—Alice! – Gritei de repente, ao me dar conta de algo.

Ela apenas se virou, franzindo a testa.

—Me empresta seu vestido de novo? Quer dizer, eu não tenho outro além dele para usar. – Perguntei, constrangida.

—Por favor, Ella. Ficaria ofendida se, depois de ontem à noite, você não o usasse hoje. Apenas não diga a ninguém que é um dos meus. Ao menos, não ainda. Não está na hora.

Não entendi bem o que ela queria dizer com “não está na hora”, mas concordei. Aliás, fiquei até agradecida, não contar quem era a estilista significa que para as fofoqueiras chegarem até mim seria ainda amais difícil. Muito embora, se fosse seu desejo e alguém perguntasse, eu diria. Alice já estava me fazendo muitos favores, eu devia isso a ela. Afinal, as pessoas amaram o vestido, aposto que se soubessem, fariam fila na porta no dia seguinte na esperança de ter uma peça da Fary Land.

CAPÍTULO 10

Antes de voltar para casa, após fechar a loja, subi para o ateliê e peguei o violino. Não teria tempo de ir à campina tocar, mas podia me permitir ao menos matar a saudade que ele me fazia. Depois de tocar todos os dias por algumas horas, ficar tanto tempo sem era como se parte essencial do meu dia fosse retirada. Isso, no entanto, não me surpreendia. A muito tempo eu havia percebido que a música era parte integrante do meu ser. Uma necessidade muito mais que superficialidade. Eu precisava dela constantemente.

Admirei o instrumento por alguns instantes. Toque delicadamente as cordas antes de segurar o arco e analisa-lo. Estava um exatamente como me lembrava. Posicionei-os e depois a mim mesma. Então, o som de Chopin inunda o ambiente por alguns minutos.

O esquema para me arrumar para a festa foi o mesmo da noite anterior. Me foi dada uma pilha de afazeres para que, diferente de ontem, eu nem mesmo pensasse em ir esta noite. Bom, dessa vez não poderia chamar ajuda, então fiz as coisas mais importantes no tempo que pude, rezando para que quando chegasse, conseguisse fazer mais alguma coisa e os itens que não cumprisse conseguissem passar despercebidos ao menos até o dia seguinte.

Assim que as três saíram para o SPA, me pus a trabalhar. De qualquer forma, não adiantaria me arrumar pois elas farejariam de longe o cheiro de maquiagem e acetona quando voltassem para colocar seus novos vestidos. Com tanta ostentação até eu já considerava rezar para que uma delas se casasse com um homem bem rico. Caso contrário, depois desses três dias de tratamentos de beleza caríssimos e vestidos cujos preços não irei nem mencionar, estaremos ainda mais pobres e miseráveis, pois duvidava que Lady T. realmente teria dinheiro para pagar por tudo isso. Que imprudente da parte dela. Não tem onde cair morta e gasta dinheiro com suas filhas desengonçadas.

Depois das atividades feitas e das mulheres já terem se dirigido ao baile, corri para o quartinho. Retirei o vestido e o estiquei, agradecendo aos céus por não ter amassado. Escovei a saia para tirar qualquer sujeirinha da noite anterior, pendurei em um cabide e me permiti tomar um belo banho. Esfreguei minha pele, me assegurando de estar bem limpinha, fiz uma maquiagem leve e me vesti, saindo em busca do velho senhor com a bela carruagem.

Nessa noite, para a minha decepção, havia um carro disponível. Antes de agradece-lo, porém, o Senhor me interrompeu.

—Posso ver nos seus olhos sua decepção. Você gostou da carruagem, não é mesmo, menina? – Perguntou simpático.

—Não me leve a mal, o carro já está de grande ajuda, mas a carruagem.... Tem algo de especial nela. –Fiquei sem graça ao responder-lhe, mas não havia motivos para mentir.

—Pois então ela é sua por mais uma noite.- Disse-me sorrindo.

—Obrigada!

—Sei que você é a menina do baile de que tanto falam, ao menos no que diz respeito ás suas qualidades. Posso ver que você é do bem. – Começou a falar através da janela aberta, quando eu terminei de me instalar lá dentro, com sua ajuda.- Te desejo muita sorte, garota. Vai precisar. Sabe, você está certa, essa coisa velha é especial. Foi para mim e minha amada, e está sendo para você. Pelo que ouvi, você está vivendo um sonho, então aproveite. As chances de algo assim acontecer a alguém são pouquíssimas.

