Um motim se iniciava. Eu apenas queria sair, e talvez devesse me juntar àqueles que conheciam o tal homem que comandava tudo. Velho ou novo, quem quer que fosse. Entretanto, meu desejo de sumir não era compatível com meu desejo de não entrar em confusão.

De qualquer modo, ali eu estava e deveria sair. Do tal cortiço, sabe? Aquelas paredes brancas me incomodavam muito. Uma das três garotas ficou mais próxima de mim, e eu simplesmente aceitei que assim seria. Melhor acompanhada do que só. Ela me mantinha atualizada sobre as movimentações no cortiço. Pensando agora, não sei como o tal homem do cortiço nunca pensou que pudessem planejar algo contra ele.

Eu queria ficar sozinha.

Não havia espaço para que eu pudesse ver o silencio ou ouvir o vazio. Até mesmo os banheiros estavam cheios de gente — e muito papel higiênico sujo.

A única pessoa que eu ainda conversava me feriu. Ela me tocou como não deveria e eu me odiei por isso. Ela me convenceu a fazer mais e me senti sabotada por querer mais. Mas eu me odiava.

Um dia conheci um rapaz, cujo nome também desconheço, mas que tinha uma bela feição. Imediatamente eu me entreguei, não como uma mulher se entrega para um homem, mas como uma alma amiga se entrega para a outra. Bondoso e confiável. O conheci na porta do cortiço, lugar onde eu finalmente saí, após o pseudo-sucesso do motim. Aparentemente o homem do cortiço não se importava com essas movimentações contra ele, pois tinha todo o controle.

No pátio onde ficava o cortiço eu avistava muros ao longe. Diversas pessoas estavam ali, contra sua vontade, mas permaneciam ali por motivos que desconheço. A certeza que tenho de que estavam por motivos de força maior eram os olhares carregados de ódio e as manchas de sangue que acompanhavam aqueles seres que um dia foram humanos.

Avistei um grupo de adolescentes em idade escolar uniformizados. Uma garota ao centro levantou a blusa para dar um nó e eu avistei ali, não com horror, mas apenas uma tristeza conformada, uma corrente no pescoço e arames farpados ao redor de sua cintura, apertando em sua barriga. Não havia lagrimas, apenas ódio.

O gentil moço que conheci me acompanhava na caminhada pelo pátio e me segredou que poderia me ajudar. Havia um portão com grades altíssimas, com pontas afiadas que deixavam claro que não havia chance de escapatória. Sua bela feição me convenceu a segui-lo. Segui.

Sorrateiramente passamos pelo portão e andamos em direção a um corredor. Eu estava calma até que finalmente entramos no corredor avistado anteriormente. Eram paredes de tijolos chapiscados com algum material marrom e chão de vermelhão não encerado. Olho para a direita e vejo um moinho de engenho vazio. Deveria ser movido por pessoas, mas não havia sinal algum de que houvera gente ali. Tive certeza de que deveria estar ali naquele lugar pouco iluminado, mas fui guiada pelo bom moço para seguir adiante no corredor labiríntico.

Finalmente uma expressão de horror em minha face quando vejo sangue fora de corpos humanos. Havia poças de sangue pelo caminho e finalmente vejo duas portas que mostram campos ao as livre. Não eram saídas.