Notas iniciais
Essa história inicialmente era para ser uma one-shot, mas acabei me empolgando um pouco, então resolvi dividir ele em alguns capítulos~ XP Espero que gostem~

De todas as situações em que Si Woo já estivera, a de agora era ao mesmo tempo a mais desconfortável e a mais confusa.

O interior da sorveteria era refrescante graças ao ar-condicionado, mas naquele momento ele se esquecera completamente do calor que antes o incomodava tanto. Seus pensamentos estavam totalmente concentrados na figura esguia e de aparência igualmente desconfortável que se sentava do outro lado da mesa à sua frente.

A garota do parque tinha dado uma das casquinhas para cada uma das amigas e pedido à mais alta que segurasse a sua enquanto comprava sorvetes para os dois “convidados”. As garotas pareciam alheias à atmosfera tensa e tomavam seus sorvetes com naturalidade, como se estivessem acostumadas àquele tipo de situação.

Logo a terceira garota voltou com dois copos de plástico em mãos.

— Eu esqueci de perguntar do que vocês gostavam, então peguei dois de baunilha — ela disse, alegremente, estendendo um copo para cada um. — Espero que não se importem!

Sorrindo, ela contornou Si Woo para sentar-se no espaço entre ele e a garota alta, que estendeu a casquinha remanescente para ela, ao que agradeceu antes de mergulhar a colherzinha de plástico na massa de creme com avidez.

— Bom, antes de mais nada, acho que devemos nos apresentar — ela disse, tomando a primeira colherada. — Meu nome é Nicole, mas as pessoas me chamam de Nick. Essas são minhas amigas, Maria e Melissa. A gente costuma chamar ela de Mells — ela gesticulou para a garota mais alta e a mais baixa, respectivamente. Então, tornou a olhar para os dois estranhos. — Vocês são?

Nenhum dos dois fez menção de responder. Si Woo encarou o garoto, que desviou o olhar de forma nada discreta.

— Okaaaay, então — Nicole ergueu uma sobrancelha. — Bom, nomes não são importantes, de qualquer forma. É só uma formalidade social. O mais importante é resolver esse enorme mal-entendido.

Com esse comentário, a confusão superou o desconforto de Si Woo.

— Mal-entendido? — ele ecoou.

Nicole assentiu.

— Sim. Imagino que seja essa a razão para você estar seguindo um demônio perfeitamente pacífico até essa cidadezinha simpática de interior — ela sorriu.

À menção da palavra “demônio”, Si Woo e o garoto se sobressaltaram.

Ela sabia?

Nick olhou para o garoto, tomando outra colherada de sorvete e ainda sorrindo.

— Estou errada?

O garoto hesitou, mas finalmente falou em uma voz tão baixa que Si Woo mal conseguiu escutar.

— Como você sabia?

— Depois de um tempo, você começa a perceber as sutilezas. — ela comentou, dando de ombros. Outra colherada. — Além disso, o medalhão dele não é exatamente discreto, né?

Ela gesticulou vagamente na direção de Si Woo com a colher.

— Esse é o tipo de coisa que se vê bastante em exorcistas de fora. Você é um deles, não é? — ela perguntou, tornando seu olhar para ele.

Depois de um momento de silêncio, Si Woo assentiu devagar.

— Imaginei. Fazia tempo que um de vocês não aparecia por aqui — ela comentou. — Então, qual das histórias vamos ouvir primeiro?

Mais uma vez, nenhum dos dois se manifestou. Os sorvetes começavam a derreter com a temperatura ambiente, intocados, mas felizmente os copos não os deixavam vazar como aconteceria se fossem casquinhas como as das três garotas. Nicole provavelmente calculara isso.

— Bom, nesse caso, vamos começar com você — ela apontou para Si Woo novamente com a colher. — O que o trás aqui? Por que estava seguindo o garoto?

Os olhares de Si Woo e do demônio se cruzaram novamente, e outra vez ele desviou o olhar, parecendo querer se afundar no banco duro de plástico. Por fim, Si Woo calculou que suas intenções estavam tão expostas quanto poderiam ser, então provavelmente não havia nenhum mal em ser claro sobre elas.

