Santuário Dos Condenados

15 Capítulo 15 - CRIMINAL MINDS


Notas iniciais
❤ Oi, Galera amada do bem! Após muitos séculos, eis-me aqui de volta!! Perdoem-me pela demora . ❤ Os reviews que ainda não respondi, peço desculpas e prometo fazê-lo logo!! ❤ O Poema que abre o capítulo é de Casimiro de Brito, in "Telegramas"

Crime, quem falou em crime?
Somos todos irmãos, todos a mesma
carne incendiada
Quando houver um crime,
o primeiro,
todos seremos criminosos
Crime, se o há, já nos corria nas veias
quando éramos obscuros como o ventre
que nos concebeu!

Kardia olhou em volta ao entrar na sala do diretor. A primeira coisa que notou foi a janela com vista para o mar. Por alguns segundos, lembrou-se de histórias contadas pelo avô sobre o mar Egeu.

Sentado, Minos percorreu o corpo de Kardia com o olhar, analisando-o, antes de falar.

— Sente-se. – disse, num tom seco.

Com um sorriso debochado, Kardia se atirou na pequena poltrona, não sem antes olhar para as algemas e, em seguida, para Minos.

— Isso é necessário? – questionou o grego balançando as algemas.

Foi a vez de o diretor sorrir com escárnio.

— Todos que são enviados para cá são perigosos, uma espécie em que não se pode confiar e você, claramente, não é uma exceção, portanto, todo o cuidado é pouco.

— Se acha isso, porque me chamou aqui?

— Porque apesar de você ser um criminoso, a sua fala despertou a minha curiosidade. Sempre busquei saber tudo o que acontece nesta prisão, mas ultimamente algumas coisas saíram do controle. Então, diga-me, o que acontece na ala B?

Kardia se levantou e bateu com as mãos na mesa onde Minos estava. O som seco e o olhar afiado do grego encontraram os olhos violáceos do diretor. Ao contrário do esperado, Minos não demonstrou medo e sustentou o olhar de Kardia.

— Será mesmo que você não sabe? Tenho as minhas dúvidas... Se a prisão que idealizou, segundo as suas palavras, deve funcionar diferente das outras, porque coloca gente escrota como Caronte para cuidar das alas? Sabia que existe um “dia D” onde ele e seus cúmplices estupram recém-chegados? Que ele negocia favores, drogas e vidas aqui dentro como se fosse a porra de um deus?

— Se ele faz tudo isso é porque existe receptividade das ações dele com as de vocês. Não venha dizer que são pobres vítimas, porque não há vítima e algoz nessa equação que vocês criaram aqui dentro. A iniquidade parece ser a moeda mais apreciada, mesmo que lhes ofereçam oportunidades de reabilitação. Caronte faz o papel de Serpente e vocês comem da maçã por livre escolha.

— Não precisava me trazer até aqui se essa é a sua opinião.

Minos franziu o cenho e levantou-se, saindo detrás da mesa.

— Sim, eu precisava. Não o trouxe para relatar o que já sei e sim para ter uma conversa franca com você. Sei da sua relação com o Dr. Dégel e da sua liderança na ala. Não compreendo como um homem como ele se uniu a alguém como você, mas isso não é da minha conta. No entanto, a segurança e a paz dentro desta prisão são fundamentais para que tudo transcorra da forma como eu planejei e você me ajudará a mantê-la. Caronte está fora do sistema e eu pretendo fazer uma limpeza aqui dentro.

Kardia elevou uma sobrancelha.

— Como espera que eu faça isso?

— Vou modificar algumas coisas e, entre elas, o funcionamento nas alas. Vou nomear um novo chefe de segurança e você será uma espécie de observador sob o meu comando.

— O quê? Nem pensar!

Um sorriso cruel desenhou-se nos lábios do diretor.

— Eu não estou oferecendo uma escolha, estou ordenando. O Dr. Dégel e os outros estão fazendo um trabalho muito importante e isso requer ordem e tranquilidade. Ou as coisas mudam ou vou tornar o lockdown permanente.

— Porque eu?

— Porque você tem muito a perder se a anarquia se instalar por aqui, não é mesmo?

Kardia retesou o corpo.

— Dégel foi chamado e eu sei que ele está fazendo algo para você. Quero saber o que é.

