Santuário Dos Condenados
14 Capítulo 14 – EU SOU O DIRETOR
Notas iniciais

“Não tenho coração de pedra, nem de ouro...
Não me obrigo a ser gentil pelas aparências nem dócil pelas exigências.
Sou aquele que toma as rédeas do destino, manipulo as dores, sonho e me perco.
E quando teu legado me sufoca, esse amor louco me alimenta...”
— Então, em que posso ser útil aos senhores? – perguntou Radamanthys.
Camus fez uma análise do juiz em poucos segundos. Aparentemente, Radamanthys parecia à vontade, mas havia nele uma inquietação velada, escondida sob uma sofisticação discreta e um olhar afiado.
— Bem, Meritíssimo, estamos aqui para fazer algumas perguntas. Nós estamos averiguando uma prisão experimental de segurança máxima e verificamos que o senhor é o juiz que mais sentencia presos para este lugar.
— E qual o problema?
— Nenhum, em absoluto. – disse Camus fitando o juiz nos olhos. – Nós gostaríamos de ouvir do senhor se acredita que esta prisão é especial como dizem e pode, realmente, recuperar criminosos de alta periculosidade.
Radamanthys sorriu, discretamente.
— Vou ser sincero com o senhor, eu os mando para Hornos, porque é bem distante das pessoas de bem. Eu apenas julgo e asseguro que, todo aquele que não cumprir a lei e for um perigo para a sociedade, seja punido.
— Achei que havia outro motivo, afinal existem outras prisões de segurança máxima com sistema mais tradicional de correção. Se não visa à recuperação, bem, qualquer outra serviria, não é mesmo?
— A palavra recuperação nem sempre pode ser aplicada a estes homens, agente Camus. Portanto, acredito que isolá-los o mais longe da sociedade é um bem maior. Uma fuga de Hornos é mais improvável que de qualquer outra prisão de segurança.
Esse juiz é estranho! Pensou Aiolia que observava os dois conversando, em silêncio. Em seguida, correu os olhos pela sala ampla, gesso no teto e janelas estreitas e compridas que favoreciam a entrada de luz natural, imprimindo um clima mais íntimo ao ambiente. Uma estante gigantesca repleta de livros fazia o contraponto com as paredes brancas cobertas de fotos e diplomas, os móveis escuros e maciços e com o piso de mármore escuro. Realmente, esse cara sabe como viver...
— Entendo. Bem, uma última pergunta. O senhor conhecia o juiz Bartolomeu Dawson? – falou Camus.
— Sim, eu o conhecia. Soube da tragédia.
— Acredita que ele se suicidou? – perguntou Aiolia tendo sua primeira participação na conversa.
Radamanthys franziu o cenho.
— Existe alguma suspeita sobre o fato?
— Diga-nos o senhor, já que o conhecia. Acredita que ele tinha motivos para tirar a própria vida? – devolveu Camus.
— Eu o conhecia como profissional, não intimamente. Como profissional, afirmo que ele era parecido comigo e, acima de tudo, fazia cumprir a lei. Quanto ao resto, não tinha maiores informações. Algo mais em que eu possa ajudar?
— Acho que não. Obrigada por nos receber. – disse Camus se levantando da poltrona.
Aiolia o seguiu e, assim que a porta se fechou, Radamanthys levou a mão aos cabelos, os olhos parecidos com cristais dourados sob os cílios escuros fixaram-se na porta lateral, por onde Valentine tinha saído. Seu rosto se manteve frio, completamente inexpressivo, embora ao pegar o celular houvesse um traço de preocupação em seus olhos.
— Minos, vamos conversar, agora. – disse ele ao ser atendido.
— Agora quem não pode conversar, sou eu. Adeus, Radamanthys.
A resposta curta e rápida pegou o juiz desprevenido. Seu irmão parecera angustiado, horas antes e agora o dispensava assim. Algo estava acontecendo, nada era por acaso. Aqueles agentes, a morte do juiz e agora Minos.