— Eu fui contratado pela mãe do garoto cujo corpo ele está possuindo. — ele começou. — Ela o ouvia falando sozinho e notou que estava se comportando de maneira estranha, então me pediu para investigar. No começo achei que não fosse um dos meus casos, mas assim que pisei na casa senti a energia... sobrenatural. Quando chegamos ao quarto, a janela estava aberta e o filho dela tinha desaparecido. — Ele encarou o demônio com ainda mais intensidade. — Se não estivesse sendo possuído, teria quebrado as duas pernas daquela altura, mas quando cheguei ao térreo, ele já tinha sumido. Tenho procurado-o desde então.

O demônio não fez menção de contradizer a narrativa, encolhendo os ombros em nervosismo. Nicole, por outro lado, parecia curiosa.

— Como sabia que ele estava aqui na cidade? — ela perguntou, inclinando a cabeça.

A essa pergunta Si Woo não respondeu de imediato; ele mesmo não tinha uma resposta muito clara para ela. Mas tentou expressar-se da melhor forma possível.

— Eu… tive um forte pressentimento. — ele disse, por fim. — Quando acordei hoje de manhã, tive certeza de que o encontraria aqui.

Ele não mencionou que nunca nem mesmo ouvira falar daquela cidade até aquele dia. Não importava. Em seu ramo de trabalho, onde se lidava diariamente com coisas com que outras pessoas nem sonhariam, seria no mínimo contraditório não dar ouvidos a instintos como aquele.

Nicole assentiu algumas vezes com ares de sabedoria, como se sua resposta fizesse completo sentido para ela, o que, por sua vez, o atordoou ligeiramente.

Então, ela virou-se para o garoto. Sua expressão suavizou-se, como se tentasse confortá-lo.

— Bom, já ouvimos um lado da história. — ela disse. — Agora é a sua vez. O que o trás a Santa Laura?

O demônio lançou um olhar nervoso para Si Woo, e então voltou-o para Nicole, inseguro.

— Eu… não fiz de propósito — ele começou, novamente em uma voz baixa, quase inaudível. — Eu não estava planejando fugir… Leo tinha me deixado dividir o corpo com ele por um tempo, até que conseguíssemos achar uma solução mais permanente, mas… — ele olhou novamente para Si Woo, se encolhendo ainda mais. — Quando ele apareceu, eu me assustei. Eu só tinha ouvido as histórias que Leo me contou. Não queria voltar, não ainda. Tinha tanta coisa que… — ele se conteve. — Antes que eu percebesse, tinha pulado da janela e estava correndo. Eu não sabia o que fazer. Pra onde ir. Ouvi Leo gritando em nossa mente, falando pra voltarmos pra casa, mas… — ele se encolheu ainda mais, seu rosto afundando em si mesmo. — ...eu ainda estava com medo. Me senti culpado por ter… roubado o corpo dele, e… bloqueei seus pensamentos…

A última frase era pouco mais que um sussurro.

Si Woo encarou-o, em choque. Ele tentou sentir suas intenções, mas mesmo que não conseguisse fazê-lo no momento, era difícil acreditar que não estivesse falando a verdade.

Nicole, por outro lado, o olhava com suavidade. Melissa tocou levemente o ombro do garoto em um gesto de apoio.

— E então? — Nick convidou-o a continuar sua história.

Depois de um momento, o demônio aquiesceu.

— Eu não tenho certeza do porquê, mas... em algum momento, tive uma sensação forte de que devia vir pra cá. De que aqui eu encontraria a resposta que procurava — ele explicou. — Quando cheguei àquele lugar e vi ela... — ele gesticulou levemente com a cabeça na direção de Maria. — ...eu soube que ela saberia me ajudar.

Novamente, Nicole assentiu, acompanhando a história.

— E você veio ao lugar certo. — disse. — Para a sua sorte, nós sabemos exatamente aonde ir.

Ouvindo isso, os olhos do garoto brilharam, e ele inclinou-se sobre a mesa em sua direção.

— Mesmo?

Nicole sorriu.

— É claro. Ela já estava lhe falando sobre isso, né?

