daquela atitude bipolar.
Moveu o braço esquerdo para cima, arrastando a lâmina de relâmpago até o local da divisão entre o tórax e o abdômen do invasor, que cuspiu sangue. A capa tingiu-se de um vermelho mais escuro, mas o sorriso não se desfazia. Com uma das mãos, abriu a capa e mostrou o momento exato em que o ferimento anterior se fechava, totalmente curado.
— Fique à vontade para me cortar o dia todo, apesar de doer muito. – comentou e lançou um olhar frio.
O silêncio instalado entre os dois era recheado de tensão e, a troca de olhares ameaçadores era intensa.
— Nossos cumprimentos já se prolongaram demais, então passemos ao motivo de minha visita. – sorriu divertido ao romper o silêncio. – Que deveria ser aceita com felicidade, pois a Akatsuki teve a consideração de vir lhe ver.
— Como se eu me importasse com um grupo de renegados que causa somente desordem na dimensão.
— Está nos ofendendo, majestade. – comentou, dando alguns passos em direção a Sasuke. – Vim com a intenção de trocar algumas palavras amigáveis, por estar comovido com sua situação, mas vejo que não sou bem-vindo.
— Percebeu isso agora? – e intensificou o Chidori e assistiu dois filetes de sangue, um de cada canto da boca do outro, aparecerem.
— Não, mas agora entendo o porquê de você estar sozinho. – contrapôs maldoso, após parar de andar.
A lâmina foi deslizada para cima, rumo ao coração e parou alguns centímetros antes de atingi-lo.
— Estou cansado de suas inconveniências, então diga de uma vez o quer e vá embora. – rosnou.
— Seu desejo é uma ordem. Então, permita-me fazer uma pergunta para começarmos. – agarrou a lâmina de relampado com as duas mãos e forço-a para baixo, afastando levemente. – O senhor acha mesmo que a cópia da rainha trará algo de bom ao Reino do Fogo, além de uma esperança passageira?
— Isso não lhe diz respeito. – cortou-o friamente.
— Com certeza não, majestade, mas pense bem: a Rainha Sakura realmente escolheria reencarnar, com o vasto conhecimento que ela detinha não acha que optaria por selar a sua alma antes de morrer?
— Aonde deseja chegar com isso?
— Num lugar chamado de golpe, ou melhor, na expressão: apunhalado pelas costas! – soltou uma gargalhada sombria. – A Rainha Sakura nunca retornaria sendo uma reles humana! Está sendo enganado pelo próprio irmão e pelas pessoas de sua confiança, quanta ingenuidade Vossa Majestade!
— Não! Isso é mentira.
— Acredita que a mulher vinda da Dimensão Ômega é mesmo a reencarnação de sua adorada Rainha Sakura?
— Claro que acredito.
— Considerando isso uma verdade absoluta, diga-me por que ela não foi trazida para nossa dimensão quando era apenas um bebê então?
— Porque seria um crime, e porque seria mais seguro ela viver na Terra sob a proteção da guardiã dela.
— E se eu disser que isso sim é uma mentira?
— Prove! – desafiou, lançando um olhar de superioridade ao outro.
— Não soa suspeito a Restauração Konoha não ter encontrado nada sobre como reverter a maldição, sendo que o acesso ao banco de informação da dimensão está sempre a disposição da aliança? Sem contar que a biblioteca deste castelo e do quartel-general deles possui arquivos e livros aos montes. – disse com um sorriso. – Vamos, não precisa ser um gênio para concluir que seu irmão tem um plano diferente a que vem dizendo.
— O que o faz pensar que acreditarei em você?
