“Prometo”

Olho no relógio do próprio celular, eram quatro horas.

Suspiro.

Mal podia crer que o pianista realmente entregou a mensagem. Me virei e segui para o quarto. Estava na hora de guardar o violino, precisava devolver o fusquinha lilás e depois limpar e desamassar as várias camadas do vestido, que eu havia deixado na Fary Land.

Parece que eu tinha um baile para ir, afinal de contas.

CAPÍTULO 13

Não foi surpreendente que ao adentrar Fary Land, após deixar o fusca da velha senhora na praça, me deparei com a baixinha já a postos, com o vestido esticado em um cabide, limpo e sendo passado a vapor. Ela estava de costas para mim e se me ouviu entrar, nem se importou. Estava concentrada de mais tirando cada ruguinha do vestido.

-Alice, o que está fazendo aqui a essa hora?

-Eu também vi a postagem do Príncipe, bobinha. – Afirmou, ainda concentrada em seu trabalho.

Alice parecia radiante com a novidade, portanto, deixei-a fazer o que quisesse. Até porque, não adiantaria discutir com ela a essa altura do campeonato. Eu só não imaginei que, depois do vestido, ela fosse querer concertar a mim. Sim, porque de acordo com sua avaliação, eu estava toda errada. E admito que, em partes, eu concordava com ela. Certamente não estava feia, mas minha preocupação definitivamente comprometeu minha aparência.

Primeiro, ela me fez colocar sachês de chá de camomila já usados nos olhos, para diminuir as olheiras que começavam a aparecer. Aproveitei para beber o chá que foi feito. Estava quentinho e o calmante natural, mesmo que leve, viria a calhar. Vejamos, encarar uma cidade inteira extremamente curiosa, uma conversa que poderia facilmente tornar rumos desagradáveis com um príncipe ousado, e sei lá o que mais o que aquela noite me aguardava. É, o chá cairia bem.

Quando achou que já bastava, Alice tirou os saquinhos de ervas dos meus olhos e passou para a pele do rosto, onde passou um creme levinho que fez minha pele pinicar por alguns segundos, antes de se tornar refrescante. Minha amiga então me fez tomar um banho profundo e passou a brincar de boneca comigo, mal me dirigindo a palavra tamanha sua concentração. Não ousei incomodá-la. Parte porque não queria arriscar levar um tapa dela, parte porque, na verdade, apreciava o silêncio. Portanto, apenas deixei que fizesse tudo o que julgou necessário. Ao terminar, me levou até o espelho.

Sim, eu estava linda.

De frente, podia me ver com o vestido azul, que durante as festas havia se tornado minha assinatura, resplandecendo como se nunca houvesse saído da loja. Os sapatos estavam totalmente limpos e a máscara estava com um pouco mais de pedrarias e com suas cores mais intensas. Além disso, agora um brilho prateado discreto emoldurava as maçãs do meu rosto. Meus olhos estavam delineados e mais ressaltados, meus cílios se misturavam com os postiços tão bem que pareciam todos pertencerem a mim. Já na boca, um batom vermelho me dava a sensação de empoderamento. Em meu cabelo, primeiro foram feitas duas tranças grossas, cada uma próxima a uma de minhas têmporas, encontrando-se no centro da minha cabeça. Depois, o processo foi repetido, dessa vez com mechas mais finas, próximas ás minhas orelhas. Todo o restante estava cacheado, tal qual as mechas que pendiam a frente dos meus ombros. Estava simples, mas bem feito e elegante.

Eu certamente estava à altura do evento. Alice, que pôs ao meu lado, também estava elegantíssima, com um vestido cor creme, muito diferente do vermelho e do lilás que usara nas noites anteriores, afinal ela é uma estilista. Tinha que ser sempre uma referência e não poderia repetir nenhuma peça durante um evento tão especial, onde todos estariam presentes.

–Bom, está na hora de ir atrás da carruagem. – Disse-lhe.

–Preste atenção, Ella. – Interrompeu, me encarando com uma expressão séria. –Sei o que o príncipe prometeu e apesar de confiar em sua palavra, você é quem tem algo a perder aqui. Deve tomar alguns cuidados especiais dessa vez. Ouça bem o que tem que fazer hoje...

Então, Alice me confidenciou a próxima parte de seu plano, entregando-me um pequeno objeto metálico preso por um fino cordão. Envolvi meu pescoço com o filete prateado e escondi o pingente por dentro do corpete. O colar ficou bem discreto e se misturou perfeitamente com minha pele e o vestido azul.