Maria assentiu. Como não estava participando ativamente da conversa, seu sorvete já estava quase no final.

— Kamaria é muito boa com esse tipo de coisa — ela disse, olhando para o garoto. — Ela provavelmente está em casa agora, então podemos passar lá saindo daqui e resolvemos isso rapidinho.

Mells assentiu em concordância. Sua casquinha também já estava quase acabando em sua mão, e ela parecia parcialmente alheia à conversa, distraída com alguma outra coisa em sua mente.

— Mas antes de mais nada, eu recomendo vocês darem uma chance pra esses sorvetes. Antes que eles derretam, de preferência — Nicole brincou. — São os melhores da cidade. E eu falo isso como uma especialista!

Si Woo observava o desenrolar da cena sem fazer comentários. Ele ainda estava tendo dificuldade de processar a história do demônio... ele vinha trabalhando como exorcista havia décadas agora, mas de alguma forma nunca tinha se deparado com uma situação assim. Seus instintos diziam que ele dizia a verdade, mas aquilo contrastava de tal forma com a visão que adquirira com sua experiência que ele não conseguia simplesmente aceitar esse fato.

— ...mas quando eu ganhei meu patinete, resolvi tentar algum lugar um pouco mais longe, e foi aí que descobri a outra loja dessa marca! Eu fiquei muito surpresa quando fui pesquisar depois e descobri que tinha uma tão mais perto — Si Woo ouviu Nicole dizer, aparentemente ainda comentando sobre o sorvete com o garoto demônio.

Com um largo sorriso, ela apontou para ele com a colher e concluiu:

— Por isso, acredite quando eu digo que você não vai achar nenhum tão bom nessa parte da cidade!

O garoto parecia sobrecarregado com seu entusiasmo, e dava um meio sorriso tímido em resposta. Si Woo viu que ele já começara a tomar o seu sorvete.

Si Woo olhou para o próprio copo e viu que o seu já começava a derreter. Concluiu que seria falta de educação não tomá-lo.

Sorvete não era algo que Si Woo normalmente escolheria comer por conta própria; não tinha nada contra, mas não era particularmente atraído por ele. Ainda assim, aquele tinha um gosto relativamente agradável perto de alguns que se lembrava de tomar. Era doce, mas algo em sua composição balanceava o sabor.

Com o canto do olho, Si Woo notou Nicole encarando-o com um largo sorriso de satisfação.

.

A casa de Kamaria ficava, como várias outras, na área residencial da cidade.

Sua frente aparentava idade, mas estava bem-cuidada. Tinha uma parede um pouco mais vermelha do que terracota e acabamentos em branco. Pedras lisas formavam um caminho simpático da rua até a porta através de um pequeno gramado, e havia uma espécie de cartaz colado à parede sob a campainha que dizia "aluga-se quartos; preço negociável".

Maria adiantou-se e bateu à porta três vezes, recuando em seguida para se juntar aos outros. Em poucos minutos ouviram-se passos do lado de dentro, e logo a porta de abriu.

A moça que os atendeu era alguns anos mais velha que o grupo, já adulta, mas não muito. Tinha uma pele marrom rica, olhos orientais e longos cabelos cacheados tingidos de um roxo vivo e ousado, e vestia uma camisa justa ressaltando o corpo curvilíneo e uma saia jeans rodada na altura dos joelhos.

Suas mãos se apoiaram nos quadris largos e ela inclinou a cabeça para o lado com atitude e um sorriso torto.

— Ora! Se eu soubesse que vocês planejavam fazer uma visita, tinha preparado alguma coisa — ela brincou. — Querem entrar? Eu posso fazer um chá gelado…

— Seria ótimo, mas hoje a gente veio por um outro motivo — Nick respondeu, sorrindo.

— Essa pessoa acabou de chegar na cidade e estava procurando ajuda. Você está ocupada agora? — Maria perguntou.

Kamaria passou os olhos reto por Si Woo e pousou-os no garoto demônio.

— Para um conterrâneo? Nunca. — ela sorriu pra ele. — Seja bem-vindo a Santa Laura! Já escolheu um nome?