— Isso não é da sua conta. – falou Minos.

— Agora é. Ou me diz o que está acontecendo aqui ou estou pouco me lixando pro seu lockdown permanente.

Antes que Minos respondesse, um guarda entrou pedindo licença e olhando para Kardia.

— Desculpe interromper, senhor, mas tem dois helicópteros chegando e pedindo permissão para pousar e... Bem, o Caronte sumiu.

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Os olhos de Caronte estavam avermelhados e sua testa brilhava com gotículas de suor. A raiva contida no olhar dele se depositou nos três e foi Dégel quem quebrou o silêncio.

— O senhor não pode ficar aqui, é perigoso para a sua saúde. Estamos em regime de quarentena.

A resposta de Caronte não veio da boca e sim da ação rude de aproximar-se de Dégel e puxá-lo pelo colarinho do macacão de proteção, enquanto encostava a arma em seu pescoço.

— Escute aqui doutorzinho... Eu não tenho mais nada a perder!

— Não faça isso. – falou Dégel encarando o homem, sem demonstrar medo.

— E se eu fizer, hein? Se eu destruir tudo por aqui e foder com tudo, inclusive com este seu rabo que aquele grego maldito adora comer, hein?

— Se você quer morrer, eu não posso fazer nada além de avisá-lo. – respondeu Dégel.

A falta de medo e o olhar firme do médico fez Caronte ficar ainda mais irado.

— Eu não tenho medo da morte... E nem do seu amante! – disse o carcereiro num rosnado.

Albafica e Asmita estavam parados, a presença do carcereiro ali tornava o perigo da contaminação real e imediato.

— Fique olhando para ele, enquanto eu tento distraí-lo. – murmurou Albafica e, em seguida, deu-se conta do absurdo que dizia. Asmita era cego!Merda! Desculpe! – completou.

Asmita tocou no braço de Albafica e moveu-se com uma rapidez excepcional para um cego. Um som alto e agudo irrompeu o ar quando o médico acionou um botão trancando aquela sala.

— O que foi isso? – falou Caronte apertando ainda mais o colarinho de Dégel.

— Estamos trancados aqui. Ninguém entra e ninguém sai. Agora solte-o, por favor! – disse Albafica.

— Como assim? O que você fez, maldito?!

— Eu nos isolei de tudo. Como Dégel o preveniu, o que tem aqui é extremamente perigoso e mortal.

Ao ouvir aquilo, Caronte estremeceu. Ele sabia que algo sigiloso estava sendo feito, mas achava que o perigo real era dirigido somente aos presos que eram usados como cobaias.

— O-O que você fez?

— O que íamos fazer antes de você chegar.

Merda! Merda!— vociferou Caronte, suando ainda mais.

Atônito, ele empurrou Dégel de encontro a um balcão, derrubando tubos de ensaio e outros materiais. O médico ainda tentou firmar-se, porém o ato não obteve êxito frente à violência do empurrão.

— Dégel! – falou Albafica.

O jovem médico bateu com a cabeça na parede e, embora estivesse com um capacete de proteção, o forte impacto o fez morder o lábio e verter um grosso filete de sangue. Atordoado, ele foi ajudado por Asmita, enquanto Albafica ficava atento às atitudes de Caronte.

Como um animal acuado, o carcereiro começou a andar de forma nervosa com a arma na mão. Isso não pode acabar assim. Dizia para si mesmo, enquanto pensava em uma saída. De repente, sons roucos misturados aos gemidos e som dos equipamentos chamou a atenção de Caronte. Ele se aproximou do vidro que separava a sala da enfermaria. Quando ele viu as faces descarnadas e putrefatas, seus olhos se arregalaram de um jeito que pareciam querer saltar do seu rosto.

— M-Mas que porra é essa? O que está acontecendo aqui? – gritou ele.

— A visita da Morte. – respondeu Asmita.

Horrorizado, Caronte olhou para o cego e depois para Albafica e Dégel.

— O-O que v-vocês fizeram? Que loucura é essa?