Valentine entrou com várias pastas, notando que Radamanthys parecia irritado. Conseguia lê-lo com tanta clareza, desde o modo como ele mantinha os lábios unidos numa linha fina e apertada e a forma com que suas narinas se abriam quando ele inspirava o ar. Ele era tão contido, quanto apaixonado, um homem de violentos contrastes, o homem que amava, mas que não sabia amar ninguém.
— Venha cá. – disse o juiz fazendo Valentine estremecer, surpreso.
— O que houve? – perguntou o jovem.
Os olhos dourados cravaram-se nos seus e Valentine cedeu ao fascínio, como sempre o fazia. Quando se deu por si, os lábios do juiz estavam famintos sobre os seus. O beijo foi quente, demorado e profundo. Quando terminou, Radamanthys olhou-o com uma luxúria indisfarçável...
— Faça uma mala pequena e me encontre daqui a duas horas.
Ofegante, Valentine elevou uma sobrancelha, enquanto tentava compreender a ordem.
— Nós vamos viajar?
— Sim, nós vamos.
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Sob o olhar preocupado de Albafica, Minos desligou o celular, guardando-o no bolso. Pensou, por alguns segundos, e depois voltou a fitar aquele que amava.
— Volte para o subsolo e faça o que tem que fazer. Não se preocupe com o que acabou de ouvir, eu cuido disso. – falou Minos com segurança.
Albafica ainda hesitou por um momento, mas depois tomou o rumo que o levava ao subsolo. A Ala B ficava distante do centro de pesquisas, pelo menos não precisava se preocupar que houvesse comunicação entre ambos.
Demonstrando uma visível irritação, Minos acompanhou o guarda a passos largos. A prisão que idealizara não comportava um motim. Algo estava errado, muito errado. Com a questão do vírus, tinha deixado as coisas em mãos incompetentes. Caronte seria responsabilizado. Pensou ele.
No entanto, ele também tinha de fazer um mea culpa, mas, deixaria isso para depois. Tinha a seu favor o fato de ter se assegurado de possuir alternativas, caso algo deste nível acontecesse. Não admitiria baderna e morte no sistema que tinha planejado com tanto cuidado e visão.
Quando chegou a determinado ponto, ao longo do corredor, Minos parou em frente a uma porta metálica de cor cinza. Não havia nenhuma indicação do que havia atrás daquela porta, apenas um leitor digital palmar.
— Volte para o local do motim e diga à Caronte para ficar atento e não entrar em confronto. – disse ele ao guarda.
O guarda mostrou-se surpreso.
— Nós não vamos agir? Mas...
— Está perdendo tempo aqui. Volte e faça o que eu mandei.
Minos não estava aberto a dar maiores explicações, ignorou a expressão atônita do guarda e agora colocava a palma da mão no leitor digital que havia projetado. A luz infravermelha que reagia com a hemoglobina do sangue, mapeando a posição das veias da sua mão lhe deu acesso à sala. Somente ele podia entrar ali. Aquela sala era um recurso de emergência que só seria usado em ocasiões limítrofes como o tal motim.
Uma tela de computador exibindo a planta total da prisão e os dutos especiais, capazes de conduzir gás para todas as celas estava em destaque. Aquela era uma inovação que ele mesmo planejara e pesquisara para colocar em prática na prisão. Não o agradava perder o controle e ter intervenções armadas, mortes brutais e sangue inundando os pavilhões. O Santuário era o seu projeto mais ousado e não permitiria que ele fracassasse ou se tornasse, apenas, mais uma reles prisão de segurança.
Olhou o painel, verificando os alarmes e comandos de válvulas, as informações operacionais como pressão, temperatura e vazão. A tela, instalada no console operacional e um painel de projeção permitia a visão completa do que faria a seguir. Seguro da ação a ser executada, ele digitou as coordenadas básicas e apertou o botão.
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Na ala B a cena que se seguia era tão surreal, quanto insana. Aiacos, seus homens e alguns skinheads estavam libertos das celas e armados com chuços, soqueiras e outras armas nem tão improvisadas que Caronte havia fornecido. Alguns deles haviam tentado queimar alguns colchões, sem sucesso, e agora a ala estava tomada por pequenos focos de fumaça escura.