Conterrâneo? Ela era um demônio também? As suspeitas de Si Woo se confirmaram quando o garoto a olhou com surpresa, como se a reconhecesse. Ele sorriu timidamente.

— O meu nome é difícil de pronunciar aqui — ele respondeu. — mas Leo me chamava de A’garath. Ele encontrou num gerador online.

— Nome interessante — Kamaria pareceu achar graça. — Eu também uso o nome que a minha primeira amiga me deu. Quer entrar? Eu sei exatamente o que fazer por você — ela gesticulou com a mão por cima do ombro e deu um passo para o lado, abrindo espaço para ele passar.

A’garath hesitou por um momento, mas andou até a porta e adentrou o corredor. Melissa e Maria entraram logo depois. Quando Kamaria olhou para Nick em indagação, esta sacudiu a cabeça e levantou uma mão.

— Eu acho que nós dois vamos esperar aqui fora — ela respondeu. — Ele não está acostumado com… coisas muito intensas.

Kamaria soltou uma risada.

— Justo. Encontramos vocês aqui assim que terminarmos?

— Soa como um plano! — Nick sorriu.

— Perfeito! Até depois, então.

Com isso, Kamaria entrou na casa atrás dos outros e fechou a porta.

Após alguns instantes, Nick virou-se para Si Woo.

— Eles devem demorar uma meia hora. Quer sentar?

Si Woo fez que não com a cabeça. Nick deu de ombros e foi sentar-se no gramado com as costas encostadas na parede da casa.

— Não lembro se cheguei a perguntar seu nome? — Nick comentou, em tom de indagação, e deu de ombros. — Se eu perguntei, desculpe. Sempre tive uma péssima memória para nomes.

— É Si Woo. — ele respondeu.

— Certo. Então, Si Woo... — ela ergueu os olhos pra ele, apoiando os braços nas pernas. — você sabe do sobrenatural há muito tempo? Se não se importa de eu perguntar.

— Desde que eu era adolescente.

A garota olhou-o por um longo momento.

— ...eu vou assumir pelo seu tom de voz que isso faz algum tempo? Desculpe, também tenho uma péssima noção pra idades. — ela deu de ombros novamente, pedindo desculpas.

— Faz algum tempo, sim. — Si Woo não conseguiu evitar um sorriso sutil; ele já passava dos quarenta anos. Ele ponderou por um momento. — Você?

Nick inclinou a cabeça para o lado.

— Desde que cheguei à cidade. É meio difícil viver aqui e não saber — ela brincou.

Isso deixou Si Woo curioso.

— Por que você diz isso?

Nick pensou por um momento, seu olhar se desviando para o alto. Finalmente, deu de ombros uma terceira vez.

— É meio difícil de explicar. E não tenho certeza de que você quer saber todos os detalhes ainda — respondeu por fim, com um sorrisinho. — Para algumas pessoas é melhor ir devagar, sabe?

Isso deixou Si Woo ainda mais curioso, mas ele não podia discordar da segunda parte. Já estava tendo dificuldades em processar o que tinha descoberto naquele dia.

— ...como você sabia? Sabe — ele se corrigiu, incerto de que tempo usar, qual pergunta fazer. — Que ele era…

— Humano? — ela completou. Então, franziu o cenho. — Certo, má escolha de palavras. Alguém com sentimentos e boas intenções que só cometeu um erro?

— ...Sim. Isso.

Nick deixou seu olhar vagar para o alto novamente, parecendo distante em pensamentos.

— Vários deles são. Muitos. A maioria. Um desses aí. — ela tornou a olhar pra ele. — Além disso, você meio que consegue dizer. Seres sobrenaturais tendem a ser mais claros sobre suas intenções do que nós, meros humanos. Muitos deles não têm o conceito de “socialmente aceitável” e coisas do tipo. Eu certamente me entendo melhor com o jeito deles do que com o nosso — ela deu uma risada que não parecia ser inteiramente constituída de humor.

Si Woo hesitou. A pergunta que ele mais não sabia se queria respondida…

— ...Então, todos eles são...