— Nada, pois só vim apresentar fatos de um velho observador. Sei que está confuso, então deixe-me explicar melhor. Você pode estar fadado a viver como um monstro imortal e solitário... – sentiu uma forte descarga elétrica passar pelo corpo. – Mas seu povo não. – completou com a voz falha. – Eles precisam recomeçar suas vidas, só assim poderão voltar ao ciclo normal do envelhecimento sem sofrer nenhuma decepção a mais. Porém, Itachi e seus seguidores estão fazendo o contrário, ao trazer a suposta reencarnação da rainha e assim dando falsas esperanças ao povo do Reino do Fogo. Tanto seu irmão quanto as pessoas da confiança dele não se importam com o povo, somente estão desejando reerguer este reino com a força, para tomar o seu lugar de rei, é por isso que falei em golpe. – lançou um olhar presunçoso ao Uchiha. – Você está sendo enganado por todos. A guardiã só trouxe uma qualquer da Dimensão Ômega para ser o símbolo de esperança. Assim conseguirão tomar o poder do reino e colocarão no trono a humana enquanto que a manipulariam pelas sombras. Ela tomará o lugar de sua rainha! – e apontou para a enorme cama. A barreira protetora oscilou em reposta. – E a Restauração Konoha assumirá o reino, é isso que deseja majestade?
— Impossível algo assim estar sendo posto em prática! Eu senti Sakura restabelecer a conexão de Chakra. Era a essência dela naquele corpo! – exclamou exasperado. De alguma forma, aquela perspectiva fazia muito sentido em sua cabeça, pois sua Sakura descansava em paz na cama deles. Sasuke a observava todo o dia!
— Não seja tolo, Sasuke! – pediu e, os olhos amarelos brilharam em deleite. – Qualquer ser vivo pode se conectar com o reino, é doloroso, mas consegue. E quanto a essência que você sentiu, foi sua mente o engando. – disse sério. – A humana é apenas uma substituta escolhida cuidadosamente.
— Não pode ser! Eles não podem me enganar desta maneira.
— Eles já estão o enganando. É um ciclo vicioso, onde o poder é o objetivo, a ambição é o caminho e nada os impedirá, nem mesmo o próprio rei. Eles eliminarão quem atrapalhar sem remorso. – fez uma pausa. – Foi por essa sede de poder que a Akatasuki formou-se, para romper este ciclo que só favorece os que estão no topo. Contudo, para que isso seja concretizado, nós precisamos de sua cooperação. Não preciso de uma reposta imediata, dou-lhe um tempo para refletir. – falou persuasivo.
Ele sabia que o Uchiha estava cogitando em aceitar sua proposta, apesar de sua mente estar confusa, pois ninguém acreditaria em um desconhecido na primeira interação, principalmente se o amado e admirado irmão estivesse do lado oposto, mas ele sempre fora bom com as palavras.
E um grande sorriso perverso formou-se nos lábios do invasor quando a expressão de Sasuke endureceu-se e, o Chidori foi desfeito. Afinal, cutucar as feridas ainda abertas do rei, era a melhor forma de convencê-lo.
— E o que eu ganharia em troca?
— A verdadeira rainha de volta.
Os olhos vermelhos se arregalaram.
— Isso é possível?
— A morte não será mais um problema com o novo mundo que a Akatsuki criará, pois todos os desejos, mesmo os que soem impossíveis, serão atendidos.
— O que tenho de fazer?
— Apenas traga a humana até nós.
— Viva ou morta? – a voz soou sombria.
— De preferência viva. – e puxou o capuz para a cabeça.
Isso está ficando mais interessante do que eu imaginei.— pensou antes de desaparecer em meio a uma nuvem de fumaça.
O que os dois homens nunca imaginaria era que o corpo feminino sobre os macios lençóis de seda, começasse a deteriorar-se. A pele da bochecha esquerda rachou-se e, em seguida, a pele desprendeu-se, caindo sobre o colo. O buraco que ficara logo se escureceu, ficando com a aparência de cinzas e, ao mesmo tempo, o pedaço solto se retorceu.
===/===/===
Aquela dor era mil vezes pior que as cólicas menstruais que sentia mensalmente. A sensação de que todos os seus órgãos internos eram comprimidos, ao mesmo tempo, em que as batidas oscilantes de seu coração ecoavam em seu canal auditivo era insuportável. E, para piorar, ela não sabia a quem culpar.
