Meu pescoço doía muito. De todas as outras noites de sono, essa de longe tinha sido a pior. Eu havia dormido debaixo de uma árvore, próxima ao vilarejo de Ceres, com a cabeça encostada em uma pedra um pouco mais alta do que eu imaginava.A parte legal de não ter uma casa é que você sempre vai estar em lugares diferentes, então você nunca vai enjoar. A parte ruim é que nem sempre o lugar é legal. Como andarilho eu costumava vagar por cidades e vilarejos em busca de comida. O problema é que nem sempre sou bem recebido, como é o caso de agora. O vilarejo de Ceres é conhecido pelo mundo como a casa dos lutadores. Praticamente todos os moradores têm tendências violentas e a educação bem baixa. Até eu, que sou um mendigo, sou mais educado que qualquer um deles.O dia já tinha começado ruim, com o pescoço doendo e as roupas cheias de mato e formigas. Fui até um lago próximo, a fim de jogar uma água no rosto e lavar minhas vestes. A água não era muito limpa, mas era melhor do que nada. Tirei a camiseta e joguei ela no lago. Comecei a me coçar feito louco. Mal notei que a minha roupa foi indo embora no lago em direção a um rio estreito que se desprendia e seguia floresta adentro. Quando olhei de novo a camiseta já estava indo embora. Corri em volta do lago pra tentar alcançá-la, mas o lago era muito largo, e logo ela já tinha entrado no rio e a correnteza a levava mais depressa.Não pensei duas vezes, me joguei no lago e comecei a nadar em direção a camiseta. Mas, eu não tinha lembrado de uma coisa. Eu não sei nadar. Na segunda braçada comecei a afundar. Batia os braços e as pernas em desespero tentando alcançar a borda do lago, mas agora a correnteza me levava também.O batimendo cardíaco acelerado, os braços e pernas se mechendo como loucos só faziam eu precisar de mais ar. E eu não tinha mais ar nenhum. Afundei como uma pedra no fundo do lago e pensei comigo mesmo "É, valeu o tempo que vivi. Agora morri.".Antes de perder a consciência eu consegui ver uma sombra na superfície da água, mas não consegui distinguir o que era. E então eu apaguei.


Quando acordei comecei a tossir e cuspir água. Estava com um gosto estranho na boca, e podia jurar que era de peixe, mas preferi não imaginar o que eu tivesse engolido enquanto estava embaixo d'água.Olhei atordoado pros lados. Eu estava em uma casa de madeira, bem simples, só havia um fogão a lenha, uma mesa e uma cama em um dos cantos. Ajoelhada na minha frente estava uma garota bonita, de cabelos cor de rosa, mas de aparência rude. Sua pele tinha um tom meio roxo, o que me deixou espantado. Antes que eu pudesse dizer qualquer palavra eu tomei um tapa cheio no rosto que me fez esquecer quem eu era por alguns segundos.
– Por quê fez isso?
– Por você está olhando os meus seios. — Disse me dando outro tapa, ainda mais forte.
– Por quê me bateu de novo?
– Pra garantir que você não vai olhá-los de novo.
Ela se levantou e virou-se para a mesa. Foi quando eu notei que eu estava sentado no chão. Levantei-me devagar, atordoado com o desmaio e com os tapas. Minha cara devia estar vermelha.
– Quem é você?
– Satella.
– O que estou fazendo aqui?
– Vi você se se jogar de um jeito idiota no lago e imaginei que você fosse se afogar, então pedi pro meu irmão ir ver o que tinha acontecido, e eu tava certa.
– Irmão?
Mal terminei de falar e a porta se abriu. Um homem alto e de aparência selvagem entrou. Sua pele também era roxa, e seus olhos tinham a cor vermelha. Ele era ainda mais assustador que ela, e eu tive medo de ele querer me dar tapas também. Nas mãos dele estavam alguns panos, que eu reconheci como sendo roupas. Imediatamente lembrei das minhas, e foi quando eu notei que eu estava sem nenhuma, o que me deixou mais embaraçado ainda, e a minha vontade foi de abrir o assoalho e me enfiar lá embaixo.
– Vista.