— Nós, não. A prisão que você tenta controlar tem mais segredos que a sua mente obtusa é capaz de perceber. As experiências feitas com os presos levaram a isso e você sabia! Essa divisão em alas... Você impõe a força e o terror na ala B, você sabia que os presos serviam a esse propósito. Pois, agora, a situação saiu do controle! – a voz sempre calma de Dégel adquiriu um tom sombrio e acusatório.

Caronte olhou para as câmeras instaladas no alto. Sua respiração estava alterada e seus batimentos cardíacos, acelerados. Eu não vou morrer aqui! Pensou, em desespero e, mais uma vez, ele se aproximou de Dégel.

— Venha aqui! Fique na mira das câmeras! – ordenou ele.

Dégel permaneceu onde estava.

— Se pretende chamar a atenção, não vai adiantar. Minos não permitirá a saída de nenhum de nós. – falou o médico.

— Ele, talvez não. Mas, garanto que outra pessoa vai saber e não vai deixá-lo aqui, doutor... – falou Caronte, enquanto pegava o seu rádio comunicador e puxava Dégel para debaixo das câmeras.

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Os dois helicópteros chegaram quase juntos ao heliporto de Hornos. Como de costume, guardas, fortemente armados, cercavam o local e ficavam em prontidão até a permissão para o desembarque ser dada.

Camus e Aiolia se olharam ao perceber que o outro helicóptero trazia o juiz Radamanthys e um jovem que devia ser seu auxiliar. Quando os quatro estavam em terra, Aiolia falou, exibindo um sorriso:

— Parece que nos encontramos, novamente.

Radamanthys manteve a altivez, ignorando o sorriso simpático de Aiolia e se detendo em Camus que nada disse.

— Como devem saber, Minos e eu fomos criados juntos. Assim que os senhores saíram, recebi uma ligação e aqui estou.

— Humm... Saudades do irmão. Eu compreendo bem isso. Também tive um irmão mais velho. – disse Aiolia e só então, o olhar intenso do juiz recaiu sobre si.

— Eu e Minos não somos irmãos de sangue. – rebateu Radamanthys.

— Mas, vocês foram criados juntos, portanto laços foram construídos, não é mesmo? – insistiu Aiolia.

Radamanthys desistiu de rebater e fez um movimento assertivo com a cabeça. Discreto, Valentine analisou Aiolia e quase sorriu. Camus percebeu, mas continuou impassível e silencioso. Preferia observar e anotar, mentalmente, as suas percepções, enquanto Aiolia continuava puxando assunto, agora com o assistente de Radamanthys que pareceu um tanto incomodado, mas continuou andando em silêncio.

— Senhores, o diretor Minos pediu para levá-los até a sala de espera. Ele está resolvendo algumas coisas e assim que se desocupar, ele irá recebê-los. Por favor, me acompanhem. – falou um guarda.

Camus franziu o cenho e olhou, discretamente para Radamanthys. O juiz estava tenso, apesar de aparentar serenidade. Aiolia sorriu para Valentine que retribuiu e continuaram a conversa, enquanto acompanhavam o guarda.

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Minos ouviu a voz de Caronte, através do intercomunicador. Aquele recurso só era acionado em estrita necessidade.

— Sei que está me ouvindo! Eu estou aqui na sua sala de brinquedo e não estou sozinho. Se quiser ter os seus soldadinhos de volta, vai fazer o que eu disser. Se não acredita em mim, vá até a sala de vigilância e veja com seus próprios olhos. Você tem vinte minutos para mandar preparar um helicóptero com suprimentos, água e dinheiro vivo. Nada de depósitos em banco, eu quero o que me deve, mais o bônus que prometeu e mais um adicional por danos morais! Se tentar qualquer gracinha eu mato todo mundo está entendendo? Vinte minutos!

Kardia olhou para Minos.

— Onde ele está? – perguntou o grego.

— Na ala de experimentações. – respondeu Minos.

— Por acaso, é lá que Dégel está? – continuou Kardia.

— Sim, ele e os outros.

— Em que merda você o envolveu? – falou Kardia com raiva.

— Dégel e os outros estão tentando conter a contaminação com um vírus perigoso.

Os olhos azuis do grego se fixaram nos de Minos. Havia um brilho assassino mesclado a uma preocupação genuína.

— Se Caronte encostar um dedo em Dégel, eu mato ele e depois mato você!

— Não ouse me ameaçar seu...

