Sangue quente.

20 Noite sangrenta.


Notas iniciais
Preparem-se para chorar, fiquem com uma caixinha de lenços por perto! Boa leitura!

Sephiron...

Acordei na manhã seguinte com uma vozinha irritante me chamando e com algo pequeno e quente puxando a minha mão.

—“Moço... moço... acoda vamos brincar?” O burrinho estava sentado na beirada do meu colchão e puxava a minha mão tentando me acordar.

O encarei irritado e pensei se deveria atirá-lo pra fora da barraca ou esmagá-lo, o que será que faria menos barulho?

Ian se moveu ao me lado, ele se espreguiçou gemendo de leve, ele já ia se aconchegar em mim quando viu o burrinho ao meu lado! Ian imediatamente se sentou no colchão coçando o olho e bocejando, pelo visto eu não ia ter uma foda matutina por culpa do burrinho!

—“Vem, vem!” O burrinho puxava o meu braço tentado me fazer levantar.

—“Xô burrinho! Me deixa em paz, eu não gosto de você e não quero brincar com você!” Falei sério para ver se ele entendia.

Ele fez beicinho pra mim e seus olhos encheram de lágrimas, mas o ignorei e virei de costas pra ele no colchão, queria voltar a dormir, eu estava exausto de tanto trabalhar ontem!

—“Seph... não seja tão malvado!” Ian me lançou um olhar zangado!

Eu ignorei Ian também e consegui voltar a dormir, mas meu descanso não durou muito, logo todos estavam de pé e pelo visto ensaiando a apresentação de hoje à noite, era impossível dormir com aquela música irritante de circo e aqueles gritos que davam ao saltar e atirar coisas!

Percebi que Ian não estava ao meu lado no colchão e fui procurá-lo, nesse momento o burrinho me achou e veio correndo todo feliz porque eu havia me levantado, ele saltitou em volta de mim me chamando pra brincar, olhei em volta pra ver se não tinha ninguém me olhando, como não vi ninguém eu empurrei o burrinho com força no chão, ele caiu de joelhos e acabou os ralando.

Tive o prazer de o ver se levantar do chão e olhar o próprio sangue nos joelhos com uma expressão de dor, ele me olhou com um beicinho e com os olhos cheios de lágrimas.

—“Não gosto de você, sai de perto de mim!” Falei zangado e ele baixou a cabeça triste.

Virei as costas pra ele prestes a seguir procurando por Ian de novo quando o burrinho abraçou a minha perna.

—“Eu gosto de voche... vamu binca, eu dexo voche fica com meus binquedos!” Ele quase me implorou com uma vozinha chorosa.

Dei-lhe um beliscam em seu braço para fazê-lo me soltar, ele soltou a minha perna e se afastou um pouquinho esfregando o braço beliscado, agora pequenas lágrimas escorriam por suas bochechas redondas.

Voltei a virar as costas pra ele e segui o meu caminho, eu podia ouvir os passos dele atrás de mim.

—“Eu vou te dar uma surra garoto!” Ameacei que ia pegar o cinto em minha cintura e ele parou de me seguir e ficou meio encolhido com olhos arregalados pra mim.

Finalmente pude continuar a procurar o Ian sem a chateação de um burrinho me perseguindo.

Acabei encontrando o Ian pouco tempo depois, ele estava sentado em uma cadeira ao lado de Pedro e James, os três assistiam animados o ensaio e batiam palmas a cada pulo que os humanos davam. Os olhos de Ian brilhavam de emoção ao ver os equilibristas e malabaristas se apresentarem! Admito que era interessante, então peguei uma cadeira e sentei ao lado de Ian para assistir também.

A parte que eu mais gostei foi quando um dos humanos começou a jogar facas em uma humana que estava presa a uma tábua, fiquei torcendo pra ele acertar ela, mas o infeliz só acertava a tábua, qual era a graça disso? Esse cara deve ser ruim de mira, aposto que daqui onde estou, eu posso acertar o olho dela com a faca, eles deviam me deixar tentar! Ian tapava o rosto com as mãos toda vez que o humano atirava as facas e quando um outro humano engolia espadas também.

