Havíamos saído da cidade haviam aproximadamente quatro horas. Agora era possível ver na distância a faixa de luz vermelha que tomava um raio de mais ou menos dez Quilômetros, tendo seu ponto central a cidade de Ceres. Gaia havia me explicado que o fato de Ceres ter sido atingida era em partes minha culpa. O selo em minhas costas havia, de certa forma, atraído a energia do fenômeno para ali. Não sabíamos ainda o que significava aquela luz, e talvez nem chegássemos a descobrir. Longe da cidade tudo estava muito escuro. O céu não exibia mais nada além de nuvens e uma esfera negra. Entramos em uma floresta densa e úmida. Periett não havia pronunciado uma palavra sequer, desde que saímos de Ceres, enquanto Gaia apenas falava o necessário, como quanto havíamos de caminhar e se estávamos perto ou não. Fora de Ceres o tempo parecia correr normalmente. Eventualmente algum animal silvestre corria de nós. Os mais corajosos nos observavam atrás de moitas. Andamos um pouco mais, ambos entramos em silêncio absoluto. Nem mesmo a respiração era ouvida. Pouco mais a frente havia uma barreira de árvores que se encontravam unidas de forma a parecerem uma parede. Elas eram grandes o suficiente para que não fosse possível ver o céu atrás delas. Gaia parou em frente a elas e tocou o tronco áspero de uma com a ponta dos dedos, de uma forma muito delicada, enquanto a outra mão estava pousada sobre o coração. Seus olhos se fecharam, e ela parecia estar em transe.

- O que ela...

Periett colocou o dedo sobre os lábios, insinuando que eu deveria ficar calado.

- Revelare Viam...

A voz de Gaia soou quase como um canto. A voz dela, embora doce e suave, saiu num tom alto e poderoso, ecoando pela floresta e fazendo as folhas das árvores balançarem e o chão tremer. A árvore a sua frente começou a se mover, fazendo com que o chão tremesse novamente. As folhas caíam como chuva ao nosso redor. Eu observava tudo aquilo maravilhado, enquanto que Periett estava sério, com os braços cruzados. Gaia abriu os olhos e a árvore parou de se mover, revelando uma passagem larga.

- Vamos.

Subimos nas raízes da árvore e adentramos a passagem. Só assim consegui ter noção de como as árvores ali eram largas. A passagem se estendia até aonde a vista podia alcançar. A escuridão do eclipse dificultava bastante a visualização do caminho, embora o tom avermelhado dos céus ainda realçasse as nossas silhuetas. Mais uma vez gaia tocou no tronco da árvore e fechou os olhos.

- Illustrare.

A mesma sensação de poder soprou o meu rosto, e logo pude ver uma legião de pequenos pontos luminosos surgirem por entre as folhas das árvores. Milhares de vagalumes surgiram, e foram se posicionando numa linha reta, em duas filas, uma de cada lado da passagem, iluminando todo o caminho com uma luz esverdeada. Era uma visão no mínimo incrível. Uma passagem secreta iluminada por vagalumes entre duas árvores colossais.

- Aonde estamos indo?

- Estamos indo buscar a arma que lhe acordará o seu coração.

A voz de Gaia parecia mais séria, embora doce e suave, como sempre. Andamos pelo caminho mágico, eu sempre tentando tocar os vagalumes, que voavam levemente na direção oposta dos meus dedos. Senti um tremor, e quando olhei pra trás pude ver os galhos da árvore se entrelaçando e fechando o caminho atrás de nós. Ao mesmo tempo que os vagalumes que ficavam para trás se amontoavam e nos seguiam. Após alguns segundos de caminhada finalmente chegamos do outro lado. Fora da passagem estava tão escuro que era como se o mundo acabasse imediatamente à nossa frente. Gaia apontou para a escuridão e os vagalumes voaram rapidamente para aonde ela tinha apontado, formando um grande círculo no alto e revelando uma pequena clareira com um templo pequeno no meio. As paredes eram de pedra antiga e as vinhas tinham tomado conta de quase tudo. As janelas sem vidro formavam arcos majestosos, revelando um pouco do interior escuro do local. Gaia virou-se para mim e me olhou fundo nos olhos.