O som de seu coração cessou, mas a sensação de que todo seu abdômen queimava o substituiu. Lágrimas molharam suas bochechas, tamanha era a dor que sentia, e ela nem sabia o motivo de estar a sentindo.
— Intensifique isso, Shizune! Não vê o quanto ela está sofrendo? Está até chorando! – ouviu a voz de Karin esbravejando.
— Estou fazendo tudo o que posso, mas está sendo como Sasuke-sama lhe disse. Ela precisa passar por isso, só posso aliviar a pressão. – uma vez desconhecida respondeu.
A menção do rei do Reino do Fogo fez algo em sua cabeça estalar. Antes de encontra-lo, acidentalmente, ela estava bem, só foi ele aproximar-se de si que a dor insuportável que está a sentir surgiu. E, esta constatação foi o estopim.
Abriu os olhos com rapidez, ao mesmo tempo em que puxava o máximo de ar pelo nariz e boca.
— Sakura! – a exclamação surpresa partiu de Karin, Itachi e Hinata, que a assistiram tirar as lágrimas, que escorriam pelos cantos dos olhos, com os dorsos das mãos.
Em seguida, a Haruno soltou o ar que fora inalado segundo atrás. A sensação que algo apertava seus órgãos voltou, fazendo-a franzir o cenho, porém um alívio caloroso veio logo em seguida.
— Finalmente minha técnica curativa está surtindo efeito. – a voz desconhecida de minutos atrás soou novamente, atraindo a sua atenção.
A mulher de curto cabelo preto lhe sorriu abrandecida.
— É encantador, mas, ao mesmo tempo, inacreditável vê-la viva, Rainha Sakura. – saudou respeitosa. – Sei que não se lembra de mim, sou Shizune, fomos parceira de profissão em sua vida passada. Bem-vinda de volta. – os olhos escuros da mulher brilharam, causando um incomodo em Sakura.
Ela enxergava a esperança na feição de Shizune e isso era assustador, pois somente por ela estar ali causava este tipo de reação aos sobreviventes do Reino do Fogo. Primeiro, fora com a empregada Midori, em seguida o jovem Takeshi e depois, Shizune, somado com o que presenciou no dia anterior, o peso que o cargo de rainha tinha sobre seus ombros triplicou-se.
— Obrigada. – respondeu com a voz baixa e fina. – Eu já me sinto melhor, obrigada novamente. – e remexeu-se sobre o colchão, indicando que se sentaria.
Shizune e mais três pares de olhos acompanharam o movimento desajeitado de Sakura e não disseram nada até vê-la parada com as costas pressionando a cabeceira da cama.
— Estarei a sua disposição sempre que precisar. Com licença. – fez uma reverência e, rapidamente, retirou-se do quarto com o mesmo sorriso nos lábios.
— Você está bem? Tem certeza que não dói mais? – Hinata indagou preocupada enquanto se aproximava da cama, no intuito de pegar a pequena toalha que caíra sobre as coxas de Sakura.
Esta apenas negou com a cabeça, mantendo o silêncio que se formou com a saída de Shizune.
— Pelo menos coloque a toalha em volta do seu pescoço para a febre não aumentar. – sugeriu enquanto molhava o pedaço de tecido.
— Obrigada. – Sakura agradeceu ainda receosa.
— Você está bem? – Itachi tornou a perguntar e viu os ombros femininos se tencionarem, reação que não passou despercebida pelas duas mulheres.
— Sakura, sei que Karin e eu falhamos em protegê-la quando a Akatsuki invadiu o nosso quartel-general e por isso, eu lhe peço desculpas. Mas agora, você está segura e, nós prometemos que a manteremos...
— Eu quero ir embora! – interrompeu a Hyuuga, fixando os olhos verdes em Karin, que apenas colocou-se do outro lado da cama e cruzou os braços a frente do tronco.
— Você já está ciente de que a Terra não é um lugar seguro, e mesmo assim ainda pede para voltar? Sakura. – repreendeu em meio a um suspiro cansado. – Por que disso agora?
— Porque aqui não é a minha casa. – as mãos encontravam-se brancas, pelo forte aperto no lençol.