O burrinho apareceu do nada na nossa frente.

—“Eu sei fazer acorbacia também, olha!” O burrinho estava tentando dizer que sabia fazer acrobacias, isso eu queria ver! O moleque estava obviamente tentando virar uma estrelinha, mas tudo que ele fazia era por as mãos no chão e pular de um lado pro outro com os pés.

—“Muito bem!” James e Ian disserem em uníssono e aplaudiram junto com o Pedro, o burrinho sorriu satisfeito.

—“Como assim muito bem? Não tá nada bem! Ele fez tudo errado! É muito burro mesmo!” Reclamei.

O burrinho fez um beiço enorme e caiu no berreiro enquanto corria pra algum lugar qualquer.

—“Seph... ele é apenas uma criança, você tem que incentiva-lo!” Ian me encarrou irritado.

—“Eu incentivaria se ele fizesse a coisa certa! Se você ficar aplaudindo qualquer merda que ele fizer, ele nunca vai fazer direito!” Respondi zangado.

—“Mas não é assim que se trata uma criança!” Ian cruzou os braços pra mim.

—“É desse jeito mole que você vai tratar a criaturinha? Desse jeito esse treco dentro de você vai ser um retardado mental!” Respondi começando a ficar zangado.

—“Pois é assim mesmo que eu vou tratar o meu bebê!” Ian se levantou com dificuldade com os braços cruzados e me olhou com raiva.

—“Pois eu não vou deixar você transformar o meu filho em um mongoloide!” Respondi também ficando de pé e cruzando os braços para o Ian.

Ian me encarrou como se quisesse me matar, mas logo depois ele começou a rir feito um idiota, pensei que isso fosse uma daquelas mudanças hormonais e o ignorei.

—“Eu não acredito! Estamos tendo a nossa primeira discussão e é justamente sobre como criar filhos!” Ian gargalhou.

—“Não estamos fazendo nada disso!” Virei de costas pra ele, olhar a cara convencida dele me irritava.

—“Seph, você acabou de dizer o seguinte eu não vou deixar você transformar o MEU FILHO... você finalmente chamou a criaturinha de filho!” Ian parecia não se conter de alegria.

—“Chamei nada! Você deve estar com cera nos ouvidos e escutou mal!” Me irritei ainda mais, o meu desejo de sair matando as pessoas estava crescendo!

—“Você disse isso sim, Seph!” Disse James com um sorriso e Pedro confirmou com a cabeça.

—“DISSE NADA! VAI TODO MUNDO PRO INFERNO!” Sai de perto deles querendo cuspir fogo como aquele humano cuspidor de fogo que eu tinha visto!

Isolei-me sozinho próximo às barracas, eu não queria encarar ninguém agora, eu não podia acreditar que acabei falando merda em um momento de descontrole... eu não acredito que falei meu filho! De jeito nenhum, eu não disse isso!

Fiquei bufando e xingando eles por um bom tempo, até que me acalmei um pouco, mas agora eu não queria voltar pra lá e ver os sorrisos convencidos deles, então fiquei zanzando entre as barracas.

Foi quando eu estava passando distraído na frente de uma barraca que aquela velha bizarra saiu pra fora dela e me olhou com atenção.

—“Algo pequeno vai morrer em suas mãos!” Ela me falou sem expressão alguma.

—“Como é que é?” Perguntei sentindo um arrepio passar por minha coluna, ela segurou a minha mão e me olhou nos olhos.

—“A morte está marchando pra cá... haverá sangue pra todo lado... algo pequeno e puro morrerá envolto em sangue nas suas mãos, você nada poderá fazer por ele, além de olhá-lo agonizar!” A velha apertava a minha mão com força, uma sensação ruim tomava conta de mim agora, meu estômago afundou.

—“Você está louca!” Falei tentando me soltar dela, mas ela me segurava cada vez mais forte.

—“Você sentirá uma dor terrível... as chamas te queimaram e te transformaram!” A velha seguia falando enquanto eu tentava soltar os dedos dela de minha mão, céus ela é uma humana e ainda por cima é velha, da onde ela tirou toda essa força?