- Dentro deste templo dorme uma espada lendária, cuja lâmina é capaz de cortar a névoa da escuridão e ferir o âmago do mal. O nome desta espada é Heilig. Ela foi criada pelas quatro deusas na era da criação deste mundo com a finalidade de abençoar este mundo. Mas, os tempos são difíceis, e é chegada a hora de acordá-la e usá-la para banir o mal. Entre no templo e tome-a para si.

Assenti devagar e segui em direção ao templo. Podia sentir na pele os olhares atentos dos deuses atrás de mim. O caminho era cheio de raízes e buracos nas pedras, tornando o acesso ao templo difícil. Cheguei à porta dupla de madeira velha e coloquei as mãos na superfície. Embora a clareira fosse cheia de vinhas e úmida a porta estava estranhamente seca e quente. Empurrei-a com as duas mãos, fazendo com que as vinhas se descolassem da porta e uma grande quantidade de pó tomasse o ar. A porta abriu fazendo muito barulho e deixando um pouco mais de claridade entrar. Havia um grande altar no centro do templo, com detalhes de pedra muito bem feitos, um trabalho celestial. Alguns floreios gravados na pedra levavam diretamente ao meio do altar, aonde, cravada, encontrava-se uma espada vermelha que reluzia num brilho escarlate fraco. Uma onda de calor quente acariciou meu rosto. Respirei fundo e desci as escadas que levavam ao centro do templo. Aproximei-me da espada e toquei o seu cabo, um tanto quanto receoso. O brilho se intensificou e uma brisa suave entrou pelas janelas de pedra, fazendo os fios de meu cabelo se espalharem pelo rosto. Segurei o cabo da espada com as duas mãos, firme. Puxei a lâmina devagar, e ela saiu de maneira muito fácil de onde ela se encontrava, como se implorasse para ser retirada e usada. Brandi a lâmina brilhante no ar e o vento soprou dentro do templo, movendo as folhas secas no chão e fazendo rodamoinhos no pó. Aquela era Heilig, eu podia sentir em meus braços o poder que ela emanava. Subi os degraus de volta e caminhei até Gaia e Periett, com a espada firme na mão direita. Consegui identificar de longe um pequeno sorriso no rosto de Gaia e pude perceber que a expressão de Periett não estava mais tão rígida.

- Você conseguiu, a espada te escolheu!

Gaia tocou o meu rosto de leve e suspirou de alívio. Periett permaneceu calado, apenas observando as ações da irmã.

- Agora, antes de qualquer coisa, precisamos dar início ao ritual, para que o verdadeiro poder de Heilig possa acordar.

Então o poder dela estava adormecido? E ainda assim conseguia senti-lo? Gaia segurou minha mão esquerda e com a unha fez um corte na palma, o que me fez pular de surpresa. Mas, com seu olhar sereno ela me fez me sentir mais calmo e confiante.

- Levante a lâmina em direção aos céus.

Fitei o rosto dela por um instante, mas então levantei a espada para os céus, a lâmina refletindo o brilho dos vagalumes.

- In pro Agnesia, Ernasis, Lisnar et Armenias. Ego praedicare coronam.

Ela molhou os dedos no meu sangue e lançou as gotas no ar, atingindo a espada, que de imediato começou a vibrar e brilhar num dourado tão intenso que me fez virar o rosto. O vento invadiu a clareira e começou a rodar pelo ambiente com força. As folhas subiam em direção ao céu e os vagalumes se aglomeraram numa bola gigante, para prevenirem-se de serem levados. Pela primeira vez vi Periett sorrir, mas logo seu rosto ficou sério novamente. O céu misteriosamente começou a clarear. Uma luz matinal invadiu a clareira, tornando o cenário ainda mais belo. O vento começou a cessar e os vagalumes se dispersaram, inundando o ar com diversos pontos luminosos. A espada esquentou em minha mão, mas não quis soltá-la. Eu podia sentir uma quantidade enorme de poder passar pelo meu braço e dominar meu corpo. Era como se eu estivesse sendo elevado aos céus. Fechei os olhos e aproveitei aquela sensação única. Minha jornada, então, tinha apenas começado.

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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.