Minos não terminou a frase, seus olhos viram Kardia livrar-se das algemas como naqueles números de mágica e jogá-las no chão. Porém, antes que esboçasse qualquer reação, o grego se encaminhou para a porta.

— Eu vou até Caronte e ninguém vai me impedir.

— Não seja tolo, o homem está louco. Vou mandar a guarda e...

— E merda nenhuma! Se você mandar os guardas ele vai querer mostrar que está no comando. Me deixe ir, eu conheço o tipo. Eu negocio com ele.

— Está bem, tente tirá-lo de lá e traga-o até mim. Use isso, a porta estará trancada pela situação de emergência, mas o código deste cartão a destravará. – disse Minos entregando um cartão de acesso ao grego.

Kardia abriu a porta.

— E Kardia?

— O quê?

— De preferência, traga Caronte vivo.

Sem se virar, Kardia deu um meio sorriso.

— Acho que temos preferências bem diferentes...

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Apenas algumas horas e então todos iriam embora. Então, o silêncio total cairia como um xale sobre o local e ele poderia analisar, novamente, os objetos coletados do apartamento do juiz. Como num ritual, Mu aproveitaria o silêncio do ambiente para colocar os fones e ouvir Prelúdio e Fuga em mi maior de Bach, enquanto olhava para cada um dos objetos e construía uma história. A bíblia, um retrato familiar e duas flores secas.

Mu havia pesquisado sobre a vida do juiz, ele fora casado, era severo e implacável em seus julgamentos, tivera dois filhos, um deles morrera na infância e o outro fora, muito cedo para um colégio interno. Os promotores o endeusavam e, dificilmente, ele absolvia um réu. Suas sentenças haviam tirado vários gângsters, assassinos e psicopatas das ruas.

Uma mulher se passando por amante estivera no local do crime, mas, ainda assim, tudo parecia limpo, levando à conclusão óbvia que o juiz Dawson havia se suicidado. E era aquela obviedade que o instigava. Não acreditava em suicídio sem cartas ou bilhetes explicando o ato. Um homem como aquele juiz, cujas ações eram sempre premeditadas, não faria algo impulsivo, sem planejamento.

Seus olhos pousaram, novamente sobre os objetos e, desta vez, o retrato chamou-lhe a atenção. Era o juiz com sua esposa e seus dois filhos. Ele mantinha uma expressão severa, enquanto a esposa sorria, timidamente, e os dois meninos pareciam cúmplices e unidos.

Uma pesquisa mais apurada revelara que a esposa e o filho caçula haviam morrido. Só sobrara o filho mais velho e este se encontrava desaparecido. Ninguém sabia onde encontrá-lo e não havia testemunhas que ele tivesse comparecido ao enterro do pai. Triste, isso! Pensou Mu olhando a foto com seus respectivos nomes: Bartolomeu Dawson, Sylphid Porthland Dawson, Biakku Dawson e Barentain Dawson.

Barentain Dawson... O filho que desaparecera sem deixar rastros e que tinha um nome bastante estranho, parecendo destoar daquela família.

A vibração do celular em seu bolso fez Mu interromper seus devaneios. Ele o pegou e leu a mensagem deixada por um colega que trabalhava como Técnico de vestígios. “Analisei o fio de cabelo que você encontrou junto às flores secas. Pertence a um homem chamado Barentain Dawson.”

— Como? Mu ouviu-se perguntar em voz alta. Como o filho desaparecido do juiz havia estado na cena do crime?

Rapidamente, Mu ligou para o celular de Camus, mas não obteve resposta. Então tomou a decisão de voltar ao apartamento do juiz. Aquela história estava tomando um rumo misterioso...

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Minos respirou fundo e se serviu de uma dose de uísque puro. Radamanthys viera e, também agentes do FBI. Entre os agentes, o irmão de Dégel. Merda! Parecia que o Universo resolvera brincar com ele! Em uma hora lhe dava o poder de mudar as coisas ao seu favor e em outra, lhe puxava o tapete!

Afrouxando a gravata, Minos bebeu o uísque num só gole. A imagem de Albafica lhe veio à mente e ele suspirou. Pela primeira vez, temia perder tudo o que construíra, porém não era momento para vacilações. Que o maldito grego resolvesse a questão sem que precisasse interferir, novamente! Inspirou, mais uma vez e foi ao encontro dos visitantes.