Kardia e seus amigos ainda estavam confinados e Caronte sorria, enquanto acionava a trava que abriria as celas.
— Então, grego... Vamos ver como se sai dessa. – disse ele, enquanto as portas iam se abrindo.
Após seu ato, Caronte acionou os colegas que não sabiam do seu plano, fazendo parecer que iria interferir no que estava prestes a acontecer.
Com o cenho franzido, Kardia buscou o chuço que tinha feito e o fechou na mão. Os outros fizeram o mesmo e alguns constataram que, na revista por drogas, os guardas haviam confiscado alguns. Máscara da Morte ficou sem, então colocou uma soqueira na mão esquerda, enquanto Afrodite pegou afiadíssimas lixas de unha que podiam cortar com precisão. Aldebaran enrolou as pontas de uma camiseta em cada mão e esticou-a, a fim de criar uma proteção para si e para Misty.
Milo franziu o cenho, não esperando aquela ousadia de Caronte. No entanto, compreendeu melhor a forma de ação dos detentos ali, principalmente de Kardia. A corrupção por parte daqueles que deviam defender a lei originava uma bola de neve nefasta que acabava destruindo e levando adiante as más ações.
— Eles vão nos trucidar! – falou Jabu.
— Fique calmo e atento. – disse Milo.
Tendo que tomar uma atitude e ainda assim conservar o disfarce, Milo pensou em um jeito de enviar uma mensagem para Camus. A situação na prisão estava ficando limítrofe e ele não desejava nenhuma tragédia anunciada.
A única forma de chamar a atenção de Camus agora é conseguir tirar esse localizador do meu braço. Refletiu o grego. No entanto, a ação teria que ser rápida ou poderia ser perseguida por alguém.
Na movimentação dos corredores, Caronte viu que um dos guardas havia saído e, quando o mesmo voltou, foi ao encontro dele.
— Aonde você foi?
— Fui avisar o diretor!
— Você fez o quê?!
— Ora, esse é o procedimento padrão, não é?
— Imbecil! Por que não falou comigo antes?
O guarda arregalou os olhos, enquanto Caronte pensava em uma alternativa. Aquilo não estava em seus planos! O que Minos faria?
Nem bem os presos partiram para cima uns dos outros, uma voz com timbre metálico se fez ouvir:
Atenção! Guardas retrocedam até o sinal luminoso projetado sobre a faixa amarela na entrada da Ala B, imediatamente! Em seguida, após a ordem, uma luz vermelha iluminou a faixa no chão e uma barreira sólida começou a descer rápido, isolando a ala.
— Mas o que é isso? – murmurou Caronte, surpreso.
Os guardas retrocederam meio confusos, enquanto Kardia estava indo na direção de Aiacos. Entretanto, um skinhead da facção de Spinne colocou-se entre os dois. Ele usava a corrente de um crucifixo enrolado na mão esquerda e tinha uma cicatriz que ia da orelha até o maxilar.
— Me deixa acabar com ele! – falou o skinhead.
Aiacos franziu o cenho e enfiou o chuço entre as costelas do homem.
— Não se meta onde não é chamado! – disse ele, enquanto puxava de volta a arma, agora ensanguentada e empurrava o skinhead para o lado com violência.
Produzindo um baque surdo, o homem caiu e Aiacos encarou Kardia. O grego sorriu com um brilho insano no olhar. Seu inimigo queria matá-lo da mesma forma que ele também queria acabar com aquele maldito!
— Somos só eu e você... – murmurou Kardia.
Porém, antes que ambos começassem, uma nuvem ondulante e espessa de gás começou a sair de orifícios rentes às paredes, um detalhe que somente agora era percebido.
Em meio à confusão, Milo, que tinha aproveitado para cortar o próprio braço com uma lâmina e assim retirar o implante de localização, sentiu um “odor pungente” e penetrante de algo muito usado pela polícia. Gás? Isso parece ser gás lacrimogêneo! Pensou o agente.
— Protejam os olhos e o nariz! – gritou Milo.
