Sangue quente.

11 Decisões.


Notas iniciais
Boa leitura e até o próximo capítulo! ^^

Sephiron...

—“Tire esse negócio dele!” Exclamei para o médico que me encarou com nojo, olhei para Ian que estava apagado sobre a cama, os lábios ainda muito brancos para o meu gosto, mas eu não tinha com o que me preocupar, ele ia ficar bem e nunca iria saber desse segundo... troço!

—“Tem certeza disso? Eu realmente não quero fazer isso! Eu me recuso a fazer isso!” Disse Dr. John me olhando com intensidade.

—“Se você não fizer eu faço! E você estará negligenciado o seu paciente!” Ameacei apelando para o lado do Doutor que com certeza não iria deixar alguém que não sabe fazer esse procedimento da forma correta fazer isso sozinho, mas eu realmente estava só ameaçando, eu não faria isso com minhas próprias mãos!

O médico a contra gosto retirou um equipamento apavorante de dentro de sua maleta, desviei o olhar. Aquela coisa era o tipo de instrumento que você veria em um filme de terror dentro de um hospital velho cheio de pacientes mutilados.

Senti um estranho aperto no estômago, acho que vampiros não podem vomitar, mas talvez essa sensação seja o equivalente a isso, é como se meu estômago se retorcesse tentando por algo para fora, algo que não podia por para fora.

De repente a imagem do primeiro... troço veio a minha mente, essa imagem escrota estava estampada nas minhas retinas pelo visto! Ele era perfeito... só ainda era pequeno demais para viver nesse mundo... esse que ainda está dentro de Ian deve ser igualzinho a ele... só que ainda está vivo!

—“PARA!” Falei bem no momento em que o médico já estava afastando as pernas de Ian, preste a lhe introduzir o equipamento tirando de um filme de terror. O médico parou aliviado e me olhou esperançoso.

—“Essa... criatura dentro dele... não vai causar nenhum dano à vida dele, vai?” Perguntei calmamente. A minha prioridade era Ian, pouco me importava com essa... criatura dentro dele.

—“Não! Ele vai ficar bem assim que se estabilizar! Só vai depender se você vai tratá-lo bem e lhe alimentar da forma correta!” Disse o médico sério.

—“Então... deixe essa criatura viver!” Disse soltando um suspiro, ainda não quero ser pai, mas acho que não posso viver com esse peso na consciência! Eu sempre fui cuidadoso quanto a isso, sempre comprei escravos machos para nunca precisar passar por esse tipo de coisa! Mas talvez eu fosse capaz de mandar matar essa coisa dentro de Ian se não tivesse visto o outro, pois tudo se resumia a isso... aquela imagem horrenda em minha mente.

Uma batida na porta chamou minha atenção, dei permissão para quem quer que esteja do outro lado entrar. Uma empregada magra de cabelos castanhos entrou meio encolhida, ela olhava direto para o chão e parecia temerosa, ela estava puxando atrás de si um carrinho com vários utensílios de limpeza.

—“Vim limpar o seu banheiro mestre Sephiron!” Ela falou tremendo de leve, esse tipo de reação me irritava, queria maltratá-la, mas antes perguntei seu nome.

—“Julie, meu senhor!” Ela fez uma reverência rápida e desajeitada.

Julie era a vampira empregada que fofocou com a outra sobre o pai do Ian, ela era a que parecia ter pena dos mestiços, me lembrei de que havia feito uma nota mental de ser paciencioso com ela e até fiquei contente em saber que era ela quem ia cuidar da situação no banheiro.

—“Vá logo!” Fiz um sinal com a cabeça para o banheiro e ela correu para ele arrastando o carrinho, meio atrapalhada.

Ian gemeu de leve e eu voltei minha atenção para ele, tive vontade de arrancar um braço do médico, afinal ele estava lhe aplicando outra injeção e era isso que estava causando o desconforto de Ian.

—“O que é isso?” Perguntei rondando o médico.

—“Mais anestesia... os mestiços consomem isso rápido, quero evitar que ele sinta dor e se acorde por agora! E é bom que ele fique imóvel por mais um tempo!” Disse Dr. John calmamente.