— Sakura, você é a rainha desse lugar, é claro que aqui é sua casa!
— Não Karin, são vocês que querem que eu seja rainha, ou melhor, faça o papel de uma, porque, de acordo com vocês, sou a reencarnação da Rainha Sakura. – enfatizou a penúltima palavra. – Mas eu, em momento algum, quis isso para mim ou falei que seria uma rainha.
— Você está sendo mesquinha ao dizer um absurdo desses!
— Eu não ligo! – falou de voz baixa, após desviar o olhar para a ponta de seus pés cobertos por um edredom. – Eu quero voltar para Nova Iorque!
— Para ser raptada pela Akatsuki novamente? No way! Você não está considerando nem as pessoas do Reino do Fogo que veem você como uma chance de trazer o reino de volta. O sofrimento delas não pode ser comparado com essa sua saudade de Nova Iorque.
— Agora é você que está dizendo absurdos! Essa saudade de Nova Iorque é referida à minha avó e ao Magic Letters.
— Os dois estão bem, eu lhe garanto.
— Mas Karin, você não pode me forçar a assumir uma responsabilidade desse tipo. Eu já disse que não quero ser a rainha, apenas quero voltar para a minha casa. – contrapôs desacreditada na imposição que a amiga fazia. – Não sou obrigada a nada, além do mais, eu já vi e vivi o suficiente deste lugar.
Uma exclamação surpresa preencheu o quarto no segundo seguinte, vindo de Hinata, que também arregalou os olhos enquanto que Itachi colocava-se de pé em um pulo.
O rosto da Haruno estava virado para lado da dama de companhia.
— Você jamais me decepcionará como hoje! – disse entredentes e retirou-se do quarto batendo a porte fortemente.
— Karin! – Itachi e Hinata exclamaram, ainda perplexos com o que presenciaram.
— Eu tenho certeza que ela não fez isso de propósito. – Hinata levantou o rosto feminino pelo queixo, com uma expressão nervosa. – Desculpe-me, Sakura.
— Você não precisa pedir desculpas, não foi você me deu um tapa. – disse, tirando as mãos da dama de companhia de seu rosto. – Está tudo bem. Apesar de estar ardendo. – massageou a bochecha atingida. – Espero que a marca não fique por muito tempo.
—Sakura. – Itachi a chamou. – Sei que Karin ultrapassou o limite, mas não pode reconsiderar sua decisão?
Ela somente negou com a cabeça, lançando um olhar enfadado ao único homem do quarto.
— Esse lugar não tem nada a ver comigo. – falou, passando a mão direita pelo antebraço. — Eu acredito neste universo, mas sabe o quão insano tudo isso é para mim? Meu lugar é em Nova Iorque, não tenho dom ou vocação para ser uma rainha. – desabafou.
— Isso você aprender, todos estarão a sua disposição.
— Não, Itachi. Minha vida é cuidando de uma livraria.
— Karin já disse isso e, eu repetirei: você corre um grande risco ao voltar para Dimensão Ômega. A Akatsuki pode lhe atacar novamente. – era sua última opção.
— Sua segurança estará ameaçada, Sakura. – reforçou Hinata. – Se a Akatsuki lhe capturar, não sabemos o que eles podem fazer com você.
— Não estou lhe pedindo para assumir o trono e nem quero lhe obrigar a isso. Sinto muito se demos a entender dessa maneira. – pegou as mãos delas com as suas mãos, apertando-as. – Só lhe peço que fique para sua segurança, prometo que ninguém mais lhe pressionará.
O Uchiha desfez a expressão séria e sorriu ao cruzar o olhar com os olhos verdes.
No entanto, passos apressados, do lado de fora, interromperam a atmosfera calma do quarto da Haruno.
— Chamem Tsunade ou Shizune! – uma voz soou pelo corredor. – É uma emergência.
— Aguente firme, Shun!
A porta fora aberta no segundo seguinte por Hinata.
— Temos uma cama disponível aqui.