Os presos estancaram tossindo e lacrimejando. Alguns ainda queriam brigar, Máscara da Morte ainda teve tempo de quebrar o maxilar de um, enquanto Aldebaran batia a cabeça de outro na parede.
Misty e Jabu se encostaram a parede, fugindo da confusão de corpos.
Milo teve tempo de esconder o implante, antes que não conseguisse ver mais nada e, instante depois, não havia perigo de ele ser pego, pois ninguém conseguia enxergar ou respirar direito. Alguns tossiam até vomitar, outros sofriam broncoespasmo e faziam um som rouco e chiado para respirar.
Do ouro lado, Caronte e os guardas estavam a postos. Nervosos, eles aguardavam o que viria a seguir. Acompanhado de um guarda que empurrava um carrinho com algo dentro, Minos juntou-se a eles. A presença do diretor ali causou estranhamento, mas a postura altiva e segura se impôs de uma forma inquestionável. Houve um instante de silêncio, como se ambas as partes da lei estivessem se enfrentando até Minos falar:
— Caronte, você está destituído do cargo! E você, qual é o seu nome? – perguntou ele para o guarda que tinha ido avisá-lo.
— Matthew, senhor.
— Pois então, agora, Matthew você chefia a equipe. Coloquem estas máscaras de proteção e conduzam os presos de volta às suas celas, se alguém precisar de cuidados médicos, encaminhem para a enfermaria. E você, Caronte, me acompanhe.
— Diretor, eu... – atônito, Caronte tentou argumentar.
— Falaremos em meu escritório, Caronte. – cortou Minos e seu olhar gélido fez o policial emudecer.
Profundamente impactado com tudo aquilo, Caronte custou a assimilar o golpe. Tentava pensar, mas a atitude do diretor fora totalmente inesperada. Tinha subestimado aquele almofadinha arrogante e fanático por ternos de grife!
Com o rosto protegido pela máscara, Matthew respirou fundo e esperou que a parede metálica se abrisse.
— Pra dentro das celas! – gritou ele quando visualizou os presos.
Kardia estava ofegante e lacrimejava bastante, assim como Aiacos e os outros. Porém, como tinha ouvido Milo gritar, o grego tentara se proteger tirando a camisa e colocando-a sobre o nariz.
— Maldito! – vociferou ele, tossindo.
Os guardas entraram com seus cassetetes e foram batendo e empurrando os presos, tendo à frente Matthew que agora se sentia mais confiante. Quando todos estavam atrás das grades, ele gritou em alto e bom tom:
— Lock Down, seus vermes! Agora, quem manda aqui sou eu e não pensem que eu vou dar mole!
Aiacos continuava tossindo, mas ao ouvir o guarda, forçou os olhos lacrimejantes e irritados, tentando entender o que havia acontecido.
— Sai um merda e entra outro. – murmurou baixo, mas Matthew ouviu.
— Escuta aqui, seu novato filho da mãe! Não sei que tipo de negócio o Caronte tinha contigo, mas isso acabou. Abre teu bico, mais uma vez e te mando para a solitária! E isso serve pra você também, grego!
Milo também tossia, porém menos que os outros. Ele observou a arrogância do guarda e torceu para Kardia não se manifestar. O massacre havia sido evitado, mas sua intuição dizia que o perigo não acabara. Restava ficar à espera de uma atitude de Camus e rezar para que ele entendesse a ação e não pensasse errado.
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Minos havia chegado ao seu limite. Não bastava Hades e Radamanthys o considerarem um ingênuo, agora teria de lidar com Caronte, um homem no qual tinha depositado sua confiança para gerenciar a vigilância dos detentos. Odiava quando era subestimado e isso disparava um gatilho hostil dentro de si que não era, necessariamente, algo com que gostasse de acionar. Sua postura sempre fora racional e ponderada, até apaixonar-se por Albafica e descobrir a perfídia e o engano dentro da própria família. Não permitiria que essa experiência nefasta se repetisse. Se havia uma semelhança que admitia ter com seu pai era a necessidade de estar no comando.
— O helicóptero virá amanhã. Arrume as suas coisas e parta. O acerto da sua demissão será depositado na sua conta bancária. Adicionarei um bônus pelo tempo de serviços prestados. – disse Minos.