— Senhores, a que devo a honra da visita?

Camus, que até então estava no mais absoluto silêncio, se adiantou.

— Eu gostaria de ver meu irmão. Aqui está o pedido judicial que autoriza a minha visita.

O olhar de Minos encontrou o de Camus, de forma que ambos pareceram se estudar, por breves segundos.

— Sinto decepcioná-lo, agente Camus. Dégel está trabalhando em uma área de pesquisa e só estará disponível, após um período determinado.

— Pesquisa? Que tipo de pesquisa?

— Hornos tem recebido material genético para pesquisas sobre vírus e doenças. Aqui nós temos grandes cientistas médicos que, por alguma fatalidade, transgrediram, mas que nem por isso desistiram de trabalhar para o bem da humanidade.

— É um procedimento louvável, Minos. Eu estava curioso com a sua ligação, mas compreendo agora que solicitou a minha presença para testemunhar e registrar seu programa de reabilitação.

Minos olhou para Radamanthys e sorriu. Então, mais uma vez, seu “irmão” tentava resgatá-lo de situações embaraçosas.

— Exatamente, pensei que gostaria de saber que ao enviar criminosos para cá, está contribuindo para este programa.

— Fiquei curioso, agora. – disse Camus. – Disse que há um programa para os cientistas e que envolve pesquisas sobre vírus e doenças. Isso requer um bom estoque de cobaias, não é mesmo?

— Existem programas que prescindem de cobaias vivas, agente Camus. – respondeu Minos.

— Então, porque meu irmão está confinado durante um período determinado?

— Porque há perigo de contaminação com as amostras, só isso. Mas, se está assim tão ansioso, posso mandar chamar o doutor Dégel, mesmo que isso atrase o trabalho que ele e os doutores Asmita e Albafica tiveram tanto empenho em desenvolver.

— Não creio que o agente Camus deseje interromper um trabalho como este. – sentenciou Radamanthys.

Camus encarou o juiz com uma expressão isenta de qualquer emoção.

— Dégel está sentenciado a vinte e oito anos sem direito à condicional. Ele terá muito tempo para dar continuidade a esta... pesquisa. Eu desejo vê-lo. Agora.

O ambiente ficou carregado de tensão. Minos respirou fundo, tentando não demonstrar sua irritação com aquele homem. Inferno!

— Bem, vou mandar chamar seu irmão, mas adianto que vai demorar. As coisas nem sempre podem ser na rapidez que o FBI exige. Existem procedimentos padrão para a segurança de todos.

— Eu espero. Aliás, posso aproveitar para conhecer mais deste projeto. Aiolia e eu também trouxemos um documento que nos autoriza a fazer uma visita completa. Que tal começarmos pela ala B? – questionou Camus

A expressão de Minos e Radamanthys se manteve neutra, embora internamente, ambos estivessem perturbados por aquela novidade. Aiolia sorria e Valentine mantinha um semblante que podia ser classificado como blasé.

Um sorriso forçado surgiu nos lábios do diretor.

— Um guarda vai conduzi-los até a sala de espera. Mandarei que lhes sirvam algo, enquanto tomo as providências necessárias.

— Eu gostaria de ir ao banheiro. – falou Valentine.

— É aquela porta à esquerda. – disse Minos.

O jovem advogado moveu-se com uma graça sinuosa, atraindo o olhar de Aiolia e também de Radamanthys. O juiz não pareceu satisfeito com o escrutínio do agente, mas manteve o controle.

Assim que entrou na peça pequena e branca, Valentine pegou o celular e ligou. No mesmo instante, o celular de Minos vibrou e ele o retirou do bolso do paletó, reconhecendo o mesmo número desconhecido da outra vez.

— Sim? – perguntou o diretor.

— Não demonstre surpresa, aja como se essa ligação fosse corriqueira e me escute.

Minos pediu licença e virou-se de costas, andando um pouco no amplo corredor.

— Se não se identificar, vou desligar. – murmurou ele quando se viu afastado dos demais.

— Digamos que sou um amigo.

— Não tenho tempo, nem paciência para joguinhos, amigo!

— É sobre Hades.