Sakura assistiu dois homens vestidos de azul marinho adentrarem o quarto em passo apressados, sendo seguida por uma mulher de cabelo castanho claro.
— O que aconteceu? – indagou Itachi, aproximando-se da cama, do outro lado do cômodo.
— Foi empurrado enquanto brincava com as outras crianças lá fora. – respondeu o homem que depositava o garoto de seis anos sobre o colchão.
Apesar do sofrimento vivenciado pelos adultos da Restauração Konoha, proporcionar um ambiente agradável às crianças, que entendiam quase nada dos embates contra a Akatsuki, era dever de todos. Pois, elas só sabiam – por enquanto – que deveriam se esconder no subsolo ao primeiro sinal de confronto.
Então, mesmo com o clima pesado pairando sobre o Quartel-General, as crianças eram liberadas para se divertir, como de costume, seja fora ou dentro da enorme casa, sob a supervisão de algumas mães.
— Shun acabou caindo sobre os arbustos marrons. – a mulher disse enquanto tentava acalmar o garoto. – Temos que remover os espinhos e medica-lo antes que a garganta dele fique inchada.
Como se entendesse que em pouco minutos ficaria sem oxigênio, o garoto, que estava até aquele momento derramando lágrimas silenciosamente, soluçou e chorou desesperadamente.
— Vocês já chamaram por Tsunade-sama ou Shizune-san? – questionou a mulher com a voz alterada.
— Tsunade-sama está em reunião com os médicos e Shizune-san virá em vinte minutos. – disse o segundo homem uniformizado e retirou-se do quarto junto com o companheiro, após uma reverência à Sakura.
— Por que a demora? Meu filho pode morrer! — exclamou aflita.
— Vamos manter a calma, Miyuki. – o Uchiha pediu.
Sem que ninguém percebesse, a Haruno desceu da cama e aproximou-se do pequeno tumulto, colocando-se de pé ao lado do garoto, de forma que ficou de frente para a mãe.
— Não chore, Shun. – acariciou o topo da cabeça da criança. — Você vai ficar bem, eu prometo.
— Rainha Sakura. – a voz de Miyuki soou desacreditado.
A expressão serena acompanhada de um sorriso foi a resposta dada por ela, ao desvirar sua atenção à mãe.
— Pelo visto, a bondade permanece com Vossa Majestade... – a voz de Karin soou pelo quarto. Ela se aproximou da cama, onde Shun se encontrava, e estendeu uma bandeja para Sakura.
— Você sabe que eu detesto ver alguém chorando, principalmente crianças. Qualquer um faria o que eu estou fazendo. – respondeu, lançando um olhar irritado à amiga ruiva, que deu de ombros.
Sua bochecha não ardia mais, porém dentro dela, o tapa ainda doía.
— Eu ouvi o desespero de Miyuki de longe, na verdade, acho que todo o QG ouviu. – disse. – Aqui, o remédio para ele não ter uma reação alérgica forte, gazes e um liquido parecido com soro fisiológico para limpar os machucados.
— Obrigada. – voltou sua atenção para o garoto, que já não chorava desesperadamente, apenas soluços mexiam os ombros. — Viu como manter a calma traz o que precisamos? – indagou docemente, pegando o minúsculo copo, onde continha um liquido esverdeado. – Agora, só falta você se sentar. – e piscou o olho esquerdo.
O garoto riu, encantado com a mulher de fios rosados. Porém, a expressão infantil mudou bruscamente ao movimentar as pernas e lágrimas voltaram aos olhos cor de mel dele.
— Filho?
— Minha perna dói. – falou em um fio de voz. – Está dokendo muito.
Todos os pares de olhos se desviaram para os membros inferiores do garoto. O tornozelo esquerdo estava inchado com uma mistura de coloração de verde, roxo e vermelho, enquanto que o pé esquerdo estava virado para dentro, de uma maneira que denunciava uma fratura.
Shun gritou ao Karin apalpar a região para confirmar a lesão, ao mesmo tempo em que se remexia para que soltasse. O que só causou mais dor pelos movimentos bruscos.