Caronte fitou Minos com uma intensidade sofrida, os olhos buscando algo, uma expressão.
— Senhor diretor, por favor, eu sempre cuidei de tudo. Esse motim foi culpa do grego, ele foi adquirindo aliados e eu estava preparado para colocá-lo em seu devido lugar.
Minos o olhou de cima a baixo, mais detalhadamente do que quando o contratara. Caronte suava e a postura do corpo revelava que ele tentava, desesperadamente, convencê-lo a voltar atrás. Patético! O melhor que podia fazer era afastá-lo dali o quanto antes e, se para isso fosse necessário ser mais rude do que já havia sido... Paciência! Estava cheio!
— Agradeço o tempo em que prestou seus serviços, mas agora você não será mais necessário.
— Como?! – disse Caronte com os olhos chispando de ódio. – Então eu não sirvo mais, é isso? Depois de todo esse tempo é só isso que o senhor tem para me dizer?
Prestes a perder a paciência e tentando manter a calma, Minos encarou o guarda e suspirou.
— Eu fechei os olhos para muitas das suas atitudes equivocadas, mas este motim foi a gota d’água. Esta prisão foi planejada para ser muito mais que um depósito de foras da lei e eu preciso de pessoas que abracem essa ideia. Não podemos nos dar ao luxo de algo assim ser descoberto pela imprensa e colocar este projeto no mesmo nível de tantos que tentaram e falharam. Aqui não há lugar para o fracasso, nem para rebeliões!
Caronte deixou escapar um sorriso sarcástico.
— Não acho que um motim tenha mais importância que a utilidade de certos presos nesse seu... projeto à prova de fracasso. Assim como o senhor, eu também sei de coisas e só me mantive quieto, porque acreditava fazer parte dessa ideia.
— Está me ameaçando, Caronte? – a voz de Minos adquiriu um tom frio.
— Em absoluto, senhor diretor. Eu podia ser um filho da puta e abrir minha boca, mas quero que saiba que eu sempre fui e sempre serei fiel. – respondeu o guarda.
— Espero mesmo que seja ou pode esquecer a sua aposentadoria. Lembre-se que assinou um contrato onde a cláusula sigilo foi muito bem explicada. Portanto, pense bem em suas ações e palavras. – disse Minos, ríspido, levantando da escrivaninha de seu escritório. — Terminamos aqui, pode sair.
O guarda obedeceu, deixando Minos pensativo. De repente, aquela sala lhe pareceu pequena demais. Mesmo a vista para o mar que a janela lhe oferecia, não era suficiente para acalmar o turbilhão de pensamentos que lhe inundavam a mente. Olhou para o celular e verificou que havia mais duas chamadas não atendidas. A primeira ele reconheceu como sendo de Radamanthys, a segunda era um número desconhecido. Com o cenho franzido, resolveu verificar o número que não conhecia. Teclou e esperou.
— Diretor? – perguntou a voz do outro lado da linha.
— Sim. Quem é você? – falou Minos.
— Precisamos conversar.
— Quem fala? – insistiu Minos.
— Alguém que tem informações muito importantes.
— Não vou perder meu tempo com ligações anônimas. Diga-me quem é!
— O senhor saberá em breve. – respondeu a voz, desligando.
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Após deixar o escritório de Radamanthys, Camus retornou para a sede do FBI. A visita ao juiz não resultara em respostas concretas, mas, por experiência, sabia que havia algo obscuro nas ações do homem e era, apenas, uma questão de tempo até ele pisar em falso.
— Camus, aconteceu uma coisa... — falou Seiya, o agente responsável pelo monitoramento.
O ruivo tentou manter o foco quando foi informado que o dispositivo colocado de forma subcutânea em Milo havia cessado de enviar sinais. Num primeiro momento, pensou no pior, mas conhecendo as habilidades do grego como infiltrado, analisou que a retirada do dispositivo seria a forma emergencial de enviar uma mensagem.
— Há quanto tempo? – perguntou ele.