Ele jogou as roupas em cima de mim e se virou para a irmã. Os dois começaram a falar alto, mas numa linguagem que eu não entendia. Mas, tinha certeza que era sobre mim. Me vesti depressa e fiquei de pé encarando os dois com cara de bobo. Os dois interromperam a conversa e olharam pra mim com cara de desprezo.
– Você não tem mais nada pra fazer aqui. Vai embora.
Concordei rapidinho com a cabeça e me apressei em direção a porta.
– Espere!
Satella tinha falado. O tom de sua voz não era mais ameaçador, mas sim preocupado. Olhei pra trás espantado. O irmão dela encarou ela com o olhar severo. Os dois discutiram mais um pouco na linguagem "nãoseioquelá" e depois ela virou pra mim com uma cara séria (ele nem sequer me olhou nos olhos).
– Tem uma pessoa que deseja falar com você.
– Err... Tudo bem... Quem?
Ela não disse nada. Apenas seguiu em direção a porta e acenou para que eu a seguisse. Fomos parar numa casa ainda menor, entramos sem bater na porta. A casa era totalmente escura e sem janelas. A única luz que entrava na casa era a que passava por debaixo da porta. Não dava pra enxergar nada ali dentro, eu nem mesmo sabia aonde estava a Satella.
– Ele é o escolhido?
Uma voz rouca e sibilosa quebrou o silêncio e me arrepiou a espinha. Aquela voz era realmente sombria.
– Eu não tenho certeza, mas...
– Deixe-me vê-lo de perto...
Uma luz vermelha fraca começou a clarear aos poucos o ambiente. Eu não sabia de onde ela vinha, mas parecia ser do centro da casa, que agora eu conseguia ver melhor. Não haviam móveis ou qualquer outra coisa. Era totalmente vazia, exceto por uma estátua em forma de totem feita de madeira, parada no meio. A Satella segurou o meu braço e me puxou para perto da estátua. Eu notei então como era difícil andar ali dentro. Era como se a gravidade fosse cinco vezes maior. Sentia meu corpo pesado, e parecia que minhas pernas não iam me segurar em pé. O ar era pesado também, e começou a ficar mais difícil de respirar quando eu cheguei mais perto da estátua.
– Não há duvidas... Ele é a chave... A chave do despertar...
Satella olhou para mim com o olhar mais assustador que alguém já tenha olhado. Era uma mistura de medo e espanto.
– Deixe-me ver... Deixe-me ver a marca...
Eu não conseguia falar nada. Mas indaguei para mim mesmo do que ele falava. E por estar perdido nos meus pensamentos me assustei mais ainda quando Satella levantou a minha camiseta e me virou de costas. Eu nunca pude ver a marca que tinha nas minhas costas. Mas, pelo que eu me lembrava ela apareceu pouco antes de meus pais terem sido assassinados. A marca inclusive foi a causa do assassinato deles, e eu odeio essa marca por esse motivo. Abaixei a camiseta com força e comecei a andar em direção a porta. Lembrar dos meus pais sempre deixava meu humor tempestuoso.
– Qual o seu nome, jovem?
A voz saía rouca do totem, dava a impressão de que havia um pouco de tristeza na voz.
– Eu não tenho nome, nunca me deram um.
– Entendo. Interessante... Você sabe o significado da marca que está em você, meu jovem?
– Não sei e não tenho interesse algum em saber, passem bem.
Abri a porta num solavanco e fechei com a mesma brutalidade. Comecei a caminhar por Ceres sem rumo, com passos largos, pesados e bufando. Escolhido, que história é essa? Basta, nada pode ser tão importante que valha a vida dos meus pais. Então meus pensamentos foram interrompidos por uma dor aguda. Uma agulhada desceu pela minha espinha e minhas costas começaram a arder. Arfei de espanto e coloquei minha mão em cima da marca. Tirei rápido, pois, a marca me queimou. Tentei ignorar a dor e apressei o passo. Não conseguia entender por que a doía tanto assim, tão de repente. Nunca havia acontecido antes.Notei de relance que as pessoas ao meu redor estavam espantadas, mas não era comigo. Elas olhavam para o céu. Estranhei um pouco, e foi quando percebi que o dia não estava mais tão claro. Em meio a dor e a confusão olhei para o céu, e o que vi me tirou o fôlego e me fez até mesmo esquecer a dor.


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