Assim que terminou de falar, antes mesmo que pudesse dizer qualquer coisa, sinto o veículo começar a se mexer. Ao chegar ao baile, não pude conter o deslumbramento. Sim, já havia estado ali antes. Mas era tudo tão distante da minha realidade que não conseguia me acostumar a essa fantasia nem ao menos por uma noite. Deixei para trás a carruagem destoando com os carros tão atuais, coloquei minha máscara e desci.

—Não se esqueça, mocinha, até a meia noite. –Disse o cocheiro para mim. Apenas lhe sorri, antes de agradecer por me levar até o castelo e estar disposto a me esperar, antes de seguir para a escadaria.

Não estava tão atrasada assim desta vez, somando isso aos acontecimentos do dia anterior, resultou no fato de que passar pelos os fotógrafos frenéticos na porta do palácio foi quase como nadar contra a correnteza de um mar furioso. Perguntavam sobre tudo, quem era eu, quem havia feito meu vestido, de onde eu vinha, tiravam tantas fotos que os fleches me deixavam tonta. Apenas consegui sair daquele redemoinho quando braços agarraram meus ombros e, me segurando firme, abriram caminho até a antessala.

Ao me ver livre, permiti-me respirar fundo e então encarar meu salvador. Lá estava ele, com a farda púrpura cheia de medalhas e uma faixa diplomática com o símbolo do reino no canto inferior, bem como os fios de seu cabelo, aparência sedosa, perfeitamente controlados pelo gel. O cenho franzido em preocupação, no entanto, contrastava com todo o resto.

—Está bem?

—Claro. Obrigada pela ajuda, Majestade. Foi realmente muito bem-vinda.

—Não precisa agradecer. Vamos entrar? Acha que está preparada?

Sorri.

—Acho que sim, Majestade.

Caro leitor, se você acha que chegar atrasada em algum lugar chama muita atenção, tente chegar com um príncipe. Se antes os olhares eram de curiosidade e inveja, agora eram de surpresa e assassinos. Já podia ver algumas das mais furiosas pulando em cima de mim e tentando puxar meu cabelo. Acredito que a única razão para não o terem feito, era o fato de que estávamos junto a toda a alta sociedade, naquele salão de bailes.

Henry nos dirigiu quase que diretamente para a pista de dança, onde alguns casais bailavam ao som deu uma valsa.

—Não fique nervosa dessa vez. Apenas pense que estamos na varanda, como ontem, se isso ajudar. Não estamos fazendo nada de mais, apenas dançando.

Isso, claramente era uma mentira. Tudo bem, era uma dança. Com o Príncipe, na frente de toda a sociedade, depois de ficarmos a noite anterior praticamente inteira juntos. Com certeza fomentaria as fofocas e comentários, já muito exacerbados a respeito de nossa suposta relação. Apesar disso, tentei me esquecer dos olhares a minha volta e me concentrar na música. Levou alguns segundos, mas logo a melodia começou a aumentar de volume em minha mente, suprimindo os outros detalhes.

A música, entretanto, não demorou a acabar. Na verdade, já estava quase no final quando nos inserimos na pista, por isso, quando Henry se posicionou à espera da próxima, não liguei. Apenas me posicionei também. Em seguida, a orquestra recomeçou, quase que imediatamente, a extrair os sons mais incríveis possíveis de seus instrumentos. Eu então me permiti aproveitar verdadeiramente aquela sensação que começava a inebriar meus sentidos, ao mesmo tempo em que era guiada pela pista.

Em algum momento, percebi estar completamente entregue a melodia e ao meu par. Era um sentimento engraçado de formigação misturado a entusiasmo e algum tipo de plenitude. Olhei para ele e sorri, apreciando o momento. Quando tentei desviar meus olhos, porém, não consegui. Suas orbitas brilhantes e sorriso branco me impediram. Por isso, apenas continuei a dançar, deixando para pensar nisso depois.

Ao fim da música, me afastei e ainda sorrindo, fiz a devida reverencia de agradecimento, ante de me retirar do centro do salão.

—Aonde vai?

—Encontrar o Caçador. Se esqueceu que estou aqui a por ele?

Senti-me, porém, paralisar ao ouvir o que ele havia dito.

—Como? – Foi tudo o que consegui dizer-lhe, ainda de costas, na esperança de que me falasse que estiva brincando.

—Como sabia que você viria, pedi para me manterem informado. Fui avisado pouco antes de ir busca-la na porta de que ele não compareceria, e pedia meu perdão por sua ausência.

Não posso dizer que isso não havia sido um balde de água fria. Apesar da noite anterior, ainda esperava ansiosa por encontra-lo. Entretanto, também não posso dizer que estava tão chocada e decepcionada como estivera ontem. Era de se esperar algo assim, afinal.