Digitando, rapidamente, Seiya buscou a informação pedida, enquanto olhava para a tela que exibia a localização de Hornos via satélite.
— Há exatamente uma hora, dois minutos e dezessete segundos.
— Deu alguma treta lá dentro. – falou Aiolia.
— Sim, e para Milo me mandar este recado deve ser algo grave. – disse Camus.
— Motim?
— Certamente. Bem, vamos fazer uma visitinha à prisão. – disse o ruivo levando a mão aos cabelos, o único ato que denotava certo nervosismo.
— E qual desculpa nós vamos dar? Se for mesmo motim, eles estarão em lock down.
— Nós não sabemos do motim. Para todos os efeitos, nós vamos visitar meu irmão e aproveitar para algumas averiguações de rotina.
— É... é uma boa desculpa. O tal Minos não deve querer que a gente desconfie e vai nos tratar como se nada tivesse acontecido. – falou Aiolia.
Camus aproximou-se da tela para verificar algumas informações, quando Dohko adentrou o departamento. Aioros estava com ele e os dois trocaram algumas palavras e depois se separaram.
Dohko olhou na sua direção e sinalizou, chamando-o. Ao se aproximar, o ruivo foi recebido com uma expressão preocupada.
— Estive conversando com agentes de outras organizações. Circula um boato que é certo que Hornos não está, apenas fazendo experimentos com presos, a prisão está sendo sede de experiências com vírus altamente perigosos e mortais. Se isso for verdade, temos que agir com mais rapidez. – disse Dohko.
— Milo retirou o implante. Eu e Aiolia estamos indo para lá. – falou Camus.
Dohko franziu o cenho.
— Somente vocês dois?
— Não temos opção. Para Milo ter arriscado fazer isso, algo grave aconteceu e não temos muito tempo. Se essa informação proceder, temos que conferir a veracidade destas informações ou tudo isso vai implodir de vez.
— Está bem, confio em seu discernimento. Vou deixar um grupo de agentes em prontidão próximo da ilha. Ficarei esperando um sinal seu. – disse Dohko pegando o celular que vibrava, insistentemente.
— Obrigado. – respondeu Camus.
Assim que o ruivo deixou a sala, Aiolia foi ao seu encontro.
— Então, Dohko concordou com a nossa visita?
— Sim, ele está bastante preocupado e eu também. Hornos está sendo usada como centro experimental para vírus altamente perigosos e eu temo que esses experimentos sejam usados como armas biológicas.
— Quem passou esta informação?
— Dohko estava reunido com o pessoal de outras agências de investigação. E você sabe que para dar um tempo na rivalidade só sendo um caso de extrema gravidade.
Aiolia levou a mão aos cabelos acobreados.
— Será que é por isso que eles enviaram o seu irmão pra lá? É bem possível, não? Dégel é um especialista nesta área. Eles não reúnem especialistas e criminosos à toa.
Camus olhou para Aiolia como quem acaba de descobrir a resposta de um enigma.
— Você está certo, eles reúnem dois tipos de população em Hornos, a dos especialistas e a das cobaias. E sendo numa ilha, eles têm o isolamento necessário para agir sem se preocupar com nenhuma interferência. – falou Camus.
— Se isso for verdade, todos os prisioneiros que forem saudáveis e que a sociedade desejar ver pelas costas, vai integrar o grupo das cobaias. – disse Aiolia.
— Sim, por isso, temos que tirar Milo de lá e acabar com esta proposta, o quanto antes. – falou Camus.
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No subsolo, cercado pelos aparelhos fazendo bip e luzes brancas que deixavam o ambiente semelhante a um cenário de ficção científica, Dégel observava a reprodução anormal e incrivelmente rápida das células já há algumas horas. Seus olhos estavam cansados e ele apertava o canto interno, tentando afastar a ardência que toda aquela claridade produzia.
— Descanse um pouco. – disse Asmita.
— Não temos tempo, precisamos, ao menos, saber contra o que estamos lutando. – respondeu o médico.
Nesse instante, Albafica entrou e sua expressão, apesar do disfarce era de preocupação.
