Sapatinho de Cristal
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Em breve, eu não teria uma única foto, um único lembrete além de minhas próprias memórias, da espera pelo amor que lentamente desenvolvi e da conquista de um amor que em tão pouco tempo cultivei tão intensamente.
—Vamos? –Alice me chamou suavemente, se pondo ao lado da porta.
—Vamos.
Capítulo 16
O dia brilhou na manhã seguinte. Levantei-me antes de qualquer outra pessoa, já acostumada com a rotina louca dos últimos dias devido ao evento que a Fary Land sediará ainda hoje. Como nos últimos dias, aproveitei a calmaria rara, derivada apenas da inconsciência dos demais moradores da casa, para me arrumar e sair. Não havia realmente muito que fazer na loja hoje, mas tão pouco muito pelo que ficar em casa. Entre um e outro, sempre adoraria uma boa desculpa para sair de casa cedo.
Ao sair do quarto, notei a zona em que estava a casa. Eu já não levantava um dedo para fazer nada por ali a três dias. Desde que voltei do baile não havia ânimo real para nada, muito menos para tarefas sem sentido feitas para pessoas que se quer a mereciam. Havia decidido, na primeira manhã desde a festa, que não faria mais nada que não realmente quisesse. Não tinha muito tempo até o meu aniversário e, até lá, evitaria as três bruxinhas ao máximo. Depois, daria meu jeito de me livrar delas dia após dia, um por vez.
Não pude negar, no entanto, o prazer mórbido ao ver, pela primeira vez, a casa toda de pernas para o ar devido a minha clara ausência, quando não tenho nenhuma pretensão de limpar nada. “Elas que se virem” pensei. “Ninguém mandou trazerem um furacão dentro de casa toda vez que chegassem da rua. Talvez agora aprendam a não atirar sapatos, roupas e sacolas pelos cômodos enquanto chegam em casa agora que não estou aqui para sair recolhendo tudo atrás delas”.
Pequei o violino e fui para a loja de Alice. Ela havia pedido na noite anterior, devido a toda a história do vestido, que eu tocasse o violino enquanto ele entrasse e passasse pela passarela. É claro que ninguém entenderia o real motivo do porquê eu estaria ali, mas eu estava agradecida a minha amiga pela oportunidade. Seria uma bela despedida.
Quando cheguei, a loja estava piscando em luzes de todas as cores e por todos os lugares. As araras haviam sido retiradas e em seu lugar, fileiras e mais fileiras de cadeiras metálicas negras se dispunham. No meio, ao longo de quase toda sua extensão, uma passarela se estendia branca como leite, brilhante sob os holofotes; com pessoas uniformizadas como equipe de organização zanzavam enlouquecidas por toda a extensão da loja, gritando comandos uns para os outros. Ao fundo, pendendo do teto uma cortina de cristais brilhantes, como uma chuva delicada de zircônias caindo sobre a entrada da passarela, prometendo um mundo fantástico de moda. Alice havia se superado dessa vez.
Fui rapidamente direciona para os fundos, onde esperaria até o momento em que entraria para tocar. De tempos em tempos, aproveitava que já conhecia a loja como a palma da minha mão para ajudar no que fosse possível. Minha amiga havia trabalhado horas incontáveis para que tudo fosse perfeito e, se eu pudesse fazer algo mais para ajudar, faria sem questionar. Não demorou muito e o sol se pôs, chamando os convidados. Não eram muitos, mas eram os mais importantes com certeza. Não avistei Alice até que fosse duas horas antes do evento. Ela vestia uma camisa social preta abotoada até o final, sob um terninho justo com um broche perolado preso junto a uma fita branca dobrada como um leque na gola, contrastando com o tom escuro do vinho. Estava tão delicada como uma boneca, mas ainda sim deixava claro quem era a estilista e empresárias da marca.
—Finalmente te achei. Venha, está na hora de se trocar. – disse ela eufórica.
Olhei para mim mesma. Não estava feia, mas também sabia que não estava bem vestida para a ocasião, mas não tinha ligado, afinal, eu só ficaria no fundo tocando. No entanto, sabia o quão importante isso era para a baixinha e deixei que ela me guiasse até o trocador e me entregasse um cabide.
O vestido se parecia muito com o tema geral do desfile, Contos de Fadas. Era cinza bem claro, quase um off White, bem romântico, leve, flutuante. Seu comprimento atingia o calcanhar, com mangas bufantes transparentes presas ao meu pulso e botões de veludo da cintura a gola do pescoço. O busto possuía decote reto e, a partir dele até seu fim, bordados 3D de flores e pássaros apenas alguns tons mais escuros que o tecido em si davam á peça um ar romântico e delicado, sem deixar de lado a magnificência e elegância exigida pela própria estilista para que um de seus projetos ganhasse vida. Alice não fazia as coisas pela metade, afinal de contas.