Ele aplicou mais algumas injeções em Ian, que eram aparentemente remédios para lhe ajudar a não expulsar o segundo troço pra fora, o Dr. John se mantinha sempre em movimento fazendo algo diferente em Ian, algumas das coisas que ele fazia me deixa apreensivo, mas o médico não parecia estar ligando para o meu jeito nervoso de agir em sua volta, enquanto ele cuidava de Ian ele foi guardando a maioria dos seus instrumentos.

O médico usou o estetoscópio para escutar a barriga de Ian e eu estava começando a ficar possessivo de novo sobre Ian, não gostava de ver esse cara desconhecido cutucando Ian que estava nu.

O médico suspirou e guardou o restante dos seus equipamentos.

—“Parece que seu filhote é um guerreiro nato, está lutando pela vida com muita garra!” Disse o médico ficando de pé e eu não pude deixar de me senti um pouco orgulhoso disso, mas afastei esses sentimentos idiotas para longe de mim, não quero me apegar a essa criatura.

—“Fiz tudo que podia, agora é com o seu mestiço e o seu filhote... ah, é claro com você também! Dê muita água e comida para ele quando acordar e não o deixe se esforçar pelos próximos três dias!” Disse ele me estendendo a mão em direção à caderneta, eu vi que ele queria sua pesquisa de volta, meio a contra gosto eu devolvi, mas eu queria continuar lendo mais sobre aquilo, queria saber mais sobre a espécie de Ian.

—“Pesquisa interessante a sua... mas vejo que ainda os vê como animais!” Ri disso e lhe lancei um olhar de eu sei mais que você pra ele.

—“Como é?” Perguntou o médico.

—“Nada não!” Eu ainda não tinha certeza se podia confiar nesse cara, mas se a hora certa chegasse eu ia contar pra ele que Ian era completamente igual a nós dois, ele era inteligente, culto e letrado, isso com certeza enlouqueceria o Dr. que parece vibrar a cada nova descoberta.

—“Não li toda a sua pesquisa... mas estou curioso em saber... o filhote dos seus mestiços nasceu?” Perguntei curioso.

—“Sim... é um macho saldável, ele já tem uns dois meses e meio!” Disse ele com um sorriso vitorioso.

—“O mestiço que deu a luz a ele está bem?” Perguntei nervoso.

—“Mais do que bem! Ele até se tornou mais agressivo e não deixa ninguém além de seu parceiro se aproximar da cria!” Disse ele parecendo um tanto chateado com isso.

—“Vou te dar uma dica Dr. John... quando o pequeno mestiço estiver na idade em que se aprende a falar... ensine-o, vai por mim, você não vai se arrepender desse teste!” Dei uma piscada pra ele.

Ele me olhou sem entender, mas no fim concordou e guardou a caderneta dele de volta no jaleco.

—“Posso confiar que você não vai me entregar ao governo por deixar que essa coisa viva, não é? Sabe que eu posso te ferrar também!” Deixei bem claro ao médico que se alguém do governo aparecer para me prender e machucar Ian, a cabeça dele também ia rolar!

—“Fazemos o seguinte... não fale do meu que eu não falo do seu! Temos um trato?” Dr. John me estendeu a mão e eu a apertei aceitando o trato.

—“Dê o valor que achar justo ao meu mordomo James, ele vai te pagar pelos serviços!” Disse fazendo uma reverência a ele e ele me imitou. Logo após ele saiu do quarto com uma sobrancelha erguida, não era normal um dono de escravo deixar o médico ditar o valor do tratamento de seu escravo.

Observei Ian, ele dormia tranquilamente, os lábios dele estavam entreabertos e seu semblante era sereno, aparentemente ele não estava sentido mais dor e espero que quando o efeito da anestesia passar ele continue assim.

Peguei o lençol e cobri Ian me sentando ao seu lado na beirada da cama bem devagar para não causar nenhum solavanco pra ele.

Fiquei ali observando ele por um tempo, coloquei minha mão sobre o peito dele e pude sentir seu coração bater bem devagar, ele estava mesmo calmo, que bom!

