Santa Maria
1 26 de janeiro de 2013
Pov Karina
A música estava alta dentro da boate. A festa tinha sido organizada para arrecadar dinheiro para a formatura de alguns cursos da Faculdade Federal de Santa Maria. Pessoas bebiam, dançavam, gritavam e se beijavam na festa, curtindo o som animado. Mesmo que a maioria deles fizesse isso em todos os finais de semana. Os homens da banda tocavam animados, e logo o vocalista acendeu algo. Foi tudo muito rápido, era um clarão!
E logo tudo se intensificou. Eu estava ao lado do meu namorado quando notei que era fogo. Fogo! Nesse momento, todos já corriam desesperados. Eu tirei meu salto, deixei-o para trás e logo a fumaça preta começou a subir no ar. E eu só me lembrei de gritar um “corre” para meu namorado. E eu mesma comecei a correr, me certificando de que em todo o momento ele estaria comigo.
A saída da frente estava lotada, não dava para pensar em sequer tentar passar por ali. Então, corremos para o banheiro. Já também havia muitas pessoas, e finalmente quebraram a janela. Mas, quando pensei que estaríamos livres, algo deu errado. A menina gritou que não daria para passar, por causa do revestimento do lado de fora. Desesperada, corri para fora do banheiro. Já haviam pessoas caindo. Jhon retirou a blusa, e entregou a mesma para mim, porém eu neguei, retirei a minha, naquele momento nada mais importava a não ser sobreviver, e coloquei em frente a boca e nariz.
Pude então ver um corredor vazio, e lá tinham luzes sinalizando ser a saída de emergência. Eu e meu namorado já tossíamos, e havíamos até deixado nossos amigos para trás. E por fim, alcançamos a única porta de emergência daquele local. Nesse momento, um monte de gente entrou no corredor, junto com muita fumaça, e fomos praticamente arremessados para fora. Olhei para ele, enquanto nos levantávamos. E os bombeiros, seguidas de diversas ambulâncias chegaram. Eu estava viva, Jhon estava vivo!
Mas foi inevitável não chorar. Tamanha desgraça estava acontecendo ali. Eram tantos gritos, tantos choros desesperados, tosses e pessoas quebrando as paredes, para tentar ajudar na retirada de pessoas. Vi um garoto, de aparência nova, estender sua mão, para puxar o corpo de sua namorada para fora, mas quando ele puxou-a, ela já estava morta, mole e asfixiada. Os gritos de negação que ele soltou foram tão doloridos, que me imaginei no lugar dele, e Jhon no lugar da garota. Abracei-o forte, vendo a total desgraça que se tornou uma simples festa.
Pov Andressa
Quando o fogo começou, eu e Gabriel começamos a correr em direção a porta, lembro-me vagamente de que os seguranças nos barraram, e só abriram as portas quando notaram finalmente, que era um incêndio. Mas Gabriel não estava mais comigo, então, enquanto as pessoas corriam para fora, eu entrava ainda mais no local cheio de fumaça preta, eu gritava por Gabriel, e assim que o encontrei, caído no chão e passando mal, ajudei-o a se levantar e voltamos a correr em direção à porta. Era complicado, as pessoas gritavam e se empurravam enlouquecidas, tentando sair para sobreviver. Eu ouvia sirenes, mas estavam longe ainda.
Nós não conseguiríamos passar, tinha muita gente na minha frente, mesmo que estivéssemos bem na frente da porta. O caos se tornava cada vez maior, e éramos empurrados. Gabriel me puxou para si, colocou seus lábios no meu e disse que me amava. Tossíamos, igualmente mal, e eu não entendia o motivo daquela declaração. E então, ele me empurrou com força e brutalidade. Me assustei no inicio, vendo seu corpo lá, parado entre aquelas pessoas, e tão longe de mim. E só então notei que eu estava fora da boate, fora de perigo, tossindo e agora, chorando. Chamei por seu nome entre gritos de desespero assim que vi ele sumir entre a multidão, chorei alto e me desesperei.
Os bombeiros então, entraram em ação assim que chegaram, despejando jatos e mais jatos de água que vinham da grossa mangueira, e eu ainda assim gritava, desesperada por Gabriel. Assim que as mangueiras se desligaram, cerca de cinco minutos depois, eles correram para dentro do estabelecimento. Eu lembro-me de ter parado um deles.
– Ache Gabriel! – Eu pedi, chorando. E ele assentiu com a cabeça, voltando a correr.
Quando eles saíram, sem nenhum sobrevivente, meu corpo foi ao chão. Meu ar faltou, e entrei em desespero, eu queria gritar por socorro, mas não achava minha voz. Tudo girava, e vi um dos bombeiros chegar até mim. Agora os gritos estavam mais baixos, eu não sentia mais nada, mas algo que o bombeiro disse me fez vir a tona novamente.
– Achamos Gabriel, ele está vivo! – Gritou, me balançando, e me pegando no colo.
Meus olhos se abriram rapidamente, olhando em volta. Eu já estava sentada na parte de trás da ambulância, ao lado de Gabriel, mas ele estava deitado. Recebíamos os primeiros socorros, e eu estava devidamente mais aliviada. Eu tinha Gabriel ao meu lado!
– Ele está perdendo os sentidos, os batimentos estão mais fracos! – Gritou uma das médicas. – Vamos perdê-lo!
E depois disso, meu corpo caiu, caiu ao lado do de Gabriel, e eu só pensava em minha mãe. O meu celular tocou, e eu escutei – nos últimos segundos que tive – o bombeiro dizendo, infelizmente, que eu acabará de falecer, e então, tudo se apagou.
“O céu de Santa Maria nunca foi tão preto.”
Notas:
Eu fiquei chocada quando descobri o que havia acontecido em Santa Maria, e logo comecei a ficar desesperada pelos meus parentes. Liguei para o celular de um deles, mandei mensagem para outro, e quando finalmente atenderam – eu já estava até aliviada – para meu total desespero e desagrado, ele avisou-me que ele estava morto! Um parente meu e dois amigos faleceram. E não estou tirando proveito disso, eu só queria alguma forma de demonstrar meu sofrimento, de demonstrar que estou em luto também, junto de todo o mundo.
Força a todas às famílias que perderam algum familiar! Nós sabemos que é horrível perder alguém. Eu fiquei sentida com as 245 – ou talvez 231 – mortos dessa tragédia. Horrível, lamentável, triste... Eu espero que o Nyah! Fanfiction não tenha perdido nenhum escritor. Eu queria que ninguém tivesse de perder alguém daquela forma.
Obrigada por lerem e minhas sinceras desculpas se alguém sentiu-se ofendido com o que escrevi. Tentei não usar o nome de nenhuma vitima, pois isso é total invenção, nenhuma dessas histórias são reais. É apenas o meu modo de dizer que estou de luto e comentar sobre o dia 26 de janeiro.
Minhas sinceras condolências á todos que perderam alguém e à todos que sentiram-se tocados apenas em ver as noticias na televisão. Obrigada! Eram vidas inocentes, e isso realmente me afeta.
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