A citação do nome de seu pai fez Minos estancar.

— Fale.

— Diga em que parte desta prisão podemos nos encontrar em particular.

— Como assim? Você está...?

— Não esperava ter uma oportunidade tão fantástica de nos conhecermos, pessoalmente, assim, tão rápido. Mas, sim, eu estou aqui.

Imediatamente a mente de Minos fez as associações. Havia um tom educado e sofisticado naquela voz, exatamente como o acompanhante de Radamanthys.

— Você é o acompanhante de meu irmão!

Uma risadinha abafada e curta se fez ouvir.

— Sim, parabéns, você decifrou o enigma.

Minos levou a mão aos cabelos, tentando absorver aquela informação.

— E como faremos isso? Você está com Radamanthys e ainda tem aqueles agentes.

— O senhor me parece alguém bastante inteligente para pensar em algo. A informação que tenho é de vital importância.

Irritado e nervoso, Minos andou pela sala com o celular colado ao ouvido. Pensou, analisou e achou sua resposta.

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Mu fotografara os objetos na cena do crime e as colocara no computador, junto das fotos que acessara do juiz Dawson e de sua família. Os olhos do homem tinham uma expressão decidida, como se a vida que se fora, ainda mantivesse sua energia naquelas fotos. Os filhos, ainda pequenos, eram bem diferentes, entre si. Um deles, o que morrera cedo, se parecia com o juiz, mas o que havia desaparecido, não.

Investigando mais a fundo, Mu descobrira que o único filho que restara ao juiz fora enviado para um colégio interno, assim que a mãe adoecera com uma depressão profunda e de lá, só saíra aos dezessete anos para cursar a universidade Stanford, uma das melhores do país e especializada em Direito.

Após algumas ligações, contatos dentro e fora da polícia e muita paciência, Mu descobriu que o dono desaparecido do DNA na cena do crime passara por muitos lugares, mas agora residia em Nova York. Olhando para a foto dele quando criança e usando um software de progressão de idade, Mu chegou a um retrato possível do filho do juiz. E, ao lançá-lo em um programa de busca de identidade, chegou a uma imagem e um nome: Valentine Harpy.

Imediatamente, Mu ligou, novamente, para Camus, mas quem atendeu não lhe pareceu o agente. A voz era mais calorosa e o tom, mais grave.

— Sim?

— Agente Camus?

— Não, é o Aiolia. Camus já havia entregado o celular dele e quando eu ia fazer o mesmo, ele tocou. Quem fala?

— Olá, agente Aiolia. Sou eu, Mu, perito criminal.

Aiolia não acreditou no que estava acontecendo e, mesmo que agora, Camus o olhasse com o cenho franzido por ele ter atendido um celular que não lhe pertencia, o leonino achou que os deuses da Grécia antiga estavam ao seu favor.

— Ah, Mu! Que surpresa agradável, o que você precisa?

— Bem, eu estive investigando sobre o juiz Dawson e descobri que...

De repente, o celular emudeceu.

— Alô? Mu?

— Alô? Agente Aiolia?

Camus continuou olhando para seu parceiro. Aiolia passara do sorriso ao vermelhão característico de quando ficava irritado.

— Mas que merda! A ligação caiu!- vociferou Aiolia ignorando o guarda que continuava com uma caixa a sua frente.

— Senhor, por favor, coloque este celular e o seu aqui. – disse o guarda.

Aiolia obedeceu, emburrado. Em seguida, Minos sinalizou para que os três os acompanhassem para a visita na prisão.

Radamanthys olhou para trás e para o lado.

— Onde está Valentine?- perguntou ele.

— Ah, esqueci. Após sair do banheiro, ele me pediu para dizer que não se preocupasse. Ele foi acometido por uma forte dor de cabeça, então eu falei que ele poderia descansar em meu pequeno quarto, contíguo ao escritório. Assim que ele melhorar, um dos guardas o guiará para juntar-se a nós.

Radamanthys inspirou. Talvez não devesse tê-lo trazido.

Minos indicou o caminho e, de repente, deu um passo para trás.

— Oh, perdão, senhores, mas esqueci que devo dar um telefonema importante, ainda hoje. Radamanthys, poderia fazer as honras? Você conhece tudo por aqui. Eu volto rápido e, talvez, quando eu retornar, Valentine já pode juntar-se ao grupo.