Minha mão desceu e coloquei de leve sobre a barriga levemente protuberante dele.

—“Sua criaturazinha! Você não faz ideia da sorte que tem! Se não fosse seu irmão... você estaria morto agora! Mas não vá pensando que só porque te deixei viver é que eu vou ser legal com você... acredite, eu não gosto de você e não quero que o Ian perca seu tempo dando atenção a você, pois ele é só meu! Você vai ter que se virar sozinho... tá me entendendo? Depois de sair dai... é bom pegar suas malas e dar o fora da minha vida!” Falei como um idiota para aquela criatura que ainda lutava pela vida dentro de Ian.

Retirei a minha mão de cima da barriga de Ian e voltei a dar atenção a ele, somente ele importava ali agora.

—“Meu Senhor Sephiron...” A voz de Julie me fez me virar para olhar para ela.

Ela tinha em suas mãos um pano manchando de sangue enrolando o... aquele negócio!

—“O que o Senhor deseja que eu faça com ele, senhor?” Ela perguntou de cabeça baixa.

—“Jogue no lixo... não me importo!” Dei de ombros e voltei a olhar para o Ian.

Ela já estava saindo do quarto quando mudei de ideia.

—“Não! Espere... enterre em algum lugar do jardim... qualquer lugar, mas não me diga aonde, não quero saber!” Respondi ainda sem olhar para ela.

Ela se retirou do meu quarto sem nenhuma palavra.

Deitei ao lado de Ian sem fazer movimentos bruscos e peguei o livro que Ian havia trazido da minha biblioteca para ler antes dessa merda toda acontecer, era sobre o mar como sempre, ele deve ter uma fixação sobre isso, talvez algum dia eu o leve ao mar.

Não sei quando aconteceu mais eu acabei dormido e só tive pesadelos com Ian sendo levado de volta para aquela jaula, mas dessa vez era ele quem morria e não o outro mestiço, me acordei em um pulo com a cena horrorosa em meu sonho e respirei rápido, eu estava um tanto assustado! Quase me xinguei por ter agitado a cama com meu pulo, mas Ian não estava ao meu lado... O QUE? Me levantei da cama rapidamente a tempo de ver Ian preste a pular da poltrona com uma das minhas cordas de joguinho sexuais amarrada ao pescoço e presa nos ganchos da parede.

Corri e o peguei antes dele sequer conseguir pular.

—“MAS QUE MERDA VOCÊ PENSA QUE ESTA FAZENDO?” Perguntei zangando enquanto arrancava aquela merda do pescoço dele.

—“Me deixa... eu não quero mais isso... por favor... eu não posso viver com essa culpa... eu matei um semelhante meu com minhas próprias mãos sem motivo algum... e... e... EU NÃO FUI CAPAZ DE PROTEGER O MEU BEBÊ!” Ian gritou isso com todas as suas forças e se debateu em meus braços, MERDA! Tenho que fazê-lo parar ou isso só vai lhe causar mais dor e vai matar a criaturazinha!

—“Ian calma e me escuta...” Tentei para-lo, mas ele continuava a se debater violentamente.

Merda! Como faço ele parar para me escutar? Como faço ele se acalmar? O devo fazer?

—“Ian para!... Ian... se acalma... IAN PARA OU VOCÊ VAI MACHUCAR O BEBÊ!” Gritei com ele em um momento de desespero e ele congelou no lugar, que ótimo... eu disse a palavra com b... mas ele que não espere que eu passe a chamar a criaturazinha assim novamente!

—“O-o q-que você disse?” Ian agora tremia em meus braços, mas parecia ter se acalmado e desistido de tentar se matar.

—“Vamos voltar para cama, você deveria estar em repouso absoluto nesse momento!” Tentei com calma convencê-lo a voltar para a cama e ele me olhou como se não confiasse em mim.

—“N-não minta pra mim Seph... não tem mais bebê... eu vi... eu... eu perdi ele, eu sei... não adianta tentar mentir pra mim!” Ian negava com a cabeça e lágrimas escorriam pelo seu rosto agora.