—“Por fim, dois entes queridos te deixaram para sempre... a morte os levará vinda do céu!” A velha quase cochichou essa pra mim.

—“Sai, me larga sua velha maluca!” Tentei me desvencilhar dela mais uma vez e ela do nada me soltou e saiu gritando que a morte estava marchando pra cá!

Corri pra longe dela e tentei acalmar o meu coração que estava batendo a mil por hora... eu não deveria levar a sério as coisas que essa velha maluca andava gritando por ai, a Mia já disse que ela anda gaga... mas a Mia também disse que ela nunca errou um previsão quando jovem!

O que era pequeno puro e poderia morrer envolto em sangue?... A criaturinha!... Isso fazia sentido... ele seria pequeno e puro ao nascer e estaria coberto de sangue, isso significa que ele não vai sobreviver ao parto? É isso? E eu nada poderei fazer para salvá-lo...

Senti-me muito mal de repente, parecia que estava tudo girando, me sentei em um barril e respirei devagar! Enfiei minha mão no bolso e peguei o sapatinho que desde que Ian me deu, não saiu mais de dentro do bolso do meu casaco!

Senti a textura da lã... será que a criaturinha nem vai chegar a sentir isso? Será que a criaturinha vai morrer antes mesmo de conhecer as coisas boas da vida? Como sangue, correr, caçar e sexo, por exemplo!

O que mais a velha disse mesmo? Que o fogo me transformará... isso é lorota! É... eu não devia ficar preocupado com palavras malucas ditas por uma velha, mas mesmo assim as palavras dela não saiam da minha mente.

Voltei para onde Ian, James e Pedro estavam, eles estavam assistindo um mágico agora.

Sentei-me ao lado de Ian e olhei para o nada sem ver, minha cabeça estava cheia de merda no momento, mal ouvia o que Ian dizia pra mim.

De repente o burrinho voltou cheio de brinquedo nos braços, ele chegou perto de mim, pelo visto ele não desistiria de tentar ser meu amigo.

—“Vamu bincar? Toma o totó, o gatinho e o vrum vrum!” O burrinho colocou no meu colo um cachorro e um gato de pelúcia e depois um carrinho de plástico.

Nada disse e nem olhei para os brinquedos direito, não estava a fim de fazer nada.

—“Esse é pra voche... é meu pesente!” Ele me deu de presente um pequeno ursinho de pelúcia marrom com uma fita azul no pescoço, era pequeno e cabia na palma da minha mão.

—“Não quero!” Disse zangando pro burrinho, atirei o presente longe e o burrinho foi buscar como um cachorro que corre atrás da bola, ele voltou pouco tempo depois com o ursinho e me entregou de novo, eu voltei a atirar e novamente ele buscou, estava prestes a tirar pela terceira vez quando Ian tomou ele de minha mão.

—“É muito lindo o seu presente! Vou guardar pra não estragar, tá bem?” Ian sorriu para o burrinho que retribuiu o sorriso pra ele, droga! Ian leva mesmo jeito com crianças, como ele vai se sentir quando a criaturinha morrer? Ele vai querer se matar de novo? Nesse caso a gente pode tentar ter outro... mas eu não quero outro... eu quero a criaturinha! Já estou acostumando com sua esperteza.

Ah não... agora a outra previsão da velha fazia sentido, dois entes queridos vão morrer... será que o Ian vai se matar depois da perda da criaturinha?... ou quem vai morrer é o James? A velha disse que a morte viria do céu... que merda é essa? Não, eu realmente não devo levar isso a sério, tenho que apagar isso de minha memória!

O burrinho brincava nas minhas pernas com o carrinho de plástico, senti vontade de aproveitar e chutá-lo pra longe, mas Ian ia se zangar comigo, então deixei o burrinho me azucrinando, mas fingi que ele não existia, mesmo que ele tenha feito de tudo pra chamar a minha atenção.

