Tudo cheirava mofo naquele lugar. Mofo e sangue. Sangue... o motivo dele estar lá. O motivo de ele estar parado, sentado, encarando o Padre que distante, conversava com o Carcereiro.

Revia em suas memórias tudo aquilo que ele já fez, tudo pelo que já passou... todos quem já matou. Não gostava disso, mas tinha que o fazer. Talvez... se ele realmente existir, quem sabe ele alcance a redenção? Sim, a redenção. Um sonho distante, mas um sonho pelo qual ele daria tudo para ter. E a dor de rever tudo aquilo era pouco comparado ao prêmio.

Fechou os olhos, concentrando-se no começo, naquela garotinha de oito anos... foi há tanto tempo atrás. Mas por Deus! Lembrava perfeitamente bem. É como dizem, a primeira vez nunca se esquece.

Foi com uma faca... não. Foi um bastão de metal. Dez ou talvez doze golpes na cabeça. Deus, ela era tão bonitinha. Tinha a face rosada e pura de uma criança. Havia seguido ele enganada pela promessa de alguns doces. Os olhinhos azuis brilhavam quando ele a deu aquelas singelas balas. Ela tinha se virado para ir embora quando ele pegou a barra que tinha guardado naquele lugar, no dia anterior. Bastara um golpe para matá-la, os outros golpes... bem, foram só por diversão. Não se exaltem. Ele também não se sente bem com isso, pelo menos não mais. Os outros foram praticamente iguais, uma promessa de doces, uma barra de ferro, belos rostos... crianças sem rostos...

Seus devaneios foram interrompidos pelas batidas de metal contra metal. O Carcereiro chamava-o. Estava com o Padre, a hora estava chegando. Pensou em correr de supetão, derrubando o guarda e fazer uma desesperada tentativa de fuga. Mas não. Ele merecia o que tinham para ele. Além do mais, seria seu castigo e sua redenção. Assim, talvez, ele poderia viver no céu. O Céu. Sim, sempre acreditara que a morte era apenas uma curva que tínhamos que virar na nossa existência.

Não conseguiu prestar atenção nos ritos finais do Padre. Ficou observando as barras de sua cela, finalmente sairia de lá... direto para forca. Sairia de um mundo que foi muito ruim para ele.

Finalmente os guardas chegaram. Seguraram-no pelos braços... já não se sentia mais seguro. Deus... realmente existia? E se tudo pelo que ele passou nesses últimos anos... se sua tão procurada redenção fosse apenas um sonho?

Estava com medo. Chorava. Grossas lágrimas entravam em queda livre de seus olhos para o chão. Mas porque!? Não! Não temeis a morte!

“Deus esteja com você, amigo!” – Berrou um prisioneiro de uma das celas... Mas... se Deus realmente existe... por que ele deixa-me ir!?

Sua vida corria diante de seu rosto, todas as memórias claras como um lago cristalino. Pensando bem... ele não estava arrependido. Não se arrependia de nada do que fez. Não se arrependia de matar o próprio pai, por bater na mãe. Não se arrependia de roubar para sobreviver, para alimentar sua mãe alcoólatra... não se arrependia de ter matado todas aquelas crianças.

E finalmente tudo ficou mais claro. Fora a missão dele na terra. E ele havia a completado.

Estava feliz agora. Sua alma permaneceria vivendo. Ele morreria, mas morreria para poder ver a verdade.

Jogaram-no com força no chão do palco que montaram para o fim do seu show. Não se deram ao trabalho de colocar o saco preto em sua cabeça, antes de colocarem a corda em seu pescoço, a multidão queria o ver sofrer. Queria ver sua face diante da morte. Queria o ver arder no inferno da agonia.

“Últimas palavras?” – Perguntou seu carrasco, o diretor do presídio

“... Santificado seja teu nome.” – Respondeu, sussurrando.

Santificado seja teu nome...

Santificado seja teu nome...

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