—“Sim... você perdeu um, mas eram gêmeos Ian... se acalme e volte para cama comigo... eu prometo que não vou mentir pra você!” Falei com calma e me mantive com uma expressão serena, Ian estava muito fragilizado psicologicamente no momento, se eu não tomasse cuidado ele se agitaria de novo.

Ian se deixou ser levado de volta para cama por mim, eu o fiz se deitar e me sentei ao lado dele.

—“E-eu... eu ainda estou...” Ele não terminou a pergunta, mas eu sabia o que ele queria perguntar. Ele levou a mão sobre a barriga.

—“Sim... ainda tem uma criaturazinha dentro de você, mas se continuar desse jeito... as chances de acontecer com esse o que aconteceu com outro são grandes! Então se acalme e repouse!” Falei lhe lançando um olhar sério.

Ian me olhou com os olhos cheios de lágrimas e pós as mãos de forma protetora sobre o ventre.

—“Mas... você não quer ele... você disse que ia tirá-lo... você provavelmente me acha uma aberração agora... você não nos quer!” Ian voltou a chorar.

Afff... não acredito que vou ter que falar merdas sentimentais para acalmá-lo, eu não quero fazer essa basbaquices, mas se eu não fizer, Ian vai continuar em um estado emocional fragilizado, o que vai causar a perda dessa segunda criatura! E eu já percebi que sem essa criaturazinha, Ian vai acabar fazendo uma loucura como quase já fez há alguns minutos atrás!

—“Eu falei aquelas coisas porque estava assustado... entenda... na minha mente eu sempre me via do mesmo modo... como um filho da puta que só bebe sangue e fode, não estava em meus planos mudar meu estilo de vida e ter uma criaturazinha dessas pra cuidar... mesmo agora eu ainda estou relutante, mas tente ver pelo meu lado, eu vivi quatrocentos anos com essa mentalidade... é difícil mudar de ideia de uma hora pra outra, principalmente porque isso aconteceu do nada e de forma inesperada!” Espero que o Ian entenda o que estou falando agora, pois eu nunca mais vou repetir essas merdas!

—“Também é algo inesperado pra mim!... Mas eu entendo você... é realmente muito eu esperar que você mude de um sádico para um paizão do nada... talvez... você possa com o tempo... gostar dele!” Ian falou esperançoso.

Ri disso, eu duvidava muito que eu pudesse gostar de um pestinha remelento e babão, no máximo vou aprender a conviver com ele... mas para o bem dele espero que ele seja mudo, não quero gritaria em minha casa!

—“Então você não vai mais tentar se matar? Sei que está triste no momento, mas viva por ele e... por mim!” Falei isso querendo me estapear, que MERDA será que hoje é o dia de eu falar besteira?

—“Eu não vou mais tentar fazer isso! Se for verdade que ainda tem um bebê dentro de mim... então eu não vou entregar os pontos assim!” Ian falou isso determinado, mas não pareceu muito animado mesmo assim.

Eu nunca me senti tão agradecido a uma decisão minha como agora, se eu não tivesse tomado a decisão de deixar a criaturazinha viver, Ian ainda ia querer se matar agora.

—“Não fique triste pelo outro... isso ia acontecer de uma forma ou outra! Se não fosse ele que ia morrer... seria esse que está ai agora!” Falei tentando animá-lo.

—“O que?” Ele perguntou sem entender o que eu estava dizendo.

—“No quinto mês da gestação, uma dessas criaturinhas ia ser morta pela a outra e devorado... é assim que as coisas são! Não existem vampiros gêmeos na história, pois eles se matam e se devoram ainda no ventre da mãe... foi assim comigo e meu irmão!” Falei isso dando de ombros, não me sinto culpado de ter matado meu irmão e absorvido ele, eu fiquei mais forte graças a isso.

Ian arregalou os olhos para mim.

—“Bom... isso só prova que essa criaturazinha ai é minha, já que é genético essa parada de ter gêmeos!” Novamente me senti orgulhoso, mas dessa vez era pelo fato de ter trabalhado direito e marcado um gol e tanto, eu consegui engravidar um mestiço macho, algo que até o governo vem tentando fazer hahahaha nunca tive tanto orgulho da minhas partes!