Eu estava distraído assistindo o treino dos humanos, tentando afugentar pensamentos ruins quando o burrinho subiu no meu colo e sentou ali, ele se acomodou em mim apoiou as costas no meu peito pra assistir junto comigo, já que eu estava mais interessado em assistir eles do que brincar com ele! Eu estava prestes a empurrá-lo com força do meu colo quando um dos trapezistas se estatelou no chão, ele não se machucou, mas o tombo foi hilário, cai na gargalhada exatamente no mesmo momento em que o burrinho gargalhou também.

Rimos juntos do idiota que caiu enquanto todos nos olhavam zangados, adorei isso, me senti cumplice do burrinho, parece que ele entende meu humor negro!

—“Acho que o Seph não é boa companhia pra você Kyou, vem brincar comigo vem!” Ian tentou convence-lo a ir se sentar no colo dele, mas ele disse um NÃO em alto e bom som e se acomodou mais em meu colo.

—“Vai brincar com Ian burrinho, tenho mais o que fazer!” Acabei segurando o burrinho no colo quando me levantei, ele era bem levinho e muito menor do que imaginei! Eu o passei para Ian sem me demorar.

O burrinho claramente queria me seguir, mas Ian acabou conseguindo capturar sua atenção quando pegou a pelúcia de gato e começou a miar, o garoto na hora riu e se entusiasmou pra brincar com o Ian.

Procurei por Mia, tinha algo na minha cabeça ao qual eu achava que ela tinha a resposta! Eu acabei de pensar em algo e quero falar com ela sobre isso, quero entender mais sobre com o que estou lidando.

Acabei achando Mia na sua barraca, o lugar era abarrotado de coisas, o chão era coberto de tapetes e havia joias em bustos em cima das mesas e cômodas.

Mia estava sentada em uma rede se balançando pensativa.

—“Ei Mia... será que eu posso falar com você um momento?” Perguntei sentando sem jeito em um puff vermelho com detalhes dourado, na verdade quase tudo ali tinha essa mistura de cor que lembrava muito a cultura cigana mesmo!

—“Claro! Fala ai!” Ela disse se ajeitando na rede.

—“Eu vi que você tem muitos mestiços aqui... quero saber se... já houve uma gravidez masc...” Eu tinha medo de entregar o jogo.

—“Quer saber se houve uma gravidez masculina entre os meus mestiços é isso? Quer saber por causa de seu parceiro, não é?” Mia me olhou com um sorrisinho travesso.

—“Que? Não... eu... como descobriu?” Percebi que não adiantava mentir, ela havia descoberto que Ian era homem.

—“Eu sou mulher, sei reconhecer outra mulher! Além do mais o seu parceiro não atua muito bem, ele não anda como uma mulher, ele é muito duro quando anda, sem fala que não faz nenhum trejeito feminino... ele pode até enganar os outros, mas se alguém olhar com mais atenção pra ele, pode descobrir!” Mia respondeu sorrindo.

—“Entendi... vou dizer pra ele melhorar na atuação... mas então, quanto a minha pergunta sobre gravidez masculina?” Olhei ansioso pra ela.

—“É bem comum... temos uns seis mestiços que nasceram de homens aqui!” Ela respondeu.

—“E tudo correu bem no parto? Como eles nasceram?” Perguntei ansioso.

—“Nem todos os partos são iguais... alguns formam complicados, outros foram fáceis, mas em ambos os casos o mestiço que deu a luz saiu gravemente ferido!” Ela respondeu séria.

—“Gravemente ferido?” Senti um frio na barriga agora.

—“Bem... os mestiços que conseguiram expulsar o bebê de forma natural... bem, você sabe, não tem como se dilatar como uma mulher faz... então e é obvio que eles se feriram na saída do bebê! E nos casos em que o mestiço não conseguiu expulsar o bebê de forma natural... tivemos de abrir a barriga deles! Mas em ambos os casos nenhum mestiço morreu, eles se regeneram rápido como um vampiro... então a melhor dica que posso te dar é... mantenha seu parceiro bem alimentado e saudável, assim ele se curará mais rápido!” Mia me respondeu com um sorriso.

Respirei fundo para absorver essa informação.

—“E quanto aos bebês? Todos sobreviveram?” Perguntei nervoso.