—Bom... – Comecei, virando apenas minha face para olhá-lo nos olhos, tentando a todo custo esconder minha decepção. –Então não há nada para mim aqui. Devo ir também.

Logo depois do primeiro passo, ouço ele pedir para que eu fique. Mas porque o faria?

-Se não por ele, por mim. A festa seria bem chata sem sua companhia. E se não por mim, por si mesma. Permita-se aproveitar o resto da noite já que já está aqui de qualquer forma. Não precisa voltar só porque ele não veio.

“Isso é verdade” pensei “E, de qualquer forma, prometi a Alice que me divertiria, e é isso que irei fazer. Por mim”.

-Quer dançar outra música? – Perguntei, logo após me virar para sua direção.

-Na verdade, eu gostei tanto do passeio de ontem que estava pensando.... Que tal continua-lo? – Ergueu sua mão direita, oferecendo-a para mim, que logo a segurei.

Ele me guiou pelo mesmo caminho de ontem, mas percebi que pegamos a entrada oposta em relação à anterior, quando chegamos à cerca viva. Dessa vez, no entanto, ao invés de avistar uma ponte de madeira, após uma leve caminhada, uma espécie de palácio de vidro surge diante dos meus olhos.

Tinha uma estrutura parecida a de uma meia esfera achatada, com quadradinhos no topo, e telhado inclinado, tão alto que seu topo sobressaia por alguns metros em relação a opulenta vegetação nativa em seu derredor. A estrutura era sustentada por armações de aço visíveis e pintadas de verde, quase que se confundindo ao ambiente gramado, rodeado de árvores e plantas, tanto em seu exterior quando em seu interior. Sim, de onde eu estava, podia ver que o interior era repleto de plantas.

-O que é? – Questionei, ainda meio abobalhada perante tamanha beleza.

-É o meu jardim botânico. – Sorriu. –Eu passo boa parte do meu tempo livre aqui. Quer entrar?

Consegui apenas acenar com a cabeça, diante ao seu convite. Es estava ansiosa para explorar aquele palácio de vidro, além de, indiretamente, estar explorando um pouco do próprio Henry.

Ao adentrar na estufa, logo senti um calorzinho me envolver. Com certeza ali tinha uma temperatura mais alta. Apesar de haverem plantas e mais plantas, umas crescendo sobre as outras, o local era, também, bem organizado. Nos dirigimos por um dos caminhos em silencio, ultrapassando os vários arcos, admirando as composições, quase que artísticas, da vegetação. Por dentro o local parecia ser ainda maior, constatei. Poderia facilmente plantar uma palmeira bem alta se quisesse, ou algo semelhante em altura.

Haviam também várias fontes, todas de pelo menos três patamares e algumas, as maiores, com muito mais que isso. Estátuas também enfeitavam o local, e vez ou outra, encontrávamos um banco. Não demorou e nos deparamos com uma escada. Era estreita, de aço, então tive que segurar o máximo possível do vestido para subir, e mesmo assim, quase não passei, e um pensamento me veio a mente: “Que constrangedor seria se a gaiola do vestido me entalasse aqui”.

Ao chegar ao topo, tive uma vista incrível, não apenas da parte de baixo do jardim, como também do próprio palácio, de longe, silencioso, mesmo com suas luzes denunciando que uma festa acontecia ali. Pude dar uma olhada ao meu redor, avistando ao longe o riacho pelo qual assamos na noite anterior, e do lado oposto, em uma colina não muito distante, uma construção bem pequena de pedra.

-O que tem alí? –Apontei para o topo da colina.

-Um... não posso dizer. – Disse, praticamente rindo de minha curiosidade explicita, quase que infantil.

-Vamos, me conta! – Insisti.

-Amanhã. – Afirmou, resoluto.

-Não pretendo vir amanhã. – Tudo bem, eu estava bem constrangida agora.

—Porque?

—Bom, eu vim ontem, porque queria encontrar... você sabe. Vim hoje, porque queria dar a ele uma segunda chance e a mim, a oportunidade de aproveitar uma noite como essa. Eu já fiz o que queria aqui, e já desisti de encontra-lo. Porque viria? Não há nada mais o que fazer aqui. – Talvez tenha sido grosseiro da minha parte, mas não conseguia encará-lo, então me permiti responder enquanto apreciava a vista.

—Entendo. – Sussurrou.- Você veio por ele. Depois, voltou por si mesma. Que tal vir amanhã por outro motivo? – Completou depois de certo silêncio.

-Como o que? – O encaro, olhando em seus olhos.

—Venha pelas ruínas. Sei que está curiosa. Posso mostrá-las a você na próxima noite. Ou venha por mim, se sua curiosidade não for o bastante.