—“Você comeu o seu irmão ainda no ventre de sua mãe?” Ian me olhou apavorado.

—“E depois devorei minha mãe quando nasci!” Sorri lançando um olhar sério ao Ian que ficou lívido com isso.

—“Calma... essa parte de devorar a mãe é brincadeira!” Gargalhei com a expressão super assustada de Ian.

—“Uma curiosidade para você que gosta do mar Ian, sabia que o tubarão-touro ou tubarão-cinza (Carcharias taurus) assim como nós os vampiros eles devoram os irmãos no útero da mãe, sabia?” Ian continuava a me olhar apavorado, acho que nem prestou atenção na curiosidade.

—“Tá com medo de mim Ian?” Lhe perguntei aproximando meu rosto do dele, dava pra ver que ele estava tentando imaginar a cena em que eu devorei o meu irmão estando ainda na barriga de minha mãe.

—“É a lei da natureza Ian, o mais forte come o mais fraco! Não pense muito nisso... e tente não ficar tão estressado, isso vai fazer mal para a criaturinha!” Falei tentando fazê-lo esquecer desse fato assustador e voltar a se concentrar em ficar bom.

—“Agora me deixe dormi! Eu tenho muito trabalho pra fazer amanhã... ou hoje... sei lá que horas são!” Deitei ao lado dele de novo, eu estava exausto de toda essa merda que estava acontecendo, só queria voltar a dormir, mas para ter certeza que Ian não ia fazer mais nenhuma loucura me segurei nele.

...

Ian...

Seph se abraçou em mim e apagou, uma rápida olhada em suas olheiras provava que ele estava mal e talvez tão estressado com isso quanto eu.

Minha mente ainda está a mil, não posso simplesmente viver tudo aquilo e esquecer de uma hora para a outra... não consigo parar de me culpar... eu matei e depois perdi um de meus bebês... isso era algo que com certeza eu carregaria para o resto de minha vida, mas no momento Seph estava certo... eu tinha de pensar nesse bebê ao qual pelo visto Seph já batizou de criaturinha.

Seph está agindo até que bem com esse bebê comparado ao que ele me disse àquela hora, sei que é difícil para ele, por isso estou lhe dando uma chance, mas ele tem de entender que é difícil pra mim também, eu nunca imaginei ser capaz de fazer algo assim, eu estou muito assustado, principalmente agora que... perdi um... o meu medo de não conseguir proteger esse me faz ficar muito nervoso e sei que isso não é bom no momento... tenho que me acalmar... tenho que relaxar!

Aconcheguei-me ao Seph e tentei dormir, mas meu sonho era cheio de lutas naquela jaula e de gritos de um bebê ao longe, que por mais que eu corresse não conseguia alcançar.

Acordei-me na noite seguinte com Seph ainda agarrado a mim e uma fome descomunal.

—“Seph... Seph acorda... Seph” Chamei e ele pulou da cama em alerta olhando para todos os lados em posição de ataque.

—“Quem?... onde?... o que houve?” Seph se empertigou todo antes de me abraçar protetoramente.

—“Seph... estou com fome... quero um pernil gigante... e quero agora!” Pedi ignorando a clara preocupação de Seph com a nossa segurança.

—“Ah... malditos pesadelos!” Ele falou me largando e pulando para fora da cama, me senti um pouco melhor com isso, pelo visto ele também estava tendo o mesmo problema que eu para dormir.

—“Comida!” Resmunguei pra ele.

—“Tá... já vai! Mas que coisa... já vi que você vai ser rabugento nos próximos meses! Hmph... tudo por culpa dessa criaturinha!” Ele falou saindo do quarto reclamando e coçando os olhos um tanto zangando.

Eu riria disso se não estivesse com um peso em minha consciência, como as pessoas seguiam vivendo depois de momentos de perda como esse?

Seph voltou mais tarde com o tal pernil e muita água, devorei ele em segundos e bebi a água.