A expressão de Mia murchou um pouco e meu estômago afundou mesmo!

—“Dois não sobreviveram ao estresse do parto... não sabemos ao certo o que matou eles... mas só sobreviveram por alguns minutos depois do parto!” Mia respondeu tensa e eu senti meu corpo gelar mais ainda.

—“Obrigado por me conta!” Agradeci e já ia saindo da barraca de Mia perdido quando ela falou.

—“Mas seu filho não será como esses bebês que nasceram aqui, todos eles eram filhos de dois mestiços! Eu nunca vi um filho de mestiço com vampiro, seu filho será raro... não tem como eu lhe dizer o que pode ou não pode acontecer com ele!” Mia me olhou séria e eu concordei com a cabeça antes de sair da barraca dela mais nervoso ainda!

...

Ian...

Passei a tarde brincando com Kyou! James e Pedro acabaram entrando na brincadeira também! Acabou que tivemos uma das tardes mais divertidas da minha vida, mas Seph havia sumido, vi ele entra na nossa barraca e de lá ele não saiu mais, fiquei preocupado com ele, será que ele estava sentido alguma coisa?

A noite estava chegando e Mia apareceu séria pra mim.

—“É bom você ir se esconder na barraca mais afastada ao fundo com os outros mestiços, não saia de lá por nada no mundo, nós vamos estrear logo!” Mia me falou calma.

—“Aah, mas eu queria ver o espetáculo... porque não posso?” Perguntei triste.

—“Sinto muito querida... mas se alguém perceber que você não é uma vampira e que na verdade é uma mestiça, eu posso acabar me dando mal!... Eu não tenho autorização pra ter mestiços no circo... todos aqui nasceram livres, se alguém me denunciar pro governo sobre mestiços ilegais sem registro, eles vão vir aqui e lavar todos para serem vendidos... você entende, não é?” Mia me olhou triste.

—“Entendi...” Falei amuado.

—“Eu e Pedro vamos ficar com você Ian... não quero Pedro perto dos vampiros que viram assistir o espetáculo!” James sorriu pra mim e tentou me animar, eu fiquei mais tranquilo, afinal não ficaria sozinho com estranhos.

O pequeno Kyou correu para os braços de sua mãe, pelo visto ele sabia o que ia acontecer e sabia que devia ficar perto dela.

Acabei indo avisar para o Seph que ia me esconder na barraca mais afastada lá no fundão e ele só confirmou com a cabeça, ele parecia pensativo, não quis importuná-lo.

...

Sephiron...

Ian foi se esconder dos vampiros com James e Pedro e eu fiquei na nossa barraca pensando em formas de manter Ian vivo se a criaturinha morresse, mas eu não chegava a uma ideia! Talvez pudéssemos adotar um pestilento por ai para dar ao Ian um motivo para viver, afinal com essa guerra devia haver muitos órfãos nesse momento por ai!

O espetáculo começou, eu podia ouvir o som dos espectadores chegando, eles entraram na tenda do circo e logo comecei a ouvir aplausos, músicas e burburinho de conversas e comentários do show.

Fiquei curioso para ir assisti, mas preferi me deitar um pouco mais, o chão começou a vibrar de leve... o som de uma marcha se aproximava... parecia que uma multidão vinha pra cá, mas dando passos ensaiados e perfeitos!

Espiei pela entrada da minha barraca e pude ver que o exercito se aproximava com armas em mãos, gelei no lugar e observei, talvez eles só estivem aqui para observar o que estava acontecendo, afinal essa apresentação do circo era uma reunião de vários vampiros fora da cidade, na cabeça do pessoal do exercito isso poderia ser um pretexto para os cidadão se reunirem e fazerem uma rebelião ou coisa do tipo!

Um capitão loiro e forte se colocou na frente do grupo e começou a falar em alto e bom som.

—“O governo decretou que qualquer entretenimento que não seja aprovado e inspecionado por eles deve acabar imediatamente! Vocês tem a ordem de matar a todos os cidadãos que estiverem aqui assistindo esse espetáculo não autorizando! Capturem todos os humanos machos acima de 15 anos e abaixo de 40, eles iram servir de burro de carga e para alimentar as tropas... matem todo o resto, não poupem mulheres e crianças! Entendidos?” O capitão perguntou aos soldados.