— Claro. – respondeu o juiz.

Mantendo uma fisionomia indiferente, Minos voltou para o escritório, enquanto Radamanthys guiava o grupo.

No caminho para a sua sala, Minos mudou a expressão. A princípio, pensara que aquele telefonema era mais um estratagema de Hades para desestabilizá-lo, mas agora sua curiosidade estava aguçada. O que aquele jovem sabia de tão importante ao ponto de arriscar sua relação com Radamanthys? Embora o irmão não tivesse dito nada a respeito, era óbvio que os dois tinham um caso.

Ao chegar ao escritório, Valentine esperava apoiado na escrivaninha como se fosse sentar-se nela.

— E então, o que tem de tão importante a me dizer?

— É melhor se sentar. – falou Valentine com certa arrogância.

Minos ignorou o tom e o olhar de Valentine.

— Fale logo o que acha ser importante. Temos que nos reunir com os outros, logo, a menos que não se importe que Radamanthys saiba desta nossa conversa.

A expressão de Valentine mudou e Minos jurou tê-lo visto empalidecer.

— Ele jamais me perdoaria...

Minos elevou uma sobrancelha e esperou. Valentine inspirou fundo e fechou os olhos. Em seguida, os abriu e havia um estranho brilho nas íris douradas. Por alguns segundos, pareceu que ele desistiria, então a hesitação desapareceu.

— Radamanthys o protege e também a Hades, porque ele é seu irmão de sangue. Hades fingiu adotá-lo, quando na verdade matou a mãe dele e o pegou, ainda pequeno, e o levou consigo.

— O que está dizendo?

— Estou dizendo que Radamanthys é seu irmão e fará tudo por você, exceto contrariar o pai.

— Como posso saber se não está inventando tudo isso?

— Eu tenho provas incontestáveis. Você as receberá dentro de duas semanas.

— E porque está me contando isso?

— Porque eu amo seu irmão e... ele precisará de você e você dele quando Hades cair.

— O que está dizendo? Quem é você?

— Eu? Eu não sou ninguém. Apenas, quero que Radamanthys não seja uma figura solitária que jamais poderá chamá-lo de irmão.

Minos sentiu um nó no estômago. Aquela revelação só acrescentava mais desprezo por Hades. Era típico de aquele homem usar as pessoas, não importando o quanto isso as ferisse. Agora entendia a devoção de Radamanthys e o cuidado que ele sempre tivera consigo.

— Vamos até meu... Quer dizer, vamos até os outros. – falou Minos.

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Hades olhava pela ampla janela envidraçada. Podia-se ver boa parte da cidade dali, pois seu escritório se encontrava no vigésimo nono andar. A secretária, trajando um elegante terninho cinza escuro, bateu e entrou de forma suave. Os cabelos loiros estavam presos em um coque baixo e os olhos verdes- esmeralda escondidos atrás de grossas lentes de um óculos comum.

— Senhor, a videoconferência iniciará em dez minutos.

— Obrigado. – respondeu Hades, sem ao menos voltar-se para a secretária.

Assim que ela deixou a sala, ele tornou a observar a vista, assim como os pontos minúsculos que se moviam abaixo dele. A cidade parecia uma grande colmeia com seus carros, pessoas e movimento incessante. Há alguns quilômetros dali jazia a Cozinha do Inferno o reduto que, agora, estava sob o seu comando, já que Kardia havia sido enviado para Hornos. Tudo o que planejara estava dando certo, os obstáculos ao seu domínio haviam sido removidos, tanto no submundo do crime, quanto nos negócios lícitos que contavam com o apoio militar do governo. Sentia-se como um deus tendo o mundo sob o seu comando e jamais imaginaria que a segurança que pensava existir estava prestes a ruir como um castelo construído sobre a areia...

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Caronte começava a se sentir perturbado com o barulho intermitente que penetrava seus ouvidos, deixando-o irritado.

Bip... bip...bip.

O som incômodo não permitia que ele pensasse com clareza. Embora devesse ficar em estado de alerta, aquele som estava agindo, exatamente ao contrário, desconcentrando-o.

Bip....bip....bip.