Seph olhava fixamente para a minha barriga.

—“O que foi?” Perguntei.

—“Nada... só estava pensando que seu apetite continua voltado para a comida humana... apesar dessa criaturinha ser tecnicamente três quartos vampira e somente um quarto humana!” Ele torceu o nariz.

—“Você quer que ele nasça cem por cento vampiro é isso? Sabe que isso é impossível!” Suspirei para ele, o bebê com certeza seria diferente de mim, mas com certeza não seria totalmente um vampiro! Não quero pensar nisso agora, mas como vai ser o futuro dele? Ele vai ter que crescer escondido como eu cresci? Provavelmente sim já que com certeza Sephiron vai ter vergonha dele!

—“Tanto faz!” Disse ele dando de ombros, mas ele se inclinou para perto de minha barriga e falou.

—“Nós vamos ter um problema mais sério ainda se você for menina... não quero meu primogênito sendo menina... então trate de ganhar um pênis enquanto ainda pode ai dentro, ou nem tenha a audácia de olhar em minha cara quando nascer!” Ele está falando com o bebê? Ou melhor, ele está ameaçando o bebê!

Não sei se dou risada disso ou se me preocupo, bom não é hora para pensar no sexo dele ou dela, para mim tanto faz! O mais importante é que nasça saldável, tenho medo que ele tenha algum problema por esse quase aborto!

...

Sephiron...

—“Ian... eu realmente tenho que ir trabalhar um pouco! Então acho bom você ficar deitado ai e não mover um musculo... se precisar de mim, aperte esse botão nesse controle, virei imediatamente!” Falei lhe dando o controle remoto, se ele apertasse o botão o meu tablet me avisaria imediatamente com um bip.

—“Ooohh... você está preocupado comigo, que fofo! Aposto que está pensando na segurança do bebê!” Ian debochou da minha cara voltando a deitar nos travesseiros com o controle em uma mão e o livro que estava lendo em outra.

—“Vai sonhando Ian, estou pouco me fodendo pra essa criaturinha!” Falei mostrando o dedo do meio para a barriga de Ian antes de sair do quarto fechando bem a porta.

Fui para o meu escritório e deixei o tablet à vista em cima de minha mesa! Como sempre os meus negócios estavam indo muito bem, fiz algumas transações e revisei os lucros comparando com as despesas do mês, aparentemente eu estava bem mais rico agora!

De repente a porta do meu escritório foi aberta violentamente, James, o mordomo entrou e chutou a porta para fecha-la, então ele se virou para mim com um olhar de puro ódio e veio em minha direção furioso, antes que eu me desse conta ele já havia me pegado pela gola da camisa e me levantado da cadeira, agora eu estava cara a cara com ele.

—“Me diga que você não espancou Ian e depois chamou aquele médico para fazer um aborto nele!” Ele tremia de raiva.

—“E se eu disser que fiz exatamente isso?” Sorri cruelmente para ele e antes que eu tivesse previsto ele me socou na cara com todas as forças.

—“Eu vou te dar a surra que devia ter te dado há muito tempo!” Ele voltou a recuar o punho para acertar minha cara de novo.

—“Faça isso e te jogo de volta na sarjeta que é o seu lugar! Já se esqueceu de que você só está aqui porque tenho pena de você? Caso contrário estaria chafurdando na própria merda!” O ameacei tranquilamente, eu sabia que eu o tinha na palma de minha mão.

—“E você já se esqueceu de que veio da sarjeta também? Já se esqueceu de que saiu da merda como eu?” Ele me lançou um sorriso irônico.

—“Cala a boca!” Rosnei para ele, não gosto de me lembrar desse meu passado... eu não sou mais aquele garoto de rua imprestável.

—“Ah, mas eu vou te encher de porrada... eu devia ter feito isso antes, mas não... eu fui covarde e deixei você decair até virar esse monstro... que vergonha, eu fiz todas as suas vontades, eu até me rebaixei e virei seu empregado só para poder ficar perto de você... porque eu te amava, mas agora nem te reconheço mais!” Ele me encarou e eu pude ver a dor em seu olhar, eu sei muito bem que ele faria qualquer coisa para ficar perto de mim, foi por isso que o transformei em meu servo ao vez de apenas trazê-lo para morar comigo. Eu tinha que humilhá-lo, eu gostava de feri-lo dessa forma.