Não demorou para que o som de conversas começasse a vasar para o interior da loja, conforme os convidados chegavam cada vez mais. Assim que o primeiro deles adentrou o espaço, toda a organização e participantes, incluindo a mim mesma, se recolheram aos fundos para não serem vistos. Algo sobre quebrar a mágica.
Me preparei assim que a cerimonialista nos deu o primeiro toque. 20 minutos para o início. Devido ao fato do vestido que usei ter causado tanto estardalhaço nas noites do baile, ele seria o último, para chocar os críticos e damas das sociedades com a revelação de quem o fez, segundo Alice. No entanto, como eu tinha que afinar o instrumento, antes mesmo de começar me retirei para garantir que estivesse tudo certo e bem afinado. Estava. Não fiquei surpresa, havia verificado já duas vezes, apenas para ter certeza.
Logo o desfile começou e, por trás da coxia, observei o movimento do evento. Apensar de não ser capaz de ver nenhum dos que estavam na plateia devido ao breu, fui capas de acompanhar cada um dos modelos a serem exibidos na passarela iluminada pelos canhões de luz. O primeiro era completamente prateado, logo sendo seguindo por um cinza e rosê. Depois, vieram vários dessa cor, até que ela se misturasse em um belo dégradé com um azul e, por fim, os vestidos azuis fossem mostrados. Não demorou realmente, mas foi mágico. Cada peça, curta ou longa, tinha um design único, seja com pássaros, jardins ou flores bordados, com corte mais sério e recatado às fendas enormes. Tudo feito com delicadeza e elegâncias invejáveis.
—A próxima é você. – Avisou-me a organizadora do evento.
Coloquei-me de prontidão na entrada da passarela.
Silêncio profundo na loja.
—Estamos chegando ao fim do desfile deste ano. No entanto, para fecharmos com chave de ouro, por favor recebam a violinista Ella, vestida com o Elegance, que tocará Secret Garden para recebermos em seguida do nosso último exemplar, o vestido Sonhos Realizados!
“Sonhos realizados?” pensei logo antes de entrar, “quem me dera”.
Sem mais delongas, me posicionei e esperei o sinal para começar a tocar, ou seja, as luzes na passarela acenderem. Então, permiti-me fechar os olhos, respirar fundo e, só então, pousar os dedos sobre as cordas, extrair o primeiro som. Os primeiros segundos, da introdução, toquei ali mesmo, ainda mergulhando dentro de mim mesma. Não demorou mais que isso para encontrar-me na música calma. Antes de que a música realmente crescesse pela primeira vez, me pus calmamente no centro do palco. Na segunda vez, estava na frente, onde fiquei até o meio da música, onde o violino para por alguns segundos, e me pus de lado. Era hora da verdadeira grande entrada, e só pude lamentar não ver o rosto de nenhum dos que ali estavam ao ver qual seria o grande vestido, pois estava sendo segada pelas luzes fortes.
Quando voltei a tocar, o holofote brilhou novamente na entrada. Pude ouvir suspiros de todos os lados do salão quando as pessoas finalmente vislumbraram a peça. Os flashes de luz foram instantâneos, mas logo pararam. A modelo começou a andar e o efeito era incrível. O vestido parecia refletir delicadamente cada um dos raios de luz que sobre ele eram lançados. A modelo parecia flutuar lentamente, ao ritmo da música, até sumir novamente pela entrada, pouco antes do fim da música. Logo a segui, voltando por um breve momento para encarar a plateia, antes de tocar minhas últimas notas e então, as luzes apagarem para que eu pudesse sair de cena.
Fui, no entanto, a primeira a voltar, tocando dessa vez Now We Are Free, de Gladiadores, para receber todos os vestidos apresentados, bem como Alice, logo atrás deles. Minha amiga sorria orgulhosa, olhando suas criações cintilarem sob a luz, maravilhando cada um ali presente. Ela se curvou agradecendo. Recuei junto com todos os demais, deixando apenas ela na frente, enquanto tocava os acordes finais da música ao fundo, próxima á entrada. Quando tudo acabou, me retirei ouvindo uma cachoeira de aplausos caindo sobre minha amiga que ainda se encontrava em meio ao público.
Logo me retirei para o trocador, onde vesti meu vestido simples branco com o qual vim.
—Ella? -Ouvi Alice chamar do outro lado da porta algum tempo depois. – Quero que conheça alguém. Lembra do convidado especial de quem eu falei? – gritou do outro lado.
—Claro Alice, já vou abrir!
Dizer que fiquei em choque depois de abrir a porta seria pouco. Lá estava ele, depois de tanto tempo.
O caçador.
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