—“Sim, senhor!” Todos disseram em uníssono e então marcharam para dentro da tenda do circo, um barulho terrível de tiros e gritarias dos seres lá dentro se instaurou!

Sai de dentro da barraca agachado e de fininho, minha intenção era chegar ao Ian sem ser visto o mais rápido possível. A gritaria do massacre estava cada vez mais alta, consegui contornar a tenda do circo e acabei achando Mia que escoltava os humanos para dentro de um caminhão, enquanto isso outro caminhão já cheio dava a partida e começava a fugir.

Mia estava desesperada tentando salvar todos os seus humanos e mestiços enquanto o exercito se ocupava dos vampiros inocentes que tinham vindo assistir ao seu espetáculo.

Eu ia chamar a atenção dela e perguntar se Ian estava em um desses caminhões quando ela levou um tiro pelas costas, isso foi uma baita covardia, ela nem viu que tinha um soldado atrás dela! Pude ver seu rosto ficar lívido e o sangue jorrar de sua boca, o tiro havia atingindo seu coração, ela caiu de joelhos no chão, mas não desistiu de tentar salvar seus humanos, ela estava usando suas últimas forças agora, ela estava morrendo... não havia como se curar de um tiro desses bem no coração, mas ela não fraquejou, o soldado deu mais um tiro nela, dessa vez na cabeça, ela caiu morta no chão e os humanos que presenciaram isso atacaram o soldado e foram estraçalhados com facilidade, corri para a barraca dos fundos, eu tinha que achar Ian imediatamente!

Estava quase chegando lá quando ouvi um gritinho fino... era um gritinho conhecido, mas era diferente, não era de alegria como estava acostumado, era de dor... o burrinho estava sofrendo aqui perto em algum lugar, corri na direção desse grito e acabei entrando em uma barraca de tamanho médio, a mãe do burrinho estava morta ao chão com a garganta estraçalhada, meu coração parou, pulei por cima do corpo dela e fui para o fundo da barraca.

Lá estava o burrinho, caído no chão coberto de sangue, ele soltava uns sons de agonia e dor, me aproximei dele e percebi que sua garganta também estava estraçalhada... ele estava morrendo e eu nada poderia fazer para ajuda-lo, ele me olhou assustado, me apiedei dele e o peguei no colo, suas mãozinha pequenas se agarram a minha em desespero, ele obviamente estava me pedindo socorro, mas não podia mais falar... eu me senti tão mal... eu fui tão cruel com ele!

Ele chorava e continuava a se agarra em mim, a dor que ele estava sentido era quase palpável.

—“Shhh.... vai ficar tudo bem! Já vai passar, já vai passar!” Eu menti e o ninei tentando acalma-lo.

Aos poucos os sons agoniantes que ele estava emitindo foram sessando e a força em seus dedinhos foi se acabando, ele parou de se mover e respirar me olhando com intensidade!

Fiquei com o corpo minúsculo dele em meus braços... porque mataram ele? Eles nem beberam o sangue, somente abriram a garganta dele para que morresse de forma agonizante... ele era apenas um burrinho inocente... pra que fazer isso? Que ameaça ele representava para o governo? Senti que algo molhando escorria pelo meu rosto, eu já nem ligava se estava chorando ou não.

Fechei os olhos do burrin... do Kyou e coloquei o corpo dele ao lado do corpo da mãe dele, eles tinham que ficar juntos!

Um novo grito conhecido me chamou a atenção... era o grito de Ian.... Ah, não... eles não vão tocar no amor da minha vida e no meu filho!

Senti o meu corpo queimar, era como se fogo estivesse se espalhando do centro do meu coração para o resto do meu corpo, eu sentia uma fúria imensa que alimentava esse fogo, sai correndo da barraca em direção ao grito de Ian, mas então ouvi um som muito alto e senti algo bater com força em meu peito... eu havia levado um tiro!