Gargalhei na cara dele e ele me socou até eu cuspi um dente fora, por sorte era um molar, esses dentes eu posso fazer crescer de novo, mas minhas presas não.

—“Eu não sabia que você tinha tanta vontade de ter um pirralho babão engatinhando com suas patinha imundas pela casa! É sério que você queria aquela criaturinha nojenta fazendo bagunça por aqui?” Eu falei cruelmente e ele tremeu de raiva, pude ver em seu olhar um desejo de me trucidar, mas ele se controlou.

—“Como você pode? Era seu filhote indefeso, você nem ao menos pensou na dor que infringiu ao Ian? Eu pensei que você gostava dele!” Ele se exasperou e me sacudiu, eu apenas ri na cara dele de novo.

—“Achei que você já tivesse percebido que não tenho mais coração, não é? Você se lembra daquela nossa conversa? Quando eu disse que nada mais importava pra mim e que todos eram lixo... como você!” Joguei isso na cera dele, pois sabia que era o que mais ia quebrar seu coração.

Ele me largou e virou as costas pra mim.

—“Eu vou embora... vou voltar para a sarjeta que é meu lugar como você disse, não vejo mais motivo para ficar aqui... não há mais esperança para ter o verdadeiro você de volta!” Ele suspirou triste.

—“Você vai morrer de fome nas ruas!” Ajeitei minha camiseta amarotada ignorei as ameaças dele.

—“Melhor que ficar e ver você se tornar um daqueles monstros que te transformaram nisso que é hoje!” Ele cuspiu essa frase pra mim e rumou para a porta com a cabeça baixa sem olhar para trás.

Senti uma pontada no peito, eu estava me tornando um deles? Será mesmo que eu fiquei parecido com aqueles monstros que me humilharam naquela maldita festa? Não... eu não quero isso... tudo menos isso!

—“Espera!” O chamei e ele parou sem olhar para mim, ele estava com a mão na maçaneta.

—“Ian ainda está gráv.... ele ainda tem aquele negocio dentro dele... então fique para ver a criaturinha nascer!” Quando falei isso ele se virou com lágrimas nos olhos.

—“Você não... mandou aquele médico... machucar ele? Mas... eu vi a empregada enterrá-lo... eu vi ele!” Ele tremia de leve ao me falar isso.

—“Ian estava esperando gêmeos... você sabe... é genético, foi assim com você também!” Dei de ombros para ele.

—“Mas... não estava cedo demais para um dos bebês matar o outro?” Ele se preocupou, dava pra ver que a criaturinha dentro de Ian já era algo importante para ele também.

—“Senta... vou te contar tudo... desde o inicio!” Apontei a poltrona para ele sentar e isso o fez erguer uma sobrancelha pra mim, ele não tinha permissão de descansar em minha mobilha, mas esperei até ele perceber que eu estava falando sério, ele se sentou me olhando com atenção.

Eu acabei contando tudo para ele! Ele por duas vezes quis se levantar e ir trucidar o Conde Leon e o restante dos monstros que participavam daquela rinha, mas o lembrei de que ele nada podia fazer e ele voltou a sentar praguejando.

Contei todo o resto também, além da rinha, eu contei tudo nos mínimos detalhes e lhe disse de quem Ian era filho.

—“Então o bebê vai ser poderoso!” Ele disse com um sorriso orgulhoso e eu revirei os olhos pra ele, realmente a criaturinha ia ter uma boa genética, mas ainda não ia ser um vampiro completo... ainda ia ser um mestiço mal visto e repudiado na sociedade.

Acabei contando também que Ian tentou se suicidar agora a pouco e isso o preocupou ainda mais.

—“Temos que garantir que ele fique bem psicologicamente também, eu sei que ele se recupera bem rápido fisicamente, mas psicologicamente deve demorar, temos que ficar de olho nele!” Eu sabia que James já se preocupava com Ian antes disso... agora ele ia ficar insuportável nos cuidados com Ian.

