Santuario & Profano : Ganchos
2 Réstia
Notas iniciais
A neve é cinza. As formas esqueléticas se destacam por entre o chão cor de chumbo. Homens, mulheres e crianças rastejam entre escombros e corpos putrefatos. Um nuvem ácida de metano e enxofre cobre estas criaturas que a muito deixaram de ser humanas.
Todas, sem exceções, estão cegas. Gravada em seus olhos, de forma bubônica e infértil, está sua última lembrança. Uma luz intensa, seguida de uma nuvem de vapor corrosivo e coberta por toneladas de radiação.
Aqueles que ainda têm consciência de sua natureza racional estão tão fracos e debilitados que mal podem se levantar de suas próprias fezes e fluídos. Agonizam sobre membros decepados e corpos entrelaçados.
Cada som é um lamento estático da dor que sentem. Gritos e gemidos se tornam uma canção que permeia o ar, tornando-se uma horrenda orquestra embalada pelo rufar da morte. Juntos, odor e melodia, formam uma ritmada cadência de sofrimento que corrobora para uma morte fria.
Por cima de tudo isso uma menina, entre seis e sete anos, anda tranquilamente. Traz segura em um de seus braços uma boneca de porcelana, com a face quebrada entre os olhos. Seus olhos são de um azul intenso, contrastando com seu vestido vermelho que desce até a altura dos joelhos. No seu braço direito uma estrela de seis pontas se mantém fiel.
Ela pisa sobre os corpos, rostos e restos, dos que ali estão, passando como se não se importasse com o destino inefável dos gemidos sob seus sapatinhos de couro. Ela não se importa em atravessar campos de homens sedentos e mulheres derretendo. Seus olhos podem até estar cheio de lágrimas, mas seu pesar não é por este sofrimento.
Ela se aproxima de um homem, que observa a tudo em silêncio. Ele está com um grande casaco de pele branco e uma barba com o mesmo cinza que cobre todos outros. Seu rosto não demonstra nenhuma emoção, mas seus olhos são ternos e singelos.
A garota de vestido vermelho para na frente do homem de branco. As lágrimas cessam e o azul de seu olhar se enche de cumplicidade. Ela puxa sua boneca para o peito e a segura com os dois braços.
— Kannst du mich nach hause nehmen? – Diz ela com uma voz tenra.
Brian sorri gentilmente.
Um silêncio paternal se segue por alguns segundos, até que, suavemente, um floco de neve pousa no pequeno nariz da garota. Seguido por outro que se encaixa perfeitamente em seus lábios. Ela abre um largo sorriso e vislumbra o céu cinzento se enchendo de pequenos pontos brancos.
— Você já está em casa, meninha – Diz Brian tocando de leve seus olhos, fechando-os carinhosamente. – Pode descansar agora.
Um pequeno sorriso se enche no rosto da garota, que se vira e corre em direção a uma figura esquelética desfigurada deitada em posição fetal no chão. Ela se aninha entra os braços nefastos desta criatura, que contribui com pequenos gestos.
— Vamos Sargento Brian – Diz Tagaki tocando de leve seu ombro. – O comboio está esperando somente o senhor. – Ela olha na direção em que Brian está virado, olha no rosto envelhecido de seu sargento e vê duas pequenas lágrimas escorrendo por suas bochechas. – O que foi?
— Nada – diz ele se levantando. — Está começando a chover.
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