— Não. — Nicole interrompeu-o. — Ah, desculpe, não quis te cortar. Não, não são todos eles que são… bom, “bons” é uma definição meio subjetiva. Mas não são todos eles que seguem as morais humanas, ou que conseguiriam se integrar na sociedade de maneira segura. Alguns não estão acostumados com a nossa… mortalidade, acho que é a palavra certa? — ela inclinou a cabeça novamente. — Acho que há boas chances de você ter expulsado pelo menos alguns pelos motivos errados, mas vários deles provavelmente não foram o caso. Se isso te consola. E mesmo os que você expulsou, não é como se eles morressem ou algo assim. Eles só… voltam pra casa deles, de certa forma. Alguns até chegam a voltar pra cá depois de algum tempo. É raro, mas acontece — ela lhe deu um sorriso que provavelmente tinha intenção de confortá-lo.

— Como você sabe tanto sobre eles? — ele perguntou.

— Você acaba aprendendo coisas quando conhece pessoas diferentes de você. — ela respondeu, sorrindo. — Talvez um dia você consiga experienciar isso também. Pode ser bem instrutivo.

— ...Talvez.

Seus pensamentos ainda estavam confusos demais para tentar fazer alguma noção deles, mas Si Woo esperava que quando a hora chegasse, o que ela lhe dissera fosse de alguma ajuda.

Enquanto o tempo passava, Si Woo correu os olhos pelas casas próximas. Nenhuma delas se destacava particularmente, todas seguindo o padrão de paredes de cores claras e a maioria com telhados de telhas simples. Algumas se assemelhavam à de Kamaria pelo pequeno gramado na frente, e dentre essas algumas iam ainda mais além, pendurando vasos de plantas onde quer que houvesse espaço e suporte suficiente.

Poucas pessoas passaram por eles durante a espera e ainda menos carros, provavelmente indo o mais rápido permitido pelo limite de velocidade em uma área residencial para que pudessem chegar logo em casa. Dentre os transeuntes, alguns reconheceram Nick e acenaram para ela com bom dias educados mas sinceros, aos que ela respondeu à altura.

Quando não estava nesses momentos, Nicole parecia imersa em pensamentos, hora sentada em seu canto e hora levantando-se para caminhar em círculos, sua mão brincando quase ininterruptamente com um colar de prisma que ela colocava e tirava do pescoço.

Em uma das vezes que percebeu Si Woo observando-a, ela ergueu o colar pela corda para exibir o pingente e abriu um sorriso largo.

— Ele brilha no escuro! — contou, alegre ou orgulhosa como se mostrasse algo que fizera com as próprias mãos.

O resto do tempo passou sem muitas novidades, até que, cerca da meia hora calculada após os outros terem entrado — tempo que pareceu muito mais longo na mistura de silêncio e incerteza de sua mente -, a porta se abriu.

Nicole imediatamente se colocou de pé ao ver Kamaria.

— E então? Como foi? — perguntou.

— Como sempre, é claro. — Kamaria respondeu simplesmente, sorrindo, e deu um passo para o lado, abrindo caminho para quem vinha atrás.

O garoto que hesitou ao sair da casa não se parecia com ninguém que Si Woo se lembrava de ter visto entrando. Ele era um pouco mais alto que os outros jovens, quase da mesma altura de Kamaria, mas notavelmente mais esguio. Longos cabelos acobreados estavam presos em um rabo de cavalo bem frouxo que descansava à frente de seu ombro, e ele vestia uma camisa clara e calças jeans tão folgadas que faziam Si Woo se perguntar como elas não estavam caindo de sua cintura.

— Ooh, adorei! — Nicole juntou as palmas alegremente, seus olhos brilhando de entusiasmo. — Você ficou ótimo! Não nos conhecemos muito bem ainda, mas parece bem a sua cara!

— Obrigado... — o garoto deu um sorriso tímido, parecendo genuinamente feliz com o elogio.

— Ele tem estilo — Kamaria deu um tapinha orgulhoso no ombro dele. — Aposto que vai ficar ainda melhor quando sair pra fazer umas compras. As minhas roupas são facilmente as mais estilosas da área, mas nosso tamanho não é exatamente compatível — ela brincou.