Sorri, sabendo o que ele representava para nós duas. Alice estava tão feliz por mim quanto preocupada, a ponto de passar metade de um dia fazendo aquele objeto especialmente para mim, para garantir minha proteção durante aquela noite da única forma que ela podia fazer. Ela ainda havia se preocupando em não estragar todo o visual que fora construído para o baile.

Foi ali que eu entendi.

Alice não estava fazendo aquilo porque era minha amiga. Era esforço demais para isso. Não. Ela estava fazendo aquilo porque, naquela noite e em todas as outras, Alice era a minha Fada Madrinha. Ela havia transformado a minha vida desde o momento em que me permitiu fazer parte da Fary Land. Havia me permitido entrar em sua vida tão profundamente e entrado na minha de forma tão arrasadora, que “amiga” passou a ser um termo vago de mais. Ela foi minha confidente e, por vezes, meu alicerce. Alice me impulsionara a fazer mais do que eu julgava que conseguiria. Aquela pequena mulher havia conquistado, naquele pouco tempo juntas, um lugar que as duas parasitas que viviam sob o mesmo teto que eu, não conquistaram em anos. Alice estava fazendo tudo aquilo porque, sem que eu percebesse, ela se tornara minha irmã. Minha fadinha.

A compreensão da intensidade da nossa união me atingiu sobre maneira, como uma marreta sendo lançada contra a superfície de um lago congelado. Transbordei. Naquele momento, me permiti chorar por amor. No final das contas, mesmo não tendo mais nenhum parente vivo, eu ainda tinha uma família. E, segurando a sua mão, entre as lágrimas, sorri.

.

.

As luzes tomavam conta do lugar e já podia ouvir as risadas mesmo quando ainda estava longe da festa. Pude notar que o castelo estava como todas as outras noites anteriores, mesmo sem entrar nele. O ar noturno estava frio, o que devida a quantidade de tecido que me cobria, não chegava nem perto de ser um incômodo.

Desci da carruagem meio relutante. Olhei para o Sr., e lhe assegurei mais uma vez que nada de mal lhe aconteceria por me esperar mais essa noite. Relutante, assentiu.

—Meia noite? – Lhe perguntei.

Ele confirmou e segui em frente. Dessa vez, fiz diferente de todas as outras. Ao invés de seguir rumo ás escadarias da entrada, fui pela lateral do palácio, rumo aos jardins do fundo, me misturando ás sombras de forma a evitar ao máximo ser vista por qualquer um que olhasse pelas janelas. Mesmo assim, andei o mais rápido que pude. Um vestido como o meu não era o que se podia chamar de discreto.

Não demorei a alcançar meu objetivo, então me sentei ali e aguardei. Minha amiga ficara encarregada de atraí-lo a mim se fosse preciso, mas na verdade, contávamos com sua frustração ao não me ver chegar. Se estivéssemos certas, ao perceber que eu não viria, ele desejaria alguns momentos a sós, sendo o jardim o lugar calmo mais próximo e discreto, era provável que decidisse ir até lá, onde me encontraria. Caso não desse certo, Alice entrava com o Plano B. Ela estava com a posse de um bilhete escrito por mim e deveria entrega-lo, nem que para isso precisasse “acidentalmente” esbarrar em um certo filho de um rei.

Precisei esperar quase cinquenta minutos repletos de puro tédio até que, quando estava prestes a desistir, ele apareceu. Não sei qual dos dois métodos o trouxe até ali, mas a julgar pela sua expressão surpresa, diria que foi a primeira. Ótimo. Menos chances de ser descoberta. Não precisava correr o risco de tê-lo atrás de Alice para fazer perguntas.

Sorri, me levantando. Ele logo pôs-se a se mexer, descendo os degraus para em seguida se aproximar.

—Achei que não fosse vir.

Ri, porque quase não vim mesmo.

—Bom, a curiosidade tem uma força que não deve ser subestimada.

—Então, acho melhor irmos andando, certo?

O caminho foi silencioso, mas não me incomodei, porque ambos estávamos felizes em aproveitá-lo. Andando lado a lado, levamos poucos minutos para chegarmos a base de um morro, onde ainda se encontravam resquícios do que uma vez fora uma estrada. Dali em diante, seguimos pelo velho caminho, subindo, por vez ou outra, algumas escadarias, até chegarmos ao topo, onde o terreno já era mais plano.