— O que aconteceu? – perguntou Asmita que não podia ver o rosto do colega, mas sentia a energia ansiosa manifestada por ele.
— Um motim na ala B. – respondeu Albafica.
— Motim? – murmurou Dégel. – Kardia e os outros?
— Eu não sei dos detalhes, mas Minos assumiu o controle da situação e eu confio que ele tem as ferramentas certas para evitar danos maiores.
— Acha mesmo que ele consegue? Ele não sabe o que se passa naquela ala, ele deixa um brutamontes como Caronte dominar e não vejo ele se importar com isso. Não tenho tanta confiança assim. – desabafou Dégel.
Albafica olhou dentro dos olhos do médico reconhecendo um sentimento que ele próprio tentava manter sob controle. Dégel se importa com alguém em especial daquela ala.
— Eu sei que Minos cometeu erros, mas esse lugar é a vida dele, ele não permitirá que saia do controle. – disse Albafica.
Dégel encarou Albafica, havia algo no olhar daquele homem que se solidarizava com o seu. Ele amava Minos e o defenderia... sempre.
— Espero que para o bem de todos, você esteja certo. – disse o médico voltando a olhar para o microscópio em uma tentativa de acalmar-se.
Albafica tomou o seu lugar na bancada e tratou de conectar-se ao computador e recomeçar uma varredura com as amostras que Asmita tinha lhe passado. Os três ficaram em um cúmplice silêncio, enquanto cada um buscava uma resposta para aquele macabro enigma.
No isolamento, o som áspero dos aparelhos e tubos que os cercavam, acrescidos de gemidos e murmúrios continuavam com sua sinfonia trágica.
Com a notícia sobre o motim, Dégel fazia um esforço para se concentrar e não pensar em Kardia. Porém, aos poucos, sentia que perdia a batalha, porque sua mente podia estar a serviço, mas seu coração estava acelerado, interferindo e exigindo igual atenção. Kardia... Por favor, não morra e não faça besteira!
— Ele vai ficar bem. – disse Asmita chegando junto dele e sussurrando junto ao seu ouvido.
Dégel olhou-o, constrangido.
— Como?
Um sorrisinho pouco comum de ser visto naqueles lábios, fez Dégel franzir mais o cenho.
— A cegueira nem sempre é uma maldição. Aquilo que não se pode ver pode ser sentido com mais intensidade. Posso sentir a sua angústia, doutor. Alguém importante entre aos amotinados, não é?
Se afastando do microscópio Dégel inspirou profundamente, tirando os óculos.
— Eu temo que tudo isso saia do controle. Quando vim para cá eu não imaginava o quão terrível era esse lugar. Mas, ao mesmo tempo, eu conheci partes de mim que jamais sonharia desvendar e também... alguém que...
— Fez você dar-se conta que possui um coração. Sorte sua, doutor. Alguns morrem sem sentir o que você experimentou aqui. – falou Asmita tocando-o no ombro.
Antes que Dégel respondesse, Albafica chegou junto dos dois.
— Acho que descobri algo. – disse ele. – Vejam, eu andei pesquisando na deep web o símbolo que achei nas amostras in vitro. Era quase imperceptível, mas eu percebi e comecei a investigar. Esse pequeno símbolo do infinito pertence a um laboratório extinto na década de 80 e que foi mantido em sigilo até meados do ano 2000. Um vazamento de informações fez a equipe de cientistas responsáveis pelas pesquisas ser afastada e, cada um acabou tendo um fim trágico e misterioso. Não restou nenhum da equipe original. Aqui diz que o experimento feito por esta equipe visava à cura de um vírus que mais tarde foi chamado de ebola. Porém, um cruzamento dele com duas cepas virais de uma doença que afetou os símios de determinada comunidade africana, desencadeou algo terrível que ficou conhecido como a doença nzambi ou divindade que renasce da podridão.
— Então isso já aconteceu em outro lugar e está se repetindo aqui. – falou Asmita.
— Sim, e não sobrou ninguém da tal comunidade. Quem ficou com estas amostras as repassou para servir de experimento com outro tipo de população e nesta década com mais recursos. – disse Albafica.