— Eu acabei de receber minha mesada, então posso levar ele pra ver algumas peças mais tarde — Nicole respondeu. — Não é muita coisa para roupas, mas pelo menos algumas básicas dá pra comprar.

— Não há necessidade. Eu já dei algum dinheiro pra ele — Kamaria replicou. — Vocês humanos precisam guardar o seu dinheiro para suas “comidas de três em três horas” e coisas assim — ela provocou amigavelmente.

— Ahn, com licença? Podemos passar? — uma voz feminina brincou de trás do garoto.

Subitamente se dando conta que bloqueara a passagem, ele se apressou em descer para o gramado e dar um passo para o lado. Melissa e Maria saíram da porta e foram ficar de pé ao lado de Nicole.

— Leo deve acordar em meia hora. Imagino que você seja o guardião dele? — Kamaria virou-se para Si Woo.

Pego de surpresa, ele não soube como responder, então Melissa falou por ele.

— De certa forma. Ele foi contratado pela mãe do garoto — explicou.

Kamaria assentiu para si mesma.

— Entendi. Bem, você pode voltar em meia hora para buscá-lo ou esperar aqui, se quiser. Tenho vários chás e acho que dois tipos de café, não sei se é o seu tipo de coisa.

— Gosto de chá preto — Si Woo respondeu. — Eu gostaria de esperar com ele, se não for incômodo.

— Não é incômodo nenhum — Kamaria tranquilizou-o. — A’garath não vai esperar aqui, mas disse que quer vê-lo quando ele acordar, então imagino que as garotas vão tomar conta dele nesse meio tempo — ela olhou para Melissa e Maria, a última parte da frase tomando um tom de pergunta.

A’garath. Si Woo reconheceu o nome que o garoto demônio tinha escolhido pra si mesmo ao entrar na casa. O que acontecera com ele? Sua aparência estava completamente diferente. Kamaria dissera que Leo estava lá dentro… teria o demônio possuído outra pessoa? Tinha outra pessoa com Kamaria quando eles chegaram?

Perguntas borbulhavam na mente de Si Woo, e quando ele ouviu os próximos trechos da conversa, não prestava muita atenção às palavras.

— Na verdade, nós temos que ir pra faculdade daqui a pouco — Maria disse em tom de desculpas. — Já vai ficar um pouco em cima da hora pra comermos antes de entrarmos em aula...

— Eu posso ficar com ele — Nicole ergueu a mão. — Já adiantei minhas tarefas do dia pra facul, então tenho o resto do dia livre. Posso mostrá-lo uma parte da cidade, se quiser.

A’garath pareceu gostar da ideia, mas hesitou. Seus olhos gravitaram para a porta da casa.

Kamaria notou o gesto e deu-lhe tapinhas confortantes no ombro.

— Eu vou cuidar bem dele. Prometo — ela disse.

A’garath olhou-a por um longo momento e assentiu devagar.

Nick adiantou-se até o outro lado do garoto e também colocou sua mão em seu ombro.

— Vamos indo? Estaremos de volta em dois pulos — disse ela. Virou o rosto para Kamaria. — Se alguma coisa acontecer, me mande uma mensagem e voltamos correndo!

— Pode deixar! — Kamaria fez um sinal de jóia. Isso finalmente pareceu convencer A’garath, que, apesar de supostamente ter dito que não queria ficar ali, também parecia extremamente incerto sobre se afastar.

Maria deu uma cutucada no ombro de Melissa e disse:

— Acho que essa é a nossa deixa também. Depois nos conte como terminou tudo — falou pra Nick, que respondeu com outro “Pode deixar!”, e as duas começaram a se afastar na direção da rua, acenando para o grupo.

Nick e A’garath foram os próximos, embora Nick só lançasse alguns breves gestos para os dois enquanto andavam para longe. Si Woo e Kamaria observaram-nos até suas silhuetas começarem a desaparecer na distância, e então Kamaria se virou para Si Woo.

— Chá preto, você disse? Acho que tenho desse, sim. Vamos entrar?

Si Woo concordou com um aceno de cabeça e o par remanescente entrou na casa, Si Woo entrando por último e fechando a porta ao passar.