— Que diabos está havendo? Porque isso não para de apitar? – resmungou olhando para Dégel.

— Os pacientes estão morrendo. É isso que os aparelhos sinalizam.

Como se estivesse com o raciocínio lento de um recém- desperto, Caronte apertou os olhos para enxergar a luz que piscava, pois o maldito som, no mesmo ritmo da luz ascendendo e apagando, o estava enlouquecendo.

— Se estão morrendo, pra que tanto estardalhaço? Desliguem isso! Já basta vê-los como... como zumbis de filme! – Repetiu coçando a cabeça.

Albafica olhou através do vidro, detendo-se nos leitos brancos e nos corpos que começavam manifestar os estertores da morte. Caronte acompanhou-lhe o olhar e um suor repentino insinuou-se na testa franzida.

— Por Deus! Desliguem essa coisa!

Asmita suspirou e Dégel sentiu-se aliviado sem o capacete, mas, evitou passar os dedos nos lábios machucados. O sangue já havia secado e ele pensava em um jeito de conversar com o ex- carcereiro, para isso, precisava olhá-lo nos olhos e tentar chamá-lo à razão, embora aquele homem lhe parecesse mais insano do que nunca.

— Não podemos desligar, os bips nos dão a certeza de...

Sem conseguir terminar sua fala, Dégel presenciou Caronte agir com uma agilidade desesperada. O carcereiro arrancou o cartão de acesso do médico e o encostou na porta, fazendo-a abrir-se de imediato.

Dégel gritou e Albafica também.

—Não! Não faça isso!

Entretanto, Caronte os ignorou, ameaçou Dégel e os outros com a arma e, em seguida começou a atirar nos aparelhos e nas camas. Apontava para o peito dos moribundos e nos que já estavam mortos, gritando, enquanto o fazia.

No mesmo instante, Kardia chegou ao local e ouviu os tiros. Só houve tempo para assistir a cena de Dégel se atirando sobre Caronte e os dois adentrarem a sala semidestruída.

— Dégel! – gritou o grego com os olhos arregalados ao ver antigos companheiros de cela que haviam sido dados como mortos, se levantando das camas parecendo personagens de filme de terror.

Caronte livrou-se de Dégel com um empurrão e ouviu o grito de Kardia, mas estava atônito com aquela cena. Ele havia atirado no coração! Não era possível que eles estivessem vivos! Aquilo não podia ser real, devia estar enlouquecendo!

O grego agiu com rapidez puxando Dégel pelo braço e, ao aproximar-se de Caronte, ergueu o cotovelo direito e o arremessou com toda força no rosto do carcereiro, quebrando-lhe o nariz. O carcereiro rosnou afrouxando a mão, enquanto se desequilibrava. Então, Kardia tomou-lhe a arma e atirou na cabeça dos doentes, estilhaçando ossos e cérebros. Quando Caronte recuperou o equilíbrio do corpo, Kardia apontou a arma para ele, os olhos exibindo a frieza assassina de quem estava acostumado a matar.

— Um movimento e vai dançar o thriller com o pessoal ali no chão.

Dégel não estava acreditando que Kardia estava fazendo piada com a situação grave em que se encontravam.

— Vocês ficaram expostos ao vírus. Entraram na sala sem proteção. Deixe-me fechar e saiam, vou colocá-los na sala de desinfecção e tentar minimizar a chance de contaminação. – disse Dégel com uma expressão preocupada.

O grego olhou para o rosto de Dégel, percebendo o lábio cortado. Ele franziu o cenho, tornando a encarar Caronte que estava encostado à parede e arfava.

— Foi você quem fez isso? – perguntou entre dentes.

Com o nariz sangrando, Caronte esboçou um sorriso debochado.

— Sim, por quê? Vai querer se vingar por causa da putinha uniformizada? Eu posso ter feito muita coisa errada na vida, mas esse seu amante e os outros dois mexeram com coisas que não se deve mexer! Acho que vamos todos nos encontrar no inferno...

— Pode até ser, mas você vai primeiro. – disse Kardia e atirou.

Notas finais
❤Agradecimentos carinhosos a todas que persistem junto comigo e que deixam seu carinho como podem, seja comentando ou silenciando!!! ❤ Bjs e até a próxima! XD