— Mas como esperam que achemos uma cura para isso aqui? – questionou Dégel.
— Eu creio que eles não esperam a cura e sim averiguar o efeito dele fora do seu lugar de origem. Esse vírus é uma arma biológica para servir de barganha.
Dégel ficou pensativo. Tudo aquilo parecia uma teoria da conspiração, só que real, perigosa e que requeria uma ação imediata.
— Não teremos tempo para criar uma vacina, nem creio que isso seja possível neste momento. – disse o médico.
— Eu concordo. – falou Asmita.
— Então só nos resta uma saída. Temos que informar Minos e os órgãos competentes. – disse Albafica.
— Meu irmão é agente do FBI, creio que podemos contar com ele. — falou Dégel.
Asmita e Albafica assentiram juntos. Dégel inspirou fundo e então os três ouviram um barulho estranho.
— Tem algum enfermeiro ainda aqui? – perguntou Asmita.
— Não era para ter, eu os dispensei. Quanto menos gente em contato com os infectados, melhor para o nosso controle. – falou Dégel.
— Então quem...?
Albafica não terminou a frase. O sorriso maléfico de Caronte, acompanhado de um olhar carregado de raiva deixou os três, momentaneamente, sem palavras...
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Os presos estavam acomodados em suas celas. Alguns ainda tossiam, outros precisaram ser encaminhados para a enfermaria por causa da asfixia e o restante amargava os efeitos colaterais deixados pelo gás como dor de cabeça, ardência nos olhos e irritação na garganta.
Aiacos estava com os olhos inchados e fechados. Deitado em sua cela, ele estava inquieto e irritado. Seus planos tinham fracassado e ele não conseguia lidar com isso, naquele momento. Mais tempo para aquele grego maldito!
Kardia e os demais pareciam estar em melhor estado, apesar do mal-estar provocado pelo gás. O grego estava, excepcionalmente, quieto. Sua mente divagava entre o que tinha acontecido e o que Dégel estaria fazendo agora. Sabia que tinha sido sorte, mais uma vez, mas não estava satisfeito com isso. Preferia ter acabado com Aiacos e sua turma.
— Que merda! Meus olhos ardem prá caralho. Eu devo estar com uma cara horrível. – reclamou Misty.
Aldebaran fungou e puxou-o pela mão.
— Você nunca ficará horrível.
Misty sorriu em meio ao desconforto e apoiou a cabeça no ombro de Aldebaran.
— Você está me deixando mal-acostumado.
— Eu vou te proteger. Sempre. – disse o grandalhão beijando os lábios de Misty.
Máscara da Morte e Afrodite também estavam abraçados e tossiam, de vez em quando, enquanto Milo e Jabu conversavam baixo.
— Acha que vai mudar alguma coisa? – perguntou o jovem.
Milo não respondeu de imediato. Estava pensativo e tentando compreender o que aconteceria, a partir dali.
— Ei, você se feriu? – falou Jabu vendo que o grego não respondia às suas questões.
— Hã? Ah, isso não é nada. – disse Milo. – Foi um corte superficial. – completou.
De repente, todos ouviram um som semelhante a uma sireni. Em seguida, uma voz grave e profunda se fez ouvir, através dos alto-falantes:
— Quando os senhores foram sentenciados a esta prisão, não sabiam o que encontrar aqui. Mas, no primeiro dia em que desembarcaram nesta ilha, eu deixei claro que este lugar seria diferente, sem confinamentos totais, a não ser que houvesse desobediência ou infração das regras. Mas, me parece que os senhores são como a fábula do Sapo e do Escorpião e não conseguem controlar a sua natureza. Pois bem, a partir de agora, estarão sob lock down até que eu decida o contrário!
— Como se isso funcionasse! Você não sabe nada do que acontece aqui na ala ou... faz vistas grossas. — gritou uma voz grave.
— Quem disse isso? – perguntou Minos.
— Eu disse! — respondeu Kardia.
— E qual é o seu nome?
— Kardia.
— Muito bem, Kardia. Eu quero vê-lo em minha sala, agora! Guarda, algeme-o e traga-o até mim.
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