— Pare se de mexer. Isso só piorará. – a guardiã esbravejou.
— Shun, eu preciso que você fique quieto. A Karin não está mais apertando seu machucado. – disse Sakura, fixando os seus olhos nos dele. – Eu sei que dói, mas temos que manter a calma, lembra-se?
Como se fosse um feitiço, o garoto acalmou-se.
— Agora, eu quero que você seja um garoto forte, mas muito forte mesmo. Porque a Karin colocará você sentado, isso pode lhe causar dor, mas, por favor, aguente firme.
— Por quê? – a voz infantil soou chorosa.
— Porque você pode se engasgar com o remédio, se toma-lo deitado.
— Vai doer.
— Eu sei e já peço desculpas por isso. – voltou a acariciar o topo da cabeça do garoto. – No três, a Karin senta você, está bem?
Com a confirmação insegura de Shun, seguida da breve contagem, ele foi posto sentando sobre a cama. As lágrimas dolorosas escorriam pelas bochechas avermelhadas, enquanto que ele bebia o remédio para prevenir um choque anafilático, causado pela substância tóxica que havia nos espinhos dos arbustos marrons.
A limpeza das ralados e cortes causados pela queda fora feita em seguida, pela Haruno que vez ou outra dizia ao garoto que será um homem forte quando crescesse. O que arrancou risos infantis e olhares de admiração dos adultos.
A paciência e a doçura que a Sakura de agora demonstrava, trazia a lembrança da antiga Sakura trabalhando no hospital do Reino de Fogo aos presentes no quarto.
— Obrigado, Sakura! – o garoto exclamou, beijando-lhe bochecha esquerda.
— Olhe os modos, Shun! – bronqueou a mãe. – Ela é uma rainha, não uma de suas amigas. Mil desculpas, Vossa Majestade! – baixou a fronte, sendo imitado pelo filho com as bochechas coradas.
— Não se incomodem com isso. É mais confortante ser tratada como uma igual. – garantiu. – Agora, preciso ir. Espero que melhore logo, Shun. – e passou os olhos pelo garoto uma última vez.
O tornozelo esquerdo fora imobilizado pela amiga ruiva enquanto que ela limpava os machucados, o liquido esverdeado fez seu trabalho no organismo dele, então estava tudo em seu devido lugar.
— Não tenho palavras para lhe agradecer, Rainha Sakura. — Miyuki colocou-se a frente dela e fez a costumeira reverência. – Realmente vossa majestade retornou para nos salvar. Muito obrigada.
O desconforto tomou conta do corpo da Haruno quando se deparou com o brilho esperançoso nos olhos castanhos claros de Miyuki.
— Eu só o acalmei, apenas isso. Não precisa de tudo isso. – a fez endireitar a postura. – Com licença. – sorriu fracamente, andando em direção da porta de saída.
A sensação dolorosa, de que seus órgãos eram apertados, retornou no momento em que puxou o ar para dentro, profundamente. Talvez, estivesse um pouco arrependida de ter ajudado Shun e Miyuki.
— Venha, Sakura. Você precisa descansar. – Hinata pôs a mão direita nas costas dela. – E de uma xícara de chá. – completou, com a feição serena.
Ela apenas deixou ser guiada pelos corredores da grande casa, sendo seguida por Itachi e Karin.
===/===/===
Acomodada sobre o mesmo sofá do dia anterior, Sakura observava os detalhes decorativos da sala, que passava um minuto apreciando cada um deles, para reproduzir em sua sala de estar.
— Ainda quer ir embora? – fora tirada de seus devaneios pela voz de Karin.
Rapidamente, seus ombros se enrijeceram e o cenho se franziu em irritação. Concluiu que o tapa não seria esquecido facilmente.
— Claro. E, você tem o dever de me levar de voltar, pois foi você que me tirou da minha zona de conforto. — disse em um tom de voz acusatório. -Além do mais, eu já fiz a minha parte ao ajudar Shun. — completou, torcendo para que soasse convincente.
No fundo, ela se sentia mal por estar ignorando a esperança dos sobreviventes do Rino do Fogo.