—“Espera... como você ficou sabendo sobre o aborto? A empregada te mostrou aquilo ou... você perguntou para ela?” Perguntei encucado com isso.

—“A tal empregada estava espalhando a fofoca por toda a mansão... ela estava dizendo que você espancou a sua escrava até ela perder o bebê no banheiro, está todo mundo com medo de você agora! Mas ter medo de você não é nenhuma novidade para os seus empregados... Não é mesmo? Eu fui de atrás da empregada para perguntar se isso era verdade e ela me mostrou... ele!” Ele passou as mãos no cabelo e suspirou tristemente.

Ah que maravilha... eu deveria saber que a fofoqueira ia espalhar isso, eu sabia que ela era boa e tinha pena dos mestiços, mas eu também sabia que ela era essa matraca, agora vou ter que tomar muito cuidado. Não vou poder deixar Ian sair do quarto ou ser visto por ninguém durante a gestação... se a fofoca vazar e chegar até os ouvidos dos pesquisadores do governo que tentavam engravidar seus mestiços macho em laboratório sem sucesso... o que ia acontecer com Ian? Eles viriam aqui levá-lo e ele seria dissecado com certeza.

—”Espera! Você disse que a empregada estava espalhando que era uma escrava? Ela acha que Ian é fêmea?” Perguntei incrédulo.

—“Era o que ela estava falando!” Disse James sério.

Ah, isso era ótimo, vou deixar essa fofoca correr a solta, agora todos vão pensar que a criaturazinha está morta e que Ian é fêmea, desse jeito eu não irei trazer a atenção do governo para cima de mim, mas eu teria que tomar cuidado a partir de agora, ninguém mais poderia ver Ian e descobri a verdade.

—“Você vai ter que me ajudar a esconder o Ian e a suprimir as fofocas pela mansão!” Eu expliquei os perigos que Ian corria agora e James ficou rígido na cadeira.

—“Nada de ruim vai acontecer com Ian ou com o bebê, isso eu garanto!... Vou continuar a trabalhar pra você como sempre e manter um olhar atento na criadagem... se eu desconfiar que algum deles sabe de algo... eu darei meu jeito!” Ele falou determinado.

—“Obrigado... James! Já pode se retirar e voltar aos seus deveres!” Voltei a lhe tratar como meu mordomo e ele entendeu a deixa, se levantando e voltando a ficar em sua costumeira pose de robô sem emoções, como um verdadeiro mordomo deve ser.

Antes de sair do meu escritório ele se virou pra mim com lágrimas nos olhos.

—“Só me prometa que vou poder acompanhar a gestação de perto e... ver o meu netinho nascer e crescer!” Ele quase implorou nessa frase.

—“Claro... Pai!” Ele arregalou os olhos para mim, essa era a primeira vez em décadas que eu o chamava assim, desde que deixei de ser um moleque pobre e vagabundo e entrei na alta-sociedade, desde esse dia eu passei a humilhá-lo como meu mordomo, passei a esconder o fato dele ser o meu pai por pura vergonha de minhas origens.

Ele sorriu e as lágrimas escorreram em seu rosto, rapidamente ele se livrou das lágrimas e se recompôs antes de finalmente sair da minha sala.

Suspirei aliviado, eu realmente ia precisar de alguém de confiança que pudesse ficar com Ian se eu precisasse me ausentar de casa a trabalho! E quem melhor para fazer isso que o homem que pôs no mundo?

Notas finais
Sephiron poupou a vida do bebê e isso salvou a vida de Ian, mas pelo visto os risco para essa criança ainda não acabaram, Seph e Ian vão ter que tomar muitos cuidados a partir de agora! E finalmente algo do passado de Sephiron foi revelado... o mordomo James é pai dele! O__O O que vai acontecer no próximo capítulo? Não percam! P.s. O tubarão citado nesse capítulo existe na vida real e realmente devora seus irmãos dentro do útero da mãe! Vocês podem pesquisar! ^^