Lá de cima, pude ver com clareza o que outrora fora um palácio suntuoso. Não restava muita coisa, a maior parte era, na verdade, uma pilha de pedras abraçadas por um musgo verde ou alguma planta. A natureza estava reivindicando de volta o seu espaço natural.

Soube exatamente quando passei pela antiga entrada principal, pois apesar de não restarem muros laterais, ainda havia o arco de pedra que emoldurava a porta, pelo menos duas vezes mais alto que eu. Erguendo-se do gramado, a minha direita brotava uma fileira de outros arcos, idênticos ao que acabei de deixar para trás. Provavelmente estávamos no que antes fora um salão.

Não resisti a tentação de tocar naquelas fileiras de pedra. Eram frias, úmidas, mas não liguei. Não liguei porque ao toca-las também senti a história, como se de repente, através daqueles arcos, eu pudesse me ligar ao passado. Um passado distante, onde aquele castelo ainda estaria, não apenas de pé, mas em toda a sua glória, recebendo nobres em alguma de suas festividades. Fechei os olhos, aproveitando aquela sensação, tentando imaginar uma cena como essa, e quando quase pude vê-la, sorri satisfeita.

Não me intimidei com os olhares indiscretos de Henry, observando cada reação minha. Apenas segurei a barra do vestido e, rindo, corri ziguezagueando por entre as colunas dos arcos até, feliz, chegar ao último.

Olhei para traz, vendo o príncipe rir de minha estupidez. Ri junto, enquanto esperava que ele me alcançasse. Demos as mãos e seguimos na direção oposta, onde havia a maior parte da antiga construção, que hoje não passava de um pequeno labirinto, cheio de caminhos cruzados que ou não davam a lugar nenhum, ou desembocavam em cômodos já sem tetos enquanto e que, no piso, ainda se viam as pedras incrustadas, todas bem próximas umas das outras.

Apesar do estado lastimável, podia imaginar como era quando se encontrava em seus tempos de glória. Pelo que pude perceber do que restara, as paredes foram construídas com três camadas de pedras resistentes, provavelmente para proteger os habitantes contra algum inimigo. Por causa disso, os cômodos eram relativamente pequenos e os corredores não caberiam alguém além de mim e Henry andando lado a lado. Por esse mesmo motivo, nas paredes que restaram, haviam poucas e pequenas janelas. Mesmo assim, a grandeza da construção era, mesmo agora, inquestionável. Os resquícios das altas torres e dos vários andares não me permitiriam mentir, mesmo que desejasse.

Era digno da nobreza.

—Lindo. Mesmo hoje, ainda é lindo. – Sussurrei.

—Sim, é. – respondeu, me olhando tão intensamente que não pude deixar de corar. –Venha, vou te mostrar o meu lugar favorito daqui.

Fui puxada para fora. Seguimos na direção oposta à de por onde entramos, seguindo para a última torre que restou, quase intacta, como se recusando ceder ás forças da natureza.

Era comprida e simples, como se fosse apenas um cilindro feito de pedra, sem muitas janelas e com metade do teto já desabado, restando apenas uma outra metade.

—Feche os olhos. -Me pediu Henry antes de entrarmos na torre.

Fechei.

Pude saber quando adentramos a velha construção pelo barulho de nossos passos, que passou a ressoar em volume muito mais alto que antes. Quase que imediatamente, fui guiada escada a cima. Ouvi um gotejar ao longe e conforme subimos, senti o ar cada vez mais gelado e pesado devido a umidade. Felizmente, porém, não senti nenhum cheiro de mofo ou qualquer coisa parecida. Tropecei algumas vezes, mas sempre era firmemente segurada de forma que não cheguei a cair. Nesses momentos, riamos e logo depois eu era lembrada de manter os olhos bem fechados. Quando terminamos a subida, fui guiada por alguns metros até que Henry julgou estarmos bem posicionados e me permitiu abrir os olhos novamente.

Abri.

Estávamos em frente a uma cumprida, porém estreita janela, no que parecia ser o equivalente a um sexto andar. Como já estávamos mais alto devido a posição das ruinas sobre o monte, subir mais aqueles andares me dava uma vista espetacular. Podia ver parte de um lago mais ao longe, depois vi a cidade com algumas luzas acesas, o Palácio Real com todas as suas luzes vazando por cada janela, cada frestinha, como se reluzisse. Avistei a estufa da noite anterior, que de longe parecia uma pequena casinha de cristal, ladeada pelo labirinto. E abaixo de mim, as ruinas.