Olhei em direção ao soldado que atirou em mim com tanta raiva que quando dei por mim eu já estava em cima dele arrancando o coração do peito dele, ele caiu morto ao chão! Senti as chamas em meu corpo expulsar a bala de meu peito e a ferida fechou instantaneamente, era uma bala de irídio e platina, mas não me matou e isso que ela me acertou bem próximo ao coração!

Eu ouvi o grito de Ian novamente e dessa vez Pedro também gritava, corri pra lá e senti que tudo a minha volta parou... bem, na verdade não parou, mas estava tudo em câmera lenta, tão lenta que me sentia parado no tempo, cheguei onde Ian estava em um milésimo de segundo e pude assistir a cena do que acontecia.

Um soldado havia disparado a arma contra Ian e Pedro, mas meu pai se colocou na frente deles, eu podia ver a bala se aproximando do peito de James lentamente, corri até a frente de meu pai e peguei a bala com a mão... estranhamente o metal não queimava a minha mão... os soldados tinham que usar luvas para tocar nas balas e recarregar a arma.

Atirei a bala de volta ao soldado que havia disparado ela contra meu pai e para a minha surpresa o projetil saiu de minha mão como se tivesse saído de uma arma, o tempo desacelerou e tudo voltou ao seu tempo normal, o soldado em minha frente caiu quando a bala acertou sua cabeça e se afundou em seu crânio.

—“SEPH!” James gritou e me abraçou por trás.

—“Da onde você saiu? Está ferido? Você se colocou na minha frente... AI MEU DRACULA!” James vistoriou o meu peito tentando achar a bala, mas eu não estava ferido!

—“Seph...” Ian correu para os meus braços, abracei ele e lhe dei um beijo no topo da cabeça.

—“Fique aqui! Eu já volto!” Falei largando ele e voltando para o meio do tiroteio.

—“NÃO SEPH!” Ian tentou me alcançar, mas James o segurou.

Eu ainda sentia o fogo em meu corpo... agora a previsão daquela velha fazia sentido, ela disse que a morte estava marchando pra cá e o exercito veio marchando para matar a todos, ela disse que algo pequeno e puro morreria em meus braços envolto em sangue e eu não poderia fazer nada... Kyou morreu assim! A outra previsão seria que o fogo me transformaria... bem, não estou em chamas, mas sinto meu corpo queimar como se estivesse coberto de fogo! Agora a última previsão eu ia impedir, ela disse que dois entes queridos morreriam... eu vou matar todos esses soldados e proteger meus entes queridos, custe o que custar!

Senti como se eu pudesse fazer tudo... voltei a correr e novamente o tempo quase parou, sai matando todos os soldados, parecia que o corpo deles era feito de manteiga de tão fácil que era atravessar a minha mão em seus peitos e estourar seus corações.

Senti-me tão poderoso e foda, mas ao mesmo tempo sentia que quanto mais eu usava esse poder, mais dor eu sentia, era realmente como estar sendo queimado e se existe algo que pode matar um vampiro além de ter o coração perfurado, é ser queimado, com as células em cinzas não há como se regenerar!

Eu matei com facilidade quase todos, só poupei os cidadãos da cidade e os humanos e mestiços de Mia.

Parei no centro de todo o caos e o tempo voltou ao normal, os duzentos soldados caíram juntos em sincronia quando seus peitos jorraram sangue, me senti no meio de um chafariz de sangue com isso! Os cidadãos da cidade fugiram de volta pra suas casas aos berros e os humanos e mestiços de Mia correram para os caminhões.

Meus olhos encontram os de Ian que me olhava apavorado, sorri pra ele, mas então meu corpo todo parou de queimar com aquele fogo, senti-me voltar ao normal lentamente, foi ai que comecei a sentir a pior dor que já senti na minha vida, parecia que todo o meu corpo estava gravemente ferido.

Gritei de dor e minha visão começou a escurecer, cai de joelhos no chão e antes de desmaiar puder ouvir a voz de Ian, James e Pedro gritando meu nome!

Notas finais
O aconteceu com Seph? Será algum tipo de efeito colateral de tamanho poder? Ele vai ficar bem? Não percam no próximo capítulo!