Um silêncio se instalou entre as duas que perdurou por cinco minutos, pois o suspiro cansado de Karin, chamou a atenção de Sakura.
— Eu não deveria ter batido em você, desculpe. – disse sem jeito.
— Isso não me convencerá em ficar aqui. – e abraçou a amiga.
===/===/===
Os passos ecoavam pelo corredor mais escuro do Quartel-general da Restauração Konoha. Ao final dele, uma enorme porta dupla de madeira fora avistada.
— Ainda há tempo de ficar. – a dama de companhia lhe sussurrou, intimidada pelo guardião responsável do Portal de tele transporte entre as dimensões. – Continuo lhe pedindo para reconsiderar a sua decisão por sua segurança. – tentou novamente, arrancando um riso de Sakura.
— Tentativa frustrada, Hinata. – disse irredutível.
A porta dupla abriu quando alcançaram a metade do corredor. As luzes das lâmpadas grudadas nas paredes laterais ascendiam automaticamente, mas a Haruno agora sabia que esse fenômeno ocorria por causa do chakra do guardião.
O colete preto sobre a camisa do conjunto azul marinho indicava que era o responsável de uma ala.
Pararam em frente da entrada, o interior se encontrava num intenso breu. Porém, quando Sakura piscou os olhos verdes, uma fraca luz tomou conta de todo o cômodo. Sentiu a Hyuuga lhe empurrar as costas com uma de suas mãos, em um incentivo mudo de continuar seguindo o guardião Daichi.
O olhar atento, mas, ao mesmo tempo, admirado da Haruno passava por todo o ambiente iluminado à meia luz branca com alguns pontos vermelhos. Estas luzes batiam nas paredes sem janelas, dando a impressão de estarem no espaço. O formato circular da sala também contribuía para a imaginação.
A boca feminina se abriu em um perfeito O ao desviar sua atenção ao centro do cômodo. A projeção de letras gregas sobre pequenos círculos cintilando com todas as cores do arco-íris era coisa mais linda que Sakura já havia visto.
— Este é o mapa de todos os universos existentes no mundo. – explicou Daichi de olhos fechados.
— Se você ver de perto, a Dimensão Ômega é o círculo maior. – completou Hinata e encostou o indicador na letra Tau.
Rapidamente os pequenos círculos formaram um círculo maior.
— É lindo! – disse encantada. — Por que isso não tem na Terra? – indagou em voz baixa, apenas para si mesma.
— Mais um motivo para ficar, assim poderá passar o dia inteiro aqui. – disse Hinata com um sorriso. Daichi também assentiu levemente com o cabeça, em apoio à fala da dama de companhia.
A Haruno apenas riu, balançando a cabeça de um lado para o outro.
As fracas luzes do ambiente apagaram por meio segundo, enquanto que a projeção do mapa dos universos intensificava o seu brilho e suas cores. O guardião andou até parar atrás do mapa, ficando de costas para as duas mulheres.
— Traga-a para mais perto, Hinata-san. Acho que vossa majestade gostará de assistir o portal sendo aberto.
Em passos apressados, as duas pararam atrás do mapa.
Logo a frente delas, a parede preta, a única pintada desta cor, começou a cintilar como um céu estrelado. Em seguida, os pontos brilhantes começaram a aumentar de tamanho, a mão esquerda de Daichi cobriu o grande ponto brilhoso do canto inferior esquerdo e deslizou para direita em linha reta.
Os olhos verdes de arregalaram em incredulidade ao visualizar uma linha branca surgir por onde a mão do guardião deslizava. Acompanhou Daichi desenhar um grande semicírculo a partir da reta, por onde a mão passava a linha aparecia pelos pontos estarem sendo ligados.
A letra ômega em maiúsculo fora finalizada pelo homem para, logo em seguida, a mesma letra em minúscula ser iniciada dentro do semicírculo, da mesma forma.
No mapa de todos os universos, o círculo que representa a Dimensão Ômega começou a girar com uma velocidade maior que as demais. Ao mesmo tempo, na parede negra, o portal de tele transporte se abria.