Estava tão extasiada com a bela imagem pintada a minha frente, que por um segundo, prendi o ar. Aproximei-me um pouco mais, segurando nas beiradas da janela, para poder observar aquela imagem tão plenamente quanto pudesse e gravá-la na memória.

—Gostou? – Escuto a voz baixa de Henry tão próxima ao meu ouvido que sinto meus pelos se arrepiarem.

Sentia o calor emanando de seu corpo. Ele estava não mais que dois passos de distância de mim, mas me mantive parada, sem saber se deveria me afastar ou me aproximar ainda mais.

—Amei.

Mentira. Eu sabia exatamente o que eu deveria fazer, tanto quanto sabia o que eu queria fazer. Naquele momento, porém, eles não eram a mesma coisa. Mantive-me, portanto, exatamente onde estava.

—Dance comigo.

—Aqui? –Virei-me surpresa. — Agora? Não temos música.

—Essa noite, podemos dançar sem ela. – Estendeu sua mão, enfatizando o convite. Meio encabulada, aceitei.

Deixei que ele me guiasse por uma música silenciosa, marcada apenas pelo som de nossos passos e o gotejar ritmado da goteira no teto.

Não posso dizer que foi como se todo o resto sumisse ao nosso redor, como se existisse apenas nós dois no mundo inteiro. Não foi nada como isso. Na verdade, foi o exato oposto. Durante cada segundo em que o silencio se propagava, fui inundada com um mar de sensações. Quando toquei sua mão com a minha, senti minha boca salivar. Quando aproximei meu corpo do seu e sua mão repousou em minhas costas, percebi minha respiração ficar mais rápida. Quando demos os primeiros passos, senti minha perna ameaçando falhar em sustentar meu peso.

Envergonhada, aproximei-me mais e repousei minha cabeça em seu ombro, tentando prestar atenção apenas no próximo passo que ele me conduziria a dar. Ao contrário disso, percebi seu coração batendo ritmado, ao contrário do meu que já bombeava meu sangue com tal força, que podia ouvi-lo claramente.

Para quem visse de fora, a cena seria bem romântica. Um casal dançando sem música alguma, em seu próprio ritmo, à luz do luar, que ainda deixava uma meia penumbra, dentro de uma torre em meio de um palácio em ruinas. E eu estava plenamente consciente desse fato, o que me deixava ainda mais nervosa.

Entretanto, em algum momento pude sentir também e acima de tudo isso, um calorzinho me esquentando. Primeiro meu coração, mas logo foi bombeado junto ao meu sangue para cada parte do meu corpo, como uma anestesia para a avalanche de sensações e sentimentos que ameaçava me consumir. Naquele momento eu soube que não gostaria quando aquele momento acabasse. Eu soube também, que estava apaixonada, e me senti péssima por isso. Porque em três noites, me apaixonei por alguém que não foi o Caçador. Porque mesmo nessas três noites, eu não deixei de estar apaixonada pelo meu Caçador. Porque eu sabia que não seriam três noites que me fariam esquecer nenhum deles. Eu gostava de cada um por um motivo diferente, eram paixões diferentes. E eu me senti péssima por isso.

Sem que eu pudesse controlá-la, uma lágrima escorreu pela minha face, gelada, ardente como se desejasse me rasgar em duas, tanto quanto meu coração foi rasgado em dois.

Permiti-me aproveitar ao máximo aquela dança, sabendo que para mim tinha tantos significados que Henry jamais se quer imaginaria. Sabendo que aquela poderia ser a nossa última dança, fechei os olhos, desejando que a dor sumisse, que o aperto em meu peito se afrouxasse, que eu pudesse sentir sermos só nós dois no mundo.

Eu me sentia pequena frente aos meus próprios sentimentos. Eu estava apaixonada por dois homens ao mesmo tempo, se isso já não bastasse para me fazer sentir péssima, ainda tinha o fato de que ambos eram amigos, o Príncipe provavelmente já estava prestes a ficar noivo e o Caçador me deu o bolo em nosso primeiro encontro, duas noites atrás.

Ali, envolta pelos braços de Henry, mergulhada em mim mesma, me senti perdida.