De certa forma, aquilo era assustador, pois um molde de uma porta comum se formou no meio da parede.
— Está na hora, Rainha Sakura. – avisou Daichi. – Quando entrar mentalize o local em que deseja estar. – e fez uma última reverência antes de se retirar do cômodo.
— Acho que minhas chances de fazê-la mudar de ideia acabaram, mas pelo menos concordou em esperar o dia seguinte para ir. – disse Hinata e a abraçou em meio a um suspiro pesaroso. – Obrigada por reviver a lembrança da Rainha Sakura.
O peito da Haruno se comprimiu com muita força.
— Não, Hinata. Sou eu que tenho que lhe agradecer.
— Sinto que isso não é uma despedida para sempre. – murmurou, desfazendo o abraço. – Porque eu lhe visitarei quando a situação com a Akatsuki for resolvida!
— Estarei esperando. – deu as costas à dama de companhia, aproximando-se da parede. – E te apresentarei os fast-foods. – gritou de olhos fechados, adentrando o portal.
Por meio segundo, a expressão esperançosa dos sobreviventes do Reino do Fogo passou pela sua mente, porém ela tratou de espanta-la, concentrando-se em sua casa ao sentir uma rajada de vento atingindo o rosto e bagunçando seu cabelo. Enquanto que uma energia calorosa a envolvia.
===/===/===
O calor fora se dissipada aos poucos, o vento já não lhe atingia mais e, a sensação de que estava flutuando sumira.
Sakura abriu os olhos lentamente, quando seus pés pousaram em uma superfície dura. O barulho dos automóveis foi captado pela sua audição, apesar de ser domingo, a movimentação da cidade Nova Iorque continuava. O aroma de jasmim invadiu suas narinas, ao mesmo tempo em que reconhecia a parede cor de marfim do corredor de sua casa.
Havia retornado ao seu lar.
Com um sorriso aliviado, andou a passos apressados até a cozinha, parando em seu centro. Passou os olhos, atentamente, por todo o cômodo e reparou que tudo estava do jeito que deixou na manhã de sexta: a pouca louça encaixada no escorredor; a louça do café da manhã dentro da pia; e, o pano de estampa de flamencos esticada sobre a mesa.
Sem se conter, disparou para fora da cozinha, seguindo para a sala de estar.
Visualizou primeiro seu par de pantufas de hipopótamo ao lado do enorme tapete felpudo; em seguida, uma coberta de microfibras embolada sobre o sofá em formato de L; o pote exclusivo para a pipoca e a caneca com resto de chocolate quente depositados na pequena mesa de centro; e por fim, o notebook desligado, mas ainda conectado à televisão. Tudo como havia deixado após uma longa noite assistindo série.
A sensação de ter acabado de despertar invandiu seu corpo, pois Sakura começou a pensar que sua aventura na Dimensão Tau, a história de ser uma rainha e os sapatos de cristal amaldiçoados realmente não passavam de um sonho.
Novamente, ela correu para fora do cômodo, seguindo em direção às escadas que davam acesso à livraria. Bateu a mão no interruptor logo que chegou ao andar de baixo, todas as luzes da Magic Letters ascenderam iluminando-a.
Esquadrinhou o local, como havia feito no andar de cima. Na pequena cozinha, canecas sujas estavam na pia; o espaço infantil estava organizado, logo, o fundo de sua loja não estava bagunçado, como se lembrava.
Começou a andar em direção à frente, onde havia acontecido a loucura de Karin e ela serem atacadas. Para seu total espanto, não havia cacos de vidro ou livros espalhados, muito menos prateleiras quebradas. Sua livraria não possuía nenhum indício de que sofreu um ataque.
Sakura suspirou aliviada, mas ela sabia que não podia ter sido um sonho. Realmente, havia viajado para um universo alternativo, viu a mescla da cultura grega e japonesa inserida num ambiente de castelo, reino e magia.
Refez o trajeto para o andar de cima, concluindo que teria uma ótima história para contar futuramente.
Fale com o autor